10 outubro 2015

Resenha Crítica: "Pan: Viagem à Terra do Nunca"

 Quem costuma ter alguns cuidados regulares com a alimentação por vezes efectua um "dia de lixo" que consiste em desfrutar de vários alimentos que não se coadunam com uma dieta saudável. Essa situação conduz a diversos excessos, algo inerente ao facto de se saber que, após este "dia de lixo", se seguirão longas semanas de comida saudável. Joe Wright tem em "Pan" o seu "dia de lixo", com o cineasta a aproveitar o facto de ter como pano de fundo todo um universo narrativo marcado pela fantasia para dar largas à sua imaginação e esquecer-se por completo que muitos efeitos especiais, imensas cenas de acção e aventura, CGI à bruta e um ritmo frenético não chegam para esconder que tem pouco conteúdo para nos dar. Diga-se que Joe Wright sempre deu muita relevância ao estilo em detrimento da substância, embora tenha conseguido balancear ambos com sucesso em "Pride & Prejudice" e "Atonement", para além de exibir uma enorme assertividade em "Hanna" (que se ancora numa realidade fantasiosa) e "Anna Karenina". No caso de "Pan", Wright deixa-nos mais uma vez diante de um guarda-roupa magnífico, que serve regularmente para expor traços da personalidade dos personagens (Rooney Mara que o diga), uma banda sonora com canções anacrónicas "à Baz Luhrmann" (veja-se a inspirada utilização de "Smells Like Teen Spirit" dos Nirvana), embora falte um argumento focado e coerente, que não tenha a necessidade de unir os pontinhos todos uns com os outros de forma forçada (a sério que até Tiger Lily foi treinada pela mãe de Peter?). Jason Fuchs procura esconder as debilidades do seu argumento em desenvolver os personagens e as temáticas ao incluir uma série de episódios que conduzem "Pan" a manter um ritmo frenético tendo em vista a que o espectador tenha o menos tempo possível para pensar, algo que apenas atira a "poeira para debaixo do tapete" que logo é levantada pela incapacidade de Wright em dar consistência às situações que cria. É tudo muito previsível, com "Pan" a raramente procurar transcender-se para além dos seus grandiosos efeitos e cenários, transformando o Capitão Gancho (Garrett Hedlund) num tipo relativamente simpático, com Wright e Fuchs a deixarem subentendido que já se encontram a pensar em potenciais sequelas ao invés de completarem um arco que, mais do que esperado ou previsível, seria necessário, já que o tom ameaçador do Barba Negra (Hugh Jackman) ficou no campo das ideias e não chegou a ser colocado em prática. Entre barcos voadores, aves bizarras e crocodilos gigantes em CGI, personagens caricaturais que dependem imenso do trabalho de caracterização para sobressaírem (Rooney Mara como Tiger Lily é um exemplo, enquanto Hugh Jackman comprova que não é Johnny Depp quem quer mas quem pode no que diz respeito à transformação em figuras caricaturais), diálogos redundantes e a espaços cansativos (quantas vezes temos de ouvir que Peter é o escolhido e tem de acreditar nele próprio?), "Pan" transporta-nos de Londres durante a II Guerra Mundial para a Terra do Nunca, sem que nunca nos esqueçamos que estamos numa sala de cinema a ver uma tentativa confrangedora de Joe Wright em criar mais uma história de origem tendo em vista a lançar uma potencial franquia.

 Inspirado livremente no célebre personagem criado por J. M. Barrie, "Pan" tem alguns méritos: faz-nos ter uma vontade imediata de ver o filme de animação da Walt Disney; faz-nos pensar que ver Julia Roberts como Sininho até não foi assim tão mau. Fora de piadas de mau gosto que não têm grande graça. Para além do guarda-roupa, banda sonora e alguns cenários, uma das poucas boas surpresas que "Pan" nos reserva é o jovem Levi Miller como Peter, um rapaz que fora abandonado num orfanato pela sua mãe (Amanda Seyfried) quando ainda era bebé. Nos momentos iniciais encontramos Peter, bem como Nibs (Lewis MacDougall), o seu melhor amigo, no orfanato em Londres, um território exposto de forma estilizada, marcado pela violência e restrições inerentes à II Guerra Mundial. O orfanato Lambeth, para rapazes, é dirigido pela Madre Barnabas (Kathy Burke), uma mulher avarenta e de gestos caricaturais num filme que a espaços não se percebe muito bem a que público-alvo quer chegar. Ora pisca o olho aos adultos, ora pisca o olho às crianças, sem conseguir ser competente quer no registo mais sério, quer no mais infantil, com os perigos a raramente serem sentidos (a sensação de artificialidade provocada pelos efeitos especiais manhosos não ajuda), a aventura a nem sempre entusiasmar e a jornada de Peter a surgir semelhante a tantas outras histórias de origem ou de heróis que relutam inicialmente em aceitar o seu dom. Quando os piratas ao serviço do Barba Negra entram no orfanato e raptam umas quantas crianças (vendidas por algumas freiras), para que os petizes vão trabalhar para as minas na Terra do Nunca, tendo em vista a procurarem Pixum (também conhecido como "pó de fada"), uma substância que supostamente está em extinção, que permite o rejuvenescimento, a vida de Peter conhece uma reviravolta, tal como a narrativa, que passa a entrar num ritmo imparável enquanto avança com a sua estrutura episódica. É nas minas que Peter conhece Gancho, mas também Mr. Smee (Adeel Akhtar), um cobarde colaborador do Barba Negra que logo vai ajudar os dois primeiros a fugirem. Peter exibe desde logo alguma impertinência ao mesmo tempo que surpreende tudo e todos quando, ao ser atirado para a morte, começa inesperadamente a voar e deixa o personagem interpretado por Hugh Jackman de sobreaviso. De acordo com a lenda, este será derrotado por um jovem capaz de voar, embora Peter ainda não domine esta arte, com o objecto que traz ao pescoço a surgir como um totem que indica que é filho de um príncipe do reino das fadas e de uma mãe humana, tendo nas suas mãos a possibilidade de vencer o antagonista, com "Pan" a deixar-nos diante da típica história do predestinado que não acredita em si próprio. Segue-se uma ida para a "aldeia multiétnica" onde se encontra Tiger Lily, um local no qual Gancho entra em confronto com Kwahu (Na Tae-joo), um habitante deste espaço, até todos descobrirem que Peter pode ser o predestinado. Este tem três dias para provar que pode voar mas, um ataque do Barba Negra, conduz a que Tiger Lily, Gancho e Peter tenham de fugir do local, ao mesmo tempo que vão ter de lutar pelas suas vidas e proteger o reino das fadas (um cenário supostamente secreto que acaba por ser relativamente fácil de encontrar). Pelo caminho Peter descobre que a sua mãe foi eliminada, coloca em causa a profecia e tem de desafiar os seus medos, ao mesmo tempo que forma uma relação de relativa amizade com Gancho e Tiger Lily, ao longo de uma obra que, mais do que preocupada em fortalecer estes laços, procura exibir o máximo de episódios e situações possíveis, mesmo que se tornem redundantes ou tirem impacto à narrativa. O argumento não ajuda, parecendo procurar colocar o "Rossio na rua da Betesga", algo que não permite explorar cenários como o território das minas ou a cidade de Londres durante a II Guerra Mundial, ou figuras como as sereias interpretadas por Cara Delevingne, com estas a aparecerem no meio do mar porque provavelmente parecia necessário ter mais umas figuras agradáveis à vista (até as sereias são amigáveis), para além de ser impossível deixar de salientar as insípidas lutas nos céus entre barcos rivais que perdem impacto devido à artificialidade das mesmas, entre outras situações que conduzem a que "Pan" se envolva num oceano de ideias desperdiçadas.

 A artificialidade não se limita aos embates entre barcos nos céus onde a influência steampunk parece notória. Veja-se quando temos um crocodilo nas proximidades dos protagonistas e os efeitos a computador são notórios, ou os lança-chamas sobre as fadas, ou os constantes gestos e trejeitos do Barba Negra que surge como uma figura caricatural, com Hugh Jackman a nunca conseguir atribuir dimensão a este personagem de gestos exagerados. Diga-se que a maquilhagem e guarda-roupa de Hugh Jackman sobrepõem-se em relação ao personagem que este interpreta, com o actor a ficar-se em demasia pela caricatura, surgindo como uma espécie de Jack Sparrow transviado que procura alcançar a vida eterna. Se Jackman raramente sai da caricatura, já Garrett Hedlund aparece inicialmente como uma espécie de cowboy solitário que trabalha nas minas, acabando por se aventurar com Peter numa fuga e formar com este uma relação de respeito, embora cometa um ou outro erro pelo caminho, com o actor a não comprometer. Já a Levi Miller, um estreante, cabe procurar explorar os dilemas deste jovem que se depara com uma realidade distinta daquela que tinha em Londres. Miller é, muito provavelmente, a maior surpresa, ao contrário de Rooney Mara que fica muito aquém daquilo que pode dar a nível interpretativo, numa obra cinematográfica bastante superficial no desenvolvimento e exposição dos personagens (não dá para culpar a actriz). É certo que visualmente Joe Wright apresenta um trabalho competente, mas perde-se na sua ambição excessiva, parecendo ter o seu "dia de lixo" onde aproveita para incluir o máximo de elementos possíveis para o caso de tão depressa não ter outro trabalho do género, algo que torna "Pan" uma oportunidade falhada de procurar uma abordagem relativamente diferente à história de Peter Pan. Diga-se, mais uma vez, que o argumento de Jason Fuchs não ajuda, com o enredo a ser pontuado por personagens secundários pouco desenvolvidos (veja-se para além dos elementos citados, Nonso Alonzio como Bishop, um pirata ao serviço do Barba Negra, com este a ser mais uma figura caricatural), protagonistas cujas dinâmicas nem sempre são exploradas na justa medida, para além das redundâncias com fartura e um aparente desinteresse de Joe Wright em relação às situações que aborda. Por exemplo, Peter inicialmente pensa que a sua mãe está viva, uma situação que se altera quando o Barba Negra conta como a eliminou, até esta cena nos ser exibida em flashback num momento onde já nem se justificava que a temática voltasse à ordem do dia. Ou quando temos Peter a lidar com o seu problema relacionado com a incapacidade de voar no território onde se encontra Tiger Lily, até este espaço ser invadido e tudo ter sido temporariamente adiado, com Joe Wright a fazer com que boa parte dos episódios percam relevância. Mesmo temáticas como o trabalho infantil ao serem abordadas deveriam ser desenvolvidas mas, mais uma vez soa a outra oportunidade falhada. Junte-se a isso uma tentativa completamente destrambelhada de parecer que vai existir algo mais entre Gancho e Tiger Lily (o meu cão e o cobertor apresentam mais química quando estão juntos), bem como os habituais discursos sobre Peter ser o escolhido, de ter que acreditar em si próprio, entre outros e a maior dúvida que fica é se Joe Wright acreditou nas suas capacidades para dirigir esta obra cinematográfica. Se Peter apresenta dificuldades em voar ao longo de boa parte do enredo, já "Pan" voa baixinho surgindo como uma obra cinematográfica pueril e inconsequente cujo maior mérito é a facilidade que tem em ser esquecida. Antes ver Julia Roberts como Sininho.

Título original: "Pan".
Título em Portugal: "Pan: Viagem à Terra do Nunca".
Realizador: Joe Wright.
Argumento: Jason Fuchs.
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Amanda Seyfried.

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