13 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Big Heat" (1953)

 Uma simples pistola é focada no início de "The Big Heat". Esta arma é utilizada por Tom Duncan, um polícia corrupto, para cometer suicídio. Termina a tormenta de Duncan, mas começa a de outras figuras associadas ao mundo do crime. Este escrevera uma carta para Bertha Duncan (Jeanette Nolan), a sua esposa, enviar ao promotor Willard Street, tendo em vista a denunciar Mike Lagana (Alexander Scourby), o chefe da máfia local. Bertha prefere extorquir Lagana ao invés de entregar a carta, enquanto finge que se encontra emocionalmente devastada. Jeanette Nolan incute uma faceta maliciosa e calculista a Bertha, uma das várias figuras pouco recomendáveis que povoam a narrativa de "The Big Heat", com a fragilidade desta viúva a surgir apenas no campo das aparências, enquanto esta mulher inicia um jogo perigoso para extorquir um criminoso. Nesta cidade, aqueles que pretendem cumprir a lei arriscam-se a ficar com a vida destroçada, enquanto os criminosos parecem prosperar com a conivência de alguns elementos da polícia e política local. Um dos polícias sérios é Dave Bannion (Glenn Ford), um tipo duro, idealista e cumpridor no seu serviço, que tem um coração de manteiga quando está a lidar com Katie Bannion (Jocelyn Brando), a sua esposa, de quem tem uma filha, a jovem Joyce (Linda Bennett). A banda sonora contribui para a atmosfera maioritariamente harmoniosa na casa dos Bannion, mesmo quando Dave tem um dia mais esgotante e não consegue esconder as suas frustrações. Dave não pensava que a sua vida iria sofrer uma enorme reviravolta ao ser chamado para se encontrar com Lucy Chapman (Dorothy Green), a amante de Tom Duncan, uma mulher que trabalha a seduzir homens nos bares. Esta revela que Tom tinha uma casa de campo em Lakeside, algo que não se adequava ao parco ordenado do polícia. Lucy salienta ainda que o falecido pretendia divorciar-se da esposa, uma situação que fora omitida por Bertha. Dave não parece levar o caso muito a sério, embora os olhares daqueles que rodeiam estas duas figuras, no interior do bar, indiquem que algo de estranho se passa. Dave confronta Bertha em relação às informações obtidas, um acto que gera o desagrado desta mulher e chega aos ouvidos de Ted Wilks (Willis Bouchey), o superior do protagonista, um indivíduo que conhece pressões superiores para encerrar o caso. Ted repreende Dave, embora quem tenha o destino pior seja Lucy, que aparece morta e poucos parecem querer saber da mesma. O destino nem sempre é feliz para aqueles que querem dizer a verdade ou cumprir a lei em "The Big Heat", que o diga Dave mas também Lucy. Após receber um telefonema anónimo a ameaçá-lo e à sua família, Dave procura confrontar Lagana, um mafioso com aspirações políticas que conta com uma vasta rede a encobri-lo ou a cumprir as suas ordens. Boa parte dos crimes que ocorrem neste espaço urbano são do conhecimento de Lagana, algo que conduz Dave a deslocar-se a casa deste homem, tendo em vista a tirar satisfações, um acto pouco ponderado que vai trazer consequências nefastas ao protagonista.

Se a casa do protagonista é marcada por um estilo simples e acolhedor, já a habitação de Lagana surge rodeada por polícias que protegem o local, uma decoração luxuosa, diversos retratos de família tendo em vista a atribuir um ar respeitável a uma mansão adquirida com dinheiro sujo. O cuidado a nível da decoração dos cenários é desde logo visível nas dicotomias entre as habitações de Dave e Lagana, com ambas a reflectirem o estilo de vida distinto de cada um destes indivíduos, enquanto Fritz Lang promete não ter contemplações para com o primeiro, ou a sua esposa não fosse assassinada. A armadilha tinha Dave como destinatário, algo que o leva a ficar de rastos, indo ao ponto de ser suspenso após salientar as ligações entre o comissário Higgins (Howard Wendell) e Lagana. Dave depara-se com uma teia de corrupção que envolve diferentes esferas de poder, indo contar com a ajuda inesperada de Debby Marsh (Gloria Grahame), a antiga namorada de Vince Stone (Lee Marvin), um dos homens da confiança de Lagana. Bela, extrovertida, pouco dada a grandes reflexões, Debby procura estar longe dos negócios de Vince, embora goste dos luxos proporcionados por este, acabando por ser alvo da fúria deste indivíduo violento, sádico e pouco cordial. Uma dose considerável de café quente, atirada em direcção à sua face, conduz a que a personagem interpretada por Gloria Grahame fique desfigurada, com Vince a ter neste acto mais uma demonstração da sua personalidade incontrolável. Se Gloria Grahame incute alguma ingenuidade a esta mulher que parece mais preocupada com os casacos de pele do que com os negócios obscuros de Vince, já o personagem interpretado por Lee Marvin surge representado como uma figura brutal, com o actor a incutir uma enorme ferocidade a este indivíduo que não tem problemas em agredir mulheres ou mandar eliminar quem se mete no seu caminho. O espaço onde Vince habita e efectua os seus negócios é marcado pelo jogo ilegal, contando com a presença regular de indivíduos como Higgins, algo mais uma vez revelador da corrupção que grassa no interior deste espaço citadino. Dave estraga os planos de Lagana e dos elementos ao serviço do gangster, com o protagonista a não ter problemas em envolver-se em confusões e colocar a vida em perigo, desde que isso signifique descobrir quem eliminou a esposa e permita deter os criminosos. Entra em clubes nocturnos, confronta de forma feroz os suspeitos, procura obter provas concretas, enquanto cria uma estranha relação de respeito com Debby, algo que culmina num diálogo tocante onde o personagem interpretado por Glenn Ford fala sobre a falecida esposa. Ford tanto convence nestes momentos mais sentimentais como a expor o estilo duro e violento de Dave, um indivíduo que procura combater o crime a todo o custo, ao mesmo tempo que tenta expor a identidade daqueles que eliminaram a sua esposa. Dave surge em alguns momentos como um proto-Harry Callahan, algo visível quando confronta Vince num clube nocturno, com Glenn Ford e Lee Marvin a exibirem o carácter duro dos personagens que interpretam mas também que são dois actores com um enorme carisma.

Não poderia faltar a presença dos clubes nocturnos num filme noir, algo que também acontece em "The Big Heat", com Fritz Lang a criar mais um exemplar recomendável do subgénero. Diga-se que "The Big Heat" surge recheado de diversas características dos filmes noir. Os personagens de carácter dúbio, uma atmosfera de malaise, um protagonista que se envolve numa investigação intrincada, os clubes nocturnos, muito fumo emanado pelos cigarros, o exímio contraste entre a luz e as sombras, com estas últimas a surgirem mais fortes do que nunca. Essa utilização sublime da luz e das sombras é visível na cena em que Dave se encontra sozinho no quarto, até Debby tocar à porta, surgindo ferida na alma e no corpo, com esta mulher a perceber de uma vez por todas que aqueles luxos e prazeres dos quais desfrutara eram apenas temporários e ilusórios. A violência rodeia o quotidiano destes personagens, com alguns episódios a acontecerem inicialmente em fora de campo, com Fritz Lang a utilizar este recurso com enorme habilidade, provavelmente para fugir às malhas do Código Hays. Essa situação é notória quando encontramos Dave a falar com a filha, enquanto um estrondo invade o ecrã, com o protagonista a correr em direcção ao carro, embora já não consiga evitar a morte da esposa, um episódio nefasto que ocorreu devido ao facto do veículo se encontrar armadilhado. A alma de Dave fica coberta de fúria e dor, embora nunca se esqueça de deixar a filha em segurança, enquanto tem de lidar com criminosos e representantes das autoridades corruptos. O grupo criminoso tem em Lagana um indivíduo influente, com Alexander Scourby a incutir um pragmatismo notório a este personagem de gestos polidos que tenta controlar tudo e todos, embora esteja condicionado devido a uma carta que Bertha mantém em cativeiro. "The Big Heat" conta ainda com diversas figuras secundárias que acabam por sobressair ao longo do filme, entre as quais: Wilks, um indivíduo que inicialmente apenas quer cumprir tranquilamente o seu serviço embora, aos poucos, pareça ser compelido a ajudar Dave; Larry (Adam Williams), um criminoso ligado às mortes de Lucy e da esposa do protagonista, com esta última a surgir como uma figura que facilmente desperta a nossa simpatia. A empatia que criamos com a família de Dave conduz a que sejamos compelidos a sentir as suas dores e o seu instinto de revolta, com Fritz Lang a apresentar alguns salpicos de crueldade ao desfazer este núcleo familiar. Dave enfrenta um perigoso grupo mafioso que envolve gangsters e representantes da lei, com "The Big Heat" a explorar assertivamente uma investigação complexa e intrincada, enquanto o elenco principal sobressai nos respectivos papéis. As figuras femininas raramente contam com a melhor sorte, com Fritz Lang a não ter problemas em eliminá-las, ou desfigurá-las, num obra dotada de um tom negro e algo pessimista, onde um momento de felicidade pode facilmente ser contrastado com outro de enorme brutalidade. Com uma atmosfera negra que teima em desfazer muitas das vezes os momentos de felicidade, "The Big Heat" coloca-nos diante de um polícia que procura desmantelar uma rede criminosa e vingar a morte da esposa, enquanto Fritz Lang exibe mais uma vez que é um cineasta exímio na realização de filmes noir.

Título original: "The Big Heat".
Título em Portugal: "Corrupção".
Realizador: Fritz Lang.
Argumento: Sydney Boehm.
Elenco: Glenn Ford, Gloria Grahame, Lee Marvin, Jeanette Nolan, Alexander Scourby.

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