13 outubro 2015

Resenha Crítica: "Legend" (Lendas do Crime)

 Não deixa de ser relativamente curioso que tenhamos dois filmes de gangsters a estrearem com um espaçamento de poucas semanas nas salas de cinema portuguesas, em particular "Black Mass" e "Legend", com o resultado final das duas obras cinematográficas a ser elevado acima de tudo pelo trabalho dos actores. "Black Mass" permitiu a Johnny Depp ter um papel de relevo que se distanciasse de algumas figuras mais caricaturais que este interpretou recentemente, enquanto "Legend" permite a outro actor de enorme talento expor algumas das suas qualidades para a representação. O actor em questão é Tom Hardy, um intérprete capaz de se expressar muitas das vezes sem grandes falas, que tem em "Legend" a oportunidade de exibir alguma da sua versatilidade ao interpretar Reggie (alcunha de Reginald) e Ronnie (alcunha de Ronald) Kray, dois irmãos gémeos que tiveram uma relevância notória no crime organizado londrino durante as décadas de 50 e 60. Tal como o título indica, "Legend" procura não só explorar alguns factos relacionados com os gémeos mas também as lendas que rodearam os mesmos, com estes a surgirem quase como figuras míticas do território londrino, com as histórias falsas sobre estes gangsters a superarem muitas das vezes os seus actos. Estes tiveram no crime um meio de ascenderem na vida de forma rápida e fácil, com "Legend" a partilhar esta característica com diversos filmes deste subgénero, tais como "The Public Enemy", "The Roaring Twenties", entre outros. Reggie e Ronnie apresentam alguma lealdade entre si, uma situação que remete não só para os valores da máfia mas também para os laços de sangue que os une, embora a personalidade de ambos seja bastante distinta, algo que é explorado pelo argumento. Ronnie é um tipo completamente instável e esquizofrénico, uma bomba relógio que não tem problemas em recorrer à violência, que gosta de ser um gangster e despreza as tentativas do irmão em ter negócios legais, algo que a espaços os coloca em choque. Ainda chegou a estar internado num hospital psiquiátrico, mas os capangas do irmão logo o conseguem libertar, com este a surgir com uma figura de fala estranha e gestos imprevisíveis, que não tem problemas em salientar que é homossexual, surgindo quase sempre acompanhado por alguns homens da sua confiança. Tom Hardy atribui um tom mais selvagem a Ronnie, um gangster que tanto é capaz de defender o irmão como andar à pancada com este apesar de ambos serem relativamente unidos ou não partilhassem a sede de poder e o fascínio por um estilo de vida luxuoso. Reggie é o mais ponderado dos dois irmãos e aquele que parece ter mais jeito para o negócio, esboçando uma tentativa de viver dentro da legalidade e aceder aos pedidos de Frances (Emily Browning), o seu interesse amoroso e futura esposa. Diga-se que Reggie ainda chega a abrir clubes nocturnos e casinos, com estes espaços a serem frequentados quer por criminosos, quer por celebridades, com o gangster a surgir muitas das vezes com uma faceta de "estrela de rock" que gosta da fama e dos luxos. A figura que lhe parece amolecer mais o coração é Frances, a irmã de Frankie (Colin Morgan), o motorista de Reggie, com esta mulher a apresentar uma mescla de irreverência e fragilidade. É notório que esta mulher se sente algo fascinada por Reggie e pelo poder que este granjeou, embora pretenda que o personagem interpretado por Tom Hardy mude de vida, com a primeira detenção deste a deixá-la visivelmente afectada.

 Tal como Tom Hardy, também Emily Browning tem oportunidade para explorar uma personagem que facilmente capta a nossa atenção, surgindo como ponto de contacto entre o espectador e todo este universo narrativo marcado por luxos, crimes, violência, assassinatos e uma banda sonora pronta a fazer-se sentir. A relevância de Emily Browning é ainda notória pelo facto de Frances ser a narradora de serviço, com parte da história a ser apresentada a partir do ponto de vista desta mulher. A narração da personagem interpretada por Emily Browning fornece alguma informação sobre o enredo e o meio que rodeia os irmãos Kray, algo que permite a espaços agilizar a exposição da história, ou torná-la ainda mais redundante, com Brian Helgeland a nem sempre conseguir dominar este recurso na justa medida. Brian Helgeland, o realizador e argumentista, tanto consegue agilizar a exposição da narrativa como logo de seguida emperra o seu avanço com redundâncias ou cenas que pouco acrescentam, com a duração de "Legend" a parecer excessiva para aquilo que realmente tem para nos dar. Não foge aos convencionalismos dos filmes de gangsters, tal como não desilude por completo, embora lhe falte sentido de ritmo, criatividade e nervo na exposição dos episódios apesar de algumas cenas facilmente ficarem na memória. Veja-se o embate violento entre os irmãos Kray, após uma discussão no casino de ambos, com Tom Hardy a expor mais uma vez a sua capacidade em expressar os sentimentos dos personagens que interpreta através dos gestos corporais, com estes momentos de pancadaria a exibirem a brutalidade que envolve o quotidiano da dupla. Aos poucos assistimos à ascensão dos Krays, aos seus negócios relacionados com o tráfico, lavagem de dinheiro e até as negociatas com a máfia dos EUA, representada por Angelo Bruno (Chazz Palminteri), com a detenção de Charlie Richardson (Paul Bettany), o líder do "Gang da Tortura", um grupo rival localizado no sul de Londres a permitir que a influência dos personagens interpretados por Tom Hardy crescesse de forma exponencial. Diga-se que, apesar do "Gang da Tortura" raramente ser devidamente explorado, ainda vai permitir umas quantas cenas onde a violência que rodeia este mundo do crime se torna notória e sentida. Veja-se quando Ronnie e Reggie se juntam para uma reunião com representantes do gang rival, acabando por protagonizar uma luta contra um número elevado de capangas de Richardson, com o primeiro a exibir o seu estilo meio louco ao aparecer de martelo em punho, pronto a distribuir pancada, com Tom Hardy a parecer desfrutar imenso destes momentos. Ronald protagonizará ainda outro episódio sangrento com um dos elementos deste gang, algo que terá uma relevância notória no destino de ambos os irmãos. Reggie e Ronnie lideram um grupo conhecido como "A Firma", com o segundo a assumir abertamente o seu gosto por este estilo de vida, enquanto Reggie tenta controlar os seus impulsos embora seja uma situação praticamente impossível deste evitar. Ainda procura corresponder aos anseios da esposa, mas a sua sede de poder fala mais alto, com a relação entre ambos a conhecer episódios menos positivos, após terem vivido alguns momentos de maior romance e leveza. Diga-se que Frances avançou para a relação mesmo contra a vontade da sua mãe, com esta última a marcar presença no casamento vestida de preto, como se fosse a um funeral, quase que a prever o futuro do seu rebento ao lado de Reggie.

 Tom Hardy consegue atribuir algumas idiossincrasias aos personagens que interpreta, duas figuras de sotaque carregado que podem ser unidos devido aos laços de sangue mas apresentam distinções latentes. Essa situação é particularmente notória na vida sentimental e "profissional" de cada um, com o argumento a procurar explorar a relevância que Frances teve em Reggie e vice-versa, para além do gosto que este tinha em contar com um casino de sucesso. Já Ronnie aprecia abertamente o estilo de vida ligado ao crime, desprezando o casino e vários elementos da confiança de Reggie, apresentando uma incapacidade notória em manter o pragmatismo, dependendo de comprimidos para ter alguma estabilidade emocional. Um dos elementos que Ronnie não pode ver à frente é Leslie Payne (David Thewlis), o testa de ferro do grupo, um indivíduo calculista e inteligente que procura encontrar sempre a melhor perspectiva de negócio. David Thewlis surge como uma figura misteriosa, que sabemos não ser totalmente confiável, com o actor a procurar explorar o lado mais pragmático deste indivíduo que trabalha para Reggie e Ronnie. A influência dos dois irmãos chegou a atingir o espectro político, algo visível nas orgias em casa de Ronnie, com este a não esconder os seus gostos por figuras masculinas, embora saliente a sua faceta activa nas relações, acabando por ficar com fotografias comprometedoras de elementos relevantes que frequentavam as suas festas. A ligação destes gangsters ao poder político até permite efectuar uma ligação entre "Legend" e "Black Mass", com ambas as obras cinematográficas a contarem com esta temática em comum, para além de apresentarem uma influência notória dos filmes do subgénero de Martin Scorsese. Veja-se o momento em que encontramos Reggie a entrar no bar acompanhado por Frances, com esta a ficar surpreendida por quase tudo e todos conhecerem o gangster (uma expressão que este não gosta de utilizar), numa sequência a fazer recordar "Goodfellas", em particular quando os personagens interpretados por Ray Liotta e Lorraine Bracco entraram no clube nocturno (a maneira como a câmara segue os personagens parece indicar essa "fonte de inspiração"). A própria utilização da narração em off e a procura de espelhar a forma simultaneamente luxuosa e violenta em que vivem estes gangsters também remete para diversos filmes de Martin Scorsese, tais como o já citado "Goodfellas", para além de "Casino", embora sem a mesma classe e consistência. É certo que é de elogiar esta procura de manter vivo um subgénero que já nos deu uma miríade de exemplares magníficos, embora "Legend" dependa imenso de Tom Hardy para conseguir deixar alguma marca no espectador. Existe algum trabalho a nível de caracterização, sobretudo no que diz respeito a Ronnie que permite diferenciar ligeiramente esta figura em relação a Reggie, embora seja a interpretação de Tom Hardy que nos convence, com o actor a impressionar pela facilidade como consegue expor as dicotomias dos personagens que interpreta, com as técnicas utilizadas a convencerem nas cenas em que estes irmãos surgem em conjunto.

 Brian Helgeland, no seu novo trabalho como realizador e argumentista, procura ainda apresentar algum cuidado na representação da época, algo que vai desde o guarda-roupa aos cenários interiores e exteriores, passando pelos actos destes personagens numa cidade de Londres permeada pelo crime, onde estes dois irmãos e o seu gang conseguiram escapar às autoridades ao longo de um período de tempo considerável. Um dos representantes das autoridades é Leonard "Nipper" Read (Christopher Eccleston), com este a ser muitas das vezes alvo da ironia dos irmãos Kray, pelo menos até conseguir reunir material para os incriminar, embora o personagem raramente seja devidamente explorado ao longo do enredo. Diga-se que capturar estes elementos seria sempre uma tarefa assaz complicada, ou os dois irmãos não tivessem criado uma teia relativamente bem montada, onde existia pouco espaço para traições embora parecesse inevitável que, mais cedo ou mais tarde, Reggie e Ronnie iriam conhecer o seu ocaso. Ronnie é mais paranoico, pouco pragmático e incontrolável, enquanto Reggie parece ter nos seus clubes nocturnos as "meninas dos seus olhos", com a história destes dois a ser novamente adaptada ao grande ecrã, após "The Krays" de Peter Medak. Reggie procura regularmente controlar Ronnie, embora nem sempre tenha sucesso, algo que a espaços os coloca em confronto. Embora a interpretação dupla de Tom Hardy consiga convencer, já o argumento de Brian Helgeland revela alguma dificuldade em desenvolver as situações que exibe. Veja-se a forma pueril como é retratada a relação entre os dois irmãos e a mãe, ou a representação pouco aprofundada do gang rival, ou a parca exploração da investigação protagonizada por "Nipper". "Legend" procura sobretudo colocar-nos diante dos mitos e lendas relacionadas com os irmãos Kray, mas também perante os seus feitos violentos durante a década de 50 e 60 do Século XX, com Brian Helgeland a transmitir a ideia que a espaços se parece ter perdido e fascinado por este mundo que rodeava os personagens interpretados por Tom Hardy. Veja-se as representações dos espaços nocturnos, onde não falta muito fumo de cigarros, música ao vivo, jogatana, alguma violência e glamour à mistura, com estes a serem pontos de encontro naturais destes indivíduos, ou a simpatia dos criminosos junto das senhoras de idade mais avançada (a ponto da população local dialogar mais com estes do que com a polícia), entre outros exemplos. Sem surpreender ou sair da mediania, "Legend" tem como principal motivo de interesse o trabalho de Tom Hardy como Reggie e Ronnie Kray, com o actor a convencer, surpreender e agarrar um filme de gangsters que consegue prender a nossa atenção.

Título original: "Legend".
Título em Portugal: "Lendas do Crime".
Realizador: Brian Helgeland.
Argumento: Brian Helgeland.
Elenco: Tom Hardy, Emily Browning, David Thewlis, Paul Bettany, Christopher Eccleston, Chazz Palminteri.

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