11 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Hound of the Baskervilles" (1939)

 Baseado no livro homónimo da autoria de Sir Arthur Conan Doyle, "The Hound of the Baskervilles" marca a primeira de uma série de catorze obras cinematográficas inspiradas em Sherlock Holmes que contaram com Basil Rathbone como o astuto e perspicaz detective e Nigel Bruce como o fiel ajudante Dr. Watson. Basil Rathbone atribui um carisma indelével ao famoso detective, um indivíduo que gosta de fumar o seu cachimbo, tem por hábito tocar violino e surpreende tudo e todos com a sua inteligência e astúcia. Essa situação é visível quando encontramos Sherlock Holmes a procurar decifrar elementos relacionados com James Mortimer (Lionel Atwill), a partir de uma bengala utilizada pelo médico, com o protagonista a conseguir desfazer facilmente as teses de Dr. Watson (Nigel Bruce). Se Holmes é quase sempre perspicaz e difícil de enganar, já Watson aparece como um indivíduo que por vezes é ludibriado, simpático, competente no seu ofício e fiel ao primeiro, embora não tenha a inteligência e sagacidade do personagem interpretado por Basil Rathbone. Mortimer chega ao local onde Watson e Holmes habitam e trabalham tendo em vista a solicitar os serviços dos mesmos, com Sidney Lanfield, o realizador, a não perder tempo com explicações sobre a dupla de detectives, tomando como certo que o espectador já conhece os personagens interpretados por Basil Rathbone e Nigel Bruce. O médico teme pela vida de Sir Henry Baskerville (Richard Greene), o herdeiro da mansão Baskerville, ou a família do personagem interpretado por Richard Greene não contasse com um historial de mortes violentas. Diga-se que Sherlock Holmes já tinha comentado com Watson que temia que Henry poderia não ter muito tempo de vida. Os receios de Mortimer devem-se a uma suposta maldição que assola a família de Henry há várias gerações, uma situação que supostamente podemos comprovar no início do filme. Tudo começa numa correria protagonizada por Sir Charles Baskerville, com este indivíduo a falecer misteriosamente. O cenário é marcado pelo nevoeiro, enquanto a morte deste indivíduo surge envolta em mistério, apesar de Mortimer, o médico, diagnosticar que o proprietário da luxuosa Baskerville Hall faleceu devido a um ataque cardíaco. O que o médico não conta é que encontrou pegadas de um cão de proporções acima da média, algo que o leva a temer uma suposta maldição associada aos Baskerville.

Segundo a lenda, exposta em flashback, um cão terá eliminado Hugo Baskerville (Ralph Forbes), o primeiro dono da mansão, com a maldição a afectar as diferentes gerações que possuíram a propriedade. O momento em que a história da morte é apresentada surge dotado de alguma inspiração, com "The Hound of the Baskervilles" a mesclar as imagens em movimento com as páginas do documento que expõem a lenda, com Sidney Lanfield a exibir este episódio de forma precisa e concisa ao mesmo tempo que adensa as dúvidas sobre a possibilidade dos Baskerville se encontrarem amaldiçoados. A chegada de Henry a Londres, oriundo do Canadá, antes de se deslocar à sua propriedade localizada no Devonshire, traz desde logo uma série de perigos, com o jovem a ser ameaçado. Pelo meio ocorre uma tentativa de assassinato, travada por Sherlock, com o detective a enviar o Dr. Watson para acompanhar Mortimer e Henry até à propriedade deste último, enquanto o protagonista decide supostamente ficar mais um tempo pelas imediações do seu escritório, tendo em vista a investigar outros pormenores inerentes ao caso. Nesse sentido, Watson vai ter que acompanhar de perto o herdeiro e elaborar relatórios daquilo que acontece para informar Sherlock Holmes, com uma boa parte da narrativa a não contar com a presença do personagem interpretado por Basil Rathbone, enquanto somos apresentados a uma série de figuras que facilmente despertam as nossas suspeitas. Veja-se o caso de Barryman (John Carradine) e a sua esposa (Eily Malyon), um casal que cuida da mansão dos Baskerville. Barryman e a esposa despertam as nossas dúvidas em relação aos seus objectivos, bem como um ex-presidiário (Nigel De Brulier) que se encontra à solta no local, ou Jack Stapleton (Morton Lowry), um indivíduo aparentemente polido e educado que pode não ser tão inocente como parece. Jack é meio-irmão de Beryl Stapleton (Wendy Barrie), uma mulher que desperta o interesse de Henry, com "The Hound of the Baskervilles" a ter ainda tempo para contar com alguns breves momentos de romance, com estes dois últimos a formarem um par romântico, protagonizando alguns episódios mais açucarados que contrastam com o mistério que envolve o território. O espaço que envolve a casa está longe de ser agradável. O pântano traz consigo a morte e superstição, os uivos dominam o território, bem como os fortes nevoeiros, enquanto o mistério é imenso. Será que existe mesmo um cão com características sobrenaturais ou alguém se estará a aproveitar da superstição para tentar eliminar Henry? Aos poucos as nossas questões são respondidas, com a entrada em cena de Sherlock Holmes a prometer colocar um fim a todo o mistério, com Basil Rathbone a incutir uma enorme segurança a este detective confiante nas suas capacidades, pronto a deixar Watson fazer o "trabalho sujo", enquanto parece estar sempre um pouco à frente de todos os outros.

 O argumento de Ernest Pascal permite explorar, ou pelo menos traçar um retrato competente dos personagens que rodeiam a mansão, com a maioria dos actores a exibir competência. Veja-se desde logo o caso de Lionel Atwill como um médico que a espaços demonstra acreditar em algumas lendas locais, ou não fosse casado com uma mulher com habilidades de medium (Beryl Mercer); Richard Greene como o herdeiro algo ingénuo dos Baskerville, um indivíduo que facilmente fica "embeiçado" por Beryl; Franklyn (Barlowe Borland), um veterano algo excêntrico que gosta de processar tudo e todos, entre outros personagens. Temos ainda o espaço da mansão, marcado por dimensões alargadas e um quadro que traz consigo mais revelações do que poderíamos esperar, embora os cenários que mais se destacam sejam aqueles que rodeiam esta habitação, com Sidney Lanfield a efectuar uma utilização competente dos mesmos. O bom trabalho a nível do design dos cenários, a competência de Peverell Marley na cinematografia e o efeito provocado pelo nevoeiro permitem esconder algumas das limitações inerentes ao orçamento do filme e ao facto de "The Hound of the Baskervilles" ter sido filmado em estúdio. Veja-se o caso do pântano, um cenário onde o famoso cão parece actuar, ou High Thor, um local onde se encontram diversas ruínas, com Henry e Beryl a terem neste espaço alguns momentos de maior romantismo. Esta é também a primeira adaptação cinematográfica inspirada no famoso detective que tem como pano de fundo a Era Vitoriana, com "The Hound of the Baskervilles" a ter contado com um sucesso surpreendente a nível de público. Diga-se que "The Hound of the Baskervilles" surge numa época onde os filmes de detectives estavam na moda, algo bem salientado por Stuart Galbraith IV no seu texto para o DVD Talk, onde este aponta exemplos como a saga "Thin Man", "Mr. Moto", numa década que contou ainda com as obras de "Charlie Chan" protagonizadas por Warner Oland, entre outras. "The Hound of the Baskervilles" conta ainda com alguns elementos associados aos filmes de terror, sejam os momentos mais tensos provocados pelo uivo de um cão, ou uma sessão de espiritismo, ou a própria presença do nevoeiro, com o contraste entre a luz e as sombras a permitir muitas das vezes incutir alguma inquietação. Sidney Lanfield efectua uma incursão competente pelo universo de Sherlock Holmes, com "The Hound of the Baskervilles" a surgir como uma obra cinematográfica dotada de algum mistério, uma cinematografia competente, personagens relativamente interessantes de acompanhar, uma utilização sublime do nevoeiro e uma interpretação digna de atenção de Basil Rathbone como Sherlock Holmes, um personagem que viria a marcar a carreira do actor.

Título original: "The Hound of the Baskervilles".
Título em Portugal: "A Lenda do Cão Fantasma".
Realizador: Sidney Lanfield.
Argumento: Ernest Pascal.
Elenco: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Richard Greene, Wendy Barrie.

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