23 novembro 2015

Resenha Crítica: "The Adventures of Sherlock Holmes" (1939)

 O forte nevoeiro marca os cenários de "The Adventures of Sherlock Holmes", bem como o mistério, o perigo, a tensão, algum humor e a certeza de que o famoso Sherlock Holmes (Basil Rathbone) tem no Professor Moriarty (George Zucco) um dos seus maiores adversários. Moriarty obriga o famoso detective a estar no topo das suas capacidades, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a abordar com acerto a rivalidade entre estas duas figuras inteligentes e astutas. Sherlock Holmes procura analisar as pistas com enorme zelo, embora a sua arrogância nem sempre seja boa conselheira, ou não estivesse a investigar um caso duplo que promete testar as suas capacidades como detective em "The Adventures of Sherlock Holmes", com Moriarty a colocar o protagonista numa encruzilhada complicada de sair. "The Adventures of Sherlock Holmes" marca a segunda de catorze incursões de Basil Rathbone como o detective do título, naquela que seria a última obra cinematográfica desta saga a ser produzida pela 20th Century Fox, com os filmes posteriores a terem sido desenvolvidos pela Universal Pictures. Tal como em "The Hound of the Baskervilles", o primeiro filme a reunir Basil Rathbone como Sherlock Holmes e Nigel Bruce como Dr. Watson, a famosa dupla apresenta uma dinâmica assaz interessante, ao longo de uma obra cinematográfica marcada por algum mistério, tensão e a habitual perspicácia do famoso detective. No caso de "The Adventures of Sherlock Holmes", o personagem do título é colocado diante da ameaça do Professor Moriarty, aquele que é considerado um dos seus principais adversários, algo que é exposto no início do filme, com o protagonista a revelar-se incapaz de impedir que o rival seja ilibado em tribunal. Basil Rathbone incute carisma, arrogância e credibilidade à perspicácia que Sherlock Holmes apresenta para a arte da dedução e resolução dos casos mais intrincados, enquanto George Zucco consegue transmitir a frieza, malícia, dissimulação e inteligência necessárias para que Moriarty se transforme numa ameaça palpável, com o argumento de Edwin Blum e William Drake a exibir desde logo que a rivalidade entre estes dois indivíduos é mantida há algum tempo. Diga-se que o argumento é simples, conciso e eficaz na abordagem das temáticas, colocando o espectador diante de um filme de investigação dotado de ingredientes que facilmente despertam a atenção, com a resolução a ser relativamente esperada embora o caminho para se chegar à mesma seja bastante agradável de acompanhar. Sherlock parece admirar a inteligência de Moriarty, em parte devido a considerar que este é um dos poucos adversários à sua altura, algo que este último vai comprovar ao procurar traçar uma estratégia para efectuar um golpe tendo em vista a fazer história e humilhar o primeiro.

 Moriarty aproveita o conhecimento que tem de Sherlock Holmes para criar um plano duplo, tendo em vista a despertar a atenção do protagonista para o caso secundário, algo que, em princípio, promete dar tempo para que o antagonista coloque a sua agenda maliciosa em prática. O plano de Moriarty é o seguinte: despertar a atenção de Sherlock Holmes para um desenho misterioso que indica uma possível ameaça para a família de Ann Brandon (Ida Lupino), algo que prende a atenção do detective, enquanto envia uma carta anónima a ameaçar roubar a Estrela de Deli, uma das maiores esmeraldas do Mundo, tendo sido oferecida pelo Marajá como um presente para a Rainha de Inglaterra. Holmes não parece levar a sério a possibilidade de alguém pretender furtar a joia que se encontra prestes a ser transportada para Londres, algo que contrasta com a atenção que concede ao caso que envolve Ann Brandon, uma situação que indica que poderá ter caído no isco lançado por Moriarty. Ida Lupino tem em Ann Brandon uma personagem relativamente frágil, uma espécie de donzela em apuros que teme a possibilidade de alguém pretender eliminá-la ou assassinar o seu irmão, algo que conduz a jovem a consultar Sherlock Holmes. Ann teme aquilo que poderá acontecer se esta e o irmão acederem positivamente ao convite endereçado pela Senhora Conynghams, tendo em vista a participarem na festa ao ar livre que é organizada por esta mulher. A Senhora Conynghams parece ser bem intencionada, embora Ann tema a possibilidade de alguém procurar eliminá-la ou ao irmão no interior da festa. No passado, o pai de Ann foi vítima de homicídio, tendo recebido uma carta semelhante àquela que foi enviada para Lloyd (Peter Willes), o irmão de Ann. Esta encontra-se noiva de Jerrold Hunter (Alan Marshal), o advogado de Lloyd, com o personagem interpretado por Alan Marshal a preparar-se para ser erroneamente alvo de suspeitas de um crime que vai ocorrer a determinada altura da narrativa. Sherlock Holmes não parece convencido de que Hunter seja o culpado pelo assassinato que ocorre, embora seja inicialmente enganado por Moriarty, indo ao ponto de enviar o Dr. Watson para tratar do caso da Estrela de Deli, com este último a exibir mais uma vez que não tem a perspicácia do protagonista. Watson não consegue descobrir que o plano de Moriarty tem como objectivo final roubar as joias da Coroa, algo que promete um último terço frenético, com a subida a uma escadaria a poder surgir carregada de tensão e uma celebração a poder colocar a vida de Ann em risco. As duvidas vão ser mais do que muitas, enquanto Moriarty procura colocar em prática o plano perfeito para ludibriar Sherlock Holmes, com Alfred L. Werker, o realizador, a saber aproveitar a rivalidade entre estes dois personagens tendo em vista a criar dificuldades acrescidas ao protagonista. A investigação é relativamente convincente, com a agitação a rodear a habitação de Sherlock e Watson, localizada no número 221B, da Baker Street, onde estes recebem várias figuras, enquanto têm de se deslocar a diversos locais, entre os quais a Torre de Londres. Nigel Bruce volta a incutir uma personalidade afável a Watson, um indivíduo que raramente parece estar ao nível de Sherlock Holmes, embora seja um parceiro importante para o protagonista. A relação entre Holmes e Watson é pontuada muitas das vezes pelos momentos de humor, com o primeiro a não ter problemas em expor alguns erros de dedução do amigo ou a sua falta de discrição, ou a colocar o personagem interpretado por Nigel Bruce em situações tão caricatas como ficar deitado no meio da estrada para que consigam encontrar provas sobre um assassinato.

 Basil Rathbone exibe mais uma vez alguns dos atributos que contribuíram para se tornar num dos Sherlock Holmes mais marcantes no grande ecrã, ao conseguir atribuir carisma a este personagem confiante, algo excêntrico, perspicaz e inteligente, que gosta de tocar violino e fumar. Diga-se que "The Adventures of Sherlock Holmes" surge ainda incrementado pela presença de nomes com talento como Ida Lupino, com esta a interpretar uma figura frágil que teme pela sua vida e a do seu irmão. Ann teme poder vir a ter o mesmo destino do seu progenitor, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a abordar ainda questões associadas ao misticismo, tal como em "The Hound of the Baskervilles", com estes elementos a serem propositadamente colocados na narrativa para esconderem planos mais latos. O filme conta ainda com a presença de Billy (Terry Kilburn), um jovem que se encontra a aprender o ofício de Sherlock Holmes, apresentando alguma inteligência embora raramente seja devidamente aproveitado ao longo da narrativa. Diga-se que, a par de Basil Rathbone, o elemento do elenco que mais sobressai é George Zucco, com este surgir quase como o lado negro de Sherlock Holmes, com Moriarty a contar com uma inteligência acima da média, embora utilizada ao serviço do crime, com esta figura a apresentar mais respeito pelas plantas do que pelos seres humanos. Zucco parece tirar um enorme prazer a interpretar esta figura maliciosa que baralha as contas a Holmes, enquanto somos colocados diante de diferentes pistas que podem ir desde um desenho, até uma música exótica e uma pata de chinchila. O enredo é exposto a um ritmo fluído, com a cinematografia a contribuir para incrementar alguma da inquietação, enquanto que a presença regular do nevoeiro adensa o mistério em volta dos casos que Sherlock Holmes se encontra a investigar (e permite esconder que boa parte do filme foi filmado em estúdio), com Alfred L. Werker a realizar um thriller competente que viria a popularizar a célebre expressão "Elementary, my dear Watson" (embora esta já tivesse sido utilizada anteriormente). A perspicácia de Sherlock Holmes é testada, enquanto vários personagens são considerados suspeitos e somos colocados diante de algumas figuras misteriosas que prometem dificultar o trabalho do protagonista ao longo de "The Adventures of Sherlock Holmes". O argumento é livremente inspirado na peça "Sherlock Holmes" de William Gillette e Sir Arthur Conan Doyle, baseada no célebre personagem criado por este último, com "The Adventures of Sherlock Holmes" a aproveitar ainda para nos voltar a transportar para a Era Vitoriana, tal como em "The Hound of the Baskervilles". Com uma investigação convincente, algum mistério, tensão e humor, "The Adventures of Sherlock Holmes" explora com algum sucesso a rivalidade entre Sherlock Holmes e o Professor Moriarty, com o personagem do título a ter de exibir algumas das suas qualidades para conseguir superar este adversário perigoso.

Título original: "The Adventures of Sherlock Holmes".
Título original: "Sherlock Holmes Contra Moriarty".
Realizador: Alfred L. Werker.
Argumento: Edwin Blum e William Drake.
Elenco: Basil Rathbone, Nigel Bruce, Ida Lupino, George Zucco, Alan Marshal.

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