05 outubro 2015

Resenha Crítica: "Sicario" (2015)

 Intenso, questionador, pouco dado a falsos moralismos, pontuado por uma atmosfera a espaços claustrofóbica e inquietante adensada pela banda sonora de Jóhann Jóhannsson, "Sicario" transporta-nos para uma narrativa bem mais complexa do que inicialmente pode dar a entender, pronta a levantar dúvidas junto do espectador sobre questões relacionadas com a segurança interna e externa dos países, o combate ao crime organizado/terrorismo, entre outras, num filme onde Denis Villeneuve regressa à temática da procura de vingança por parte de um dos personagens. Desde as acções da CIA, a política dos EUA de resolver alguns dos seus problemas internos fora das suas fronteiras e a ingerência em territórios externos, os affairs das autoridades yankees com inimigos para travarem ameaças mais latas, a imoralidade de algumas operações secretas, passando muitas das vezes pelo esbatimento da linha que deveria separar criminosos e aqueles que deveriam fazer prevalecer a lei, várias são as temáticas abordadas embora, no final, sejam muitas as questões que ficam no ar ou não estivéssemos a falar de uma obra do mesmo realizador que elaborou "Enemy". Será que os fins justificam os meios para preservar a segurança nacional? Até onde devem ir as autoridades? Quais os melhores meios para combater os criminosos? Como poderemos fechar os olhos ao constante transgredir da lei em prol de uma suposta segurança? Será possível manter a integridade moral num território inóspito e hostil onde a única maneira para lidar com o inimigo parece ser combater com as mesmas armas? Várias são as questões que nos são levantadas ou pelo menos que nos atormentam a consciência após a visualização de "Sicario", uma obra que se revela uma experiência intensa, capaz de reforçar mais uma vez a ideia que vivemos num Mundo onde os valores morais e o cumprimento da lei nem sempre são colocados em prática, com Denis Villeneuve a obrigar-nos a embrenhar para o interior desta atmosfera opressora que permeia a narrativa, repetindo algo que efectuara de forma exímia em "Prisoners". O cineasta é o mestre de cerimónias, alicerçado por um argumento inteligente, capaz de nos apresentar a personagens que são complexos o suficiente para fugirem a catalogações de "bons" e "maus", talvez com excepção da protagonista que nunca perde os seus valores morais, para além de um magnífico trabalho de Roger Deakins na cinematografia (aquele plano onde o céu está pontuado por tons azulados e alaranjados é magnífico, ou as imagens aéreas de Juárez que nos colocam perante a certeza de estarmos diante de um território labiríntico e inóspito), bem como um elenco que domina tudo aquilo que se pede, sobretudo Emily Blunt, uma actriz que deita por terra qualquer dúvida sobre as mulheres poderem ou não protagonizar filmes do género nos dias de hoje, enchendo o ecrã com um trabalho imaculado. Esta interpreta Kate Macer, uma agente do FBI especialista no resgate de reféns, tendo fortes ideais e um espírito de liderança, surgindo como uma das poucas personagens que nos faz ter alguma esperança na humanidade. O seu guarda-roupa condiz imenso com a sua personalidade, ou seja, prático e simples, com esta a apresentar uma força interior que muitas das vezes esconde as suas fragilidades, acabando por perder alguma inocência que tem em relação às suas funções a partir do momento em que é designada para uma operação especial em Juárez no México, organizada pelo Departamento de Estado dos EUA.

 Tudo começa quando esta é designada para verificar uma propriedade pertencente a Manuel Diaz (Bernardo P. Saracino), situada no Arizona, tendo em vista a resgatar os supostos reféns que se encontram no local. O que a equipa acaba por descobrir são mais de três dezenas de corpos putrefactos e mutilados no interior das paredes, após um intenso tiroteio, para além de um aparelho explosivo que ao ser involuntariamente accionado conduz à eliminação de dois agentes. Diaz é o representante nos EUA do Cartel de Sonora, do México, conhecido pela lavagem de dinheiro, tráfico de droga e afins. Na missão encontram-se Kate, bem como Reggie (Daniel Kaluuya), um colega que é amigo pessoal da protagonista. Esta é convidada a integrar uma missão secreta ao México, embora não saiba realmente aquilo que lhe espera. O combate ao tráfico de droga não é a sua especialidade, muito menos lidar com cartéis, mas esta pensa poder encontrar e combater a raiz do problema que se encontra a afectar o território dos EUA mas aos poucos percebe que a situação é muito mais complexa, englobando não só acções pouco recomendáveis das autoridades yankees mas também mexicanas, actos imorais, muita violência e a certeza que não tinha a consciência desta realidade. Mais tarde, Dave Jennings (Victor Garber), o seu superior, vai salientar-lhe que esta não está a ultrapassar a lei, já que os actos que a equipa pode cometer para (supostamente) defender o território dos EUA, fora do país, tornaram-se mais alargados. Esta integra uma equipa de black ops liderada por indivíduos como Matt Graver (Josh Brolin), um elemento que supostamente foi designado pelo Departamento da Defesa dos EUA que apresenta atitudes que deixariam o pouco recomendável Capitão Hank Quinlan (Orson Welles) de "Touch of Evil" orgulhoso, seguindo a mesma política de cumprir as missões a todo o custo, independentemente da imoralidade dos actos ou as fugas ao cumprimento da lei. Josh Brolin incute a este personagem um enorme à vontade e estilo descontraído, muitas das vezes pronto a disparar falas jocosas e a cometer violência, acreditando piamente que se encontra a defender os EUA ao agir quase como um criminoso fora das fronteiras do seu país. No grupo encontra-se ainda Alejandro (Benicio Del Toro), um elemento misterioso, de poucas falas, exímio na arte do disparo, frio e letal quando tem que o ser. Benicio Del Toro é, muito provavelmente, o elemento que mais se destaca a par de Emily Blunt. O momento em que estes dois encontram-se juntos, na casa da mesma, no último terço, é de pura tensão, com Denis Villeneuve a saber gerir o mesmo de forma exímia, tal como num trecho onde é impossível ficar completamente impassível quando Alejandro se encontra de pistola em punho, dirigindo-se a um indivíduo que aqui não vamos revelar e à família do mesmo, com a inquietação a dominar tudo e todos. A pistola está lá. A personalidade de Alejandro já está relativamente definida nestes momentos, embora paire sempre a incerteza sobre a sua pessoa, algo que torna os trechos mencionados ainda mais inquietantes, com Denis Villeneuve a revelar a espaços uma faceta hitchcockiana na forma como sabe gerir o suspense. A cinematografia de Roger Deakins contribui muitas das vezes para esta atmosfera claustrofóbica, com os frios cenários dos escritórios onde Matt se reúne com Kate e outros elementos antes desta aceitar participar numa missão sobre a qual sabe muito pouco a contrastarem com os caóticos e fervilhantes espaços de Juárez. Os planos aéreos exibem-nos na perfeição este território labiríntico, com a equipa nas estradas, em cinco carros enfileirados, a preparar-se para conhecer desde logo a violência e participar na mesma. Veja-se quando Alejandro, Matt, Steve Forsing (Jeffrey Donovan - como outro agente que participa na missão) encontram-se na estrada, deparam-se com dois carros com indivíduos com armas e resolvem o problema à boa maneira dos criminosos, aproveitando o trânsito estar parado para dirigirem-se junto dos mesmos e eliminá-los. Kate fica chocada mas este é apenas o início de uma missão que tem como um dos objectivos principais chegar a Fausto Alarcon (Julio Cedillo), o chefe e primo de Manuel Diaz, o número três do Cartel de Sonora. Nesse sentido, vão procurar fazer com que Diaz saia dos EUA, mesmo quando têm provas que o podem incriminar por lavagem de dinheiro, tendo em vista a descobrirem Alarcon e agirem no interior do México. 

 A missão inicial em Juárez passa por obterem mais informações, em particular encontrarem Guillermo, o irmão de Manuel Diaz, mesmo que para isso tenham de praticar tortura, num espaço onde as balas são disparadas com a mesma naturalidade que fogo de artifício é lançado em festividades. Diga-se que este território é exposto com um misto de desencanto e terror, com corpos mortos a encontrarem-se presos por cordas, virados ao contrário, expostos como um troféu de guerra que simboliza o perigo destes cartéis e deste espaço, com a narrativa a deambular nas franjas entre o México e os EUA. Os segredos são mais do que muitos, com Kate e Reggie a parecerem dos poucos a manterem as barreiras morais, mas também uma enorme amizade. Alejandro é um assassino com uma agenda escondida que passa também por colocar em prática uma vingança que o levou a desistir da profissão de advogado, algo que explica o formalismo das suas roupas em alguns momentos. Matt é o típico elemento que acredita cegamente nas ordens que lhe incubem, parecendo tirar algum prazer do cumprimento das mesmas, simbolizando muitas das vezes o protótipo do yankee que gosta de se imiscuir na governação de outro país. Temos ainda por vezes alguns trechos relacionados com Silvio (Maximiliano Hernández), um polícia mexicano que colabora no tráfico de droga, com “Sicario” a exibir-nos este elemento como um pai de família que nem sempre toma as melhores decisões, embora esta subtrama apenas ganhe maior impacto no último terço. Diga-se que tanto Alejandro, como Matt, tal como Kate, estão longe de serem figuras unidimensionais. Ambos são seres humanos complexos, com personalidades muito próprias, que tomam opções com as quais podemos ou não podemos concordar, embora muitas das vezes nos deixem diante de uma miríade de dúvidas. O argumento explora de forma exímia as dúvidas de Kate, com Emily Blunt a conseguir explorar alguma inocência da mesma diante do perigo e situações adversas, com esta a ser um baluarte da defesa dos ideais e da lei, criando uma forte empatia com o espectador, capaz de se identificar com as suas incertezas e receios. Este é outro dos elementos essenciais de "Sicario": a capacidade de identificação do espectador com algumas das dúvidas da sua protagonista, mas também deixá-lo a pensar no que faria na situação de outros elementos. O que faríamos se alguém eliminasse a nossa família? O que faríamos para defender a segurança nacional? Qual a melhor forma para enfrentar criminosos impiedosos que gerem grupos organizados? Como combater eficazmente o tráfico de droga? Junte-se uma atmosfera opressora, capaz de nos prender aos territórios e episódios apresentados, mas também o impacto causado pela violência e uma banda sonora perspicaz na forma como bombeia ainda mais a narrativa, qual coração a palpitar consoante as emoções, e "Sicario" exibe mais uma vez Denis Villeneuve a dominar com engenho uma narrativa negra, muito ao jeito daquilo que acontecera em "Prisoners". O regresso aos EUA e, posteriormente, ao México promete trazer mais uma série de episódios que vão confrontar estes personagens com situações de difícil resolução, onde a moralidade muitas das vezes é deixada de lado, com praticamente tudo e todos a serem alvo de desconfiança. Veja-se quando encontramos Kate e Reggie num momento de descontração num bar, onde são abordados por Ted (Jon Bernthal), um polícia amigo deste último que, tal como a protagonista, também é divorciado. Bernthal tem uma participação pequena mas marcante em momentos intensos que deixam explícito que os perigos podem estar em qualquer lugar, com o cartel a conseguir ter uma influência alargada no território, enquanto “Sicario” conta com uma visão largamente negra sobre a humanidade. Não vão ainda faltar momentos de maior tensão, seja na entrada de um túnel, seja numa mesa ao jantar, seja a entrada numa cidade onde as autoridades não parecem ter controlo, mas também a exposição do enraizamento do cartel e da forma como Denis Villeneuve procura muitas das vezes expor que alguns destes indivíduos são pais de família aparentemente comuns que cometem actos hediondos.

 O problema é que para terminar com um mal, a opção tomada pelas autoridades dos EUA passa exactamente por... seguir praticamente a mesma conduta, com "Sicario" a deixar-nos com uma situação complexa, onde a linha entre o bem e o mal nem sempre se torna facilmente discernível. A situação é complexa e o argumento do estreante Taylor Sheridan não tem problemas em abordar temáticas relevantes que nos deixam muitas das vezes com mais questões do que certezas. O elenco principal sobressai nos respectivos papéis, bem como o argumento, a cinematografia e a banda sonora, mas é a realização segura de Denis Villeneuve que parece aguentar "Sicario" por completo e arrastar-nos para um filme cujo enredo pode não ser inovador (filmes como "Traffic", também com a presença de Benicio Del Toro, já tinham abordado o tráfico de drogas de forma eficaz, tal como "Touch of Evil" já nos tinha deixado com uma conduta nem sempre correcta das autoridades contrastada com outra mais apolínea e idealista), mas nem por isso deixa de perder relevância ou pertinência. Imagine-se que a história se desenrolava no Afeganistão ou Iraque e provavelmente poderíamos estar a abordar a forma nem sempre correcta da conduta dos EUA no território. Ou passemos para a situação da Síria onde a luta contra o Estado Islâmico provavelmente vai causar a morte de civis inocentes, com o filme a levantar questões sobre até onde podem ir as acções das autoridades. Kate quer cumprir as regras, embora depare-se com uma situação tão instável como as nuvens cinzentas que parecem persegui-la em determinadas alturas da narrativa. Já o personagem interpretado por Josh Brolin quer é a segurança do seu país, sobretudo se os conflitos que protagoniza forem fora do mesmo. No entanto, levantam-se várias questões. Como combater os cartéis? Como travar criminosos sem problemas em matar? Como travar o tráfico de droga, e onde? Deve-se imiscuir num país alheio para travar a raiz de um problema que se espalha a outros locais? São questões complexas que "Sicario" levanta, deixando alguns personagens a deambularem por águas instáveis enquanto somos convidados a entrar nas mesmas e a sermos arrastados para aquilo que a obra cinematográfica tem para nos dar. A violência é mais do que muita e sentida. Provoca o choque, por vezes soa a exagero, mas é sentida, seja quando é visível, ou quando ouvimos ao longe um conjunto de tiros enquanto um grupo de jovens joga à bola em Juárez. O termo do título significa "assassino a soldo" no território mexicano, com Alejandro a poder adaptar-se a esta designação, embora aos poucos percebamos que este é uma figura bem mais complexa, algo comum à maioria das figuras principais que rodeiam o enredo de "Sicario", com estes a deambularem não só por espaços entre o México e os EUA e as suas fronteiras, mas também pelas franjas entre o cumprimento da lei e actos pouco recomendáveis, cabendo a Kate surgir quase como o nosso duplo diante de toda esta situação. Denis Villeneuve volta mais uma vez a questionar o espectador, a deixá-lo diante de uma narrativa com traços negros, de figuras imorais e uma protagonista feminina forte e idealista, ao mesmo tempo que aproveita o elenco principal que tem à disposição e cria um thriller intenso, envolvente, violento e inteligente.

Título original: "Sicario".
Título em Portugal: "Sicario - Infiltrado". 
Título no Brasil: "Sicario: Terra de Ninguém".
Realizador: Denis Villeneuve.
Argumento: Taylor Sheridan.
Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, 

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