23 outubro 2015

Resenha Crítica: "What's Up, Doc?" (1972)

 Entre mal-entendidos, romances que se iniciam de forma caricata, diálogos lançados a uma velocidade estonteante, falas mordazes e inteligentes, malas e identidades trocadas, muita confusão, humor e alguma violência propositadamente inconsequente, "What's Up, Doc?" surge como uma homenagem brilhante às comédias screwball, com claras referências a "Bringing Up Baby", bem como aos desenhos dos "Looney Tunes". "What's Up, Doc?" partilha o título com uma questão geralmente colocada por Bugs Bunny, enquanto alguns dos episódios que decorrem ao longo do enredo parecem ter sido inspirados em "Bringing Up Baby", uma obra cinematográfica realizada por Howard Hawks. Não temos Cary Grant e Katharine Hepburn como protagonistas, mas sim Ryan O'Neal e Barbra Streisand, com estes últimos a parecerem emular a química dos primeiros. Em “Bringing Up Baby” tínhamos um paleontólogo que esperava conseguir apoios para o museu onde trabalhava, encontrando-se noivo de uma mulher relativamente fria, embora acabe por conhecer Susan Vance (Katharine Hepburn), uma figura feminina financeiramente abastada e extrovertida que trouxe o caos e o amor ao seu quotidiano. Em "What's Up, Doc?" temos um musicólogo que procura convencer Frederick Larrabee (Austin Pendleton), um filantropo que representa a fundação Larrabee, a conceder-lhe uma bolsa de vinte mil dólares, uma verba que permitiria que o protagonista conseguisse avançar com uma investigação para comprovar a sua teoria sobre uma relação precoce do ser humano com a música, na pré-história, ligada à formação de rochas ígneas. O investigador é Howard Bannister (Ryan O'Neal), um indivíduo que lecciona no Conservatório de Música de Iowa, que viaja até San Francisco para participar no Congresso da Convenção Americana de Musicólogos. O personagem interpretado por Ryan O'Neal conta inicialmente com a companhia de Eunice Burns (Madeline Kahn), a sua noiva, uma mulher de voz algo irritante, controladora, a espaços histérica, com ambos a terem uma relação morna que parece continuar mais por comodidade do que por existir uma paixão arrebatadora entre o casal. Howard é um indivíduo discreto, algo atrapalhado, confiante na sua teoria embora nem sempre seja eloquente a "vender o seu peixe". Este transporta as suas rochas ígneas no interior de uma mala, algo que promete despertar imensas confusões, já que existem outros três personagens com um objecto semelhante, com Peter Bogdanovich a aproveitar a situação de forma exímia para criar o caos junto de diversos elementos que povoam a narrativa. Quem também conta com uma mala semelhante ao protagonista é Judy Maxwell (Barbra Streisand), uma mulher com uma apetência invulgar para se envolver ou gerar confusões (veja-se logo nos momentos iniciais quando atravessa a estrada de forma completamente destrambelhada e contribui para algumas travagens perigosas e acidentes), que colecciona inscrições em universidades embora não dure muito tempo nestas instituições. Se esta estiver por perto o mais certo é que alguma roupa se rasgue ou um quarto pegue fogo, ou se inicie uma perseguição delirante, ou uma relação nasça através do caos. Tal como Howard e Eunice, também Judy se desloca até ao hotel Bristol, transportando consigo uma mala semelhante à do primeiro, embora guarde roupas no interior da mesma, ao contrário do musicólogo que aproveita para transportar as rochas. Judy elabora um esquema para ficar alojada no hotel sem pagar, algo que consegue num momento que coincide praticamente com a chegada de Howard e Eunice ao local. O casal fica hospedado em quartos separados, com Judy a aproveitar para colocar o seu plano em prática, instalando-se temporariamente na divisória de Howard, com quem irá meter conversa numa farmácia que vende uma miríade de produtos. Judy fala com Howard como se o conhecesse há muito tempo, finge ser a sua esposa, enquanto o trata insistentemente por Steve. É uma figura completamente distinta do protagonista, mais expansiva e impulsiva, igualmente inteligente mas com uma enorme exuberância, com o próprio estilo de vestir de ambos a remeter para a personalidade mais leve desta mulher em relação à formalidade que Howard apresenta. Barbra Streisand apresenta um timing notável para a comédia, disparando as falas a enorme velocidade como esta mulher que surge como um espírito livre que se parece estar a lixar para aquilo que pensam sobre si, com o olhar expressivo da actriz a transmitir alguma da inocência, imprevisibilidade e encanto de Judy.

 Nunca sabemos o que esperar desta mulher que entra na vida de Howard Bannister como um furacão que desestabiliza por completo o quotidiano do musicólogo. Judy segue Howard pelas escadas rolantes, mete conversa com o mesmo na farmácia, apresenta um à vontade tremendo com o protagonista, enquanto o musicólogo exibe alguma atrapalhação e embaraço diante desta figura feminina expansiva que tanto parece incomodá-lo como atraí-lo. Os momentos protagonizados por Judy e Howard na farmácia são hilariantes, com Barbra Streisand e Ryan O'Neal a apresentarem uma química latente, com as personalidades dicotómicas dos personagens a quem dão vida a conjugarem-se na perfeição, enquanto estes acabam por se envolver numa série de mal-entendidos e episódios rocambolescos que vão desde incêndios a fugas pelas estradas, até um julgamento hilariante onde o juiz procura a certa altura deixar de tentar compreender todas as ocorrências que conduziram o grupo alargado de elementos ao tribunal (quase que a personificar o espectador diante da miríade de episódios tresloucados que acompanha). Diga-se que muito do que acontece ao longo de "What's Up, Doc?" também se deve às confusões inerentes às trocas das quatro malas. Para além das malas de Judy e Howard, temos ainda aquelas que pertencem a Van Hoskins (Mabel Albertson) e "Mr. Smith" (Michael Murphy). Van Hoskins é uma milionária que guarda um leque alargado de joias no interior da mala, com Fritz (Stefan Gierasch) e Harry (Sorrell Booke), dois funcionários do hotel, a procurarem roubar esta mulher, traçando um plano rocambolesco que vai contribuir para algumas das trocas de malas que ocorrem ao longo do enredo. "Mr. Smith" esconde no interior da sua mala alguns documentos secretos, que pertencem ao Governo dos EUA, sendo perseguido por "Mr. Jones" (Philip Roth). Este é um indivíduo que, aparentemente, trabalha para os serviços secretos dos EUA, procurando recuperar os documentos que se encontram na posse de "Mr. Smith". Todos estes personagens encontram-se no hotel onde decorre o evento que conta com a presença de Frederick Larrabee, com Howard a procurar convencer este indivíduo a financiar a sua pesquisa, embora conte com a oposição de Hugh Simon (Kenneth Mars), um académico que também disputa os recursos financeiros para poder elaborar a sua tese. Simon é um indivíduo pomposo e arrogante, que cedo deixa de estar no centro das atenções de Larrabee. A causa para esta perda de interesse é simples: a presença de Judy. Esta entra no evento à socapa, fingindo que é Eunice, algo que desperta o pânico de Howard, com este a tentar expor que Judy não é a sua noiva, pelo menos até a personagem interpretada por Barbra Streisand começar a conquistar tudo e todos com a sua personalidade afável e descontraída, dialogando a uma enorme velocidade, num estilo que varia entre o brincalhão e o inteligente. Tudo começa a correr lindamente para Howard, com este a ir ao ponto de fingir que não conhece Eunice de lado nenhum, deixando esta mulher ser barrada, algo que a enfurece, embora os mal-entendidos não vão ficar por aqui. Os momentos de humor são mais do que muitos, resultando na maioria das vezes devido à interacção entre Judy e Howard, com Peter Bogdanovich a elaborar uma quantidade assinalável de gags onde os cenários e os objectos são aproveitados ao pormenor. Veja-se a célebre fuga na estrada, encetada pelos protagonistas, onde encontramos dois elementos a transportar um vidro com um X e outro indivíduo no topo de um enorme escadote a colocar uma faixa entre dois postes, esperando-se a qualquer momento que algum dos veículos ou personagens provoquem estragos junto deste trio. É um momento muito "à Looney Tunes", com "What's Up, Doc?" a não parecer apenas tirar inspiração destes desenhos animados (utilizados num determinado momento do enredo) para o seu título mas também para a narrativa que surge ainda pontuada por diversos elementos associados às comédias screwball. Desde os mal-entendidos às relações tempestuosas entre homens e mulheres, passando pelas confusões até às situações farsescas, não vão faltar elementos transversais entre "What's Up, Doc?" e as chamadas comédias screwball, numa obra cinematográfica marcada por enorme leveza, diversos momentos de humor, um ritmo frenético e alguns salpicos de romance, com Barbra Streisand e Ryan O'Neal a estarem muitas das vezes em foco. A dinâmica entre os dois resulta desde o início, com as cenas na farmácia a permitirem algumas trocas de diálogos hilariantes que vão desde o interesse de Howard pelas rochas ígneas, passando pela procura de Judy em que este lhe pague um rádio, até à saída do espaço onde esta rasga o casaco deste homem (outro elemento em comum com os protagonistas de “Bringing Up Baby”). Não será a última vez que lhe rasga roupa, com Judy a exibir regularmente uma atitude meio destrambelhada que facilmente nos contagia, com Barbra Streisand a conseguir que os actos desta mulher pareçam completamente naturais.

 Judy consegue contagiar o espectador, indo despertar, ainda que gradualmente, o interesse do protagonista, com esta mulher enérgica e impulsiva a surgir como o oposto da noiva do musicólogo. A certa altura do filme encontramos Judy a cantar "As Time Goes By" (tal como em "Targets" e "The Last Picture Show", Peter Bogdanovich volta a incutir referências cinéfilas numa longa-metragem que realiza), enquanto Howard toca ao piano, com o momento a evocar "Casablanca" e a contar com uma atmosfera romântica. O momento é marcado por alguma candura, sedução e romance, parecendo certo que Judy e Howard sentem algo um pelo outro. Ele parece ter deixado de encará-la como uma maluquinha que o persegue (com Streisand a exibir o seu talento para a cantoria). Ela parece exibir um lado mais adulto e sedutor. É uma rara situação de alguma acalmia, que facilmente contrasta com o quotidiano caótico desta dupla, sobretudo a partir do momento em que Judy entra na vida de Howard. Diga-se que Judy e Howard não são os únicos personagens que protagonizam alguns momentos caóticos. Veja-se os casos de Fritz e Harry, ou de "Mr. Smith" e "Mr. Jones", com os dois primeiros a procurarem furtar a mala com as joias a todo o custo, enquanto os dois últimos protagonizam alguns episódios caricatos, com o personagem interpretado por Michael Murphy a procurar esconder o material que guarda, ao mesmo tempo que o agente governamental tenta recuperar os documentos sigilosos, com ambos a formarem uma espécie de jogo entre o "gato e o rato". A certa altura, as malas trocam-se, a confusão instala-se e Peter Bogdanovich coloca os personagens no meio de situações delirantes, muitas das vezes farsescas, acabando por nos fazer rir de forma amiúde pelo caminho. Seja pelos diálogos, seja pelas situações criadas, "What's Up, Doc?" exibe Peter Bogdanovich a um grande nível, procurando fugir à "mera" homenagem às comédias screwball ao utilizar as referências para criar algo próprio. Barbra Streisand e Ryan O'Neal são os elementos que mais sobressaem numa obra que conta ainda com diversas figuras secundárias que se conseguem evidenciar, quer pelas interpretações dos actores e actrizes, quer pelas características atribuídas pelo argumento. Um desses exemplos é Madeline Kahn como Eunice, com esta a surgir como uma figura dicotómica de Judy, parecendo querer planear tudo ao pormenor, apresentando uma voz algo esganiçada e uma peruca sempre pronta a utilizar, procurando ser o centro das atenções, sobretudo do noivo, embora tenha de lidar com uma rival frenética que é capaz de despertar sentimentos muito mais fortes. Kahn sobressai sobretudo nos assomos de fúria de Eunice, algo que acontece de forma amiúde quando a personagem interpretada por Barbra Streisand entra na vida do seu noivo. Veja-se quando a personagem interpretada por Madeline Kahn procura desesperadamente entrar no evento organizado por Frederick Larrabee, embora este desiderato seja dificultado pelo facto de todos pensarem que Judy é Eunice, com o próprio Howard a deixar-se ir na onda já que o filantropo parece disposto a atribuir a verba para a pesquisa devido a apreciar a personalidade da sua "noiva". Temos ainda figuras como Hugh Simon, um investigador pedante e algo exagerado, com Kenneth Mars a quase cair na caricatura, ou Austin Pendleton como um indivíduo financeiramente abonado que parece simpatizar com Judy, entre outros elementos que povoam a narrativa desta delirante e hilariante obra cinematográfica. O cuidado a nível dos cenários e aproveitamento dos mesmos ao serviço da narrativa é notório, com a cinematografia e a banda sonora a darem uma ajuda, embora nunca se sobreponham aos episódios do enredo, com Peter Bogdanovich a parecer querer colocar todo o destaque nos personagens e nas situações em que estes se envolvem. O argumento é inteligente, as falas são trocadas com enorme ritmo, a química entre Ryan O'Neal e Barbra Streisand é notória, a dinâmica entre o elenco é bastante convincente, com o humor a funcionar numa miríade de situações, muitas das vezes tendo o espaço do hotel como pano de fundo, com Peter Bogdanovich a ter em "What's Up, Doc?" uma obra cinematográfica que facilmente prende a atenção e desperta os mais largos sorrisos.

Título original: "What's Up, Doc?".
Título em Portugal: "Que Se Passa Doutor?".
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Peter Bogdanovich, Buck Henry, David Newman, Robert Benton.
Elenco: Barbra Streisand, Ryan O'Neal, Madeline Kahn, Austin Pendleton, Michael Murphy, Kenneth Mars.

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