14 outubro 2015

Resenha Crítica: "Le dernier métro" (O Último Metro)

 Uma das últimas longas-metragens realizadas por François Truffaut, "Le dernier métro" coloca-nos não só diante dos bastidores de um grupo de teatro em plena França durante a II Guerra Mundial, mas também de relações sentimentais proibidas e uma atenção notória aos gestos dos personagens, algo que é transversal a diversos trabalhos do realizador, com este a elaborar uma obra cinematográfica pontuada por uma enorme elegância. Veja-se a atenção dada aos gestos dos personagens em "La peau douce", onde também tínhamos um caso extraconjugal, tal como em "Jules et Jim", com quem "Le dernier métro" parece partilhar o triângulo amoroso. Truffaut tem em "Le dernier métro" um drama relativamente convencional mas de enorme relevo, onde aproveita para explorar temáticas como o anti-semitismo, as relações proibidas, as dinâmicas no interior de um grupo de teatro, bem como as dificuldades inerentes à II Guerra Mundial, quer pela necessidade dos personagens terem que se abrigar em locais como a estação de metro quando soa o alarme, quer pelos racionamentos, quer pelo recolher obrigatório, quer pelo coartar da liberdade a nível de ideias. Existe todo um cuidado a nível do guarda-roupa, mas também dos cenários, tendo em vista a procurar respeitar o tom da época, com o teatro a ser um espaço utilizado de forma exímia ao serviço da narrativa. É neste cenário que assistimos aos ensaios, à representação da peça diante do público, às dinâmicas entre os elementos que pertencem ao grupo do Teatro Montmartre, mas também aos perigos que envolvem o quotidiano de Marion Steiner (Catherine Deneuve), com esta a manter em segredo que Lucas Steiner (Heinz Bennet), o seu esposo, encontra-se escondido no porão. A França encontra-se ocupada, ainda que esta situação não se aplique a todo o território, com a censura e a influência alemãs a serem notórias, enquanto a perseguição aos judeus marca o quotidiano de vários personagens, entre os quais Lucas Steiner, o director e encenador do Teatro Montmartre, um indivíduo judeu, que a maioria pensa, durante parte da narrativa, que fugiu para a América do Sul. Lucas é um indivíduo bem sucedido, culto, que assiste com revolta a todo o anti-semitismo existente na sociedade francesa, ao mesmo tempo que procura ajudar a esposa nos ensaios para a peça, ou este não tivesse a oportunidade de ouvir os mesmos através de uma fresta. A dirigir a peça encontra-se Jean-Loup Cottins (Jean Poiret), um indivíduo que procura agradar a "gregos e troianos" para conseguir que o seu trabalho seja aprovado pelo comité de censura, enquanto tenta seguir ao máximo as notas que Lucas Steiner deixou no argumento, antes do marido de Marion ter supostamente partido do território. A aprovação da peça depende de pessoas como Daxiat (Jean-Louis Richard), um indivíduo influente junto dos elementos da França de Vichy e dos alemães, que trabalha como crítico de teatro no jornal "Je Suis Partout". Jean-Louis Richard consegue que o personagem que interpreta mantenha um estilo quase sempre pouco aprazível, representando não só os franceses que colaboraram com a Alemanha Nazi, mas também o protótipo do crítico preconceituoso, com Truffaut, também ele oriundo da crítica, a parecer deixar aqui um comentário sobre esta profissão (inspirado em alguém que o cineasta conhece?). Daxiat surge como uma figura que facilmente desperta desprezo, pronta a destroçar peças de teatro e a arrasar com a reputação dos judeus, com "Le dernier métro" a transportar-nos para tempos que nem sempre jogam a favor da humanidade.

Quem também se vai juntar a esta peça de teatro, intitulada de "A Mulher Desaparecida" é Bernard Granger (Gérard Depardieu), um actor que é comparado a Jean Gabin em "La bête humaine" (não poderiam faltar as referências cinéfilas numa obra de Truffaut), apresentando uma mescla de simpatia e imponência física. Bernard é um mulherengo que procura conquistar Arlette Guillaume (Andréa Ferréol), a cenógrafa e figurinista da peça, uma mulher com quem este protagoniza alguns trechos de humor, inerentes às tentativas falhadas para a conquistar, pelo menos até descobrir que esta é homossexual, algo que o surpreende. A homossexualidade é uma das temáticas abordadas, ainda que ao de leve pelo filme, uma situação notória nos comentários sobre Jean-Loup Cottins, mas também quando encontramos Arlette num momento mais caloroso com outra mulher. A temática é abordada com respeito e sobriedade, com Truffaut a procurar explorar as idiossincrasias destas figuras que povoam o espaço do teatro. Para além destes personagens, o teatro conta ainda com elementos como Raymond Boursier (Maurice Risch), o técnico, um indivíduo que é uma espécie de "faz tudo" que cuida dos equipamentos deste espaço, ajuda a nível do trabalho inerente aos cenários, entre outras funções; Germaine Fabre (Paulette Dubost), a camareira; Nadine Marsac (Sabine Haudepin), uma jovem actriz que apresenta uma grande ambição, entre outros. O espaço do teatro é aproveitado de forma exímia, com este a surgir como o cenário primordial do enredo, enquanto as relações entre as figuras que o povoam são exploradas de forma assertiva, com Catherine Deneuve a estar quase sempre no centro de tudo, ou a personagem que interpreta não se encontrasse a dirigir temporariamente o teatro e a protagonizar a peça. Deneuve incute uma faceta simultaneamente fria e sensível a esta personagem, com Marion a procurar esconder a presença do esposo, mas também alguns dos sentimentos que nutre em relação a Bernard, numa obra cinematográfica onde François Truffaut não poderia deixar de nos colocar diante do desejo de cariz sexual e traições. A relação entre Marion e Bernard é marcada inicialmente pelo respeito mútuo, com esta a surgir como uma figura com uma aura que facilmente impressiona aqueles que se aproximam da sua pessoa, enquanto o segundo é um actor oriundo do Grand Guignol. Se Marion procura esconder de tudo e todos que o seu marido se encontra a viver no porão do teatro, já Bernard mantém algum mistério em relação à sua amizade com uma figura que mais tarde descobrimos ser da Resistência, com este a ser politicamente engajado, embora procure ocultar esta sua faceta (são raros os personagens de "Le dernier métro" que não contam com segredos). Diga-se que Bernard é uma figura complexa, com Gérard Depardieu a conseguir mesclar o estilo impulsivo do personagem que interpreta com um lado mais sensível, compreensivo e até bem disposto. Veja-se quando Bernard se recusa a cumprimentar Daxiat, ou quando agride o crítico após as palavras insultuosas do mesmo em relação à peça e a Marion. Um beijo na boca, dado por Marion a Bernard, no final da primeira exibição pública da peça, expõe algo que parecia até então pouco discernível embora, ao estarmos numa obra cinematográfica de François Truffaut, seria previsível que mais tarde ou mais cedo este nos deixasse diante da possibilidade de uma traição. Veja-se trabalhos como "Tirez sur le pianiste", "La peau douce", "Jules et Jim", "La sirène du Mississipi" (com Catherine Deneuve no elenco principal), "La Femme d'à côté" (também protagonizado por Gérard Depardieu), entre outros, embora em "Le dernier métro" esta situação não assuma um papel central, nem ganhe características trágicas, com François Truffaut a procurar explorar uma miríade de situações em volta deste drama que tem como pano de fundo Paris em 1942.

François Truffaut incute ainda algum mistério e tensão em relação ao destino de Lucas, algo inerente ao facto daqueles que o procuram poderem ou não encontrar o local onde se encontra escondido o encenador e director do teatro, com elementos como Daxiat a descobrirem que o personagem interpretado por Heinz Bennent não partiu para a América do Sul, embora desconheçam o seu paradeiro. Heinz Bennent incute uma faceta a espaços ponderada ao personagem que interpreta, um indivíduo culto, que não perde o sentido de humor apesar de se encontrar em cativeiro no interior do seu próprio teatro, embora também não deixe de apresentar algum desespero. Bennent e Deneuve apresentam uma dinâmica convincente como um casal cujo quotidiano é claramente afectado pelo contexto político e social que os envolve, com François Truffaut a aproveitar para expor sem contemplações que muitos franceses contribuíram para a causa alemã, embora outros tenham optado por seguir um caminho distinto, com o cineasta a não apresentar uma visão unidimensional em relação a esta situação. O anti-semitismo é uma das temáticas que se encontram na ordem do dia em "Le dernier métro", mas também a censura aos trabalhos de pendor artístico, o contrabando, as dificuldades no território de Paris inerentes à II Guerra Mundial, a procura de alguns elementos fugirem para a zona livre francesa ou para fora do território francês, para além das dinâmicas no interior do local do Teatro Montmartre. Logo no início do filme, encontramos Marion a rejeitar um actor por este ser judeu, algo que parece um acto de anti-semitismo. Mais tarde percebemos que esta se encontra a procurar afastar situações que hipoteticamente poderiam conduzir a investigações ao local, algo que colocaria o esposo e esta em perigo, uma situação reveladora do lado mais pragmático de Marion. Catherine Deneuve surge como a elegância em pessoa, vestida quase sempre com roupas aparentemente dispendiosas e pontuadas pelo bom gosto, com esta a interpretar uma mulher que tanto tem de bela como de misteriosa ou não procurasse esconder a presença do esposo de quase tudo e todos. Aos poucos descobrimos que Marion sente algo mais em relação a Bernard, com a cor vermelha de um dos seus vestidos a indicar os sentimentos mais quentes que esta mulher é capaz de despertar e sentir. A atenção aos gestos e olhares é algo transversal a diversos trabalhos de François Truffaut, com este a beneficiar da elegante cinematografia de Néstor Almendros, que contribui para alguns planos de fino recorte, com "Le dernier métro" a contar com uma utilização exímia da cor e da iluminação ao serviço da narrativa. As referências cinéfilas surgem ainda como outro traço em comum entre "Le dernier métro" e outros filmes de Truffaut. Veja-se que é nas salas de cinema e teatro que a população aproveita para se refugiar e encontrar algum calor, para além da presença constante de cartazes nas ruas, embora o Teatro Montmartre seja o espaço central da narrativa. A zona que envolve o palco é dominada por tonalidades vermelhas nas cadeiras e cortinas, uma cor que simboliza os sentimentos quentes, quer estes se encontrem relacionados com o campo amoroso, quer estejam ligados aos perigos. Por sua vez, o porão onde Lucas se encontra escondido é pontuado por acomodações precárias, uma iluminação inicialmente mais esbatida, diversos livros e um pequeno espaço onde este aproveita para ouvir os ensaios e a peça de teatro. Os cenários são bem aproveitados, com François Truffaut a conseguir dar a noção do espaço do edifício do teatro (filmado no Saint-Georges em Paris), com este imóvel a contar ainda com o escritório de Marion no piso superior, um local onde esta trata dos negócios inerentes à gestão do Montmartre. Veja-se que é neste piso onde Marion rejeita a possibilidade colocada por Jean-Loup de integrar um actor judeu na peça, entre outros exemplos. Marion tem uma relação de relativa amizade com Jean-Loup, embora não confie totalmente no mesmo, com este último a respeitar imenso a personagem interpretada por Catherine Deneuve e as indicações de Lucas, apesar de procurar evitar entrar em conflitos com elementos ligados à França ocupada e aos alemães. A representação do totalitarismo e da colaboração ou luta contra o mesmo já tinha sido abordado por François Truffaut em "Fahrenheit 451", embora em "Le dernier métro" este se ancore num contexto histórico real, ainda que representado de forma ficcional.

Embora "Le dernier métro" esteja longe de surgir como uma obra cinematográfica pontuada por um ambiente totalmente negro, também não deixa de ser notório que este espaço parisiense que nos é apresentado conta com alguns tumultos, com as acções da Gestapo e dos próprios franceses do lado de Vichy, que procuram perseguir os judeus e os elementos da Resistência, a serem exibidas, com Truffaut a nunca esquecer o contexto que envolve esta narrativa elegante, bem filmada, pontuada por boas interpretações e um argumento relativamente bem amarrado. O trabalho a nível de decoração dos cenários é merecedor de elogios, incluindo a representação de um clube nocturno onde a presença de soldados alemães é sentida através da miríade de chapéus deixados no bengaleiro, com este espaço de diversão a simbolizar paradigmaticamente essa procura em representar o espírito desta época. Diga-se que "Le dernier métro" é um trabalho bastante pessoal do cineasta, algo salientado por Armond White no seu artigo para a Criterion, com este a comentar: "Truffaut conjures his memories of the German occupation of France, culling from his schoolboy years and his lifelong infatuation with the creative arts". Este tom pessoal é visível na representação que François Truffaut efectua da época em que se desenrola o enredo de "Le dernier métro", bem como na sobriedade e delicadeza com que aborda os temas principais e as subtramas. Não falta ainda algum humor, seja nas falas sardónicas de Lucas, seja quando falta a luz e encontramos Raymond a pedalar numa bicicleta para colocar os faróis de automóveis em funcionamento tendo em vista a iluminar a peça, entre outro momentos que procuram incutir alguma leveza e até fantasia a esta obra cinematográfica. Temos ainda a relevante narração em off no início do filme (e não só), acompanhada por imagens semelhantes a um documentário ou noticiário da época que nos colocam diante do contexto que envolve estes personagens, numa obra onde a ficção e o real se podem confundir, com François Truffaut a conseguir exibir com sucesso os bastidores de uma peça de teatro e alguns episódios relacionados com uma fase negra da História da França, apresentando uma visão muito própria da mesma. Com uma história envolvente, boas interpretações do elenco principal, em particular de Gérard Depardieu, Catherine Deneuve e Heinz Bennent, uma utilização assertiva da banda sonora, "Le dernier métro" surge como uma obra cinematográfica elegante, que continua a despertar facilmente à atenção, com François Truffaut a exibir mais uma vez que é um cineasta magnífico.

Título original: "Le dernier métro"
Título em Portugal: "O Último Metro".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: François Truffaut, Suzanne Schiffman, Jean-Claude Grumberg.
Elenco: Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Jean Poiret, Heinz Bennent, Andréa Ferréol, Jean-Louis Richard.

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