Existem filmes que parecem ter o condão de revigorar a minha
paixão pela Sétima Arte. "Anatomy of a Murder" é um
desses casos. Confesso que já não visionava o filme há uns quantos
anos, embora mantivesse diversos dos seus momentos gravados na
memória. Ao voltar a cruzar-me com "Anatomy of a Murder"
não só fiquei com uma vontade irresistível de voltar a visualizar
o mesmo, mas também com a certeza que nunca conseguirei efectuar
justiça ao brilhantismo desta obra-prima de Otto Preminger. O
cineasta controla os ritmos da narrativa com uma perícia ao alcance de poucos, transforma um
julgamento em tribunal em algo de intenso e memorável onde James
Stewart tem espaço para nos brindar com uma grande interpretação, explora
de forma assertiva o trabalho relacionado com o exercício da
advocacia e a necessidade dos advogados terem um controlo
exímio no discurso, para além de brindar o espectador com um final
recheado de incertezas que se conjuga na perfeição com o rumo tomado pelo enredo de "Anatomy
of a Murder". A certa altura de "Anatomy of a Murder"
encontramos o tenente Frederick Manion (Ben Gazzara) a ser julgado em
tribunal, enquanto é defendido com enorme engenho, garra e
inteligência por Paul Biegler (James Stewart), um advogado perspicaz
que não quer perder o controlo de nada. O início do julgamento é
desde logo marcado pela estratégia de Biegler em lançar alguns
argumentos que não são considerados válidos em tribunal, embora
fiquem na memória do júri. A certa altura encontramos Manion a
colocar a seguinte questão a Biegler: "Como é que um júri
pode ignorar o que já ouviu?". Biegler responde com enorme
segurança: "Não pode". Numa simples troca de palavras
percebemos que Otto Preminger pretende inculcar uma enorme
complexidade a este julgamento, ao mesmo tempo que cria alguns
momentos emocionalmente potentes, inesquecíveis e reveladores da
qualidade do argumento de Wendell Mayes, do controlo do cineasta e do
nível elevado dos intérpretes. Entram e saem testemunhas, os
advogados trocam acusações de forma acalorada, as emoções são
expostas de forma fervilhante, enquanto as dúvidas em relação ao
carácter de Manion são mais do que muitas, com Biegler a ter que
jogar com os meios legais disponíveis para que o seu cliente seja
considerado inocente. Frederick Manion eliminou "Barney"
Quill, disparando cinco tiros sobre este indivíduo, após saber que
este violou e espancou a sua esposa. É exactamente Laura Manion (Lee
Remick), a esposa de Frederick que contacta Paul Biegler, tendo em
vista a que o advogado defenda o esposo em tribunal. Paul é um
antigo procurador do Ministério Público, agora um advogado de pouca
monta, que tem na pesca e no acto de tocar piano alguns dos seus
hobbies. James Stewart desperta facilmente a nossa simpatia como este
indivíduo simples, aparentemente sem grande experiência a trabalhar
na defesa de clientes em tribunal, tendo em Parnell McCarthy (Arthur
O'Connell), um advogado beberrão, um dos seus poucos amigos. Parnell
não exerce o seu ofício, embora facilmente se torne num apoio para
Paul, com este último a contar ainda com a companhia de Maida
Rutledge (Eve Arden), a sua secretária, uma mulher sardónica, de forte personalidade, que é fiel ao seu chefe embora conte com
ordenados em atraso.
Os momentos iniciais de "Anatomy of a Muder" até
são de alguma leveza, com Otto Preminger a estabelecer desde logo o
protagonista e o meio que o rodeia. A habitação de Paul surge
também como o local de trabalho, um espaço que conta com a presença
de um piano, diversos livros, um frigorífico recheado de peixe, com
este cenário a exibir a simplicidade deste advogado sem dinheiro
para grandes luxos. O caso de Frederick Manion promete ser um desafio
para Biegler. Paul tem consciência que é complicado defender um indivíduo que
eliminou outro, com o próprio protagonista a salientar que a lei
invisível não conta embora, na prática, o personagem interpretado por James Stewart procure explorar a
mesma. A juntar a essa dificuldade, a personalidade de Paul e a do
seu cliente são dicotómicas, algo que explica a irrisão inicial
entre ambos. Ben Gazzara incute sempre algum mistério ao personagem
que interpreta, uma figura que nunca consegue despertar a nossa
confiança, embora Paul tudo faça para o defender em tribunal, ou
não fosse um advogado profissional que procura dar o seu melhor para
vencer o caso. James Stewart volta a exibir o seu enorme carisma em
"Anatomy of a Murder", com o actor a interpretar um
advogado, tal como em "The Man Who Shot Liberty Valance",
tendo desempenhos assinaláveis em ambos os filmes. O actor consegue
sobressair quer nas cenas onde encontramos o advogado a investigar
elementos relevantes para o caso, quer nos momentos no tribunal, onde
nos brinda com um espectáculo de interpretação. É simplesmente
fascinante assistir ao "duelo" entre Paul e Claude Dancer,
com James Stewart e George C. Scott a proporcionarem momentos de
enorme intensidade. Stewart berra, gesticula, manda pancadas na mesa,
com Paul a utilizar metáforas e a memória do júri para ganhar ascendente sobre
o rival, enquanto Scott apresenta um atitude menos temperamental mas
igualmente estudiosa como um elemento que promete dificultar os
planos do protagonista. A certa altura ouvimos Paul a salientar o
seguinte: "Sou só um humilde advogado do interior, a dar o
melhor contra este brilhante promotor público da grande cidade de
Lansing". Um "simples" diálogo permite elogiar o adversário e
jogar com o gosto que o júri pode ter pelos underdogs, algo que
Paul adensa ao expor a sua desvantagem, embora as suas atitudes indiquem que estamos diante de um advogado competente. Tem uma interpretação menos apolínea da lei do que Ransom, o personagem que James
Stewart interpretou em "The Man Who Shot Liberty Valance",
com Paul a ter a noção de que para ganhar nem sempre é possível
jogar limpo ou defender algo em que se acredita. Este julgamento
surge ainda dotado de alguns elementos negros, ou não soubéssemos
que um advogado se encontra a defender um indivíduo que cometeu
assassinato. Frederick e Paul aproveitam o facto do médico do
exército ter diagnosticado que o primeiro teve uma "reacção
dissociativa", ou seja, um "impulso irresistível", com
o protagonista a jogar parte das suas fichas no folclore que cria em
volta do julgamento e no argumento da insanidade temporária. Diga-se
que a procura de Paul em controlar o júri é ainda visível na forma
como Laura Manion surge vestida no julgamento, com esta a aparecer inicialmente mais
recatada, de óculos e chapéu a tapar os seus belos cabelos, algo
que contrasta por completo com aquilo que tínhamos conhecido desta
personagem. Lee Remick incute uma enorme sensualidade e safadeza a
Laura, uma mulher que gosta de dar nas vistas, algo visível nos seus
comportamentos e nas suas vestes apertadas, com esta a insinuar-se ao
advogado embora ambos nunca cheguem a avançar para um envolvimento.
Laura conta quase sempre com a companhia do seu cão, surgindo
inicialmente acompanhada pelos seus óculos escuros para esconder as
nódoas negras nas imediações dos olhos, algo que aconteceu supostamente devido à
agressão de Quill (é impossível não desconfiar que este acto
poderá ter sido cometido pelo esposo), com esta figura feminina a
contar ainda com um lado mais frágil e ambíguo.
A personagem interpretada por Lee Remick é uma das várias
figuras chamadas a testemunhar, com o argumento a explorar as mesmas
ao longo destes momentos no tribunal. Veja-se o caso de Mary Pilant
(Kathryn Grant), a herdeira de Quill, uma mulher que guarda alguns
segredos em relação à identidade do seu pai, ou Al Paquette,
(Murray Hamilton), o empregado do bar do suposto violador. Temos
ainda o Juiz Weaver (Joseph N. Welch), um indivíduo que nem sempre
consegue colocar ordem no tribunal, um espaço onde assistimos a
trocas de argumentos que permitem expor as diferentes interpretações
que cada elemento tem do caso. Não faltam argumentos a serem
esgrimidos no tribunal, enquanto Otto Preminger aborda estes momentos
com um enorme realismo, pelo menos no contexto do enredo, com o
cineasta a elaborar alguns trechos intensos e memoráveis. Diga-se
que "Anatomy of a Murder" conta ainda com diversos
elementos que despertam a nossa atenção: a cinematografia pontuada
por enorme elegância, um eficiente trabalho de montagem, uma banda
sonora notável por parte de Duke Ellington (recheada de temas de
jazz), uma boa utilização dos cenários naturais, diversas
interpretações positivas por parte do elenco, para além da
sequência de créditos iniciais da autoria de Saul Bass. "Anatomy
of a Murder" é ainda considerado um dos primeiros filme de
carácter mainstream a abordar temáticas como violação e o sexo de
forma relativamente aberta nos EUA, com o argumento a ter sido inspirado na
obra literária homónima da autoria de John D. Voelker. O livro foi
inspirado num caso real, enquanto somos colocados diante de uma obra
cinematográfica dotada de alguma complexidade, que exibe tanto o
lado positivo como as possíveis falhas dos julgamentos em tribunal
ao mesmo tempo que Otto Preminger parece tirar o melhor que os seus
actores e actrizes têm para dar. Veja-se as dúvidas que Ben Gazzara
nos desperta ao longo do enredo, com o personagem que interpreta a
parecer ter um lado negro que o actor procura deixar implícito, ou
os casos já citados de James Stewart e Lee Remick. A relação entre
os personagens interpretados por Gazzara e Remick parece ser mais
complicada do que aparenta, tal como as personalidades de Frederick e
Laura surgem marcadas por enorme ambiguidade. Quem não pareceu ter
dúvidas foi Otto Preminger que apresenta uma confiança notória a
realizar uma das suas obras-primas, com o cineasta a ter ainda a
coragem de desafiar as limitações do Código Hays, algo salientado
por Nick Pinkerton no seu artigo para o site da Criterion: "Preminger
had done much to open the market to the free trade of ideas by 1959.
The Production Code Administration’s authority had receded to such
a degree that Anatomy of a Murder, with its talk of panties, its
dozens of rapes and even a bitch, arrived in theaters with the Code’s
blessing". O cineasta aborda ainda situações mais leves,
tais como a amizade entre o protagonista e Parnell, com estes a
habitarem na Península Superior do Michigan, um espaço onde tanto
Paul pode pescar alegremente como pode ocorrer uma violação e um
assassinato brutal. Diga-se que Preminger filmou "Anatomy of a
Murder" no território onde se desenrola parte do enredo, algo
salientado no site do AFI: "(...) the
film was shot entirely on location in the Ishpeming-Marquette area of
Michigan (...) The courtroom, jail and hospital scenes were shot in
their actual counterparts in Marquette. Paul Bielger’s office was
Voelker’s actual law office in Ishpeming". Com uma
controlo notável dos ritmos da narrativa, uma interpretação de
grande nível por parte de James Stewart, uma representação
realista e complexa de um julgamento em tribunal, "Anatomy of a
Murder" surge como um exemplar memorável da carreira de Otto
Preminger, com o cineasta a efectuar uma obra cinematográfica que
roça a perfeição.
Título original: "Anatomy of a Murder".
Título em Portugal: "Anatomia de Um Crime".
Realizador: Otto Preminger.
Argumento: Wendell Mayes.
Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzara, Arthur O'Connell, George C. Scott.

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