26 outubro 2015

Resenha Crítica: "Vivement dimanche!" (1983)

 Última longa-metragem realizada por François Truffaut, "Vivement dimanche!" mescla temáticas e elementos típicos dos trabalhos do cineasta, tais como traições, assassinatos, identidades trocadas e as célebres referências cinéfilas ao mesmo tempo que parece evocar as narrativas convulsas de alguns filmes noir e o mistério das obras cinematográficas de Alfred Hitchcock, inserindo a espaços um tom leve a uma fita pontuada por diversos momentos de tensão. Por vezes traz à nossa memória "Phantom Lady", um filme noir realizado por Robert Siodmak, onde Carol Richman (Ella Raines), a leal secretária de Scott Henderson (Alan Curtis), procurava provar a inocência do seu superior, acusado de ter assassinado a esposa. Tal como a protagonista de "Phantom Lady", também Barbara Becker (Fanny Ardant) tem um fraquinho pelo seu chefe em "Vivement dimanche!", enquanto este é acusado de ter assassinado Marie-Christine Vercel (Caroline Sihol), a sua esposa, bem como de ter eliminado Jacques Massoulier, um dos amantes desta última. Quem se encontra a ser acusado destes crimes é Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant), o dono de uma agência imobiliária, um indivíduo aparentemente confiável, que tem como hobbie ir à caça. Nos momentos iniciais do filme assistimos a Julien a praticar o seu hobbie, bem como a Massoulier a ser assassinado num espaço próximo ao local onde se encontrava o agente imobiliário, com o comissário Santelli (Philippe Morier-Genoud) a desconfiar que o primeiro é o culpado desta morte, a ponto de se dirigir até à agência do mesmo, embora não tenha provas cabais para o deter. Os problemas não se ficam por aqui, algo latente quando encontramos Julien a discutir com a esposa. Inicialmente ficamos diante de um plano geral que nos deixa com uma ideia clara da dimensão espaçosa da habitação deste casal, com os longos vidros que marcam a parte exterior da casa a permitirem que observemos o seu interior e assumamos temporariamente uma postura voyeurista, até Truffaut nos colocar perante a intimidade de Julien e Marie-Christine, com esta mulher a exibir uma enorme sensualidade e uma personalidade bastante aberta, não tendo problemas em expor as suas traições. O diálogo entre ambos é interrompido pelo facto de Santelli e os seus homens se terem dirigido até à habitação do casal para transportarem Julien à esquadra, tendo em vista a que o agente imobiliário seja interrogado. Clément (Philippe Laudenbach), o advogado de Julien, consegue libertá-lo com relativa facilidade, embora o protagonista não fique logo livre de problemas, bem pelo contrário. Mente ao advogado sobre a localização de Marie-Christine, uma situação que se torna mais gravosa quando descobre que esta foi assassinada, algo que o leva a temer que seja considerado o principal suspeito pelo homicídio desta mulher. Julien tinha decidido despedir Barbara, embora, ironicamente, tenha de recorrer a esta última para o ajudar quando descobre que a esposa foi assassinada. Este esconde-se no interior de um espaço da agência, um pouco a fazer recordar o método utilizado pelo esposo de Marion Steiner (Catherine Deneuve) em "Le dernier métro". O esposo de Marion Steiner escondeu-se no porão do teatro que dirigia, tendo em vista a escapar dos elementos da França de Vichy e da Alemanha Nazi que o perseguiam devido a ser um judeu, enquanto Julien tem maior liberdade de acção, acabando por participar numa investigação intrincada, pontuada por uma multitude de personagens e cenários, com a descoberta da identidade do assassino a parecer uma tarefa assaz complicada.

 A primeira a tomar as rédeas da investigação é Barbara, com Fanny Ardant a interpretar uma mulher desenrascada e sardónica, de forte personalidade, que seduz facilmente os homens, embora reprima uma paixão secreta pelo seu chefe. Esta envolve-se num caso intrincado, recheado de episódios rocambolescos, com a sua vida a também parecer ficar em perigo ou esta não se embrenhasse numa investigação que a obriga a deparar-se com pessoas nem sempre confiáveis. Barbara acaba por ter que se dirigir a locais tão distintos como uma agência de detectives privados, um cinema gerido por figuras enigmáticas, clubes nocturnos, ruas rodeadas de prostitutas, entre outros, até ter um papel fulcral na resolução deste caso intrincado que a espaços nos remete para as investigações que constam numa panóplia de filmes noir. Tal como em diversos filmes noir, a noite é uma das "companheiras" das figuras que povoam o enredo de "Vivement dimanche!", com esta obra a contar ainda com outros "ingredientes" que remetem para este subgénero. Não faltam os personagens moralmente duvidosos, o fumo oriundo dos cigarros a ditar os estados de espírito de alguns elementos (um recurso utilizado com algum humor), os clubes nocturnos, a relação complicada entre o protagonista e as autoridades, as investigações problemáticas, com Marie-Christine a surgir como uma espécie de femme fatale cuja morte promete trazer ainda mais problemas ao personagem interpretado por Jean-Louis Trintignant. Temos ainda a presença do indivíduo injustamente acusado de um crime, uma temática relativamente comum de encontrar em obras de Alfred Hitchcock como "I Confess", "Dial M for Murder" e "Strangers on a Train", para além do mistério inerente aos assassinatos, com François Truffaut a colocar-nos diante de uma narrativa convulsa, pontuada por um miríade de personagens e episódios que facilmente ficam na memória. Pelo caminho existe espaço para algum humor, seja por uma torneira que se estraga e torna um momento mais sério em algo de caricato, ou uma agressão a um suspeito que afinal até era um padre, entre outros exemplos. Diga-se que a investigação vai ter os seus momentos mais sérios. Veja-se a deslocação inicial de Barbara a Nice, onde a esposa de Julien supostamente tinha um salão de beleza, algo que não se confirma. No local, ao invés de um salão de beleza, Barbara encontra "O Anjo Vermelho", um clube nocturno que conta com outro estabelecimento na cidade onde os protagonistas habitam ("Vivement dimanche!" foi filmado em Hyères), com Louison (Jean-Louis Richard), a surgir como uma figura misteriosa que aparece em ambos os espaços de diversão. Louison é uma das várias figuras enigmáticas que povoam o enredo de "Vivement dimanche!", encontrando-se presente quer nos clubes nocturnos, quer no cinema Eden, à semelhança de Paula Delbecq (Anik Belaubre), a empregada que trabalha na caixa deste último estabelecimento, uma mulher que mantém um ódio visceral em relação a Julien, considerando que este é o assassino de Massoulier. Paula conta com uma série de segredos, algo comum a uma miríade de personagens de "Vivement dimanche!", com François Truffaut a dotar a narrativa de uma imensidão de figuras nem sempre confiáveis e episódios onde os perigos podem ser mais do que muitos para a dupla de protagonistas. Até o próprio advogado de Julien pode ser menos simpático e inocente do que aparenta ao longo de uma obra cinematográfica onde Fanny Ardant e Jean-Louis Trintignant surgem como os maiores destaques a nível de interpretação.

Fanny Ardant sobressai como uma mulher que facilmente desperta a nossa simpatia, contando com um sorriso contagiante e uma personalidade afável e sardónica, com a actriz a conseguir dar credibilidade a esta personagem que se deixa levar quase sempre pela curiosidade, ao mesmo tempo que procura salvar o amado. Julien aprecia sobretudo mulheres loiras, enquanto Barbara é morena, com esta a contar com imensas dificuldades para despertar a atenção do protagonista, surgindo como uma das poucas figuras que acredita na inocência do agente imobiliário. Barbara aproveita algum do seu tempo livre para representar num grupo de teatro amador, onde se encontra o ex-marido, um indivíduo que não perde uma oportunidade para conseguir algo mais ao contactar com a colega de ensaios, embora esta se encontre mesmo é interessada em Julien. Diga-se que esta personagem chega muitas das vezes a ser alvo de actos agressivos por parte das figuras masculinas (a bofetada dada por Julien é um exemplo), embora isso não a impeça de se envolver em situações perigosas como fingir que é uma prostituta e procurar entrar num clube nocturno onde se encontram alguns dos suspeitos. Por sua vez, Jean-Louis Trintignant interpreta um agente imobiliário que tanto tem de impulsivo como de passivo e ingénuo. Tanto procura esconder-se da polícia até provar que é inocente, como parece confiar no seu advogado num momento de maior desespero, tendo em Barbara uma aliada de peso, embora nem sempre valorize a mesma. Julien não sabia que era traído, tal como não desconfiava do interesse da sua funcionária, embora esta não tenha problemas em agarrar-se ao protagonista e dar-lhe um beijo para se esconderem das autoridades, um acto que esconde outro tipo de sentimentos. É um momento mais caloroso, que ocorre durante a noite, numa obra cinematográfica onde Truffaut volta a explorar com sucesso uma miríade de cenários, sejam estes interiores ou exteriores. Veja-se o cenário da agência imobiliária, um espaço onde Julien e Barbara se reúnem de forma amiúde, parecendo durante largo tempo um porto de abrigo para este se manter foragido das autoridades. A dinâmica entre Fanny Ardant e Jean-Louis Trintignant é relativamente convincente, com a primeira a interpretar uma figura sempre mais expedita, enquanto o segundo aparece como um indivíduo mais nervoso em relação ao seu futuro, procurando participar na investigação embora seja Barbara quem tem maior sucesso nesta aventura. A cinematografia de Néstor Almendros, um colaborador habitual de François Truffaut, contribui quer para o mistério, quer para a maior inquietação em volta dos acontecimentos desta obra cinematográfica filmada a preto e branco que a espaços nos remete para os filmes noir ou para as obras de Alfred Hitchcock, sempre com alguns traços próprios de Truffaut e algum humor. Não poderiam faltar as traições, o desejo de cariz sexual, as referências cinéfilas, mas também planos construídos com cuidado, alguns de longa duração, com François Truffaut a ter em "Vivement dimanche!" uma última obra-cinematográfica como realizador que muito tem de si e demonstra a vitalidade de um dos grandes cineastas da História do Cinema.

Título original: "Vivement dimanche!".
Título em Portugal: "Finalmente, Domingo!".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: Jean Aurel, Suzanne Schiffman e François Truffaut (inspirado no livro The Long Saturday Night de Charles Williams).
Elenco: Fanny Ardant, Jean-Louis Trintignant, Jean-Pierre Kalfon, Philippe Laudenbach.

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