09 outubro 2015

Resenha Crítica: "Une femme mariée: Suite de fragments d'un film tourné en 1964"

 A atenção aos gestos e aos corpos que se tocam é notória em "Une femme mariée: Suite de fragments d'un film tourné en 1964", a oitava longa-metragem realizada por Jean-Luc Godard, um filme que conheceu diversos problemas com a Commission de Controle devido ao título original ("Le Femme Mariée") e a várias temáticas e cenas do mesmo, associadas à sexualidade e infidelidade, para além de não faltarem alguns comentários polémicos de pendor social e político. Embora inclua os habituais produtos capitalistas como revistas cor de rosa e afins pelo meio dos cenários, procurando desenvolver uma crítica à sociedade de consumo, Godard volta a explorar um conjunto de personagens cujas vidas estão longe de figurar num anúncio televisivo, ao mesmo tempo que aborda questões relacionadas com a história e a memória, o amor e o desejo, a imagem e as palavras, sempre com um conjunto de diálogos que facilmente despertam a nossa atenção, quase que apetecendo ficar a ouvir estes personagens a falarem horas e horas a fio. Uma dessas personagens é Charlotte (Macha Méril), uma mulher casada com Pierre (Philippe Leroy), que mantém um caso extra-matrimonial com Robert (Bernard Noël), um actor. No início do filme encontramos Charlotte e Robert em momentos de grande intimidade, com esta a encontrar-se despida e o seu amante a passar-lhe as mãos pelas várias partes do corpo, enquanto a câmara de filmar foca-se nos gestos deste elemento. A câmara de filmar dá atenção ao corpo da personagem interpretada por Macha Méril, focando-se ora nas pernas desta, ora na barriga, ora na face (close-ups), com a actriz a surgir quase como um duplo de Anna Karina, de quem Godard se estava a divorciar. Charlotte gosta de filmes dos EUA, ele gosta de filmes italianos. Ambos parecem nutrir sentimentos um pelo outro, apesar de Charlotte também denotar ainda gostar do esposo. Robert pretende casar-se com Charlotte, embora esta ainda não se pareça ter decidido por completo em relação ao que fazer. Por sua vez, Pierre, um piloto de aviões, regressa de viagem, acompanhado por Roger Leenhardt, um realizador, combinando um jantar com o amigo e Charlotte. Na sala, em amena cavaqueira, estes falam sobre temas como a memória, o presente, a inteligência, com a narrativa a contar com uma espécie de intertítulos a dividirem estes pequenos capítulos, uma técnica já utilizada por Jean-Luc Godard em obras como "Vivre Sa Vie" e "2 ou 3 choses que je sais d'elle". Nesse sentido, vamos ter personagens em destaque nestes três primeiros mini-capítulos a divagarem sobre aquilo que consideram ser importante, com estes a parecerem responder a um conjunto de questões sem que vejamos directamente o seu interlocutor (com Godard a repetir algo semelhante em "Masculin Féminin"). Para Pierre, a memória é "(...) uma das coisas mais importantes", algo que seguidamente acrescenta "Mas é tão incrível, quando estive na Alemanha, fiquei em Auschwitz durante alguns dias. Bem, havia gente acusada de, não sei, ter matado milhares de pessoas. E eles não se lembram (...)", com Godard a exibir com alguma ironia este "esquecimento" alemão ao mesmo tempo que aproveita para abordar o Holocausto. 

Pierre encontra-se sempre muito preso ao passado, enquanto Jean-Luc Godard aproveita para recordar estes episódios hediondos da História que pouco dizem a Charlotte, uma mulher mais preocupada com o que acontece na actualidade. Charlotte gosta é do presente (e das dúvidas e dos aspectos incontroláveis do mesmo), de música e de flores, de "coisas que acabam", abordando a necessidade do amor ser vivido neste período temporal, remetendo para os prazeres momentâneos que esta aprecia. Pierre e Charlotte formam um casal cuja relação nem sempre parece apresentar uma enorme coesão, embora as diferenças entre ambos se complementem relativamente bem. Nem sempre percebemos as razões para Charlotte o trair, embora este desconfie dos actos da esposa, algo representado quando a protagonista salienta que o esposo contratou detectives para a investigarem. Charlotte é uma mulher moderna, por vezes algo fútil, que se questiona sobre o amor, o desejo e aquilo que estes dois homens pensam sobre a sua pessoa, contando com uma relação extra-matrimonial que lhe promete trazer problemas. Esta descobre que está grávida, uma situação que a deixa perante a indesejável incerteza de não saber quem é o pai do bebé que carrega no seu ventre, algo que a atormenta. Pergunta ao médico sobre a possibilidade de ter uma gravidez indolor, embora a maior dúvida que esta carrega pareça ser entre seguir com a relação marcada pelo desejo com Robert ou a estabilidade amorosa com Pierre. Robert é um actor que encontramos numa fase final do filme a preparar-se para protagonizar uma adaptação de "Bérénice" de Jean Racine, acabando por divagar sobre seu o trabalho ao mesmo tempo que nos parece certo que a sua relação com a protagonista pode estar a dar as últimas. Pierre dá outra estabilidade a Charlotte, tendo um filho de uma anterior relação que trata a protagonista como mãe, com o trio a viver como se fosse uma família coesa, embora conte no seu interior com diversos problemas. O envolvimento sexual marca a relação de Charlotte com os dois homens, com ambos a parecerem desejar o seu corpo e ter um filho desta mulher, enquanto a câmara foca-se no mesmo e expõe uma aparente admiração de Godard pela fisionomia da sua actriz. O cineasta volta a utilizar eficazmente os close-ups, expondo os personagens diante nós, deixando-os a terem interpretações marcadas por alguma sobriedade. Macha Méril acaba por ser o nome que mais se destaca do elenco, com Jean-Luc Godard a aproveitar o talento da actriz para a representação, mas também o seu corpo, transformando-o num objecto de desejo, onde até o cabelo é alvo do toque e atenção masculina (um pouco a fazer recordar a relação entre o protagonista de “La peau douce” e a amante). A actriz tem um enorme à vontade como esta personagem complexa, que vive para o presente embora tenha dificuldade em se desfazer das memórias passadas, que tanto é capaz de ter conversas existencialistas como logo de seguida estar a dialogar com a sua empregada de limpeza sobre um produto que "milagrosamente" aumenta os seios. Este produto peruano para os seios, bem como o objecto utilizado por Robert que supostamente permite manter o corpo erecto, surgem como uma forma algo sardónica de Godard criticar a cultura de consumo capitalista, expondo produtos aparentemente banais pelo meio dos cenários mas nem por isso necessários ao quotidiano (veja-se a exibição da revista de moda onde encontramos Charlotte a ver lingerie feminina e masculina, mas também quando esta se encontra a ler sobre um método para medir os seus seios).

Jean-Luc Godard volta a jogar com as imagens e as palavras, efectuando comentários sobre a sociedade do seu tempo e os relacionamentos amorosos, ao mesmo tempo que nos deixa com as célebres referências cinematográficas das suas obras (não faltam retratos de Marlene Dietrich, Alfred Hitchcock, referência a Jean Cocteau e Roberto Rossellini, entre outros). Diga-se que ainda não vai faltar o célebre aproveitamento dos espaços citadinos ou dos cenários exteriores, bem como as conversas paralelas no café que facilmente ganham protagonismo na narrativa, entre outros elementos que podemos encontrar nos trabalhos do cineasta deste período. Esta não é a primeira obra de Jean-Luc Godard centrada na figura feminina, com o cineasta a já ter dado bastante atenção às mulheres em "Une Femme est une Femme", "Vivre Sa Vie", embora "Une femme mariée" até nos remeta mais para "2 ou 3 choses que je sais d'elle", onde também tínhamos uma abordagem a um período de cerca de vinte e quatro horas da vida de uma mulher. A protagonista de "2 ou 3 choses que je sais d'elle" é uma mulher casada, algo fútil, que se prostitui para ganhar dinheiro extra. No caso de "Une Femme Mariée" ficamos diante de Charlotte, uma mulher adúltera que trai o esposo, ama, deseja, erra, não sabe o que fazer com a sua vida, surgindo recheada de incertezas, numa cidade de Paris marcada pela superficialidade que parece proporcionar este constante vazio que assola a alma da protagonista. Pede para o esposo expor os defeitos, pede para o amante salientar as virtudes, procurando saber o que estes pensam, parecendo perdida entre duas relações apesar de denotar ter a noção de que esta situação não é sustentável a longo prazo. Apesar de todos estes elementos, “Une femme mariée” está longe de ser um filme que não conta com bom humor, algo visível quando temos Charlotte a colocar a tocar um dos discos que não pertencem a Pierre, enfurecendo o mesmo, enquanto ouvimos uns estranhos barulhos até entrar em cena música clássica. Existe algum erotismo a rodear a representação de Charlotte, mas também muita superficialidade, desejo, dúvidas e diálogos existencialistas, com Jean-Luc Godard a não deixar de parte um lado algo sociológico do filme, explorando trechos da vida de uma jovem mulher que tanto tem de complexa como de fútil e encantadora. O resultado final é sublime.

Título original: "Une femme mariée: Suite de fragments d'un film tourné en 1964".
Título em Portugal: "Uma Mulher Casada".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Bernard Noël, Macha Méril, Philippe Leroy.

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