05 outubro 2015

Resenha Crítica: "A Walk in the Woods" (Por Aqui e Por Ali)

 Quando se encontrava a ser entrevistado num programa televisivo, Bill Bryson (Robert Redford), o protagonista de "A Walk in the Woods", é questionado sobre as razões de nunca ter escrito uma obra literária sobre os territórios dos EUA, apesar de ter elaborado diversos livros de viagens sobre outros locais. Ainda é questionado sobre as razões para tardar a voltar a escrever um novo livro, com aquilo que se encontra a ser apresentado no programa a serem reedições de sucessos do passado de Bryson. Este é um indivíduo que conta com os seus cerca de setenta anos de idade, que regressou aos EUA há dez anos, em particular para New Hampshire, onde vive com Catherine (Emma Thompson), a sua esposa, de quem tem dois filhos e três netos. O convívio com a humanidade não é o ponto forte de Bryson, algo visível quando é praticamente obrigado pela esposa a ir ao funeral de um conhecido, tendo uma enorme dificuldade em escolher as palavras certas para dizer na ocasião e ainda menor disposição para dialogar com os elementos presentes. Para apimentar um pouco a sua existência e, talvez, para desafiar as limitações inerentes à idade, Bryson decide percorrer o Trilho dos Apalaches, composto por 3540 kms, que liga a Geórgia ao Maine. Catherine procura dissuadir o esposo a seguir em frente com esta ideia, tratando-o quase como um demente, ao mesmo tempo que procura expor as suas preocupações e os perigos que envolvem uma aventura do género. No entanto, este parece decidido a seguir em frente com a ideia, sendo obrigado pela esposa a levar um companheiro para a viagem. Quando todos os amigos recusaram a oferta, a maioria num tom jocoso, a última opção de Bill passa a ser Stephen Katz (Nick Nolte), com este a oferecer-se, apesar de não ter sido convidado para a aventura, ao mesmo tempo que mente sobre a sua real condição física. Katz e Bryson já não se falavam há décadas, após alguns desentendimentos, tendo outrora vivido uma série de episódios marcantes. Katz manteve o seu estilo de vida, ou não continuasse um solteirão mulherengo, com um critério bastante largo na escolha de mulheres, que se envolve em alguns problemas e apresenta um feitio nem sempre fácil. Este conta com um problema com a lei que esconde inicialmente, parecendo não só querer fugir às autoridades mas também recuperar um pouco a saudável loucura dos episódios que vivera no passado com Bryson. O personagem interpretado por Robert Redford formou família, construiu uma carreira sólida como escritor, tem uma casa espaçosa com um jardim em New Hampshire após largos anos em Inglaterra, parecendo ter uma vida praticamente perfeita embora não se encontre totalmente satisfeito, algo que o conduz a iniciar uma aventura, tendo um companheiro de viagem pouco preparado fisicamente para efectuar longas caminhadas, com ambos a não terem experiência nestas andanças. Os dois viveram diversos episódios marcantes no passado, quer pela positiva, quer pela negativa, tendo personalidades distintas e visões diferentes em relação ao futuro, com o recuperar da relação de amizade entre Katz e Bryson ao longo do filme, após diversos anos afastados, a convencer-nos mais devido à dinâmica entre Nick Nolte e Robert Redford do que pela profundidade incutida pelo argumento ou até pela realização de Ken Kwapis, demasiado sensaborona para contribuir para que sintamos as dificuldades vividas pelos protagonistas ao longo do trilho, apesar de conseguir fazer com que alguns momentos de humor funcionem.

 A dupla de actores não tem grandes problemas em utilizar a passagem do tempo e as condicionantes inerentes ao avançar da idade ao serviço do humor, num enredo que tanto tem de inconsequente como de envolvente pela forma como nos coloca diante de dois intérpretes carismáticos e talentosos que têm em "A Walk in the Woods" a oportunidade de exporem algumas das suas qualidades, com Nick Nolte e Robert Redford a surgirem num registo leve e competente, conseguindo convencer-nos em relação a estas duas figuras que se embrenham numa aventura recheada de perigos sem terem a mínima preparação física e teórica. De voz rouca, por vezes quase imperceptível, cabelos longos e pouco cuidados, roupas que exibem algum descuido e a personalidade sui generis do personagem que interpreta, Nick Nolte consegue adensar as peculiaridades de Katz, um indivíduo que tanto é capaz de ter momentos de maior introspecção como se envolve em episódios mais infantis ou completamente destrambelhados. Nolte surge fisicamente imponente, como este personagem com uma forte presença apesar de algo trapalhão, menos dado a grandes aventuras ou a avançar com grande velocidade pelo território, não se coibindo em sugerir um pouco de batota. Robert Redford também surge num registo leve, exibindo o seu carisma e o estilo distinto do personagem que interpreta em relação a Katz, ou não fosse mais discreto embora também pareça sentir a falta de algo e não tenha problemas em fazer olhinhos a uma bela mulher, com esta aventura a ser um meio para desafiar as limitações inerentes à idade e provar que é capaz de percorrer este trilho. É sobretudo a dinâmica entre Robert Redford e Nick Nolte que fazem "A Walk in the Woods" funcionar minimamente, mesmo quando o primeiro tem de expor alguns diálogos demasiado expositivos sobre o território que parecem algo forçados (ou repetir várias vezes que não vai escrever um livro), com Ken Kwapis a centrar boa parte da narrativa nesta dupla, enquanto Bryson e Katz avançam pelo trilho, conhecem esporadicamente outras pessoas, deparam-se com alguns perigos e adversidades, entre as quais uma queda aparatosa que os coloca numa ravina, uma temperatura por vezes hostil, um marido ciumento e as limitações inerentes à idade. Entre as figuras com quem estes se deparam, aquela que mais sobressai, para não dizer praticamente a única, a ponto de "roubar" algum do destaque a Redford e Nolte, é Mary Ellen, com Kristen Schaal a conseguir em pouco tempo desviar as atenções para a personagem a quem dá vida, exibindo um timing assertivo para os momentos de humor. Mary Ellen é uma mulher de personalidade extrovertida, de voz esganiçada e a espaços irritante, que pensa sempre ter razão e não tem problemas em fazer pouco dos protagonistas, com estes a procurarem fugir da mesma a todo o custo. Esta é das poucas personagens secundárias com algum destaque, com elementos como Nick Offerman a efectuarem praticamente uma participação especial e Emma Thompson a aparecer apenas para o seu nome ficar bem no poster já que a sua relevância na narrativa resume-se aos momentos iniciais e finais, apesar de cumprir. O trilho surge como outro dos personagens, com este a ser longo, pontuado por alguns cenários belíssimos, diversos espaços por onde os personagens vão parar, seja para comer, dormir, ou arranjar confusão, embora Ken Kwapis raramente consiga incutir algum sentido de urgência ou simplesmente uma relevância palpável a esta aventura, numa obra cinematográfica que tanto tem de agradável em alguns momentos como de inconsequente e irrelevante. Veja-se quando temos a dupla de protagonistas, durante a noite, nas suas tendas, a ter a inesperada companhia de dois ursos. O momento de humor funciona, com ambos a procurarem livrar-se dos ursos de forma bastante peculiar, mas raramente existe sentimento de perigo a envolver este episódio, algo paradigmático do tom de "A Walk in the Woods". Mesmo a queda numa ravina pouca emoção traz a não ser mais uns momentos de diálogo entre Nick Nolte e Robert Redford que nos exibem que estes são capazes de fazer muito com pouco.

 Existe a noção óbvia de que Katz e Bryson já não caminham para novos, que os seus corpos já não aguentam as aventuras da mesma forma, com o argumento, inspirado no livro "A Walk in the Woods", a explorar esta situação com enorme simplicidade. A conclusão ou não do trilho é sempre uma possibilidade colocada em cima da mesa, quer pelas dificuldades inerentes ao território a espaços hostil, pontuado por florestas, bosques, espaços montanhosos, entre outros, quer pela noção destes homens de que podem não aguentar fisicamente a mesma devido à energia e ao físico já não ser o mesmo do que fora outrora. O filme foi inicialmente projectado para ser protagonizado por Robert Redford e Paul Newman, com a morte deste último a ter adiado o desenvolvimento de "A Walk in the Woods" até à entrada de Nick Nolte. A dupla de protagonistas é o motor desta narrativa, com estes a contarem com personalidades muito próprias, algumas discussões e momentos de maior leveza, enquanto reacendem uma relação de relativa amizade que fora perdida por desaguisados ocorridos no passado. A cinematografia é competente o suficiente na exposição do território, embora também não deslumbre, enquanto a banda sonora, apesar de bonita, parece procurar em demasia fazer realçar os episódios e como o espectador se deve sentir, sobrepondo-se por vezes em relação à narrativa ao invés de servir a mesma num filme que, ao contrário de Bryson, parece ter medo em aventurar-se. Com uma dupla como Robert Redford e Nick Nolte a dar vida aos personagens principais, o realizador Ken Kwapis tinha obrigação de fazer algo mais do que uma obra demasiado simplista, que nunca está à altura do talento dos seus protagonistas e da dinâmica que estes apresentam, pese um ou outro momento de humor que funciona, mas soa sempre a pouco. Tivesse outros protagonistas menos talentosos e carismáticos e muito provavelmente o nível de exigência seria outro, mas Ken Kwapis tinha matéria prima para mais. "A Walk in the Woods" faz-nos recordar uma equipa de futebol recheada de talentos individuais que é orientada por um treinador apenas mediano, com a sua táctica a não funcionar muitas das vezes ao longo do encontro, embora os rasgos individuais dos seus jogadores mais virtuosos permitam resolver algumas situações mais complicadas.

Título original: "A Walk in the Woods".
Título em Portugal: "Por Aqui e Por Ali".
Realizador: Ken Kwapis.
Argumento: Rick Kerb e Bill Holderman (tendo como base o livro "A Walk in the Woods" da autoria de Bill Bryson).
Elenco: Robert Redford, Nick Nolte, Kristen Schaal, Nick Offerman, Mary Steenburgen, Emma Thompson.

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