12 novembro 2015

"Luther" - Primeira temporada

 São séries como "Luther" que me fazem muitas das vezes questionar aquilo que ando a perder ao deixar de lado algumas recomendações efectuadas por pessoas confiáveis. A primeira temporada desta série criada por Neil Cross é marcada pela coesão e solidez, com "Luther" a mesclar elementos associados aos policiais, ao thriller psicológico, ao drama, aos filmes noir, ao mesmo tempo que conta com um protagonista que conta com uma densidade assinalável e enche o ecrã de carisma. O facto de Neil Cross ter escrito o argumento dos seis episódios da primeira temporada parece ter contribuído e muito para a coesão da série, com a realização a ter ficado a cargo de Brian Kirk (primeiro e segundo episódio), Sam Miller (terceiro e quarto episódio) e Stefan Schwartz (quinto e sexto episódio), algo revelador de uma estrutura bem planeada. Diga-se que Sam Miller viria ainda a realizar os quatro episódios da segunda temporada, enquanto Cross ficaria novamente a cargo do argumento dos mesmos, com Idris Elba a surgir sempre como este Inspector Sargento-Chefe da Polícia que parece mesclar a habilidade para a investigação de Sherlock Holmes e a dureza de alguns detectives dos filmes noir. A própria utilização da cidade de Londres, marcada pelo cinzentismo e nuvens por vezes carregadas, remete para a insegurança no espaço citadino que é notória em alguns filmes noir, mas também para outras séries de investigação criminal, com "Luther" a deambular entre diferentes géneros e subgéneros, com o personagem do título a surgir como uma figura sempre interessante de acompanhar. Idris Elba tem uma interpretação intensa como John Luther, um representante das autoridades que apresenta uma enorme apetência para se envolver em perigos e conflitos, hábil na arte de interrogar os suspeitos, por vezes desobediente em relação aos seus superiores, obcecado no que diz respeito à resolução dos casos, cujas relações com as figuras femininas são algo complexas, com o actor a convencer quer nas cenas de maior intensidade física, quer nos momentos de maior fragilidade emocional. A certa altura encontramos este a ser confrontado com a notícia de que Zoe Luther (Indira Varma), a sua esposa, trocou-o por Mark North (Paul McGann), um indivíduo que parece dar outra estabilidade a esta mulher. Luther inicialmente fica possesso, irrompe num assomo de fúria a ponto de desfazer uma porta, embora, aos poucos, pareça mais desiludido consigo próprio do que com a decisão de Zoe. Diga-se que Luther remete-nos para alguns dos protagonistas dos filmes noir. De personalidade ambígua, capaz de se envolver em problemas, com uma relação complicada com as mulheres, Luther tem em Alice Morgan (Ruth Morgan) uma femme fatale que o atormenta, intriga, repele e ao mesmo tempo parece despertar um estranho sentimento de atracção, algo latente desde o primeiro episódio.

O primeiro episódio não só é essencial para estabelecer Alice Morgan e a sua relação complexa com Luther, mas também para nos colocar diante de um momento fulcral da vida do protagonista, em particular quando o personagem interpretado por Idris Elba não ajuda Henry Madsen (Anton Saunders) quando este último se encontra prestes a cair do topo de um edifício. Henry é um criminoso conhecido por raptar e eliminar crianças, acabando por ficar em coma devido a este incidente, enquanto John Luther foi suspenso durante vários meses. A suspensão coincidiu ainda com um período pouco recomendável por parte do protagonista, com este deixar-se afectar do ponto de vista psicológico, chegando a ser definido como "nitroglicerina", ou não parecesse poder rebentar em fúria a qualquer momento. O primeiro caso que este tem de resolver, após o regresso à actividade, encontra-se relacionado com o assassinato dos pais de Alice Morgan, uma mulher que liga desesperada para a polícia, embora, gradualmente fique claro que esta não é tão inocente como parece. O interrogatório que Luther efectua a esta mulher permite alguns momentos dignos de atenção entre os personagens interpretados por Idris Elba e Ruth Wilson, com ambos a convencerem-nos da inteligência das figuras que interpretam. Ruth Wilson surge como uma espécie de femme fatale, uma ruiva maliciosa, sedutora, psicopata, inteligente e perigosa, que parece culpada pelo assassinato dos pais, embora tenha conseguido realizar aquele que é aparentemente o crime perfeito. É das poucas figuras que parece amedrontar Luther, estabelecendo uma estranha relação com este homem, sendo das raras pessoas que parece adivinhar alguns dos pensamentos deste indivíduo. Encontra-se quase como Moriarty para Sherlock Holmes, embora numa versão mais sensual, com Ruth Wilson a comprovar que todos os adjectivos que lhe pretendamos colocar pelo seu desempenho em "The Affair" soam escassos diante da capacidade que tem em dominar a narrativa quando surge em "Luther". Essa situação é visível no segundo episódio, em especial quando Alice ameaça Zoe, ou no terceiro quando manda espancarem Mark, com esta mulher, investigadora do Departamento de Física, a exibir uma inteligência e loucura acima da média. Alice surge como um dos vários pontos de ligação entre os episódios, enquanto somos colocados diante do "caso da semana", ao mesmo tempo que "Luther" explana a desconfiança que existe no interior do departamento da polícia em relação ao protagonista, a relação complicada que este tem com a esposa, entre outras temáticas que incrementam os diferentes capítulos desta temporada. Quem se encontra por vezes a acompanhar Luther em serviço é o Inspector Sargento Justin Ripley (Warren Brown), um indivíduo que parece admirar o protagonista, embora nem sempre concorde com a sua conduta. Veja-se no terceiro episódio quando Luther prefere esconder uma informação relacionada com a descoberta de um cadáver, tendo em vista a capturar um criminoso, ao invés de reportar logo a informação aos seus superiores. Luther surge muitas das vezes numa zona cinzenta, procurando deter os criminosos a todo o custo, embora não se detenha de fugir em alguns momentos às regras e à lei para que os mesmos sejam colocados atrás das grades. É um indivíduo que simultaneamente desperta a nossa simpatia e receio, embora pareça certo que o seu objectivo maior é colocar os criminosos atrás das grades. O segundo episódio remete para uma temática que continua bastante actual, em particular para um militar que regressa traumatizado após ter cumprido um período de serviço no Afeganistão. Este militar é Owen Lynch (Sam Spruell), um indivíduo que começa a eliminar polícias, tendo sido instigado pelo seu progenitor, também ele um ex-militar.

 Terry Lynch (Sean Pertwee), o pai de Owen é uma figura manipuladora, que outrora eliminara um polícia que o procurara deter de forma mais violenta. Os diálogos entre Terry e Luther exibem mais uma vez a qualidade do argumento de Neil Cross, com Idris Elba e Sean Pertwee a protagonizarem alguns momentos mais tensos quando se reúnem, ou não estivéssemos diante de um representante das autoridades que facilmente fica obcecado por resolver os seus casos. O episódio aborda ainda relevância dos media quer para informarem, quer para despertarem o pânico, quer para ajudarem Luther num plano que este elabora. Diga-se que os meios de comunicação social também vão ser utilizados por Lucien Burgess (Paul Rhys), um serial killer associado a rituais satânicos que rapta uma mulher logo no início do terceiro episódio. Lucien preenche as paredes com frases de cariz satânico, escritas com sangue de outra vítima, com Luther a ter de utilizar a sua inteligência e a transgredir as regras para conseguir travar o perigoso criminoso. A conduta de Luther nem sempre é a mais correcta, embora seja eficaz, com Idris Elba a expor os lados mais distintos desta figura complexa que tanto é capaz do acto mais inteligente como de utilizar a força bruta. Diga-se que no terceiro episódio ficamos diante de um criminoso capaz dos actos mais macabros, com "Luther" a não ter problemas em colocar o espectador diante de situações como tortura, um indivíduo a beber sangue, violência e a certeza de que o personagem do título se encontra a lidar com um adversário perigoso. É certo que ainda existe espaço para algum humor, algo inerente à forma como Luther procura escapar a Martin Schenk (Dermot Crowley), um dos seus superiores, um indivíduo que pretende suspendê-lo devido a um imbróglio que envolve Mark e Alice. Este episódio permite ainda explorar uma certa aproximação de Zoe a Luther, com esta mulher a parecer ainda amar o seu futuro ex-marido, embora não consiga evitar procurar seguir em frente com a sua vida, com estas dúvidas a ficarem latentes no quarto episódio. O avançar da série permite uma maior familiarização do espectador em relação aos personagens, embora "Luther" conte com umas cartas na manga para nos manter agarrados ao enredo. A relação entre Alice e Luther conhece uma situação macabra, com esta a não parecer conter um travão moral que a impeça de cometer os actos mais hediondos. Luther parece simultaneamente temer e procurar apoio junto desta mulher que conseguiu ludibriar a justiça, com o protagonista a ter nesta psicopata uma ajuda que a espaços se torna relevante. Enquanto isso, ainda no quarto episódio, Graham Shand (Rob Jarvis), um serial killer com perversões sexuais anda à solta, embora o enredo procure, a certa altura, focar-se em Linda (Nicola Walker), a sua esposa, uma mulher infiel que é colocada diante dos actos repugnantes do esposo, algo que atribui maior densidade emocional e psicológica a este capítulo de "Luther". Graham conduz um táxi falso, procurando atrair as suas vítimas para o veículo, com "Luther", a aproveitar para criar alguma tensão num momento onde junta a procura da polícia em travar um veículo que pensa ser o do criminoso, ao mesmo tempo que assistimos à presença de Luther no escritório e o personagem interpretado por Rob Jarvis em acção, com o trabalho de montagem a revelar um aprumo e acerto notórios.

Rob Jarvis interpreta um dos criminosos menos interessantes de acompanhar dos seis episódios da primeira temporada, parecendo que nunca está à altura da perspicácia de "Luther", embora este factor menos abonatório seja compensado com a atenção dada a Linda, para além dos intensos e violentos momentos finais. A juntar a tudo isto, Luther, um indivíduo conhecido por actuar no terreno é obrigado a permanecer na esquadra, com o episódio a explorar o lado mais cerebral do protagonista, embora ainda sejamos brindados com uma explosão emocional por parte do personagem interpretado por Idris Elba, com este a colocar tudo a voar pelos ares. Aos poucos começamos a compreender as inquietações deste indivíduo complexo, que tanto é capaz de exibir uma força inabalável como contemplar a morte a partir do topo dos edifícios, com "Luther" a saber explorar a densidade do personagem do título ao mesmo tempo que cria um universo narrativo credível em volta do mesmo. No quinto episódio, o caso de um rapto conduz a toda a uma teia intrincada que envolve a procura dos criminosos em quererem os diamantes que se iriam supostamente encontrar na posse do noivo da vítima, bem como a descoberta, por parte do espectador, de corrupção no interior da polícia, com Ian Reed (Steven Mackintosh), um colega de Luther, a exibir uma faceta negra que promete trazer consequências nefastas para o protagonista e de uma pessoa que lhe é próxima. A intensidade marca o quinto episódio, bem como as reviravoltas e a noção de que a vida de Luther dificilmente conhecerá o amor que este pretende, com o destino a colocá-lo demasiadas vezes a ter de utilizar o seu lado mais duro. O último capítulo da primeira temporada deixa o protagonista a ter de lutar para provar a sua inocência e vingar a morte de uma pessoa que lhe era muito próxima, com a inquietação a envolver boa parte do episódio, onde a tensão atinge níveis elevados. O histórico de Luther não joga a seu favor, com elementos como Rose Teller (Saskia Reeves), a líder da esquadra, a desconfiarem do protagonista, algo que surpreende se tivermos em conta que esta mulher foi essencial para o personagem interpretado por Idris Elba regressar ao serviço após a suspensão. Um dos condimentos da primeira temporada da série centra-se no desenvolvimento dos personagens e nas estranhas relações de confiança que estes formam, sejam entre Luther e Ripley, entre o protagonista e Alice, entre o personagem do título e Zoe, entre outras ligações que são abordadas ao longo de "Luther". Idris Elba e Ruth Wilson são os nomes que mais sobressaem ao longo dos seis episódios, embora Steven Mackintosh ganhe um ascendente nos dois últimos capítulos da primeira temporada de "Luther" ou não interpretasse um elemento que aos poucos revela uma agenda escondida que promete contar com efeitos desastrosos. Os diálogos entre Luther e Reed na cena em que se encontram rodeados de policiamento, ou no último terço, quando os dois se confrontam, permitem que "Luther" explane algumas das qualidades do argumento e do elenco, com Idris Elba a procurar explorar a dificuldade que o personagem que interpreta tem em conter-se, ao mesmo tempo que Steven Mackintosh exibe habilmente a capacidade do segundo para a dissimulação. O sexto episódio marca um dos pontos altos da temporada, com a emoção a estar quase sempre presente, a imprevisibilidade a parecer ser o mote, enquanto diversos elementos do elenco são aproveitados, embora Idris Elba seja o destaque óbvio. Temos ainda elementos do elenco secundário que contribuem para a consistência da série, entre os quais Indira Varma, Saskia Reeves, Warren Brown e Dermot Crowley, com a maioria a cumprir naquilo que lhes é pedido para os respectivos papéis. "Luther" tem uma primeira temporada coesa a nível do argumento e da realização, com Idris Elba a interpretar um personagem carismático que lhe permite sobressair e elevar o nível da série, tendo em Ruth Wilson uma boa companhia, com a actriz a incutir malícia e inteligência a Alice, uma figura feminina que facilmente desperta a nossa atenção e se revela útil ao protagonista, com Neil Cross e o trio de realizadores a serem capazes de rendilharem com sucesso as tramas que surgem transversais a diversos episódios com alguns casos que ocorrem em cada capítulo.

Título original: "Luther".
Realização: Brian Kirk, Sam Miller, Stefan Schwartz.
Argumento: Neil Cross.
Elenco: Idris Elba, Ruth Wilson, Saskia Reeves, Warren Brown, Indira Varma, Dermot Crowley, Steven Mackintosh, Paul McGann.


3 comentários:

rsl disse...

Experimente Sherlock (2010)... cada episodio é um autentico filme.
Há series britanicas de excelente qualidade, provavelmente devido ao numero mais reduzido de episodios se compararmos com as series americanas.
E Peaky Blinders! É qualquer coisa...

Aníbal Santiago disse...

O Sherlock tenho acompanhado, embora não tenha escrito sobre a série (o mesmo acontece com o The Affair, The Americans, Suits, entre outras). No caso do Sherlock, o mais provável é que ainda venha a escrever algo sobre a série (se tiver tempo), ainda que episódio a episódio. O Peaky Blinders é outra das séries que estão na "lista de espera". Obrigado pela recomendação. Cumprimentos.

rsl disse...

Depois de acabar Breaking Bad nao tenho encontrado grandes produtos televisivos... Fargo e a Peaky Blinders foram as melhores coisas que vi nos ultimos tempos.
Também ando muito atrás de series nao americanas, ficam algumas sugestoes: Bron/Broen (aka The Bridge), The Missing (2014), Broadchurch, Happy Valley, Utopia, Black Mirror, Hunted (2012), Les Revenants, Top of The Lake...