21 outubro 2015

Resenha Crítica: "What Ever Happened to Baby Jane?" (1962)

 A certa altura de "What Ever Happened to Baby Jane?", um filme realizado por Robert Aldrich, encontramos a personagem do título a dançar, no meio da praia, num acesso de loucura, onde pensa estar a ser alvo de atenções pelas melhores razões, embora a maioria das pessoas presentes pensem, com razão, que esta é louca. Jane Hudson é uma figura complexa, trágica, maliciosa e infantil, demasiado agarrada ao passado, quando era adorada, uma situação que não se reflecte no presente. Na infância, em particular em 1917, era uma estrela que cantava e dançava perante um enorme número de fãs em espectáculos onde até bonecas com o seu nome eram vendidas. O número onde esta cantava "I've Written a Letter to Daddy" parecia ser apreciado por tudo e todos, algo que esta não esquece durante a idade adulta. O seu pai mimava-a, desprezando em parte Blanche, a sua irmã, com esta última a ter de ser reconfortada pela mãe. Todos os devaneios de Jane pareciam ter de ser satisfeitos. Em 1935 a situação é bem diferente. Baby Jane Hudson (Bette Davis) continua a viver dos êxitos do passado, apresentando atitudes erráticas e pouco talento para a representação. Esta só não é encarada com  desprezo pelo estúdio devido a Blanche (Joan Crawford), agora uma estrela de Hollywood, ter colocado uma cláusula no contrato onde a irmã teria que participar num filme por cada obra cinematográfica que esta protagonizasse. Blanche está no apogeu da sua carreira, conseguindo impor-se e fazer exigências ao dono do estúdio, adquirindo carros topo de gama, uma casa de largas proporções que outrora pertencera a Rodolfo Valentino, entre outras extravagâncias. Jane é conhecida pelo consumo de álcool, pelo pouco talento e pelas birras. No entanto, um acidente de carro, aparentemente provocado por Jane, conduz a que Blanche fique paraplégica, tendo de se locomover numa cadeira de rodas, tornando-se reclusa no interior da sua própria casa. A narrativa avança para 1962. Os êxitos de Blanche fazem parte do passado, embora seja recordada com nostalgia quando os filmes que outrora protagonizara são exibidos na TV, enquanto Jane surge como uma pessoa amarga, que maltrata a irmã e continua a viver como se as pessoas ainda estivessem interessadas em saber quem é Baby Jane Hudson. A relação entre estas duas é complexa, com Blanche a encontrar-se a viver no andar de cima, onde toca à campainha para chamar a irmã, parecendo temer a mesma embora relute em interná-la. Blanche é uma mulher aparentemente calma, mais doce do que a irmã, financiando todas as despesas da casa, embora seja constantemente alvo de maus tratos, com Robert Aldrich a explorar esta relação abrasiva marcada pela aspereza e irrisão entre estas duas figuras femininas, deixando-nos sempre na duvida em relação àquilo que a personagem interpretada por Bette Davis poderá efectuar à familiar. A certa altura, Jane pede para limpar a gaiola do pássaro, após alguns momentos de cantoria deste, até dizer que o mesmo fugiu. Pouco depois, Jane coloca o pássaro morto no interior do prato do jantar, que preparara para Blanche, num momento onde é exibida alguma da malícia e crueldade desta mulher. Esta situação conduz a que Blanche evite comer, tendo medo de tirar a tampa que resguarda o prato e descobrir aquilo que poderá estar na refeição, gerando-se alguns momentos de tensão, com a presença posterior de um rato morto no meio da comida a mesclar a perversidade e loucura de Jane, ao mesmo tempo que Robert Aldrich deixa bem latente que não se coibiu de incutir alguns trechos de terror em "What Ever Happened to Baby Jane?". Bette Davis consegue explorar a faceta tresloucada e algo sádica da personagem a quem dá vida, uma mulher solitária, de tez branca, pele enrugada, batom carregado, olhar expressivo, voz histriónica e gestos maliciosos, que tanto age como uma criança, como logo de seguida apresenta comportamentos de psicopata. As expressões de Jane são exageradas, com esta personagem a encontrar-se emocionalmente abalada, parecendo incerto aquilo que pretende para a irmã, com os ressentimentos que nutre a serem mais do que muitos.

 Os episódios de Jane a imitar a voz de Blanche para encomendar mais uma quantidade generosa de bebidas alcoólicas, ou a falsificar a assinatura da familiar para poder levantar cheques de quantias avultadas, tanto têm de infantis como de perturbadores, revelando a malícia desta personagem ainda que esbatida pelas suas fragilidades psicológicas. Por sua vez, Blanche encontra-se praticamente reclusa no seu quarto. Descer as escadas é algo que esta teme e receia, uma situação que a deixa temporariamente sem contacto com o exterior, com excepção de Elvira (Maidie Norman), a empregada de limpezas (para não variar nos filmes de Hollywood deste período, a empregada é negra), uma mulher simpática para com a protagonista que parece desprezar Jane. Robert Aldrich procura explorar a tensão entre as duas irmãs e o receio provocado pelos actos de Jane, com a cinematografia de Ernest Haller a ajudar a criar uma atmosfera claustrofóbica, onde o espaço da mansão cedo se torna num antro opressor do qual Blanche poderá ter dificuldades em sair com vida. As sombras carregam os cenários, sobressaindo muitas das vezes diante das luzes, contribuindo para a atmosfera algo sombria e cinzenta que rodeia a relação e o quotidiano pouco luminoso destas duas irmãs. Veja-se o medo que Blanche tem em contar a Jane que pretende vender a casa, com as entradas de rompante da irmã no quarto a serem quase sempre um calafrio, ou quando atira um papel a pedir ajuda à vizinha e este é apanhado pela personagem interpretada por Bette Davis. Os zooms sobre o espaço onde se encontra o papel e a colocação do mesmo entre a ex-vedeta juvenil e a vizinha permitem incrementar o sentimento de dúvida e tensão que rodeia este momento, enquanto o estado mental de Jane parece deteriorar-se cada vez mais, com a notícia de que a irmã a quer internar a piorar claramente a situação. As próprias janelas, rodeadas de grades, parecem remeter para uma habitação semelhante a uma prisão, com o cenário da casa a contribuir para a atmosfera inquietante deste thriller psicológico, onde Jane procura puxar Blanche até ao limite e esta última tenta apresentar uma postura apaziguadora embora não se tenha esquecido totalmente da malícia da familiar. Os episódios do pássaro e do rato na comida, bem como o acto de amarrar a irmã ou tirar o telefone do grampo para esta não se poder comunicar com o exterior, exibem paradigmaticamente a perversidade de Jane. O próprio trabalho de montagem e a banda sonora contribuem para incrementar a tensão entre as duas irmãs. Veja-se quando encontramos Jane ao piano, acompanhada por um copo recheado de whisky, enquanto observa a boneca inspirada na sua pessoa quando era jovem e decide começar a cantar um êxito desse período da sua vida, sob a pouca luz que permeia esta sala que se parece transformar no cenário de um filme de terror, enquanto a irmã ouve no quarto, em fora de campo, tendo a certeza que a personagem interpretada por Bette Davis se encontra cada vez mais degradada do ponto de vista mental, algo que é visível não só nos episódios mencionados mas também na estranha procura em voltar ao estrelato, com o último terço a ter tanto de trágico como de cómico e assustador. Inspirado no livro homónimo de Henry Farrell, "What Ever Happened to Baby Jane?" viria ainda a beneficiar da enorme rivalidade entre Joan Crawford e Bette Davis, duas actrizes com um ego do tamanho do seu talento, com as quezílias protagonizadas por ambas a terem contribuído para aumentar a popularidade do filme aquando do seu lançamento. As histórias relacionadas com a rivalidade entre ambas são mais do que muitas, bastante sumarentas e adensam ainda mais a percepção de que a relação venenosa não se estende a Blanche e Jane Hudson, com tudo a parecer tão surreal em relação às "pérolas" sobre os bastidores que quase queremos acreditar que as filmagens tenham sido assim tão intrincadas. Não falta o rumor de que Bette Davis deu o gosto ao pé nas filmagens de uma cena onde Jane agride Blanche ao pontapé (embora nem existam provas que a colega tenha estado no local), ou a suposta procura de Joan Crawford em vingar-se ao utilizar pesos numa cena onde a personagem que interpreta tem de ser carregada pela familiar, entre muitos outros episódios relacionados com os bastidores de "What Ever Happened to Baby Jane?". Algumas situações podem ser verdadeiras, outras podem ser meros rumores, mas talvez ajudem a explicar o quanto esta relação pouco amigável entre as duas actrizes pode ter ajudado e muito na construção das personagens que interpretam.

Esta rivalidade incrementa ainda mais a relação tempestuosa entre as duas protagonistas, com Bette Davis e Joan Crawford a parecerem compelidas a dar o seu melhor, enquanto Robert Aldrich cria uma obra negra, filmada a preto e branco, que viria a ser conhecida ainda por ter fundado o subgénero do Hag Horror ou Psycho-biddy. O subgénero é marcado por mulheres mentalmente instáveis e/ou personagens que ficam em perigo devido às acções das primeiras, figuras femininas colocadas umas contra as outras ou que lidam mal com o envelhecimento e o esquecimento daqueles que as rodeiam, entre outros elementos. Nesse sentido, "What Ever Happened to Baby Jane?" adapta-se na perfeição a este subgénero ou o filme não contasse com duas protagonistas femininas de meia idade, com Jane a surgir como a figura mentalmente instável, enquanto Blanche aparece como aquela que é alvo de maus tratos, embora também apresente um segredo pouco aprazível relacionado com o seu passado. Estas duas já não se parecem poder ver à frente. Blanche é mais branda e compreensiva, com Joan Crawford a incutir uma afabilidade à personagem que interpreta e uma vulnerabilidade que contrastam com os exageros de Jane. Bette Davis teve o controlo sobre a maquilhagem que poderia utilizar para interpretar Jane, algo que conduziu a um excelente trabalho de caracterização, como se as camadas que cobrem o rosto da antiga vedeta juvenil parecessem sobrepor-se umas em relação às outras de forma a criar um aspecto quase grotesco. Quando encontramos Jane a imitar as canções que lhe trouxeram sucesso na infância, ou a questionar desconhecidos se conhecem a sua identidade, percebemos de forma latente que esta é uma figura trágica, mentalmente instável, que representa paradigmaticamente alguém que outrora conheceu o êxito e agora tem de enfrentar o amargo sabor do esquecimento. Não são raros os exemplos de actores e actrizes que começaram precocemente a ter sucesso e posteriormente caíram no ocaso. Veja-se o caso de Macaulay Culkin cujo sucesso no passado nunca se repercutiu no presente, embora também tenhamos o reverso da medalha com Jodie Foster a aguentar uma carreira iniciada aos três anos de idade. No caso de Jane Hudson, esta tem de se contentar com um êxito fugaz no passado e o constante ressentimento por nunca ter atingido o sucesso na Sétima Arte como a sua irmã. Enquanto Blanche é recordada pelos seus trabalhos, Jane não se esquece da forma como os seus filmes não eram lançados, não tendo noção da sua falta de talento. A própria tem em gestos mesquinhos como esconder as cartas enviadas pelos fãs da irmã, ou tentar que a Srª Bates, uma vizinha que é fã de Blanche, não veja a familiar, alguns episódios reveladores desse ciúme. Esta é uma personagem arrogante e pouco humilde, nada disponível para ouvir os outros, que tem no consumo excessivo de álcool um vício que não parece disposta a largar. A dinâmica entre Bette Davis e Joan Crawford é sublime, num drama que por vezes se aventura pelo terror psicológico marcado pela tensão e a noção de que existe muito mais a separar estas irmãs do que a uni-las, talvez com excepção do ressentimento que parece recíproco de parte a parte, embora Jane exiba-o de forma mais visível. Boa parte da narrativa desenrola-se no cenário da mansão, um espaço decorado de forma a exacerbar o isolamento destas mulheres presas ao passado, explorado de forma exemplar, com as escadas a parecerem quase sempre um empecilho para Blanche que, não só se encontra reclusa do Mundo, mas também das divisórias do andar de baixo da sua casa. É neste andar de baixo que Jane ensaia com Edwin Flagg (Victor Buono), um pianista em decadência que pensa estar a responder a um anúncio normal de trabalho, embora a procura da protagonista em regressar ao activo pareça mais um devaneio do que algo real, já que a maioria das pessoas nem se recorda da mesma. Esta vive iludida em relação àquilo que representa no presente, com a sua personalidade extravagante e exagerada a ser incrementada pela interpretação de Bette Davis, com a actriz a "despir-se" de preconceitos e transformar-se numa figura em decadência quer a nível físico, quer a nível psicológico.

Davis parece apresentar um enorme prazer a explorar a malícia da personagem que interpreta, atribuindo a esta figura uma avareza que tanto nos repele como desperta a nossa atenção ou esta não fosse uma mulher psicologicamente vulnerável. Também Joan Crawford tem espaço para brilhar, com a dupla de protagonistas a interpretar com mestria duas antigas artistas que se encontram longe dos melhores dias das suas carreiras. "What Ever Happened to Baby Jane?" exibe ainda um olhar desencantado sobre Hollywood e as suas estrelas, com a facilidade com que as mesmas atingem o apogeu e ocaso a serem notórias, numa obra que remete para filmes como "The Big Knife" (também de Robert Aldrich), "Sunset Boulevard", "The Bad and the Beautiful", "Singin' in the Rain", "Birdman", que observam a indústria cinematográfica com um olhar algo crítico, embora no quarto exemplo o humor e os números musicais estejam muito presentes. A própria mansão onde ambas as irmãs vivem parece simbolizar a decadência em que se encontram, um espaço outrora habitado por estrelas de cinema que agora é circundado por gentes anónimas, enquanto estas antigas vedetas dependem uma da outra, ainda que não pareçam pretender essa situação. Jane precisa do dinheiro da irmã. Blanche necessita da irmã para lhe trazer a comida e afins, apesar de um simples tocar da campainha parecer irritar Jane, com a sonoplastia a adensar isso mesmo. Um piano pode ser fechado como se fosse um trovão que se abate, uma porta atirada como uma bala, enquanto os sentimentos encontram-se inquietos. O momento em que Blanche roda desesperadamente em círculos com a sua cadeira de rodas é paradigmático do desespero em que se encontra esta mulher, enquanto a irmã parece tirar algum prazer desse sofrimento embora, em alguns episódios, pareça certo que nem Jane mede totalmente as consequências daquilo que faz. Blanche tem na televisão uma oportunidade de recordar os feitos do passado, enquanto Jane tem no piano e nas bonecas dois meios que comprovam que outrora já fora o centro das atenções. Agora encontram-se confinadas a uma mansão adornada por relíquias que, tal como ambas, parecem já não se adequar à modernidade. As escadas separam o espaço uma da outra, embora não se possam evitar, nem aos sentimentos negativos que desenvolvem, com o argumento a ser capaz de conceder dimensão a esta relação elevada pelas interpretações de Bette Davis e Joan Crawford, adensada ainda pela magnífica banda sonora que contribui para esta atmosfera tensa entre duas irmãs que vivem no limbo entre o passado e o presente, parecendo certo que os ressentimentos de outrora conseguem manter-se com mais facilidade do que a glória. Com uma atmosfera opressora e tensa, pontuada por traços de tragédia, drama e até algum humor negro, "What Ever Happened to Baby Jane?" surge marcado pela dinâmica explosiva entre Joan Crawford e Bette Davis, com as duas a aparecerem em registos distintos mas sublimes, conduzidas com mestria por Robert Aldrich, com o cineasta a não ter problemas em expor o lado negro do sucesso e do ocaso ao colocar-nos diante de duas figuras complexas, numa obra que continua a surpreender e exibir uma enorme vitalidade.

Titulo original: "What Ever Happened to Baby Jane?".
Título em Portugal: "Que Teria Acontecido a Baby Jane?".
Realizador: Robert Aldrich.
Argumento: Lukas Heller.
Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono, Maidie Norman.

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