29 outubro 2015

Resenha Crítica: "Manhattan Murder Mystery" (1993)

 Woody Allen e Diane Keaton dominam por completo a narrativa de "Manhattan Murder Mystery", com a dupla a interpretar um casal que se envolve numa série de episódios rocambolescos que prometem afectar o seu quotidiano. Diga-se que Larry (Woody Allen) e Carol (Diane Keaton) certamente não estariam à espera que ao acederem a um convite para entrarem no apartamento de Paul (Jerry Adler) e Lillian (Lynn Cohen), um casal vetusto, após se terem encontrado junto ao elevador, teriam de lidar com o estranho caso de um possível assassinato, algo que vai envolver a dupla de protagonistas de "Manhattan Murder Mystery" numa teia narrativa intrincada marcada pela paranoia, mistério, tensão, ciúmes, traições, reviravoltas e muito humor. Paul e Lillian convidam os Lipton para beberem algo em sua casa, com a segunda a pretender que Carol a ajude a explicar como funciona a passadeira que comprou. Carol apresenta uma enorme prontidão para se deslocar até ao apartamento dos vizinhos, enquanto Larry exibe a sua falta de vontade já que pretende ver um filme protagonizado por Bob Hope que vai ser exibido na televisão (o olhar do personagem interpretado por Woody Allen demonstra paradigmaticamente a sua pouca disposição, algo que nos traz à memória aqueles momentos em que encontramos alguém na rua que não para de falar quando estamos apressados). A personagem interpretada por Diane Keaton fica encantada com este casal, enquanto Larry pretende despachar-se o mais rápido possível para finalmente poder ir ver o filme. Larry e Carol têm um filho (Zach Braff), que se encontra a frequentar a universidade de Brown, com o casal a nem sempre parecer ter muito em comum. Lillian gosta de ópera, trabalhou no ramo da publicidade, pretendendo abrir um restaurante tendo em vista a dar utilidade aos seus dotes para a culinária. Esta tem uma relação de enorme cumplicidade com Ted (Alan Alda), um amigo de longa data, recentemente divorciado, que conta com um fraquinho por Carol, algo que chega a exibir, com ambos a parecerem ter mais em comum do que Larry e a personagem interpretada por Diane Keaton. A dinâmica entre Keaton e Allen é essencial para muito do filme funcionar, com os dois a recuperarem uma parceria de longa data, após Mia Farrow ter deixado de estar cotada para o papel devido aos problemas de ordem pessoal com o cineasta, que pouco ou nada interessam para o texto. Diane Keaton interpreta com enorme vigor uma mulher simultaneamente frágil, intrépida e a espaços desastrada, pronta a envolver-se numa investigação perigosa e atribuir tempero a um quotidiano que parece estar a ser demasiado marcado por uma rotina enfadonha. A dinâmica entre a actriz e Woody Allen praticamente roça a perfeição, com ambos a dominarem os timings nos momentos de maior humor e tensão, contribuindo para elevar os respectivos personagens e "Manhattan Murder Mystery". Larry é um editor literário que tem muito dos trejeitos dos personagens interpretados por Woody Allen, surgindo com uma personalidade mordaz, algo nervoso e neurótico, cinéfilo, fã de hóquei e pouco dado a grandes amizades embora fale pelos cotovelos. O argumento, escrito por Woody Allen e Marshall Brickman (trabalharam juntos em obras como "Annie Hall" e "Manhattan"), não só surge dotado de uma estrutura frenética que atribui enormes doses de loucura e algum perigo à investigação, mas também de diversos diálogos acima da média, não faltando as célebres falas sardónicas dos personagens interpretados pelo primeiro. Veja-se quando Larry combina ir com a esposa ao jogo de hóquei, com este em troca a ir à ópera com Carol, salientando que "Não consigo escutar tanto Wagner. Dá-me vontade de invadir a Polónia", ou quando se encontra num momento de maior tensão e comenta "Claustrofobia e um cadáver! É o bilhete premiado do neurótico", entre várias outras falas, com Woody Allen a ter um timing exímio na exposição das mesmas.

 O personagem interpretado por Woody Allen tem em Marcia Fox (Anjelica Huston), uma amiga e confidente, com a escritora a respeitar quase sempre a opinião deste em relação às obras literárias, mantendo um interesse notório em Larry. A certa altura este ainda tem lições de póquer com Marcia, com Anjelica Huston a incutir uma presença forte a esta escritora que não parece lá muito bem sucedida nas lides amorosas, embora tenha uma enorme habilidade para conjecturas relacionadas com assassinatos, partilhando alguns gostos literários com o protagonista. Larry tem ciúmes da relação entre Carol e Ted, procurando juntar este último a Marcia, uma ideia que inicialmente não parece agradar aos personagens interpretados por Alan Alda e Anjelica Huston. Por sua vez, Paul e Lillian surgem inicialmente apresentados como um casal aparentemente simpático, com o primeiro a ser um indivíduo reformado, que outrora possuíra três cinemas, tendo ficado apenas com um, onde são exibidas obras em reposição. O quotidiano de Larry e Carol conhece uma reviravolta quando regressam de uma ida ao cinema, onde tinham assistido a "Double Indemnity", com a dupla a deparar-se com o prédio num alvoroço devido à morte de Lillian, supostamente devido a um ataque cardíaco. Carol parece mais afectada em relação à notícia e à presença do corpo, enquanto Larry logo salienta que apenas conhecera pessoalmente a vizinha no dia anterior, embora a morte desta seja a alavanca para uma série de episódios mirabolantes que vão envolver o casal, mas também figuras como Marcia e Ted. Estes são os protagonistas de "Manhattan Murder Mystery", com Woody Allen a realizar uma obra cinematográfica que mescla mistério, investigação e humor, tendo como pano de fundo um dos seus espaços citadinos predilectos. Não poderiam ainda faltar as falas sardónicas, as referências cinéfilas (entre as quais as menções e um trecho de "Double Indemnity", Ted a imaginar-se como Rick em "Casablanca", a referência a "Vertigo" aliada a um episódio do enredo, os posters no interior da habitação dos protagonistas e um momento onde a cena dos espelhos de "The Lady From Shanghai" é utilizada de forma sublime), os personagens que pertencem ao meio cultural, as relações intrincadas entre homens e mulheres, entre outros elementos que pontuam um filme que engloba diferentes registos de forma orgânica, sem que esta situação pareça forçada, bem pelo contrário. Em "Crimes and Misdemeanors", Woody Allen conseguiu mesclar com sucesso temáticas e elementos que iam desde o crime perfeito, passando pelo sentimento de culpa em relação ao mesmo, até às relações complexas entre os homens e as mulheres, a ideia de arte, a introspecção sobre a moral e o amor, as falas sardónicas, o humor, entre outros, explorados de forma coerente e bem amarrada. Diga-se que em “Hanna and Her Sisters”, uma obra anterior a “Crimes and Misdemeanors” encontramos também essa facilidade de Woody Allen em jogar com os diferentes tons do filme, ao mesmo tempo que apresenta diversos elementos transversais às suas obras. No caso de "Manhattan Murder Mystery", o actor, realizador e argumentista volta a mesclar elementos aparentemente dicotómicos com enorme assertividade, colocando os protagonistas numa roda viva ao desconfiarem que Paul pode ter assassinado a esposa e cometido o crime perfeito, com o personagem interpretado por Jerry Adler a parecer ter iludido as autoridades. Carol é a personagem que mais desconfia do vizinho, algo que se deve não só ao facto do viúvo não parecer tão infeliz como seria de esperar de alguém que acabou de perder um ente querido, sobretudo quando o casal veterano apresentara uma enorme união, mas também por um conjunto de indicadores que a fazem pensar que este indivíduo pode ser um assassino. Larry salienta que é "Double Indemnity" a mais, sobretudo quando a esposa conjectura uma possibilidade semelhante à do filme de Billy Wilder, com a menção ao mesmo a não ser por acaso (não vão faltar alguns condimentos dos filmes noir em "Manhattan Murder Mystery"). As conjecturas passam a ser mais do que muitas. Desde a possibilidade de ter sido um plano do casal para ficar com o dinheiro do seguro, até à hipótese de Paul ter eliminado a esposa para ficar com uma amante, com Carol a embrenhar-se na investigação, acabando por arrastar Larry para o interior da mesma. O caso é bem mais rocambolesco do que este casal pensava, com Carol a parecer muitas das vezes estar sozinha na defesa da ideia de que o vizinho é o assassino, qual Jeff em "Rear Window". Quem parece interessado no caso, ou melhor, nesta conjectura e em Carol é Ted, com Alan Alda a interpretar um indivíduo solitário e disponível, que tem um enorme à vontade com a protagonista, com esta a parecer atravessar uma espécie de crise no casamento, que não indica ser suficiente para desfazer o mesmo mas exibe um certo desgaste resultante de uma rotina algo monótona.

 A presença de um recipiente com cinzas no interior da casa de Paul conduz ao aumentar das suspeitas em volta deste indivíduo (o casal revelara anteriormente que tinha adquirido uma sepultura conjunta), algo que se adensa com a descoberta de um possível envolvimento do viúvo com figuras femininas como Helen Moss (Melanie Norris), uma jovem actriz, bem como Dalton (Marge Redmond), a assistente do personagem interpretado por Jerry Adler, que aparentam ser mais do que meras conhecidas. Jerry Adler atribui algum mistério ao personagem que interpreta. Inicialmente parece-nos um reformado algo simpático e pacato, que conta com a sua colecção de selos e uma disponibilidade latente para falar mas, aos poucos, as dúvidas começam a aumentar, com o actor a saber gerir as mudanças comportamentais do personagem que interpreta. Se Larry é destravado a falar, neurótico e até algo medroso, já Paul aos poucos revela alguma frieza. Já Diane Keaton exibe por diversas vezes as razões para ter sido seleccionada para o papel. Veja-se quando Carol entra à socapa na casa de Paul em busca de pistas e deixa os óculos no local, algo que a conduz a se fazer de convidada, surgindo acompanhada por uma das suas sobremesas e algumas desculpas esfarrapadas, tendo em vista a recuperar o objecto. Carol é a principal dinamizadora da investigação, surgindo quase como uma detective amadora, tendo enormes suspeitas em relação ao vizinho, com as suas descobertas e conjunturas a começarem, ainda que gradualmente, a despertar a atenção daqueles que a rodeiam. O que parecia uma investigação inconsequente logo se transforma em algo de perigoso, apesar de "Manhattan Murder Mystery" nunca perder a faceta de humor, mesmo quando um corpo surge no topo de um elevador ou um indivíduo perigoso aparece no caminho e o protagonista não consegue parar de falar e expor a sua ansiedade (já para não falar no momento hilariante em que Larry procura ajudar Carol a encontrar os óculos na casa de Paul e faz imenso barulho com os seus gestos desastrados e nervosos). A cinematografia capta os ritmos destes personagens, com a câmara na mão a ser bem utilizada (sobretudo nas cenas exteriores onde decorre parte da investigação), numa obra desenvolvida por Woody Allen a partir de uma ideia resultante de um esboço inicial do argumento de "Annie Hall". "Manhattan Murder Mystery" reúne Allen com Diane Keaton, com quem colaborou em oito filmes (é sempre um prazer ver estes dois juntos no mesmo elenco), mas também com Alan Alda e Anjelica Huston (estes dois últimos presentes em "Crimes and Misdemeanors"), com o elenco principal a revelar uma dinâmica convincente, ou a obra em análise nesta espécie de resenha não partilhasse dois dos grandes atributos dos filmes do cineasta: a qualidade dos diálogos e as interpretações acima da média. Os diálogos entre Larry e Carol passam a ser muitas das vezes dominados pela paranoia desta em relação ao vizinho, enquanto assistimos aos personagens a circularem por diversos espaços de Manhattan, desde os seus apartamentos a estabelecimentos de provas de vinho, passando por cafés e hotéis, até às ruas deste espaço citadino que tanto parece dizer a Woody Allen. Ao mesmo tempo, parecem encontrar o condimento que faltava para dar um novo vigor à relação, com o casal aos poucos a parecer começar a entender-se, sobretudo a partir do momento em que Larry acredita que Paul é um assassino, com a dupla de protagonistas a envolver-se numa série de actos que tanto têm de corajosos como são capazes de expressar muita da inabilidade dos personagens interpretados por Woody Allen e Diane Keaton para a função de detectives amadores. É certo que Woody Allen nem sempre acerta, mas "Manhattan Murder Mystery" é um dos muitos casos em que tudo parece correr bem, com o cineasta transportar-nos para uma obra marcada por alguma tensão, mistério, humor, diversas referências cinéfilas e bons diálogos.

Título original: "Manhattan Murder Mystery".
Título em Portugal:"O Misterioso Assassínio em Manhattan".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen e Marshall Brickman.
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Anjelica Huston, Alan Alda.

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