06 outubro 2015

Resenha Crítica: "Vivre sa vie: Film en douze tableaux" (Viver a Sua Vida)

 Jean-Luc Godard já tinha mostrado um certo gosto pelos marginais e elementos à parte da sociedade em "À Bout de Souffle", a sua primeira longa-metragem, tal como exibirá noutros filmes como “Pierrot le Fou”, algo que repete em "Vivre sa vie: Film en douze tableaux", onde nos deixa perante prostitutas, proxenetas, gangsters, ou seja, gentes aparentemente nem sempre recomendáveis. Já os filmes de Jean-Luc Godard da fase da Nouvelle Vague (da qual foi um dos expoentes máximos) são recomendáveis, ontem, hoje e sempre, com este a ter em Anna Karina uma protagonista à altura dos pergaminhos daquilo que lhe é pedido em "Vivre sa vie: Film en douze tableaux". Karina interpreta Nana Kleinfrankenheim, uma aspirante a actriz, que procura fazer de tudo para ascender no mundo da sétima arte ou no teatro, mesmo que isso implique abandonar o marido e o filho. Não lhe corre bem a aventura, com esta a parecer talhada para falhar, quer na vida pessoal, quer na vida profissional. Trabalha numa loja de discos de música, não tem casa certa, é detida por tentativa de roubo, acabando por conhecer Raoul (Sady Rebbot), um proxeneta que a integra no mundo da prostituição. Está aberto o caminho para a perdição, embora esta mantenha a sua alma e personalidade mesmo quando se prostitui. De hotel em hotel, de cliente em cliente, acompanhamos Nana até à desgraça final, enquanto esta fala, por vezes de forma poética, outras de maneira algo existencialista, ao mesmo tempo que Jean-Luc Godard nos deixa perante uma jovem adulta, de cabelo curto, fumadora, de face delicada e um futuro incerto nas duras ruas de Paris. O espaço citadino é exposto e aproveitado ao serviço da narrativa (algo comum em diversos cineastas da Nouvelle Vague), mas também a irreverência de Jean-Luc Godard, com este a dividir a sua obra em doze capítulos, apresentando-nos intertítulos que adiantam o que vamos ver de seguida, enquanto o cineasta não poupa nos close-ups, nos jump-cuts, nas narrações em off, em colocar os personagens a dialogar enquanto estão de costas para o ecrã ou então a olharem directamente para a câmara, quebrando regras e deleitando-nos perante esta narrativa capaz de mesclar algum lirismo e crueza, jogando com os gestos e as palavras, as imagens em movimento e os diálogos cheios de vida (ou os silêncios acompanhados por legendas). Bertold Brecht e a sua teoria do teatro épico poderão ter sido uma inspiração, mas também Carl Theodor Dreyer, que Godard homenageia ao expor o magnífico "La passion de Jeanne d'Arc" (não poderiam faltar as referências cinéfilas numa obra de Godard deste período, incluindo a “Jules et Jim” de François Truffaut), enquanto nos deixa perante a sua protagonista, também ela condenada à perdição pelos homens.

A personagem interpretada por Anna Karina chora a ver o filme de Dreyer, mas mal sabe ela que o seu destino também não será nada luzidio. A sua face é bela, os seus gestos recheados de sensualidade e intenção, sendo uma das muitas jovens com ambição mas sem grande rumo para a sua vida, mergulhada num espaço citadino que a afoga perante um mar de indiferença. Anna Karina, esposa de Jean-Luc Godard durante as filmagens de "Vivre sa vie: Film en douze tableaux", é exímia a encarnar esta personagem que procura subir na vida e cumprir o sonho de ser actriz. Quer tirar fotos como as estrelas de cinema, despe-se por dinheiro, vende o seu corpo, dança com vigor, mas nunca deixa de ser um enigma. Profere belas palavras, embala-nos no seu quotidiano, enquanto a câmara de filmar segue atentamente esta figura feminina complexa, que tanto tem de ambiciosa e pragmática como de romântica. Veja-se Nana no café a falar com um filósofo (Brice Parain), dialogando sobre o significado das palavras escritas e faladas, mas também sobre o amor, algo que a faz de questionar de forma algo naïve se este "não deve ser a única verdade". A verdade é que tudo muda na vida de Nana quando conhece Raoul. Proxeneta de profissão, Raoul conduz Nana a um mundo onde o corpo desta é o seu bem mais valioso para obter rendimentos financeiros, deixando-a perante vários clientes, vivendo várias experiências e conhecendo rapidamente vastas gentes, apesar de ainda ter tempo para se envolver sentimentalmente. Godard insere ainda questões sobre a legislação da época relacionada com a prostituição, num tom algo mordaz, enquanto avança de capítulo em capítulo, qual livro cujas páginas não conseguimos parar de desfolhar. Mérito para o cineasta, que nos apresenta uma história que facilmente nos envolve, acompanhada por um magnífico desempenho de Anna Karina e um trabalho de câmara digno de nota. Como salienta Roger Ebert, com Godard, a câmara de filmar "(...) is not expressing a "style" but the way people look at other people", com o cineasta a deixar-nos perante os olhares dos personagens, a movimentar a câmara sempre que necessário e a fazer-nos inebriar para o interior do seu trabalho. Vale ainda a pena realçar o trabalho de fotografia de Raoul Coutard, colaborador habitual de Jean-Luc Godard, capaz de extrair toda a reverência que o cineasta tinha para com o rosto de Anna Karina, expondo a sua enorme beleza no grande ecrã, conferindo-lhe uma aura quase divina e enigmática, mas também a explorar os espaços citadinos por onde Nana circula, enquanto esta procura aprender a lidar com as constantes alterações que ocorrem na sua vida. Em "Vivre sa vie: Film en douze tableaux" somos deixados perante a procura de Nana em viver, em cumprir os seus sonhos, enquanto a sua vida conhece um conjunto de reviravoltas e revezes que a prometem conduzir à desgraça, não sem que antes Jean-Luc Godard realize mais uma obra marcante.

Título original: "Vivre sa vie: Film en douze tableaux".
Título em Portugal: "Viver a Sua Vida".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard e Marcel Sacotte.
Elenco: Anna Karina, Sady Rebbot, André S. Labarthe, Guylaine Schlumberger, Gérard Hoffman.

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