08 outubro 2015

Resenha Crítica: "Weekend" (Fim-de-Semana)

 A irreverência, criatividade e genialidade de Jean-Luc Godard, bem como o seu engajamento político, surgem paradigmaticamente apresentados em "Weekend", uma obra onde somos deixados perante um casal que se prepara para efectuar uma viagem rocambolesca, marcada por acidentes de viação, estradas congestionadas, mortes, hippies canibais, personagens peculiares, entre muitas outras figuras e acontecimentos. Este casal aburguesado e materialista é formado por Roland (Jean Yanne) e Corinne (Mireille Darc). Ambos são infiéis e ambos pretendem assassinar o respectivo cônjuge, tendo em vista a terminarem uma relação pouco frutuosa, algo que revelam logo nos momentos iniciais do filme aos respectivos amantes. Roland e Corinne partem de carro em direcção a casa dos pais da segunda, tendo em vista a alterarem o testamento do pai da personagem interpretada por Mireille Darc para esta receber toda a herança. Pelo caminho, deparam-se com um casal que força a entrada no carro para ter boleia (com um indivíduo a prometer fazer milagres e a salientar ser o filho de "Deus e Alexandre Dumas", pois "Deus é um velho pervertido, todos sabem disso. Ele teve sexo com Dumas e eu sou o resultado. Resumindo: Eu sou Deus"), têm um acidente que destrói o bólide, encontram Saint-Just (Jean-Pierre Léaud), um Revolucionário da Revolução Francesa, um cantor (Jean-Pierre Léaud) a quem procuram roubar o veículo, entre vários outros estranhos elementos até chegarem a casa do pai de Corinne. Quando chegam ao local já este faleceu, uma situação que não permite alterar o testamento e os conduz a um acto desesperado, até terem de lidar com um grupo de hippies canibais num último terço meio surreal, onde Jean-Luc Godard não tem problemas em expor as suas ideias políticas (ou pelo menos as dos personagens que povoam a narrativa) e toda a anarquia que rodeia a obra. Diga-se que durante todo o filme essa situação fica presente, com este a deixar-nos com diálogos como "Os africanos devem lembrar-se que também sofreram uma forma de nazismo, exploração e extermínio físico e espiritual deliberadamente executado. Devem atacar essas manifestações nazistas francesas, inglesas, sul americanas e estarem preparados para enfrentarem isso por toda a África", mas também quando encontramos Roland a ser questionado se prefere ser fodido por Mao ou Lyndon Johnson e este responde pelo segundo, algo que lhe vale o insulto de "fascista", com a crítica ao capitalismo a ficar bem presente. 

Estes discursos por vezes alongam-se em demasia, mas nem por isso deixam de ser interessantes por remeterem para uma aparente preocupação do cineasta em relação a estas temáticas, apresentando um discurso político mais musculado e latente, paradigmático deste período pré-Maio de 68, remetendo para o que Godard tinha efectuado com "La Chinoise", onde a vertente política dominava a obra. Em "Weekend", Godard deixa-nos perante um casal que se depara com um conjunto de situações algo peculiares, por vezes marcadas por alguma violência e humor negro ao longo desta sátira feroz à sociedade do seu tempo. Jean-Luc Godard ironiza com a burguesia, com o capitalismo e os americanismos, mas também com os elementos da sociedade. Não faltam elementos como o tráfego intenso, algo visível no longo travelling onde somos deixados perante uma extensa fila de trânsito onde ocorrem os mais estranhos incidentes e assistimos a um enorme desfile de carros parados. Nestas cenas da estrada ficamos também com o exacerbamento do som das buzinas, com Godard a jogar novamente com as imagens e os sons, algo que já tinha sido visível anteriormente na banda sonora, com esta a propositadamente "sufocar" os momentos da narrativa e ao mesmo tempo realçá-los numa obra marcada por contradições onde um operário e uma capitalista se podem abraçar pouco tempo depois de discutirem violentamente. Essa situação é visível na sequência intitulada de "Luta de Classes", onde encontramos uma mulher em pranto pelo seu marido ter falecido, com o carro a ter sido abalroado por um tractor, gerando-se uma discussão entre o condutor do veículo e esta, que termina de forma algo caricata. Temos ainda o acidente de carro da dupla de protagonistas, exposto como se existisse um erro nas imagens, enquanto este casal procura chegar até Oinville. Esta é uma jornada marcada por muitos carros acidentados, corpos mortos e episódios meio surreais, onde facilmente entramos em momentos "à maneira de Lewis Carroll", mas também violentos como podemos encontrar junto dos hippies. Temos ainda as habituais referências cinéfilas efectuadas por Jean-Luc Godard, com os hippies a terem como nomes de código "Johnny Guitar" (em referência ao filme homónimo de Nicholas Ray, um dos ídolos de alguns dos cineastas da Nouvelle Vague, entre os quais Godard), "Gösta Berlings Saga" (em referência ao filme "Gösta Berlings Saga" de Mauritz Stiller), "Couraçado Potemkin" (em homenagem ao filme de Sergei Eisenstein), para além da famosa frase do casal que procura boleia da dupla de protagonistas, que salienta pretender "Informar que nestes tempos modernos a Era Gramatical chegou ao fim e inicia-se a Era da Parafernália, especialmente no cinema". No caso de "Weekend" assistimos a uma utilização dos vários recursos da "gramática" do Cinema, ao mesmo tempo que também encontramos a parafernália, com Godard a "fazer a festa, lançar os foguetes e apanhar as canas", lançando-nos questões, respostas, dúvidas, certezas, ao mesmo tempo que efectua um comentário sobre a sociedade do seu tempo, onde nada nem ninguém parece estar livre de pecados. 

Corinne salienta que "Não estamos mais na Idade Média", algo que surge seguido de cenas como a violência no trânsito, várias mortes, acidentes, entre muitos outros actos que confirmam não estarmos tão longe desta representação idealizada da Idade Medieval como algo de negativo. A própria câmara de filmar tem um papel activo na forma como toda esta narrativa marcada por uma enorme anarquia nos é exposta, com Jean-Luc Godard a ter em "Weekend" uma das suas obras mais conseguidas onde a sua ambição é latente. Este volta a elaborar comentários políticos, sobre a sociedade e cultura, rompe com a continuidade narrativa, coloca os personagens a dirigirem-se para os espectadores e deixa-os conscientes de estarem num filme, algo visível quando Roland e Corinne salientam "Que filme podre, tudo o que conhecemos é gente doida", com a dupla a estar longe de conseguir gerar completamente a nossa simpatia. Temos ainda o momento em que esta fica condoída quando Roland queima Emily Brontë (Blandine Jeanson), uma mulher que recita constantemente poesia, tendo sido criada em homenagem à escritora homónima, embora o personagem interpretado por Jean Yanne logo saliente que esta é uma personagem fictícia. Roland e Corinne são dois representantes de um grupo social algo decadente de valores, prontos a planearem o assassinato um do outro, embora estejam em conjunto a planear uma forma de conseguirem o dinheiro do pai da segunda, um homem cujas refeições procuraram envenenar ao longo das últimas semanas. Estes vivem uma jornada rocambolesca pelas estradas e os cenários urbanos e rurais de França, onde a morte parece ser algo de natural e a burguesia é combatida com violência, discursos ferozes e até alguma infantilidade. A dupla é interpretada com enorme eficácia por Jean Yanne e Mireille Darc, embora o maior destaque de "Weekend" seja a realização de Jean-Luc Godard, um dos nomes maiores da Nouvelle Vague Francesa. O resultado final é uma obra anárquica, extravagante, intensa e estimulante, onde a criatividade de Godard vem ao de cima e este exibe a sua genialidade. A certa altura de “Weekend”, Corinne salienta que "Isto não é um livro, é um filme. Um filme é vida". Quando é um filme de Jean-Luc Godard o filme ganha vida, extrapola as barreiras cinematográficas e surge pronto a gerar as mais distintas interpretações e sensações.

Título original: "Weekend". 
Título em Portugal: "Fim-de-Semana".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Mireille Darc, Jean Yanne, Jean-Pierre Léaud, Blandine Jeanson.

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