27 novembro 2015

Resenha Crítica: "Ascenseur pour l'échafaud" (Fim-de-Semana no Ascensor)

 O som da música jazz de Miles Davis adorna a narrativa e atribui-lhe por vezes um sentimento de melancolia que se adapta na perfeição à atmosfera de malaise que envolve o enredo de "Ascenseur pour l'échafaud", a primeira longa-metragem de ficção do realizador Louis Malle. Contemporâneo da Nouvelle Vague, sem estar totalmente associado ao movimento, Malle parece ter "bebido" alguma da sua inspiração nos filmes noir dos EUA, transportando alguns dos seus elementos para os cenários franceses, um pouco a fazer recordar obras como "Touchez pas au grisbi", bem como alguns trabalhos de Jean-Pierre Melville, tais como "Bob le Flambeur", onde a atmosfera deste subgénero se encontra muito presente. É uma obra onde não faltam elementos e temáticas dos filmes noir, tais como a presença dos clubes nocturnos, os personagens de carácter dúbio, muito fumo oriundo dos cigarros, o espaço urbano inseguro e conspurcado pelo crime, a mulher fatal, o protagonista que se envolve em problemas, entre outros que pontuam um território francês marcado pelas feridas do pós-Guerra e dos conflitos que ainda se encontram a decorrer. Temos ainda uma boa utilização dos cenários exteriores, bem como a presença de um grupo de personagens relativamente à margem da sociedade que se preparam para conhecer uma série de episódios que certamente não estavam nos seus planos iniciais. Costuma-se dizer que os actos têm consequências. No caso dos protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud" esta velha máxima parece adequar-se na perfeição, ainda que as consequências surjam por caminhos tortuosos e inesperados. Dois dos protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud" são Florence Carala (Jeanne Moreau) e Julien Tavernier (Maurice Ronet), um casal adúltero. Florence é casada com Simon Carala (Jean Wall), um empresário de sucesso, conhecido pelos negócios nem sempre claros, incluindo no ramo do armamento. Julien é um ex-paraquedista que esteve na Indochina e Argélia, a participar nos conflitos que envolveram a França, tendo um caso com Florence, a esposa do seu chefe. Amam-se mas não podem assumir publicamente a relação. Até são vistos juntos mas, por alguma razão, pensam que a melhor maneira para ficarem finalmente livres de Simon é eliminá-lo. Julien parece temer este acto, embora lá se decida a pegar numa corda com um gancho, subir para o andar superior ao seu escritório e eliminar o seu chefe. Desde as luvas, passando pelo silêncio no cumprimento deste acto hediondo até ao posicionamento da arma como se Carala tivesse cometido um suicídio, tudo parece ter sido pensado ao pormenor, embora a presença de um gato preto no local do crime indique que não vem aí coisa boa. Julien ainda tem uma conversa com Carala, mas o destino de ambos já estava traçado. O personagem interpretado por Maurice Ronet anseia ardentemente que a polícia acredite na hipótese de Carala ter cometido suicídio, com o protagonista a preparar-se para ir ao encontro da sua amada. Julien já se encontrava no seu veículo descapotável quando reparou que não tirou a corda do edifício. Percebe que fez merda e regressa rapidamente ao local para tirar a corda. Não consegue. Tudo piora quando entra no elevador e este trava devido ao sistema eléctrico ter sido desligado, com Julien a passar a noite no local, a tentar sair do mesmo, enquanto procura encontrar formas de escapar e ir ter com Florence.

A personagem interpretada por Jeanne Moreau desespera devido à falta de notícias por parte do amado. Os seus pensamentos são muitas das vezes expostos em off. Quando vê o carro de Julien com a presença de uma mulher, Florence logo pensa que o amado está com outra, embora se tenha esquecido de olhar com atenção para o interior do veículo. Dentro do carro de Julien encontravam-se Louis (Georges Poujouly), um criminoso inconsequente e Véronique (Yori Bertin), uma florista que admira o protagonista. Louis aproveitou o facto do ex-militar ter regressado extemporaneamente ao edifício para roubar o carro e passear com a namorada pelas estradas de Paris. Ah, a cidade do amor, tão bela, mas ao mesmo tempo exposta com tanto desencanto e crueza, onde um casal vive momentos ilusórios de felicidade, embora com algum receio, num veículo furtado. Quando o veículo de Louis e Véronique embate no bólide de Horst Bencker (Iván Petrovich) e a sua esposa Frieda (Elga Andersen), os dois casais acabam por meter conversa e formar uma estranha amizade e passar a noite num motel. Temos assim três planos da narrativa: Julien a procurar sair do elevador e do edifício; Florence a deambular pela noite em busca do amado em locais que este costuma frequentar; Louis e Véronique com o casal alemão, registando-se no hotel como Sr. e SrªTavernier. Escusado será dizer que nada vai terminar bem para os quatro elementos. Louis é descoberto por Horst, acabando por eliminar este último e Frieda. Julien é o principal suspeito do crime, com o comissário Cherrier (Lino Ventura) a fazer de tudo para resolver o caso. Entretanto o corpo do marido de Florence é encontrado. Nada de bom se espera. A morte rodeia estes personagens. Foram estes que a procuraram, seja por amor, ou puro receio de uma descoberta, ou simples insensatez. No caso de Julien e Florence até parecemos estar numa situação semelhante a "Double Indemnity", com Louis Malle a explorar os efeitos que a segunda tem no antigo militar. Amam-se ou pelo menos desejam-se a ponto de uma morte parecer algo de razoável. Para a lei não é um acto justificável, algo que promete tramar este casal. No início do filme, os close-ups sobre os seus rostos enquanto comunicam ao telefone, expõem o sentimento de urgência que Julien e Florence apresentam para colocar o assassinato em prática e finalmente poderem ficar juntos. Jeanne Moreau, uma actriz de enorme talento, tem em Florence uma das primeiras personagens de grande destaque da sua carreira. Esta é bela, elegante, apaixonada e ao mesmo tempo fria, procurando que o amante faça o trabalho sujo por si e elimine Simon. Durante a noite, chuvosa e fria como não poderia deixar de ser num filme com características negras, encontramos esta mulher a caminhar, a passar por bares, a procurar aquele que não encontra, o seu amante. Maurice Ronet tem em Julien um personagem que pode ter contado com treino militar e parecer algo frio mas é capaz de cometer erros básicos com uma facilidade impressionante, algo que lhe vai custar bastante caro. É um elemento típico dos filmes noir, um indivíduo moralmente ambíguo, com uma enorme facilidade em envolver-se em problemas, que cai nas garras da figura feminina. A Georges Poujouly cabe ficar com o papel de um assaltante de meia-tigela, que rouba um carro com enorme facilidade, mas parece esquecer as consequências deste acto, sendo ainda avisado por Véronique embora esta até acabe por aderir à festa.

A noite destes dois casais é marcada por alguma ironia por parte do destino (ou se preferirem, por parte do trio de argumentistas): Louis e Véronique encontram-se juntos mas dois actos criminosos prometem colocar essa união em perigo; Julien e Florence anseiam reunir-se mas tardam em conseguir contactar um com o outro, com o primeiro a encontrar-se preso num elevador durante boa parte da noite. Ambos os elementos dos casais cometeram actos reprováveis, enquanto Louis Malle diverte-se a despertar a dúvida em relação ao futuro do quarteto. Ficamos diante de quatro personagens que influenciam o destino uns dos outros, ainda que por meios pouco lineares, com Louis Malle a tecer uma teia narrativa bem ao estilo dos filmes noir, sempre com uma enorme competência, ritmo e um tom deliciosamente negro. Não existe espaço para a felicidade. Esta até pode aparecer mas é temporária, com a música de Miles Davis a adornar o enredo e o poder da fotografia a ser exibido de uma forma que provavelmente não esperaríamos. É uma obra com uma cinematografia pronta a explorar esta atmosfera de desencanto que envolve a narrativa, com Louis Malle a não poupar em alguns momentos de tensão e inquietação. Veja-se quando encontramos Julien preso no elevador ou o interrogatório a que este é sujeito, já para não falar do momento em que Louis dispara contra os alemães. Frieda e Horst até formavam um casal simpático, longe de apreciarem a guerra, mas acabam por ser baleados como se fossem dois germânicos prontos a ocuparem a França em plena II Guerra Mundial. Pelo caminho, Louis Malle fala-no da Guerra da Argélia, da venda de armas e da insegurança, do clima algo pessimista que rodeia França, ainda que subtilmente, através destes quatro personagens de carácter duvidoso. A Lino Ventura cabe interpretar um intrépido e sagaz polícia que aos poucos começa a deslindar o caso e a reunir as peças do puzzle que nem era assim tão fácil de montar. O elenco é competente, com nomes como Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Lino Ventura e companhia a sobressaírem, com a primeira a surgir como uma colaboradora habitual de Louis Malle. No final, fica a certeza que os actos têm muitas das vezes consequências, que a felicidade pode ser tão momentânea como o fumo que sai dos cigarros dos personagens, numa obra onde não falta ainda o consumo de álcool, mortes e uma cidade de Paris pontuada por uma enorme melancolia, com Louis Malle a ter uma estreia a solo para recordar na realização de longas-metragens, com "Ascenseur pour l'échafaud" a marcar o início de uma bela carreira.

Título original: "Ascenseur pour l'échafaud".
Título em Portugal: "Fim-de-Semana no Ascensor".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Noël Calef, Louis Malle e Roger Nimier.
Elenco: Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Georges Poujouly, Yori Bertin, Jean Wall, Iván Petrovich, Félix Marten, Lino Ventura.

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