Baseado no livro homónimo da autoria de Sir Arthur Conan Doyle,
"The Hound of the Baskervilles" marca a primeira de uma
série de catorze obras cinematográficas inspiradas em Sherlock
Holmes que contaram com Basil Rathbone como o astuto e perspicaz
detective e Nigel Bruce como o fiel ajudante Dr. Watson. Basil
Rathbone atribui um carisma indelével ao famoso detective, um
indivíduo que gosta de fumar o seu cachimbo, tem por hábito tocar
violino e surpreende tudo e todos com a sua inteligência e astúcia.
Essa situação é visível quando encontramos Sherlock Holmes a
procurar decifrar elementos relacionados com James Mortimer (Lionel
Atwill), a partir de uma bengala utilizada pelo médico, com o
protagonista a conseguir desfazer facilmente as teses de Dr. Watson
(Nigel Bruce). Se Holmes é quase sempre perspicaz e difícil de
enganar, já Watson aparece como um indivíduo que por vezes é
ludibriado, simpático, competente no seu ofício e fiel ao primeiro,
embora não tenha a inteligência e sagacidade do personagem
interpretado por Basil Rathbone. Mortimer chega ao local onde Watson
e Holmes habitam e trabalham tendo em vista a solicitar os serviços
dos mesmos, com Sidney Lanfield, o realizador, a não perder tempo
com explicações sobre a dupla de detectives, tomando como certo que
o espectador já conhece os personagens interpretados por Basil
Rathbone e Nigel Bruce. O médico teme pela vida de Sir Henry
Baskerville (Richard Greene), o herdeiro da mansão Baskerville, ou a
família do personagem interpretado por Richard Greene não contasse
com um historial de mortes violentas. Diga-se que Sherlock Holmes já
tinha comentado com Watson que temia que Henry poderia não ter muito
tempo de vida. Os receios de Mortimer devem-se a uma suposta maldição
que assola a família de Henry há várias gerações, uma situação
que supostamente podemos comprovar no início do filme. Tudo começa
numa correria protagonizada por Sir Charles Baskerville, com este
indivíduo a falecer misteriosamente. O cenário é marcado pelo
nevoeiro, enquanto a morte deste indivíduo surge envolta em
mistério, apesar de Mortimer, o médico, diagnosticar que o
proprietário da luxuosa Baskerville Hall faleceu devido a um ataque
cardíaco. O que o médico não conta é que encontrou pegadas de um
cão de proporções acima da média, algo que o leva a temer uma
suposta maldição associada aos Baskerville.
Segundo a lenda, exposta em flashback, um cão terá eliminado
Hugo Baskerville (Ralph Forbes), o primeiro dono da mansão, com a
maldição a afectar as diferentes gerações que possuíram a
propriedade. O momento em que a história da morte é apresentada
surge dotado de alguma inspiração, com "The Hound of the
Baskervilles" a mesclar as imagens em movimento com as páginas
do documento que expõem a lenda, com Sidney Lanfield a exibir este
episódio de forma precisa e concisa ao mesmo tempo que adensa as
dúvidas sobre a possibilidade dos Baskerville se encontrarem
amaldiçoados. A chegada de Henry a Londres, oriundo do Canadá,
antes de se deslocar à sua propriedade localizada no Devonshire,
traz desde logo uma série de perigos, com o jovem a ser ameaçado.
Pelo meio ocorre uma tentativa de assassinato, travada por Sherlock,
com o detective a enviar o Dr. Watson para acompanhar Mortimer e
Henry até à propriedade deste último, enquanto o protagonista decide supostamente ficar mais um tempo pelas imediações do seu
escritório, tendo em vista a investigar outros pormenores inerentes ao caso. Nesse sentido, Watson vai ter que
acompanhar de perto o herdeiro e elaborar relatórios daquilo que
acontece para informar Sherlock Holmes, com uma boa parte da narrativa a não
contar com a presença do personagem interpretado por Basil Rathbone,
enquanto somos apresentados a uma série de figuras que facilmente
despertam as nossas suspeitas. Veja-se o caso de Barryman (John
Carradine) e a sua esposa (Eily Malyon), um casal que cuida da mansão
dos Baskerville. Barryman e a esposa despertam as nossas dúvidas em
relação aos seus objectivos, bem como um ex-presidiário (Nigel De
Brulier) que se encontra à solta no local, ou Jack Stapleton (Morton
Lowry), um indivíduo aparentemente polido e educado que pode não
ser tão inocente como parece. Jack é meio-irmão de Beryl Stapleton
(Wendy Barrie), uma mulher que desperta o interesse de Henry, com
"The Hound of the Baskervilles" a ter ainda tempo para
contar com alguns breves momentos de romance, com estes dois últimos
a formarem um par romântico, protagonizando alguns episódios mais
açucarados que contrastam com o mistério que envolve o território.
O espaço que envolve a casa está longe de ser agradável. O pântano
traz consigo a morte e superstição, os uivos dominam o território,
bem como os fortes nevoeiros, enquanto o mistério é imenso. Será
que existe mesmo um cão com características sobrenaturais ou alguém
se estará a aproveitar da superstição para tentar eliminar Henry?
Aos poucos as nossas questões são respondidas, com a entrada em
cena de Sherlock Holmes a prometer colocar um fim a todo o mistério,
com Basil Rathbone a incutir uma enorme segurança a este detective
confiante nas suas capacidades, pronto a deixar Watson fazer o
"trabalho sujo", enquanto parece estar sempre um pouco à
frente de todos os outros.
O argumento de Ernest Pascal permite explorar, ou pelo menos
traçar um retrato competente dos personagens que rodeiam a mansão,
com a maioria dos actores a exibir competência. Veja-se desde logo o
caso de Lionel Atwill como um médico que a espaços demonstra
acreditar em algumas lendas locais, ou não fosse casado com uma
mulher com habilidades de medium (Beryl Mercer); Richard Greene como o
herdeiro algo ingénuo dos Baskerville, um indivíduo que facilmente
fica "embeiçado" por Beryl; Franklyn (Barlowe Borland), um
veterano algo excêntrico que gosta de processar tudo e todos, entre
outros personagens. Temos ainda o espaço da mansão, marcado por
dimensões alargadas e um quadro que traz consigo mais revelações
do que poderíamos esperar, embora os cenários que mais se destacam
sejam aqueles que rodeiam esta habitação, com Sidney Lanfield a
efectuar uma utilização competente dos mesmos. O bom
trabalho a nível do design dos cenários, a competência de Peverell Marley na cinematografia e o efeito provocado pelo nevoeiro permitem esconder algumas das
limitações inerentes ao orçamento do filme e ao facto de "The Hound of the Baskervilles" ter sido filmado em estúdio. Veja-se o caso do pântano, um cenário onde o famoso
cão parece actuar, ou High Thor, um local onde se encontram diversas
ruínas, com Henry e Beryl a terem neste espaço alguns momentos de
maior romantismo. Esta é também a primeira adaptação
cinematográfica inspirada no famoso detective que tem como pano
de fundo a Era Vitoriana, com "The Hound of the
Baskervilles" a ter contado com um sucesso surpreendente a nível
de público. Diga-se que "The Hound of the Baskervilles"
surge numa época onde os filmes de detectives estavam na moda, algo
bem salientado por Stuart
Galbraith IV no seu texto para o DVD Talk, onde este aponta
exemplos como a saga "Thin Man", "Mr. Moto", numa
década que contou ainda com as obras de "Charlie Chan"
protagonizadas por Warner Oland, entre outras. "The Hound of the
Baskervilles" conta ainda com alguns elementos associados aos
filmes de terror, sejam os momentos mais tensos provocados pelo uivo
de um cão, ou uma sessão de espiritismo, ou a própria presença do
nevoeiro, com o contraste entre a luz e as sombras a permitir muitas
das vezes incutir alguma inquietação. Sidney Lanfield efectua uma
incursão competente pelo universo de Sherlock Holmes, com "The
Hound of the Baskervilles" a surgir como uma obra
cinematográfica dotada de algum mistério, uma cinematografia
competente, personagens relativamente interessantes de acompanhar,
uma utilização sublime do nevoeiro e uma interpretação digna de
atenção de Basil Rathbone como Sherlock Holmes, um personagem que
viria a marcar a carreira do actor.
Título original: "The Hound of the Baskervilles".
Título em Portugal: "A Lenda do Cão Fantasma".
Realizador: Sidney Lanfield.
Argumento: Ernest Pascal.
Elenco: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Richard Greene, Wendy Barrie.

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