07 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Walk - O Desafio" (2015)

 O que motiva um ser humano a colocar a sua vida em risco para atravessar as Torres Gémeas do World Trade Center, a partir do topo, num cabo de aço? Philippe Petit, o indivíduo responsável por este feito, a 7 de Agosto de 1974, muito provavelmente não conseguirá justificar plenamente todas as razões que o levaram a cometer esta proeza que tem tanto de extraordinária como de louca, com um ser humano a desafiar-se e ao destino num espaço que viria a marcar a arquitectura de Nova Iorque até ao atentado de 11 de Setembro de 2001. É a história desta proeza magnífica e de alguns momentos que a antecederam, que nos são expostos, de forma ficcional, em "The Walk", a nova longa-metragem realizada por Robert Zemeckis, com o cineasta a comprovar mais uma vez a sua capacidade para utilizar as novas tecnologias ao serviço da narrativa. Zemeckis exibe também que, quando está inspirado, também sabe contar uma história como poucos, conseguindo extrair do espectador as mais variadas emoções, indo desde o sorriso mais honesto à tensão e nervosismo latentes, até ao aborrecimento por parecer que "The Walk" se vai perder em demasiadas situações expositivas e redundantes, ao mesmo tempo que nos agracia com a capacidade de nunca esquecer o lado humano da figura que retrata, quer sejam as suas virtudes, quer sejam os seus defeitos. Joseph Gordon-Levitt contribui e muito para a empatia e credibilidade de Philippe Petit junto do espectador, com o actor a convencer não só quando tem de falar em francês mas também inglês com sotaque (muito semelhante a Petit na vida real), transmitindo a paixão deste equilibrista, bem como as suas obsessões, medos e receios, com este a ser representado como um protagonista que está longe de ser uma figura unidimensional. Este pratica actos quase ao nível dos super-heróis, embora não tenha poderes e seja uma figura humana comum, com um dom enorme para o equilibrismo (ainda que este talento seja bastante trabalhado), que conta com os seus defeitos e virtudes, com Zemeckis a não procurar elaborar uma hagiografia sobre Petit, um indivíduo que ama a vida mas não parece ter problemas em colocar a mesma em risco. A empatia que Joseph Gordon-Levitt cria como Philippe Petit é essencial para inserir o espectador no enredo ou este não fosse o narrador de serviço, com a narrativa a deambular entre o presente e o passado, com o protagonista a servir de cicerone a exibir os episódios que o conduziram a este feito. Diga-se que a história já tinha sido exposta no coeso e dinâmico documentário "Man on Wire" de James Marsh, com Robert Zemeckis a procurar colocar-nos quase como se fizéssemos parte deste feito que tem tanto de louco como de fascinante. Inicialmente somos transportados para Paris, em 1973, onde Petit trabalhava como artista de rua, efectuando diversos malabarismos, incluindo andar numa corda nos espaços citadinos.

 Ao encontrar uma revista, num consultório dentário, onde aparece a notícia da construção das Torres Gémeas este fica logo com o desejo de atravessar as mesmas, fingindo dar um enorme espirro para arrancar a folha (um episódio relatado pelo próprio Petit em "Man on Wire"), num dos diversos momentos de humor deste filme que apresenta um tom quase de fábula, pontuado por alguma boa disposição e tensão, com a banda sonora de Alan Silvestri a adaptar-se na perfeição aos diferentes escopos que Zemeckis incute a "The Walk". O cineasta tanto nos exibe episódios de maior humor, tais como a primeira exibição pública oficial de Petit como equilibrista ou o momento em que conhece Annie (Charlotte Le Bon), como nos deixa diante de alguns trechos marcados por uma grandeza que esmagam o espectador perante aquilo que é apresentado, com os efeitos em 3D a permitirem ainda adensar as sensações vertiginosas inerentes aos feitos do protagonista quando atravessa o topo das duas torres da Catedral de Notre-Dame ou das Twin Towers. O momento em que Petit conhece Annie é pontuado por algum humor. Esta é uma artista de rua que vê a sua clientela ser encantada pelo círculo criado por Petit, um espaço onde apenas este pode entrar, exibindo as suas qualidades como equilibrista e malabarista. Primeiro gera-se faísca e desentendimento. Pouco depois, uma saída e um bom copo de vinho precedem uma relação amorosa que torna Annie na primeira cúmplice de Philippe. O segundo cúmplice é Jean-Louis (Clément Sibony), um fotógrafo que fica impressionado pela habilidade e espírito anárquico de Petit, com as ideias deste último e o seu entusiasmo a terem tanto de loucos como de fascinantes. Petit aprende parte do seu ofício com Papa Rudy (Ben Kingsley), uma figura que lidera uma equipa conhecida de equilibristas, com ambos a inicialmente apresentarem algumas divergências, até o personagem interpretado por Ben Kingsley assumir uma faceta quase paternal para com o protagonista. Diga-se que recentemente temos encontrado Ben Kingsley em papéis secundários que facilmente permitem que o actor sobressaia, algo visível em "Life", com este a ter em "The Walk" uma figura experiente, que tem no equilibrismo a sua profissão, algo que o distingue um pouco do protagonista que encara a sua actividade como uma arte que o apaixona e consome. É uma arte que procura aperfeiçoar, com a notícia de que as Torres Gémeas estão quase a ser concluídas, após ter causado burburinho por ter atravessado as torres da Catedral de Notre-Dame, a conduzi-lo, mais aos seus "cúmplices", a dirigirem-se ao local. Vão juntar-se ainda figuras como Jean François (César Domboy), um professor de matemática com medo de alturas; Barry Greenhouse (Steve Valentine), um elemento que trabalhava nas Torres Gémeas; Jean-Pierre (James Badge Dale), o indivíduo que lhes vende os comunicadores para contactarem entre as Torres, entre outras figuras. Nem todos os personagens secundários são explorados, algo visível numa dupla de tipos pedrados que pouca relevância atingem no enredo, tal como a relação entre Petit e Annie nem sempre é abordada com a assertividade necessária para que acreditemos que existe algo de muito forte a uni-los. Diga-se que o maior compromisso que Petit parece ter é com o seu desiderato de atravessar as Torres Gémeas, com este acto ilegal, considerado como um "golpe artístico", a ser um objectivo que deixa o protagonista praticamente obcecado, enquanto Zemeckis atribui elementos de filme de assalto a "The Walk", embora não exista realmente um furto.

O plano para chegarem ao topo das Torres Gémeas, antes destas estarem concluídas, é intrincado, com a colocação deste em prática a contar com alguns revezes e sorte à mistura, com estes momentos a antecederem aquilo que vai ser o ponto alto de "The Walk": Petit a atravessar as Torres Gémeas. Robert Zemeckis não só aproveita a cinematografia de Dariusz Wolski mas também os magníficos efeitos 3D para criar no espectador uma sensação vertiginosa, aproveitando de forma sublime este recurso (do qual não sou particularmente fã), ao mesmo tempo que exibe a grandiosidade dos edifícios e as enormes doses de coragem de Petit neste feito. Existe um misto de perigo e poesia a rodear estas cenas, com a banda sonora a contribuir para isso, enquanto o espectador é colocado em suspenso, preso nas alturas, junto de Petit, naqueles que são os melhores momentos de "The Walk", conseguindo praticamente fazer com que nos esqueçamos de alguns dos desequilíbrios apresentados ao longo do enredo. A banda sonora contribui para este tom quase de fábula, mas também para conceder uma natureza épica a alguns dos episódios, incrementados por um argumento que parece notoriamente preocupado em reproduzir o fascínio que Petit tinha pela sua actividade, algo que é transmitido para o espectador. Por vezes existem demasiadas exposições em relação a toda esta actividade e ao plano mas também redundâncias, embora estas sejam compensadas com uma notória reverência e sinceridade de Robert Zemeckis para com o material que nos tem para apresentar e um controlo exímio nos momentos de maior tensão. Diga-se que Zemeckis é ainda ajudado por uma interpretação de bom nível de Joseph Gordon-Levitt, com este a assumir movimentos esguios, quase felinos, uma personalidade que facilmente gera empatia apesar das suas obsessões como Philippe Petit, convencendo-nos do entusiasmo desta figura fascinante em relação a esta actividade que considera uma arte, conseguindo aproveitar o argumento de Zemeckis e Christopher Brown (inspirado no livro "To Reach the Clouds" de Philippe Petit). Em Paris, inicialmente exibida a preto e branco com excepção de uma ou outra tonalidade até a narrativa ser contaminada pelas cores, Petit apresenta alguma inexperiência até começar a dominar o seu ofício e a ganhar o devido respeito pelo mesmo e por aqueles que o observam, com o argumento a procurar explorar o desenvolvimento desta figura ao longo da narrativa e a sua ambição artística. O seu cumprimento a Nova Iorque exibe a reverência deste para com a cidade mas também a do realizador, com Robert Zemeckis a incutir uma certa nostalgia em relação às Torres Gémeas e à relevância que estas tiveram na arquitectura local. Os planos finais são de uma melancolia extrema, liberta de patriotismos, com Zemeckis a centrar quase tudo nos feitos de Petit embora tenha nas Torres Gémeas outro personagem de relevo. Estas marcam o território, fascinam o protagonista, despertam o nosso receio quando encontramos Petit no topo ao mesmo tempo que, involuntariamente, nos trazem à memória aquilo que aconteceu a 11 de Setembro de 2001.

É praticamente impossível negar que, pelo menos para mim, a reprodução das Torres Gémeas e o entusiasmo inerente à sua criação e a forma como são representadas acabam por gerar alguma emoção e nostalgia numa obra onde Zemeckis consegue exactamente mexer com os sentimentos do espectador. Sobretudo para quem tem vertigens como este indivíduo que escreve a resenha, a situação ainda é mais notória, embora "The Walk" consiga muito mais do que isso. Fascina, mesmo com os seus problemas, faz-nos rir, emociona, faz com que a sala escura de cinema se transforme num espaço mágico onde podemos por momentos quase sentir que estamos a atravessar as Torres Gémeas por um cabo, deixa-nos perante um protagonista que facilmente desperta simpatia, embora nunca seja esquecido que Zemeckis poderia facilmente ter encurtado o enredo ou pelo menos aproveitado as suas duas horas para desenvolver mais as figuras secundárias (os potenciais conflitos no interior do grupo nunca são devidamente sentidos). Parece antes reverenciar os planos de Petit, a sua procura em elaborar um estudo minucioso em volta das Torres Gémeas, com uma pisadela num prego a poder ser uma vantagem numa obra onde não falta algum humor. A colocação do plano em prática traz-nos à memória diversos filmes de assalto, embora o único furto que Zemeckis efectue seja à nossa atenção, captando a mesma com alguma facilidade. Este permite que Joseph Gordon-Levitt sobressaia, enquanto figuras como Charlotte Le Bon acabam por surgir mais discretas, com esta a interpretar o interesse amoroso do protagonista e cúmplice, embora pareça sempre faltar alguma chama a este namoro. Protagonizam um momento intenso numa discussão nocturna, tal como vivem alguns episódios mais leves, embora a missão de Petit, mais do que procurar a felicidade com Annie, pareça ser desafiar o destino e as Torres Gémeas. Tal como Philippe Petit, também Robert Zemeckis caminha numa corda bamba em "The Walk", entre os equilíbrios e os desequilíbrios, criando uma obra cinematográfica que nunca descura a dimensão humana do seu protagonista e de algumas figuras que o envolvem, apesar de todos os recursos tecnológicos utilizados e efeitos especiais, tendo em Joseph Gordon-Levitt um activo valioso. No final fica o gostinho especial de ver Robert Zemeckis a acertar de novo, ele que já nos brindou com obras cinematográficas como "Who Framed Roger Rabbit", "Back to the Future", "Forrest Gump", entre outras, tendo em "The Walk" um filme que, longe de ser perfeito, também está muito distante de não enobrecer o seu currículo.

Título original: "The Walk".
Título em Portugal: "The Walk - O Desafio".
Realizador: Robert Zemeckis.
Argumento: Robert Zemeckis e Christopher Browne.
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, James Badge Dale.

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