24 novembro 2015

Resenha Crítica: "Anatomy of a Murder" (1959)

 Existem filmes que parecem ter o condão de revigorar a minha paixão pela Sétima Arte. "Anatomy of a Murder" é um desses casos. Confesso que já não visionava o filme há uns quantos anos, embora mantivesse diversos dos seus momentos gravados na memória. Ao voltar a cruzar-me com "Anatomy of a Murder" não só fiquei com uma vontade irresistível de voltar a visualizar o mesmo, mas também com a certeza que nunca conseguirei efectuar justiça ao brilhantismo desta obra-prima de Otto Preminger. O cineasta controla os ritmos da narrativa com uma perícia ao alcance de poucos, transforma um julgamento em tribunal em algo de intenso e memorável onde James Stewart tem espaço para nos brindar com uma grande interpretação, explora de forma assertiva o trabalho relacionado com o exercício da advocacia e a necessidade dos advogados terem um controlo exímio no discurso, para além de brindar o espectador com um final recheado de incertezas que se conjuga na perfeição com o rumo tomado pelo enredo de "Anatomy of a Murder". A certa altura de "Anatomy of a Murder" encontramos o tenente Frederick Manion (Ben Gazzara) a ser julgado em tribunal, enquanto é defendido com enorme engenho, garra e inteligência por Paul Biegler (James Stewart), um advogado perspicaz que não quer perder o controlo de nada. O início do julgamento é desde logo marcado pela estratégia de Biegler em lançar alguns argumentos que não são considerados válidos em tribunal, embora fiquem na memória do júri. A certa altura encontramos Manion a colocar a seguinte questão a Biegler: "Como é que um júri pode ignorar o que já ouviu?". Biegler responde com enorme segurança: "Não pode". Numa simples troca de palavras percebemos que Otto Preminger pretende inculcar uma enorme complexidade a este julgamento, ao mesmo tempo que cria alguns momentos emocionalmente potentes, inesquecíveis e reveladores da qualidade do argumento de Wendell Mayes, do controlo do cineasta e do nível elevado dos intérpretes. Entram e saem testemunhas, os advogados trocam acusações de forma acalorada, as emoções são expostas de forma fervilhante, enquanto as dúvidas em relação ao carácter de Manion são mais do que muitas, com Biegler a ter que jogar com os meios legais disponíveis para que o seu cliente seja considerado inocente. Frederick Manion eliminou "Barney" Quill, disparando cinco tiros sobre este indivíduo, após saber que este violou e espancou a sua esposa. É exactamente Laura Manion (Lee Remick), a esposa de Frederick que contacta Paul Biegler, tendo em vista a que o advogado defenda o esposo em tribunal. Paul é um antigo procurador do Ministério Público, agora um advogado de pouca monta, que tem na pesca e no acto de tocar piano alguns dos seus hobbies. James Stewart desperta facilmente a nossa simpatia como este indivíduo simples, aparentemente sem grande experiência a trabalhar na defesa de clientes em tribunal, tendo em Parnell McCarthy (Arthur O'Connell), um advogado beberrão, um dos seus poucos amigos. Parnell não exerce o seu ofício, embora facilmente se torne num apoio para Paul, com este último a contar ainda com a companhia de Maida Rutledge (Eve Arden), a sua secretária, uma mulher sardónica, de forte personalidade, que é fiel ao seu chefe embora conte com ordenados em atraso.

 Os momentos iniciais de "Anatomy of a Muder" até são de alguma leveza, com Otto Preminger a estabelecer desde logo o protagonista e o meio que o rodeia. A habitação de Paul surge também como o local de trabalho, um espaço que conta com a presença de um piano, diversos livros, um frigorífico recheado de peixe, com este cenário a exibir a simplicidade deste advogado sem dinheiro para grandes luxos. O caso de Frederick Manion promete ser um desafio para Biegler. Paul tem consciência que é complicado defender um indivíduo que eliminou outro, com o próprio protagonista a salientar que a lei invisível não conta embora, na prática, o personagem interpretado por James Stewart procure explorar a mesma. A juntar a essa dificuldade, a personalidade de Paul e a do seu cliente são dicotómicas, algo que explica a irrisão inicial entre ambos. Ben Gazzara incute sempre algum mistério ao personagem que interpreta, uma figura que nunca consegue despertar a nossa confiança, embora Paul tudo faça para o defender em tribunal, ou não fosse um advogado profissional que procura dar o seu melhor para vencer o caso. James Stewart volta a exibir o seu enorme carisma em "Anatomy of a Murder", com o actor a interpretar um advogado, tal como em "The Man Who Shot Liberty Valance", tendo desempenhos assinaláveis em ambos os filmes. O actor consegue sobressair quer nas cenas onde encontramos o advogado a investigar elementos relevantes para o caso, quer nos momentos no tribunal, onde nos brinda com um espectáculo de interpretação. É simplesmente fascinante assistir ao "duelo" entre Paul e Claude Dancer, com James Stewart e George C. Scott a proporcionarem momentos de enorme intensidade. Stewart berra, gesticula, manda pancadas na mesa, com Paul a utilizar metáforas e a memória do júri para ganhar ascendente sobre o rival, enquanto Scott apresenta um atitude menos temperamental mas igualmente estudiosa como um elemento que promete dificultar os planos do protagonista. A certa altura ouvimos Paul a salientar o seguinte: "Sou só um humilde advogado do interior, a dar o melhor contra este brilhante promotor público da grande cidade de Lansing". Um "simples" diálogo permite elogiar o adversário e jogar com o gosto que o júri pode ter pelos underdogs, algo que Paul adensa ao expor a sua desvantagem, embora as suas atitudes indiquem que estamos diante de um advogado competente. Tem uma interpretação menos apolínea da lei do que Ransom, o personagem que James Stewart interpretou em "The Man Who Shot Liberty Valance", com Paul a ter a noção de que para ganhar nem sempre é possível jogar limpo ou defender algo em que se acredita. Este julgamento surge ainda dotado de alguns elementos negros, ou não soubéssemos que um advogado se encontra a defender um indivíduo que cometeu assassinato. Frederick e Paul aproveitam o facto do médico do exército ter diagnosticado que o primeiro teve uma "reacção dissociativa", ou seja, um "impulso irresistível", com o protagonista a jogar parte das suas fichas no folclore que cria em volta do julgamento e no argumento da insanidade temporária. Diga-se que a procura de Paul em controlar o júri é ainda visível na forma como Laura Manion surge vestida no julgamento, com esta a aparecer inicialmente mais recatada, de óculos e chapéu a tapar os seus belos cabelos, algo que contrasta por completo com aquilo que tínhamos conhecido desta personagem. Lee Remick incute uma enorme sensualidade e safadeza a Laura, uma mulher que gosta de dar nas vistas, algo visível nos seus comportamentos e nas suas vestes apertadas, com esta a insinuar-se ao advogado embora ambos nunca cheguem a avançar para um envolvimento. Laura conta quase sempre com a companhia do seu cão, surgindo inicialmente acompanhada pelos seus óculos escuros para esconder as nódoas negras nas imediações dos olhos, algo que aconteceu supostamente devido à agressão de Quill (é impossível não desconfiar que este acto poderá ter sido cometido pelo esposo), com esta figura feminina a contar ainda com um lado mais frágil e ambíguo.

 A personagem interpretada por Lee Remick é uma das várias figuras chamadas a testemunhar, com o argumento a explorar as mesmas ao longo destes momentos no tribunal. Veja-se o caso de Mary Pilant (Kathryn Grant), a herdeira de Quill, uma mulher que guarda alguns segredos em relação à identidade do seu pai, ou Al Paquette, (Murray Hamilton), o empregado do bar do suposto violador. Temos ainda o Juiz Weaver (Joseph N. Welch), um indivíduo que nem sempre consegue colocar ordem no tribunal, um espaço onde assistimos a trocas de argumentos que permitem expor as diferentes interpretações que cada elemento tem do caso. Não faltam argumentos a serem esgrimidos no tribunal, enquanto Otto Preminger aborda estes momentos com um enorme realismo, pelo menos no contexto do enredo, com o cineasta a elaborar alguns trechos intensos e memoráveis. Diga-se que "Anatomy of a Murder" conta ainda com diversos elementos que despertam a nossa atenção: a cinematografia pontuada por enorme elegância, um eficiente trabalho de montagem, uma banda sonora notável por parte de Duke Ellington (recheada de temas de jazz), uma boa utilização dos cenários naturais, diversas interpretações positivas por parte do elenco, para além da sequência de créditos iniciais da autoria de Saul Bass. "Anatomy of a Murder" é ainda considerado um dos primeiros filme de carácter mainstream a abordar temáticas como violação e o sexo de forma relativamente aberta nos EUA, com o argumento a ter sido inspirado na obra literária homónima da autoria de John D. Voelker. O livro foi inspirado num caso real, enquanto somos colocados diante de uma obra cinematográfica dotada de alguma complexidade, que exibe tanto o lado positivo como as possíveis falhas dos julgamentos em tribunal ao mesmo tempo que Otto Preminger parece tirar o melhor que os seus actores e actrizes têm para dar. Veja-se as dúvidas que Ben Gazzara nos desperta ao longo do enredo, com o personagem que interpreta a parecer ter um lado negro que o actor procura deixar implícito, ou os casos já citados de James Stewart e Lee Remick. A relação entre os personagens interpretados por Gazzara e Remick parece ser mais complicada do que aparenta, tal como as personalidades de Frederick e Laura surgem marcadas por enorme ambiguidade. Quem não pareceu ter dúvidas foi Otto Preminger que apresenta uma confiança notória a realizar uma das suas obras-primas, com o cineasta a ter ainda a coragem de desafiar as limitações do Código Hays, algo salientado por Nick Pinkerton no seu artigo para o site da Criterion: "Preminger had done much to open the market to the free trade of ideas by 1959. The Production Code Administration’s authority had receded to such a degree that Anatomy of a Murder, with its talk of panties, its dozens of rapes and even a bitch, arrived in theaters with the Code’s blessing". O cineasta aborda ainda situações mais leves, tais como a amizade entre o protagonista e Parnell, com estes a habitarem na Península Superior do Michigan, um espaço onde tanto Paul pode pescar alegremente como pode ocorrer uma violação e um assassinato brutal. Diga-se que Preminger filmou "Anatomy of a Murder" no território onde se desenrola parte do enredo, algo salientado no site do AFI: "(...) the film was shot entirely on location in the Ishpeming-Marquette area of Michigan (...) The courtroom, jail and hospital scenes were shot in their actual counterparts in Marquette. Paul Bielger’s office was Voelker’s actual law office in Ishpeming". Com uma controlo notável dos ritmos da narrativa, uma interpretação de grande nível por parte de James Stewart, uma representação realista e complexa de um julgamento em tribunal, "Anatomy of a Murder" surge como um exemplar memorável da carreira de Otto Preminger, com o cineasta a efectuar uma obra cinematográfica que roça a perfeição.

Título original: "Anatomy of a Murder".
Título em Portugal: "Anatomia de Um Crime".
Realizador: Otto Preminger.
Argumento: Wendell Mayes.
Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzara, Arthur O'Connell, George C. Scott.

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