15 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Royal Tenenbaums" (2001)

 "The Royal Tenenbaums" faz parte daquelas peças raras saídas da mente de Wes Anderson que facilmente despertam a atenção. Existe um misto de melancolia e humor, de drama e estranhos romances, com tudo a ser meticulosamente criado e preparado desde os planos ao design dos cenários, passando pelo guarda-roupa dos actores até à sua caracterização, numa obra cinematográfica onde ficamos diante da peculiar família do título. A história é apresentada em capítulos, quase como se fosse um livro raro marcado por uma enorme atenção ao detalhe, onde os personagens ganham vida, os cenários tornam-se reais e um sentido de humor muito peculiar, quase a roçar o absurdo, bem como alguma melancolia e depressão tomam conta de tudo. No início do filme somos apresentados a diversos elementos que povoam o enredo de "The Royal Tenenbaums", com o narrador (Alec Baldwin) a salientar que "Royal Tenenbaum comprou a casa na Avenida Archer no inverno do seu trigésimo quinto ano de vida. Na década seguinte, ele e sua esposa tiveram três filhos, e depois separaram-se". É nessa casa bastante espaçosa que vivem Chas (Aram Aslanian-Persico na juventude; Ben Stiller durante a idade adulta), Margot (Irene Gorovaia na juventude; Gwyneth Paltrow na idade adulta) e Richie (Amedeo Turturro na juventude; Luke Wilson na idade adulta), os três filhos de Royal (Gene Hackman) e Etheline (Anjelica Huston), com esta última a ficar como proprietária do imóvel. A casa é típica de um filme de Wes Anderson, a ponto de apetecer ver o filme repetidas vezes só para observar todo o cuidado colocado na decoração das diversas divisórias da mesma, cada uma a corresponder a um personagem e às suas idiossincrasias, com as cores que envolvem estes espaços a coincidirem muitas das vezes com as personalidades destas figuras e com as suas roupas. O início do filme deixa-nos diante destes excêntricos elementos durante a sua juventude, com Wes Anderson a apresentar-nos a cada personagem e a algumas das suas especificidades. As três crianças têm em comum serem catalogadas como génios e apresentarem uma maturidade acima da média para pré-adolescentes, algo que fica desde logo latente na cena em que Royal explica que vai sair de casa, com o trio de petizes a parecerem mini-adultos. Chas é um prodígio que criou ratos dálmatas para vender numa loja de animais de Little Tokyo tendo, quando ainda se encontrava na sexta classe, um enorme conhecimento de finanças, a ponto de alcançar fundos para adquirir a casa de férias do progenitor, com quem deixou de falar devido a Royal ter roubado algumas acções que o jovem tinha no seu cofre. Margot é adoptada, algo que o seu pai sempre realçou, tendo perdido meio dedo e apresentado um enorme talento para a escrita de peças de teatro. Richie tem uma enorme habilidade para o ténis. Estes pareciam apresentar tudo para terem sucesso, tendo dinheiro, talento e inteligência, mas o presente é bem distinto, incluindo para Royal, outrora um advogado de sucesso. Royal perdeu a licença profissional, encontrando-se na penúria, algo que o leva a ser expulso do hotel onde vive. No presente, Chas é viúvo, tendo perdido a esposa num acidente de avião, embora Ari (Grant Rosenmeyer) e Uzi (Jonah Meyerson), os filhos do casal, tenham sobrevivido ao desastre, bem como Buckley, o cachorro da família (existe um estranho sentido de humor a permear a obra, com a sobrevivência do cachorro a inserir-se nesse contexto, tal como a constante presença do "táxi cigano", um meio de transporte muito utilizado pelos protagonistas). Chas veste-se regularmente com um fato de treino vermelho, encontrando-se obcecado com a sobrevivência dos filhos, algo notório quando o encontramos num enérgico treino contra possíveis incêndios, no qual fracassam, algo que o conduz a ir viver temporariamente para a casa de Etheline, indo acompanhado pelos petizes.

 O treino permite exibir desde logo alguma da propensão de Ben Stiller para utilizar o humor físico, com o actor a não ter problemas em entrar em grandes correrias, explodir em momentos onde o Chas parecia aparentemente calmo, sempre sem deixar de evidenciar o carinho que este personagem nutre pelos filhos. O visual de Chas e dos seus filhos são paradigmáticos do tom muito próprio que Wes Anderson atribuiu ao filme, inserindo no mesmo um conjunto de estranhas figuras que apresentam comportamentos e visuais muito próprios. De cabelos meio encaracolados e fatos de treino vermelhos, estes elementos parecem quase tirados a papel químico, com os jovens a terem de se sujeitar à personalidade controladora mas amável do pai. Ben Stiller atribui um estilo peculiar a Chas que se insere no espírito da narrativa, com o actor a explorar a personalidade depressiva e melancólica do personagem que interpreta, uma das várias figuras principais de "The Royal Tenenbaums" que vão ter de lidar com o fracasso e o amargo sabor das expectativas goradas, não tendo problemas em envolver-se em alguns momentos de humor mais físico, algo notório no último terço quando se encontra numa enorme correria em perseguição a Eli Cash (Owen Wilson), um amigo da família, em particular de Richie. Chas não é o único a passar por uma fase menos positiva da sua vida. Margot, uma mulher de cabelos loiros penteados de forma bastante cuidada, quase sempre deprimida, misteriosa e lacónica, também se prepara para exibir o desencanto para com o seu entediante quotidiano. Esta é casada com Raleigh St. Clair (Bill Murray), um neurologista aparentemente afável mas pouco expedito, que se encontra quase sempre acompanhado por Dudley Heinsbergen (Stephen Lea Sheppard), um adolescente cujos comportamentos procura observar e analisar num estudo que se encontra a elaborar. Gwyneth Paltrow tem em "The Royal Tenenbaums" um papel que lhe permite sobressair, interpretando uma loira que tanto tem de bela como de misteriosa e peculiar, com esta a conseguir tornar credíveis as bizarrias de Margot. Esta é uma mulher que gosta de guardar segredos, entre os quais gostar de fumar, tendo um fraquinho por Richie, algo que é recíproco, embora sejam irmãos adoptivos. A relação entre Margot e Raleigh parece estar a conhecer uma fase menos positiva, com esta a decidir seguir o caminho de Chas e regressar à casa da progenitora. Quem também procura regressar a casa, após ter saído quando os filhos ainda eram jovens, tendo mantido uma relação quase sempre distante com estes é Royal, com o ex-advogado a ter em Pagoda (Kumar Pallana), um empregado da família e amigo pessoal, um informador do que se passa no interior da habitação. Ao descobrir que Etheline, agora uma arqueóloga, encontra-se prestes a aceitar o pedido de casamento de Henry Sherman (Danny Glover), um contabilista, apesar de ainda não estar oficialmente divorciada, Royal decide infiltrar-se no interior da casa, aproveitando o facto de estar sem um local para habitar, fingindo inicialmente padecer de cancro. Diga-se que os elementos do núcleo familiar, com excepção de Richie, não parecem inicialmente muito preocupados com a situação, tal como Royal exibe de forma amiúde que não é flor que se cheire e está longe de ser o mais polido dos personagens embora, aos poucos, estabeleça uma ligação com os vários familiares. Por sua vez, Richie encontra-se a viajar pelo mundo em cruzeiros, após ter abandonado a carreira no ténis devido a um episódio pouco feliz numa partida onde nada correu bem, com este a ter tirado o seu calçado e começado a chorar como uma criança que perdeu o seu brinquedo preferido. Este mantinha uma relação de grande proximidade com Margot, algo notório quando entra em depressão após esta contrair matrimónio com Raleigh. De cabelos compridos, barba por fazer, personalidade aparentemente zen, igualmente depressivo, Richie regressa a casa quando descobre que o pai está doente, com a família a reunir-se no interior desta habitação onde vamos assistir aos intrincados relacionamentos entre os elementos que compõem a mesma, com Wes Anderson e Owen Wilson a criarem um conjunto de diálogos sublimes que se adequam a esta atmosfera sui generis que rodeia "The Royal Tenenbaums". A juntar-se a todas estas figuras peculiares temos ainda elementos como Eli, um escritor que manteve uma grande proximidade com a família, tendo outrora um caso com Margot, embora esta apenas pareça envolver-se com o mesmo devido ao personagem interpretado por Owen Wilson fazê-la lembrar-se de Richie; Pagoda, um indivíduo que foi contratado para eliminar Royal na Índia, acabando por formar amizade com o protagonista, entre outros.

O argumento escrito por Wes Anderson e Owen Wilson permite explorar a complexidade inerente aos relacionamentos no interior deste peculiar núcleo familiar, criando um leque alargado de personagens que sobressai pela espessura atribuída aos mesmos, com estes elementos a serem desenvolvidos de forma exímia após as apresentações iniciais que nos são feitas. Esta situação permite aos vários actores e actrizes sobressaírem, com Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson a interpretarem um trio de irmãos com personalidades distintas mas incrivelmente depressivos e melancólicos; Gene Hackman a ter um papel sublime como um vigarista que procura a todo custo reactivar os laços familiares apesar de apenas Richie não apresentar uma rejeição inicial, uma situação que não acontece com os outros elementos que não se esquecem do facto deste ter sido um pai ausente; Anjelica Huston como uma arqueóloga e mãe de família que finalmente começa a cogitar a hipótese de voltar a envolver-se num relacionamento sério com outro homem; Owen Wilson como um escritor que é um sucesso de vendas, com problemas com drogas e uma personalidade muito peculiar. Diga-se que peculiar é um dos adjectivos que melhor descrevem estas figuras e a narrativa de "The Royal Tenenbaums", com Wes Anderson a criar um enredo dotado de um estranho sentido de humor associado a toda uma atmosfera de enorme melancolia e depressão. Seja um pequeno rato dálmata a passar ou uma coruja que regressa inesperadamente, ou uma prótese de ferro a bater, ou uma televisão em frente a uma banheira, ou o "táxi cigano" recheado de amolgadelas, existem pequenos detalhes que ganham proporções mais alargadas com o desenrolar da narrativa e a percepção que existiu todo um cuidado em reunir o estilo e a substância ao longo de "The Royal Tenenbaums". Os planos foram compostos com um cuidado latente (por vezes marcados por alguam simetria), os cenários decorados com precisão para servirem esta mundo que parece apenas existir na cabeça de Wes Anderson, com o cineasta a criar algo que tanto tem de artificial como de real e sentido. Diga-se que as relações complicadas entre irmãos, bem como entre pais e filhos, as dores associadas à perda, desilusões amorosas e crises existenciais são temáticas com as quais o espectador facilmente se identifica, com "The Royal Tenenbaums" a ter o cuidado de aliar o realismo à fantasia, o estilo à substância, com ambas as dicotomias a não se diluírem e a aliarem-se para incrementar uma obra cinematográfica sublime. O trabalho de Wes Anderson é ainda facilitado pelo elenco maioritariamente talentoso que o cineasta tem à disposição, com a dinâmica entre os diversos elementos a funcionar de forma latente. Veja-se por exemplo quando Royal sai com os netos e ensina-os a desobedecerem às regras, ou os rocambolescos incidentes antes do casamento entre dois personagens relevantes, para além dos momentos entre Margot e Richie, duas figuras muito peculiares e melancólicas, ou a estranha amizade entre o patriarca e Pagoda, entre outras situações ou relações que merecem a nossa atenção. A própria banda sonora adequa-se ao tom meio melancólico, meio humorístico, meio dramático e excêntrico do filme, com Wes Anderson a colocar-nos perante um conjunto de personagens que lidam com os insucessos e as expectativas goradas. Estes são apresentados de forma criativa e dinâmica quer no prólogo onde o narrador nos deixa diante dos protagonistas no passado (com a música "Hey Jude" dos The Beatles a acompanhar muitas das vezes os momentos), quer na apresentação inicial rápida aos elementos que compõem o elenco no presente, quer na exposição do que aconteceu aos personagens nos dias de hoje até o enredo começar a avançar, partindo para algo que tanto tem de aparentemente simples como de complexo. Marcado por um grupo de personagens peculiares e um universo narrativo muito próprio de Wes Anderson, "The Royal Tenenbaums" coloca-nos perante uma história simultaneamente melancólica e cómica, onde as depressões dos protagonistas facilmente tomam conta do ecrã, bem como as suas excentricidades, com estes a tanto terem de estranhos como de profundamente humanos.

Título original: "The Royal Tenenbaums".
Título em Portugal: "Os Tenenbaums - Uma Comédia Genial".
Realizador: Wes Anderson.
Argumento: Wes Anderson e Owen Wilson.
Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson, Danny Glover.

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