Uma simples pistola é focada no início de "The Big Heat".
Esta arma é utilizada por Tom Duncan, um polícia corrupto, para
cometer suicídio. Termina a tormenta de Duncan, mas começa a de
outras figuras associadas ao mundo do crime. Este escrevera uma carta
para Bertha Duncan (Jeanette Nolan), a sua esposa, enviar ao promotor
Willard Street, tendo em vista a denunciar Mike Lagana (Alexander
Scourby), o chefe da máfia local. Bertha prefere extorquir Lagana ao
invés de entregar a carta, enquanto finge que se encontra emocionalmente devastada. Jeanette Nolan incute uma faceta maliciosa e
calculista a Bertha, uma das várias figuras pouco recomendáveis que
povoam a narrativa de "The Big Heat", com a fragilidade
desta viúva a surgir apenas no campo das aparências, enquanto esta
mulher inicia um jogo perigoso para extorquir um criminoso. Nesta
cidade, aqueles que pretendem cumprir a lei arriscam-se a ficar com a vida
destroçada, enquanto os criminosos parecem prosperar com a
conivência de alguns elementos da polícia e política local. Um dos
polícias sérios é Dave Bannion (Glenn Ford), um tipo duro,
idealista e cumpridor no seu serviço, que tem um coração de
manteiga quando está a lidar com Katie Bannion (Jocelyn Brando), a
sua esposa, de quem tem uma filha, a jovem Joyce (Linda Bennett). A
banda sonora contribui para a atmosfera maioritariamente harmoniosa
na casa dos Bannion, mesmo quando Dave tem um dia mais esgotante e
não consegue esconder as suas frustrações. Dave não pensava que a
sua vida iria sofrer uma enorme reviravolta ao ser chamado para se
encontrar com Lucy Chapman (Dorothy Green), a amante de Tom Duncan,
uma mulher que trabalha a seduzir homens nos bares. Esta revela que
Tom tinha uma casa de campo em Lakeside, algo que não se adequava ao
parco ordenado do polícia. Lucy salienta ainda que o falecido
pretendia divorciar-se da esposa, uma situação que fora omitida por
Bertha. Dave não parece levar o caso muito a sério, embora os
olhares daqueles que rodeiam estas duas figuras, no interior do bar,
indiquem que algo de estranho se passa. Dave confronta Bertha em relação às informações obtidas, um acto que gera o desagrado desta mulher e chega aos ouvidos de Ted Wilks (Willis
Bouchey), o superior do protagonista, um indivíduo que conhece pressões
superiores para encerrar o caso. Ted repreende Dave, embora quem
tenha o destino pior seja Lucy, que aparece morta e poucos parecem
querer saber da mesma. O destino nem sempre é feliz para aqueles que
querem dizer a verdade ou cumprir a lei em "The Big Heat",
que o diga Dave mas também Lucy. Após receber um telefonema
anónimo a ameaçá-lo e à sua família, Dave procura confrontar
Lagana, um mafioso com aspirações políticas que conta com uma
vasta rede a encobri-lo ou a cumprir as suas ordens. Boa parte dos
crimes que ocorrem neste espaço urbano são do conhecimento de
Lagana, algo que conduz Dave a deslocar-se a casa deste homem, tendo
em vista a tirar satisfações, um acto pouco ponderado que vai trazer consequências nefastas ao protagonista.
Se a casa do protagonista é marcada por um estilo simples e
acolhedor, já a habitação de Lagana surge rodeada por polícias
que protegem o local, uma decoração luxuosa, diversos retratos de
família tendo em vista a atribuir um ar respeitável a uma mansão
adquirida com dinheiro sujo. O cuidado a nível da decoração dos
cenários é desde logo visível nas dicotomias entre as habitações de Dave e Lagana, com ambas a reflectirem o estilo de vida distinto de cada um destes indivíduos, enquanto Fritz Lang promete não ter contemplações
para com o primeiro, ou a sua esposa não fosse assassinada. A
armadilha tinha Dave como destinatário, algo que o leva a ficar de
rastos, indo ao ponto de ser suspenso após salientar as ligações
entre o comissário Higgins (Howard Wendell) e Lagana. Dave depara-se
com uma teia de corrupção que envolve diferentes esferas de poder,
indo contar com a ajuda inesperada de Debby Marsh (Gloria Grahame), a
antiga namorada de Vince Stone (Lee Marvin), um dos homens da
confiança de Lagana. Bela, extrovertida, pouco dada a grandes
reflexões, Debby procura estar longe dos negócios de Vince, embora
goste dos luxos proporcionados por este, acabando por ser alvo da
fúria deste indivíduo violento, sádico e pouco cordial. Uma dose considerável de café quente, atirada em direcção à sua face, conduz a que a
personagem interpretada por Gloria Grahame fique desfigurada, com
Vince a ter neste acto mais uma demonstração da sua personalidade
incontrolável. Se Gloria Grahame incute alguma ingenuidade a esta
mulher que parece mais preocupada com os casacos de pele do que com
os negócios obscuros de Vince, já o personagem interpretado por Lee
Marvin surge representado como uma figura brutal, com o actor a
incutir uma enorme ferocidade a este indivíduo que não tem problemas em
agredir mulheres ou mandar eliminar quem se mete no seu caminho. O
espaço onde Vince habita e efectua os seus negócios é marcado pelo jogo ilegal, contando
com a presença regular de indivíduos como Higgins, algo mais uma vez revelador da corrupção que grassa no interior deste espaço citadino. Dave estraga os
planos de Lagana e dos elementos ao serviço do gangster, com o protagonista a não ter problemas em
envolver-se em confusões e colocar a vida em perigo, desde que isso signifique descobrir quem eliminou a esposa e permita deter os criminosos. Entra em clubes nocturnos, confronta de forma
feroz os suspeitos, procura obter provas concretas, enquanto cria uma
estranha relação de respeito com Debby, algo que culmina num diálogo
tocante onde o personagem interpretado por Glenn Ford fala sobre a falecida esposa. Ford tanto convence nestes momentos
mais sentimentais como a expor o estilo duro e violento de Dave, um
indivíduo que procura combater o crime a todo o custo, ao mesmo
tempo que tenta expor a identidade daqueles que eliminaram a sua
esposa. Dave surge em alguns momentos como um proto-Harry Callahan,
algo visível quando confronta Vince num clube nocturno, com Glenn
Ford e Lee Marvin a exibirem o carácter duro dos personagens que
interpretam mas também que são dois actores com um enorme carisma.
Não poderia faltar a presença dos clubes nocturnos num filme
noir, algo que também acontece em "The Big Heat", com
Fritz Lang a criar mais um exemplar recomendável do subgénero.
Diga-se que "The Big Heat" surge recheado de diversas
características dos filmes noir. Os personagens de carácter dúbio,
uma atmosfera de malaise, um protagonista que se envolve
numa investigação intrincada, os clubes nocturnos, muito fumo
emanado pelos cigarros, o exímio contraste entre a luz e as sombras,
com estas últimas a surgirem mais fortes do que nunca. Essa utilização sublime da luz e das sombras é visível na cena em que Dave se encontra sozinho no quarto, até Debby tocar à
porta, surgindo ferida na alma e no corpo, com esta mulher a perceber de uma
vez por todas que aqueles luxos e prazeres dos quais desfrutara eram apenas temporários e ilusórios. A violência rodeia o quotidiano destes personagens,
com alguns episódios a acontecerem inicialmente em fora de campo,
com Fritz Lang a utilizar este recurso com enorme habilidade,
provavelmente para fugir às malhas do Código Hays. Essa situação
é notória quando encontramos Dave a falar com a filha,
enquanto um estrondo invade o ecrã, com o protagonista a correr em
direcção ao carro, embora já não consiga evitar a morte da esposa, um episódio nefasto que ocorreu devido ao facto do veículo se encontrar armadilhado. A alma de Dave fica
coberta de fúria e dor, embora nunca se esqueça de deixar a filha
em segurança, enquanto tem de lidar com criminosos e representantes
das autoridades corruptos. O grupo criminoso tem em Lagana um
indivíduo influente, com Alexander Scourby a incutir um pragmatismo
notório a este personagem de gestos polidos que tenta controlar tudo
e todos, embora esteja condicionado devido a uma carta que
Bertha mantém em cativeiro. "The Big Heat" conta ainda com diversas figuras
secundárias que acabam por sobressair ao longo do filme, entre as
quais: Wilks, um indivíduo que inicialmente apenas quer cumprir
tranquilamente o seu serviço embora, aos poucos, pareça ser
compelido a ajudar Dave; Larry (Adam Williams), um criminoso ligado
às mortes de Lucy e da esposa do protagonista, com esta última a
surgir como uma figura que facilmente desperta a nossa simpatia. A
empatia que criamos com a família de Dave conduz a que sejamos
compelidos a sentir as suas dores e o seu instinto de revolta, com
Fritz Lang a apresentar alguns salpicos de crueldade ao desfazer este núcleo familiar. Dave enfrenta
um perigoso grupo mafioso que envolve gangsters e representantes da
lei, com "The Big Heat" a explorar assertivamente uma
investigação complexa e intrincada, enquanto o elenco principal
sobressai nos respectivos papéis. As figuras femininas raramente
contam com a melhor sorte, com Fritz Lang a não ter problemas em
eliminá-las, ou desfigurá-las, num obra
dotada de um tom negro e algo pessimista, onde um momento de
felicidade pode facilmente ser contrastado com outro de enorme
brutalidade. Com uma atmosfera negra que teima em desfazer muitas das
vezes os momentos de felicidade, "The Big Heat" coloca-nos
diante de um polícia que procura desmantelar uma rede criminosa e
vingar a morte da esposa, enquanto Fritz Lang exibe mais uma vez que
é um cineasta exímio na realização de filmes noir.
Título original: "The Big Heat".
Título em Portugal: "Corrupção".
Realizador: Fritz Lang.
Argumento: Sydney Boehm.
Elenco: Glenn Ford, Gloria Grahame, Lee Marvin, Jeanette Nolan, Alexander Scourby.

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