04 novembro 2015

Resenha Crítica: "Annie Hall" (1977)

 "Annie Hall" desarma-nos com o seu humor inteligente, com as situações memoráveis que nos apresenta, com os diálogos aprumados que tanto têm de mordazes como de existencialistas e non sense, enquanto Woody Allen interpreta um personagem muito associado à sua figura. Não deixa de ser irónico encontrar Alvy Singer (Woody Allen), o protagonista, a criticar o excesso de prémios que existem, um sentimento que parece inerente a Woody Allen, embora "Annie Hall" tenha sido amplamente premiado pela Academia, tendo recebido o Oscar em categorias como Melhor Filme, Melhor Actriz, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original, algo que não é sinónimo imediato de qualidade mas exibe paradigmaticamente o apelo gerado por esta obra cinematográfica. "Annie Hall" é uma das várias provas da genialidade de Woody Allen quer nos timings para o humor, quer a interpretar figuras que facilmente despertam a nossa atenção pelo estilo peculiar e auto-depreciativo, quer pela inteligência dos diálogos, quer pela personagem feminina complexa, quer pelos momentos ou falas que teimam em permanecer na nossa memória. Veja-se quando encontramos Alvy Singer irritado na fila para uma sessão de cinema, tendo em vista a assistir a "Le chagrin et la pitié", um documentário realizado por Marcel Ophüls. A irritação deve-se ao facto de ter de aturar um professor universitário, situado um pouco atrás de si, que se encontra a despejar as suas opiniões pueris sobre os trabalhos de Federico Fellini, Samuel Beckett e Marshall McLuhan. Alvy demonstra o seu desagrado junto de Annie, mas também do espectador, numa das várias cenas em que a quarta parede é quebrada e o protagonista dirige-se directamente ao público. O académico percebe a crítica e riposta, algo que conduz Alvy a trazer o próprio Marshall McLuhan para esclarecer de uma vez por todas que o professor universitário não percebe nada sobre o trabalho deste último. É um momento genial, simultaneamente inteligente e absurdo, com a participação de Marshall McLuhan a contribuir para conceder um condimento especial a este trecho. A introdução de "Le chagrin et la pitié" na narrativa, um documentário apoiado por Woody Allen, que aborda temáticas como o anti-semitismo, remete para a forte identidade judaica de Alvy, com o próprio a sentir-se muitas das vezes alvo de perseguições. Alvy Singer é um humorista de origens judaicas, que chegou recentemente aos quarenta anos de idade e enfrenta o facto da sua relação com Annie Hall (Diane Keaton) ter chegado ao fim, com a narrativa a iniciar com duas piadas do protagonista acompanhadas pelo comentário de ainda não se ter habituado à separação. Alvy é um indivíduo inseguro, sarcástico, culto, nervoso, marcado por um humor auto-depreciativo, pessimista em relação à vida, com pouca paciência para aturar boa parte da Humanidade, que gosta de Nova Iorque, uma cidade por vezes tão cinzenta e tão viva como a sua mente. As teorias da conspiração fazem parte do prato do dia de Alvy, com a sua insegurança a ser ainda visível quando tem de entrar num espectáculo a seguir a um comediante que foi bem sucedido na tarefa de fazer rir o público, com o protagonista a temer não ter o mesmo êxito apesar de se soltar facilmente em palco.

Os dois casamentos de Alvy falharam, tal como a relação com Annie, uma aspirante a actriz que canta em clubes nocturnos para ganhar a vida. Annie é mais optimista em relação à vida e ao mundo que a rodeia do que Alvy, gosta de experimentar coisas novas, não tem grande apetência para a condução e inicialmente não apresenta a mesma bagagem cultural que o personagem interpretado por Woody Allen, algo que conduz este último a oferecer-lhe obras literárias que contenham temáticas sobre a morte, para além de instigar esta mulher a frequentar cursos livres e uma psicanalista recomendada pelo seu especialista. Alvy frequenta um psicanalista há quinze anos (não poderiam faltar os personagens com neuroses num filme de Allen), embora quem apresente progressos seja Annie, com os dois a unirem-se e a separarem-se ao longo do filme. A estrutura de "Annie Hall" nem sempre é linear. Veja-se que apenas conhecemos os momentos em que Annie e Alvy se conheceram depois de sabermos que se separaram, com os dois a encontrarem-se pela primeira vez num jogo de ténis onde também se encontrava Rob (Tony Roberts), um amigo do protagonista e Janet, uma conhecida dos personagens interpretados por Roberts e Keaton. Annie teve relações pouco frutíferas no passado, tal como Alvy, expostas em flashbacks, com ambos a apresentarem uma enorme inabilidade para meterem conversa de início, embora o segundo facilmente entre em divagações. A certa altura encontramos Alvy a falar sobre as fotografias tiradas por Annie, com a dupla a dialogar, enquanto as imagens em movimento são acompanhadas por legendas que exibem aquilo que o comediante e a personagem interpretada por Diane Keaton se encontram realmente a pensar (os diálogos podem ser consultados no Film Site), com "Annie Hall" a surgir como um pedaço hilariante de cinema, onde as relações humanas são abordadas de forma mordaz, a cidade de Nova Iorque é simultaneamente idolatrada e criticada, a televisão e os grandes prémios são alvo de desprezo por parte do protagonista, com este a procurar efectuar humor inteligente e a desprezar o glamour e os políticos. Diga-se que Woody Allen desarma-nos muitas das vezes com as falas que profere, sejam estas tão simples e hilariantes como "Não fales mal da masturbação. É sexo com uma pessoa que eu amo"; ligadas a um passado negro da nossa História: "A minha avó nunca me dava presentes. Estava ocupada a ser violada pelos Cossacos"; ou de teor político: "Em Harvard também se enganam. O Kissinger ensinou lá"; ou mais profundas, que remetem para a inteligência que o cineasta, realizador e argumentista incute a "Annie Hall": "Lembrei-me da velha piada, do indivíduo que vai ao psiquiatra e diz: 'Doutor, o meu irmão é maluco. Acha que é uma galinha.' E o médico pergunta: 'Por que é que não o interna?'. E ele responde: 'Até faria, mas preciso dos ovos'. É mais ou menos o que sinto sobre as relações entre as pessoas. São totalmente irracionais, loucas e absurdas. Mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos". Esta última fala diz muito da visão do Mundo de Woody Allen e de Alvy, simultaneamente pragmática e romântica, mas também das relações entre os seres humanos, já que, tal como aquele indivíduo, também precisamos dos ovos, independentemente das virtudes e defeitos de cada um. Quando um está podre sai fora, mas é impossível vivermos sem estes ovos, tal como é-me praticamente impossível deixar de admirar o estilo de humor de Woody Allen. Em "Annie Hall" estamos diante de um Woody Allen vintage, que parece melhorar a cada visualização, conseguindo espelhar na plenitude algumas das qualidades que o exibem como um dos grandes cineastas e argumentistas em actividade.

O enredo decorre durante boa parte do tempo em Nova Iorque, uma cidade onde Woody Allen filmou diversas obras, tais como "Manhattan", “Hanna and Her Sisters”, "Crimes and Misdemeanors", entre tantas outras, com o protagonista a parecer apreciar genuinamente a mesma, apesar de não ter problemas em colocar defeitos à "Big Apple". Não faltam pelo meio diversas menções a obras cinematográficas quer a "The Godfather", quer a "Le chagrin et la pitié", quer aos trabalhos de Federico Fellini, num filme que não tem problemas em atirar com as referências, independentemente do espectador perceber as mesmas ou não, embora estas sejam apenas um dos vários condimentos de uma película que tem como um dos pontos altos a dinâmica entre Woody Allen e Diane Keaton. A actriz colaborou com o cineasta em oito obras cinematográficas, tendo em Annie Hall uma personagem marcante. Annie é uma cantora e aspirante a actriz com uma maneira por vezes peculiar de falar, cuja evolução ao longo da narrativa acaba por conduzi-la a afastar-se de Alvy, com os dois a terem simultaneamente muito e pouco em comum. Annie evoluiu ao longo da narrativa, com a sua ida para Los Angeles, tendo em vista a procurar seguir carreira no mundo da música, após o convite do produtor musical Tony Lacey (Paul Simon), a contribuir ainda mais para essa libertação. É o momento para a personagem interpretada por Diane Keaton sair da sombra de Alvy, indo gradualmente assumir o seu estatuto e personalidade, com "Annie Hall" a estabelecer de forma natural o início e o final desta relação, apesar do protagonista ter algumas dificuldades iniciais em lidar com o afastamento e as incompatibilidades que foram surgindo ou crescendo com o passar do tempo. Inicialmente pretende uma relação livre, não tendo grande vontade em ver Annie a morar na sua casa mas, aos poucos, não parece poder viver sem esta. Os dois tanto protagonizam momentos de alguma aproximação como se afastam, com a personalidade do personagem interpretado por Woody Allen a não ajudar muitas das vezes à situação, ou este não fosse um indivíduo que coloca a sua opinião acima de quase tudo e todos, embora tema perder Annie, algo que acaba por acontecer, apesar de se congratular por ter contribuído para mudar os gostos desta mulher. As relações humanas e a forma como o contacto com outras pessoas muda a nossa vida surgem como temáticas exploradas ao longo do filme, algo notório na dinâmica entre Alvy e Annie, com estes dois a parecerem ter muito dos seus intérpretes, ou ambos não tivessem partilhado uma relação profissional (e pessoal) bastante próxima e profícua que contribuiu para o enorme à vontade entre a dupla de protagonistas.

O filme conta ainda com uma série de personagens secundários que conseguem sobressair em alguns momentos da narrativa, tais como Duane (Christopher Walken), o irmão de Annie, um indivíduo introvertido de características algo suicidas; Pam (Shelley Duvall), uma jornalista da Rolling Stone com quem o protagonista chega a sair, que descreve o acto sexual com este como uma "experiência kafkiana"; Rob, um actor, um dos poucos amigos de Alvy, embora os maiores destaques sejam mesmo este último e Annie Hall. Apesar de já ter contado com dois casamentos e alguns relacionamentos, Alvy parece continuamente inseguro em relação às figuras femininas e em relação a si próprio, apesar de se manter fiel aos seus ideais, considerando que a "vida se divide entre o horrível e o miserável". "Annie Hall" conta ainda com diversos comentários de Woody Allen sobre o trabalho académico, algo expresso em algumas falas de Alvy, quer no diálogo com o professor universitário, quer quando questiona a interpretação que os universitários efectuaram sobre os trabalhos de Sylvia Plath, com o realizador a não ter problemas em abordar temáticas que vão desde a situação mais existencialista até à mais banal. Diga-se que Alvy tanto elogia o público académico que frequenta os seus espectáculos, como crítica as análises efectuadas pelos intelectuais, algo mais uma vez revelador das contradições desta figura complexa, algo neurótica, sarcástica, pessimista e romântica (ainda que num jeito muito próprio). No entanto, o que mais surpreende ao longo do filme é a criatividade com que Woody Allen explora a sua persona cinematográfica e as relações humanas, inserindo referências de forma amiúde, utilizando split screens para explorar as diferentes interpretações que os homens e as mulheres têm de um relacionamento, não faltando ainda uma alma a soltar-se do corpo num momento de sexo, com tudo a funcionar de forma sublime, naquela que é uma das comédias preferidas desta pessoa. “Annie Hall” conta ainda com vários elementos que são transversais a diversas obras do cineasta, tais como as relações intrincadas entre homens e mulheres, a utilização do espaço da cidade de Nova Iorque, as referências cinéfilas, os personagens ligados ao meio artístico, as falas mordazes que ficam na memória, as frustrações de cariz sexual, entre outras. Inteligente, mordaz, marcado por falas e cenas que facilmente ficam na memória, "Annie Hall" explana de forma sublime a multitude de razões que o tornaram num dos filmes mais populares e elogiados da carreira de Woody Allen, com este a dotar a obra cinematográfica de momentos de pura genialidade.

Título original: "Annie Hall".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen e Marshall Brickman
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Janet Margolin, Shelley Duvall, Christopher Walken, Colleen Dewhurst.

2 comentários:

ajanelaencantada disse...

É o filme em que tudo em Woody Allen bate certo. Um dos meus preferidos de sempre. Do humor ao olhar auto-crítico, da contemplação do mundo em redor, às diferentes técnicas narrativas experimentadas (quebrar da quarta parede, legendas que descrevem pensamentos, entrevistas de rua, etc.), é uma enciclopédia. Já o vi tantas vezes que ando sempre a citá-lo.

Aníbal Santiago disse...

É um dos meus filmes preferidos do Woody Allen. Tudo parece funcionar na perfeição. Falo por mim, quanto mais vezes revejo o filme, mais gosto do mesmo.