O som da música jazz de Miles Davis adorna a narrativa e
atribui-lhe por vezes um sentimento de melancolia que se adapta na
perfeição à atmosfera de malaise que envolve o enredo de
"Ascenseur pour l'échafaud", a primeira longa-metragem de
ficção do realizador Louis Malle. Contemporâneo da Nouvelle Vague,
sem estar totalmente associado ao movimento, Malle parece ter "bebido" alguma da sua inspiração nos filmes noir dos EUA, transportando alguns dos seus elementos
para os cenários franceses, um pouco a fazer recordar obras como
"Touchez pas au grisbi", bem como alguns trabalhos de
Jean-Pierre Melville, tais como "Bob le Flambeur", onde a
atmosfera deste subgénero se encontra muito presente. É uma obra
onde não faltam elementos e temáticas dos filmes noir, tais como a
presença dos clubes nocturnos, os personagens de carácter dúbio,
muito fumo oriundo dos cigarros, o espaço urbano inseguro e
conspurcado pelo crime, a mulher fatal, o protagonista que se envolve em problemas, entre outros que pontuam um território
francês marcado pelas feridas do pós-Guerra e dos conflitos que
ainda se encontram a decorrer. Temos ainda uma boa utilização dos cenários exteriores, bem como a presença de um grupo de personagens relativamente à margem da sociedade que se preparam para conhecer uma série de episódios que certamente não estavam nos seus planos iniciais. Costuma-se dizer que os actos têm
consequências. No caso dos protagonistas de "Ascenseur pour
l'échafaud" esta velha máxima parece adequar-se na perfeição,
ainda que as consequências surjam por caminhos tortuosos e
inesperados. Dois dos protagonistas de "Ascenseur pour l'échafaud" são Florence Carala (Jeanne
Moreau) e Julien Tavernier (Maurice Ronet), um casal adúltero.
Florence é casada com Simon Carala (Jean Wall), um empresário de
sucesso, conhecido pelos negócios nem sempre claros, incluindo no
ramo do armamento. Julien é um ex-paraquedista que esteve na
Indochina e Argélia, a participar nos conflitos que envolveram a
França, tendo um caso com Florence, a esposa do seu chefe. Amam-se
mas não podem assumir publicamente a relação. Até são vistos
juntos mas, por alguma razão, pensam que a melhor maneira para
ficarem finalmente livres de Simon é eliminá-lo. Julien parece
temer este acto, embora lá se decida a pegar numa corda com um gancho, subir para o
andar superior ao seu escritório e eliminar o seu chefe. Desde as luvas, passando pelo
silêncio no cumprimento deste acto hediondo até ao posicionamento da arma como se Carala tivesse cometido um
suicídio, tudo parece ter sido pensado ao pormenor, embora a presença de um gato preto no local do crime indique que não vem
aí coisa boa. Julien ainda tem uma conversa com Carala, mas o
destino de ambos já estava traçado. O personagem interpretado por Maurice Ronet anseia ardentemente que a
polícia acredite na hipótese de Carala ter cometido suicídio, com o protagonista a
preparar-se para ir ao encontro da sua amada. Julien já se encontrava no seu
veículo descapotável quando reparou que não tirou a corda do
edifício. Percebe que fez merda e regressa rapidamente ao local
para tirar a corda. Não consegue. Tudo piora quando entra no
elevador e este trava devido ao sistema eléctrico ter sido
desligado, com Julien a passar a noite no local, a tentar sair do mesmo, enquanto procura encontrar
formas de escapar e ir ter com Florence.
A personagem interpretada por Jeanne Moreau desespera devido à falta de notícias por parte do amado. Os seus pensamentos são muitas das vezes expostos em off.
Quando vê o carro de Julien com a presença de uma mulher, Florence logo pensa que o amado está com
outra, embora se tenha esquecido de olhar com atenção para o interior do veículo. Dentro do carro de Julien encontravam-se Louis (Georges Poujouly),
um criminoso inconsequente e Véronique (Yori Bertin), uma florista
que admira o protagonista. Louis aproveitou o facto do ex-militar ter
regressado extemporaneamente ao edifício para roubar o carro e
passear com a namorada pelas estradas de Paris. Ah, a cidade do amor,
tão bela, mas ao mesmo tempo exposta com tanto desencanto e crueza,
onde um casal vive momentos ilusórios de felicidade, embora com
algum receio, num veículo furtado. Quando o veículo de Louis e Véronique embate no bólide de Horst Bencker (Iván
Petrovich) e a sua esposa Frieda (Elga Andersen), os dois casais acabam por meter conversa e formar uma estranha amizade e passar a noite num motel. Temos assim três planos da narrativa: Julien a procurar sair
do elevador e do edifício; Florence a deambular pela noite em busca
do amado em locais que este costuma frequentar; Louis e Véronique com
o casal alemão, registando-se no hotel como Sr. e SrªTavernier.
Escusado será dizer que nada vai terminar bem para os quatro
elementos. Louis é descoberto por Horst, acabando por eliminar este
último e Frieda. Julien é o principal suspeito do crime, com o
comissário Cherrier (Lino Ventura) a fazer de tudo para resolver o
caso. Entretanto o corpo do marido de Florence é encontrado. Nada de
bom se espera. A morte rodeia estes personagens. Foram estes que a
procuraram, seja por amor, ou puro receio de uma descoberta, ou
simples insensatez. No caso de Julien e Florence até parecemos estar
numa situação semelhante a "Double Indemnity", com Louis
Malle a explorar os efeitos que a segunda tem no antigo militar.
Amam-se ou pelo menos desejam-se a ponto de uma morte parecer algo de
razoável. Para a lei não é um acto justificável, algo que promete
tramar este casal. No início do filme, os close-ups sobre os seus
rostos enquanto comunicam ao telefone, expõem o sentimento de
urgência que Julien e Florence apresentam para colocar o assassinato em prática e
finalmente poderem ficar juntos. Jeanne Moreau, uma actriz de enorme
talento, tem em Florence uma das primeiras personagens de grande
destaque da sua carreira. Esta é bela, elegante, apaixonada e ao
mesmo tempo fria, procurando que o amante faça o trabalho sujo por
si e elimine Simon. Durante a noite, chuvosa e fria como não poderia
deixar de ser num filme com características negras, encontramos esta
mulher a caminhar, a passar por bares, a procurar aquele que não
encontra, o seu amante. Maurice Ronet tem em Julien um personagem que
pode ter contado com treino militar e parecer algo frio mas é capaz
de cometer erros básicos com uma facilidade impressionante, algo que
lhe vai custar bastante caro. É um elemento típico dos filmes noir, um indivíduo moralmente ambíguo, com uma enorme facilidade em envolver-se em problemas, que cai nas garras da figura
feminina. A Georges
Poujouly cabe ficar com o papel de um assaltante de meia-tigela, que rouba um
carro com enorme facilidade, mas parece esquecer as consequências deste acto, sendo
ainda avisado por Véronique embora esta até acabe por aderir à
festa.
A noite destes dois casais é marcada por alguma ironia por
parte do destino (ou se preferirem, por parte do trio de argumentistas): Louis e Véronique encontram-se juntos mas dois actos
criminosos prometem colocar essa união em perigo; Julien e Florence
anseiam reunir-se mas tardam em conseguir contactar um com o outro,
com o primeiro a encontrar-se preso num elevador durante boa parte da
noite. Ambos os elementos dos casais cometeram actos reprováveis,
enquanto Louis Malle diverte-se a
despertar a dúvida em relação ao futuro do quarteto. Ficamos diante de quatro personagens que influenciam o destino uns dos outros, ainda que por meios pouco lineares, com Louis
Malle a tecer uma teia narrativa bem ao estilo dos filmes noir, sempre com
uma enorme competência, ritmo e um tom deliciosamente negro. Não existe espaço para a
felicidade. Esta até pode aparecer mas é temporária, com a música
de Miles Davis a adornar o enredo e o poder da fotografia a ser
exibido de uma forma que provavelmente não esperaríamos. É uma
obra com uma cinematografia pronta a explorar esta atmosfera de desencanto que envolve a narrativa, com Louis Malle a não poupar em alguns momentos de tensão e inquietação. Veja-se quando encontramos Julien preso no elevador ou o interrogatório a que este
é sujeito, já para não falar do momento em que Louis dispara contra os alemães. Frieda e Horst até formavam um casal simpático,
longe de apreciarem a guerra, mas acabam por ser baleados como se
fossem dois germânicos prontos a ocuparem a França em plena II
Guerra Mundial. Pelo caminho, Louis Malle fala-no da Guerra da
Argélia, da venda de armas e da insegurança, do clima algo
pessimista que rodeia França, ainda que subtilmente, através destes
quatro personagens de carácter duvidoso. A Lino Ventura cabe
interpretar um intrépido e sagaz polícia que aos poucos começa a
deslindar o caso e a reunir as peças do puzzle que nem era assim tão
fácil de montar. O elenco é competente, com nomes como Jeanne
Moreau, Maurice Ronet, Lino Ventura e companhia a sobressaírem, com
a primeira a surgir como uma colaboradora habitual de Louis Malle. No
final, fica a certeza que os actos têm muitas das vezes
consequências, que a felicidade pode ser tão momentânea como o
fumo que sai dos cigarros dos personagens, numa obra onde não falta
ainda o consumo de álcool, mortes e uma cidade de Paris pontuada por uma enorme melancolia, com Louis Malle a ter
uma estreia a solo para recordar na realização de longas-metragens,
com "Ascenseur pour l'échafaud" a marcar o início de uma
bela carreira.
Título original: "Ascenseur pour l'échafaud".
Título em Portugal: "Fim-de-Semana no Ascensor".
Realizador: Louis Malle.
Argumento: Noël Calef, Louis Malle e Roger Nimier.
Elenco:
Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Georges Poujouly, Yori Bertin, Jean Wall, Iván Petrovich, Félix Marten, Lino Ventura.

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