16 novembro 2015

Resenha Crítica: "Hannah and Her Sisters" (1986)

 Ambicioso do ponto de vista narrativo, "Hannah and Her Sisters" confirma mais uma vez o talento de Woody Allen para a escrita de argumentos e extrair aquilo que de melhor os seus actores e actrizes têm para dar, com o cineasta a colocar-nos diante de uma história que deambula pelos meandros da comédia, do drama e do romance, ao longo de um enredo onde não faltam as célebres falas mordazes, as referências cinéfilas, as intrincadas relações entre homens e mulheres, a cidade de Nova Iorque como pano de fundo, os personagens pertencentes ao meio artístico, entre outros elementos que podemos associar a alguns filmes do cineasta e argumentista. A história desenrola-se ao longo de vinte e quatro meses, iniciando e terminando com uma festa familiar no Dia de Acção de Graças, com esta a ser permeada por uma miríade de personagens que, na maioria dos casos, acabam por ter alguma ligação a Hannah (Mia Farrow) ou a elementos que contactam ou contactaram com esta. Hannah é uma actriz, tal como Norma (Maureen O'Sullivan), a sua mãe, uma mulher alcoólica e extrovertida que não tem problemas em insinuar-se a indivíduos mais jovens embora seja casada com Evan (Lloyd Nolan), um actor que parece amar a esposa apesar das constantes discussões que mantém com a mesma. Também Hannah conta com problemas no seio do seu casamento. Hannah é casada com Elliot (Michael Caine), um consultor financeiro de gestos polidos, educado e culto, embora algo desajeitado, que se encontra interessado em Lee (Barbara Hershey), uma das irmãs da personagem interpretada por Mia Farrow. Este procura indicar livros, filmes e discos de música que pensa poderem agradar a Lee, enquanto esta parece demonstrar gostos semelhantes ao cunhado, tendo um namoro marcado por alguma frieza com Frederick (Max von Sydow), um pintor com uma visão bastante cinzenta do Mundo, pouco dado a grandes demonstrações de afecto ou felicidade. Frederick não aprecia o contacto regular com a humanidade, algo demonstrado pela atitude de faltar à festa do Dia de Acção de Graças onde se encontrava a família de Hannah, surgindo como um dos vários artistas com uma interpretação vincada dos seus trabalhos que constam nas obras de Woody Allen. Max Von Sydow incute gestos quase sempre rígidos ao personagem que interpreta, um pintor que parece exibir uma revolta enorme em relação a tudo e a todos, exceptuando quando se trata da amada, aquela que considera o seu contacto com o Mundo exterior. A união entre ambos parece fadada ao fracasso, sobretudo quando Elliot exibe o seu interesse em Lee, num momento acompanhado por música de Bach, alguma atrapalhação e dois beijos extemporâneos. Elliot ainda expõe os seus pensamentos diante do espectador, com recurso à narração em off (algo relativamente comum ao longo do filme), procurando uma abordagem discreta, tendo em vista a deixar subentendido que mantém algum interesse na cunhada, embora parta logo para uma troca de beijos que corre melhor do que este pensava. Michael Caine incute a Elliott alguma da atrapalhação e frustração sexual que são inerentes a alguns personagens interpretados por Woody Allen, com o actor a conseguir exibir o dilema do indivíduo que interpreta, um consultor financeiro que ama a esposa mas deseja a irmã da mesma, algo que comenta logo de início (mais uma vez em off) ao elogiar quase tudo em Lee. De óculos de massa, penteado certinho, roupa discreta mas indicadora de uma condição financeira segura, Elliot surge como um dos vários personagens infiéis das obras cinematográficas de Woody Allen, acabando em alguns momentos por se arrepender dos actos que pratica, apesar de raramente resistir à tentação, pelo menos enquanto Lee também estiver para aí virada.

O casamento entre Hannah e Elliot aparentava ser relativamente sólido, ou pelo menos é aquilo que esta pensava. Hannah é encarada como uma mulher demasiado perfeita e um exemplo a seguir por aqueles que a rodeiam, embora a personagem interpretada por Mia Farrow também precise do apoio dos elementos que fazem parte do seu quotidiano. Esta aparente perfeição de Hannah conduz a que elementos como Holly (Dianne Wiest), outra das suas irmãs da protagonista, se sintam sufocados pela presença da mesma, apesar da personagem interpretada por Dianne Wiest até precisar dos fundos da familiar para os vários projectos pessoais que decide iniciar. Se Lee é uma ex-alcoólica que conseguiu resolver alguns dos seus problemas graças à ajuda de Frederick e dos familiares, já Holly tem um passado marcado pelo consumo excessivo de drogas, encontrando-se "limpa" há cerca de um ano, coleccionando pelo caminho alguns casos amorosos falhados e rejeições nas audições que efectua para tentar iniciar uma carreira na representação. Dianne Wiest interpreta uma figura mais insegura e nervosa do que Hannah, com a actriz a exibir a constante falta de confiança de Holly em si própria, enquanto esta personagem procura encontrar um caminho para a sua carreira profissional. Diga-se que a personagem interpretada por Barbara Hershey também se encontra com o futuro profissional indefinido, decidindo tirar uns cursos soltos, ao mesmo tempo que se envolve temporariamente com o cunhado. Hershey atribui uma sensualidade latente a esta mulher aparentemente simples, que denota alguma cultura geral e uma facilidade notória para exibir os seus sentimentos. A relação com o cunhado é marcada pelo desejo, apesar de se sentir culpada por trair a irmã, uma figura de quem é bastante próxima. Ficamos diante de três mulheres complexas, com Woody Allen a exibir mais uma vez a sua apetência para criar personagens femininas que apresentam alguma densidade e relevância. Hannah é exemplo disso, com esta a aparentar não ter problemas embora precise de todos aqueles que a rodeiam, tendo em Lee e Holly duas figuras com quem contacta com alguma regularidade. Se Mia Farrow consegue transmitir que Hannah é um pilar no interior da sua família, contando com quatro filhos, dos quais dois são fruto do anterior casamento da protagonista, já Dianne Wiest e Barbara Hershey exibem as duvidas das personagens que interpretam, duas figuras femininas ainda em busca de um rumo, ao contrário da irmã que parece saber aquilo que pretende para a vida. A completar este enorme ramalhete encontra-se ainda Mickey Sachs (Woody Allen), descrito inicialmente como "o hipocondríaco", com este a surgir como o típico personagem que associamos à figura de Woody Allen. Algo neurótico, nervoso, sexualmente activo, mordaz, de óculos de massa, cinéfilo (encontrar um sentido para a vida a ver "Duck Soup" é genial), Mickey surge como um indivíduo pronto a despertar a atenção ou desprezo das figuras femininas, com Woody Allen a apresentar mais uma vez um timing exímio quer para os momentos de humor, quer para os momentos mais sérios. O argumento escrito pelo actor e realizador não só permite explorar este conjunto elevado de personagens e os relacionamentos entre os mesmos, mas também que estes disparem algumas falas que facilmente ficam na memória. É algo típico dos melhores filmes de Woody Allen, com este a não poupar em frases que facilmente despertam o nosso sorriso. Veja-se quando, num flashback, após receber a segunda confirmação de que é infértil, Mickey é questionado por Hannah se esta situação se poderá dever a masturbação excessiva, algo que leva o protagonista a pedir: "Não critiques os meus hobbies". Temos ainda um momento em que Mickey sai com Holly, quando se encontrava divorciado de Hannah, com a saída nocturna a correr da pior maneira, indo ao ponto de ser descrita por este indivíduo da seguinte forma "Eu diverti-me como no Julgamento de Nuremberga!", entre outras situações. Mickey foi outrora casado com Hannah, mas a infertilidade deste acabou por minar a relação, com esta a ter gémeos por inseminação artificial, com o pai a ser um antigo colega de trabalho do protagonista, algo exibido em flashbacks. O personagem interpretado por Woody Allen é um produtor e argumentista de um programa televisivo cujas audiências já conheceram melhores dias, apresentando uma apetência invulgar para inventar doenças, algo que se adensa quando pensa sofrer um tumor no cérebro, indo com enorme facilidade da depressão à alegria.

Mickey permite alguns dos momentos de maior humor do filme, com Woody Allen a saber explorar a sua habilidade para a comédia. Veja-se o encontro com Holly, que corre terrivelmente mal (as frustrações sexuais também fazem parte dos filmes de Allen, algo que não é diferente em "Hannah and Her Sisters"), com os gostos de ambos a colidirem e de que maneira, ou quando descobre que não padece de um tumor e começa a procurar seguir a religião católica ou o budismo. Esta situação ganha contornos mais caricatos se pensarmos que Mickey é um ateu educado de acordo com os valores judaicos, embora as suas incursões pelas diferentes religiões não sejam bem sucedidas, algo notório quando encontramos o personagem interpretado por Woody Allen a colocar a cruz de Cristo e a Bíblia que acabara de adquirir abaixo do nível do pão e maionese que comprara no supermercado. Mickey demonstra que a religião não é com ele, surgindo como uma figura bastante peculiar, que se reencontra de forma regular com a ex-mulher para ver os filhos. Mia Farrow é um dos elementos em destaque ao interpretar uma figura feminina que raramente dá a entender quando precisa de apoio, com Hannah a surgir como o baluarte da maioria dos seus familiares, com os próprios progenitores a recorrerem à mesma em situações mais problemáticas. O argumento é exímio a explorar com alguma mordacidade as relações desta família problemática, com alguns dos seus integrantes a viverem em melhores condições, enquanto outros não parecem saber muito bem o que pretendem da vida, com "Hannah and Her Sisters" a deixar-nos diante de uma miríade de personagens recheados de idiossincrasias. Diga-se que a estrutura de "Hannah and Her Sisters" a espaços faz recordar alguns filmes que o cineasta realizaria, tais como "Crimes and Misdemeanors" onde não falta um leque alargado de personagens, elementos de diferentes géneros cinematográficos reunidos de forma orgânica na narrativa, entre outros "ingredientes" que revelam não só uma maturidade latente de Woody Allen na realização mas também na escrita de argumentos. A sagacidade do argumento e da realização é visível sobretudo na forma como esta miríade de personagens e relacionamentos são desenvolvidos, com Woody Allen a revelar um enorme engenho, competência e lampejos de brilhantismo. O elenco ajuda imenso a tarefa, mas também todo o ambiente criado pelo cineasta, com este a explorar mais uma vez os espaços de Nova Iorque para um filme da sua autoria, atribuindo novamente uma enorme importância à banda sonora (que varia entre a música clássica e jazz). A vida familiar por vezes pode ser complexa. No caso de "Hannah and Her Sisters" esta situação torna-se bastante visível, com Woody Allen a expor-nos a episódios que envolvem a personagem do título e aqueles que se encontram ligados ao agregado familiar de Hannah, uma situação que vai conduzir a que sejamos colocados diante de discussões, reuniões, traições e arrependimentos, procuras falhadas de encontrar explicações na religião e encontros cujos resultados nem sempre são os esperados, para além de momentos mais pacíficos e de maior união, ou não estivéssemos diante de um núcleo familiar explosivo. Estes elementos nem sempre sabem todos os acontecimentos que envolvem as vidas uns dos outros, algo que, em alguns casos, até pode ser uma vantagem, ao longo de uma obra cinematográfica que nos coloca perante diversos episódios das vidas destes personagens, por vezes apresentados com recurso a títulos como "Nossa, como ela é bonita..." ou "Nós divertimo-nos muito", ou "O hipocondríaco", entre outros. Marcado por boas interpretações por parte do seu vasto elenco, personagens bem construídos, falas que ficam na memória e um enredo sublime, "Hannah and Her Sisters" coloca-nos diante de uma miríade de figuras com personalidades muito próprias, desenvolvidas com acerto, ao mesmo tempo que ficamos perante o seu quotidiano ao longo de um período restrito de tempo onde nos deparamos com as suas forças e fragilidades, os seus romances e separações, sempre com alguma mordacidade, drama e até romance, num filme que deambula por diferentes géneros com uma enorme coesão e criatividade.

Título original: "Hannah and Her Sisters".
Título em Portugal: "Ana e as Suas Irmãs".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Michael Caine, Mia Farrow, Carrie Fisher, Barbara Hershey, Lloyd Nolan, Maureen O'Sullivan, Daniel Stern, Max von Sydow, Dianne Wiest.

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