01 outubro 2015

Resenha Crítica: "La Mariée était en noir" (1968)

 A busca por vingança percorre a mente e a alma de Julie Kohler (Jeanne Moreau) após uma tentativa de suicido que é travada pela sua progenitora (Luce Fabiole) em "La Mariée était en noir", uma obra cinematográfica realizada por François Truffaut, tendo como base o livro "The Bride Wore Black" de Cornell Woolrich. Segue-se um plano para eliminar cinco homens, com o poder de sedução desta mulher e a personalidade mulherenga de algumas das figuras masculinas a prometerem causar estragos. Inicialmente não sabemos as razões para esta atitude. Posteriormente descobrimos que esta pretende vingar a morte do esposo, assassinado na escadaria de uma igreja, poucos momentos depois do casamento com Julie, com os cinco homens que esta busca a encontrarem-se ligados ao homicídio. A causa para o assassinato ter sido cometido, ao ser descoberta, traz algumas dúvidas em relação às reais intenções destes homens e nem por isso tira o mistério ao enredo, com François Truffaut a conseguir que queiramos seguir com atenção os passos desta mulher que é interpretada de forma sublime por Jeanne Moreau. Esta incute uma faceta que tanto tem de impassível como de frágil à protagonista, uma mulher de personalidade misteriosa que desperta o desejo nos seus alvos até estes morderem o isco. Nenhum dos homens a conhece, até esta revelar a sua identidade e exibir uma frieza latente mesmo quando podemos pensar que as dúvidas pudessem germinar no interior da sua alma, embora também tenha os seus momentos de fraqueza. Alguns assassinatos apresentam requintes de sadismo e malvadez, que vão desde esta a assistir a uma das vítimas a morrer por envenenamento ou deixar um indivíduo a sufocar, com François Truffaut a deixar claro no último terço que esta não dá ponto sem nó. O cineasta também é exímio a controlar estes momentos, exibindo uma confiança ao ponto de deixar um episódio fulcral ocorrer no fora de campo, permitindo que um berro transmita mais do que muitas palavras e imagens. Uns assassinatos demoram mais tempo a serem colocados em prática, outros nem por isso, existindo algum tempo para explorar a personalidade de alguns elementos e dar espaço para os seus intérpretes terem alguns trechos de destaque. Não vamos aqui revelar ao pormenor como decorrem todos os assassinatos, com excepção do primeiro, com Julie a assassinar Bliss (Claude Rich), um indivíduo mulherengo que se encontra noivo. Julie surge de branco, poucas palavras, echarpe branca, até deixar o adereço cair no parapeito. Empurra Bliss do parapeito, após revelar o seu nome próprio e apelido, enquanto Truffaut nos deixa diante da echarpe branca a voar pelos céus, num momento algo poético, que transmite uma serenidade que se encontra longe de assolar a alma da protagonista. O trabalho de Raoul Coutard na cinematografia contribui para estes momentos de estranho lirismo embora sobressaia acima de tudo quer a transmitir alguma da tensão e inquietação que envolvem estes assassinatos quer a exacerbar alguns trechos de sensualidade onde a protagonista procura utilizar o seu corpo e a sua habilidade para estes jogos de sedução tendo em vista a atrair as suas presas, embora a relação profissional entre Truffaut e o primeiro tenha sido algo tempestuosa.

Os atritos entre Coutard e Truffaut no set de filmagens ficaram sobejamente conhecidos, com "La Mariée était en noir" a ter sido a última colaboração entre ambos, com as desavenças a minarem a relação profissional que tinham mantido desde "Tirez sur le pianiste" (com um breve interregno em "Fahrenheit 451"). Como é salientado no artigo de Jeff Stafford no site do TCM, sobre "La Mariée était en noir": "(...) Truffaut would later state that of all his movies, he liked this one the least. Part of the reason was his dissatisfaction with the filming of Moreau - he didn't think Coutard captured her beauty on the screen and disliked her costumes as well". As discórdias remetem ainda para a utilização da iluminação, da paleta cromática, entre outros elementos, com o set de filmagens a parecer ter sido bem menos metódico do que a protagonista ou esta não fosse uma mulher que apresenta uma calma muitas das vezes surpreendente. Julie quer vingar-se a todo o custo de Bliss, Coral (Michel Bouquet), Morane (Michel Lonsdale), Delvaux (Daniel Boulanger) e Fergus (Charles Denner). Com excepção de Delvaux, cujo momento de maior destaque é num flashback, onde o assassinato é exposto do ponto de vista do quinteto, a maioria dos elementos deste grupo tem espaço para sobressair. Veja-se o caso de Fergus, com Charles Denner a interpretar um pintor que gosta de seduzir as modelos que requisita para os seus retratos, com este a procurar que Julie se vista de Diana, a Deusa da Lua e da Caça da Mitologia Romana. Se existe um jogo de sedução latente de parte a parte entre Fergus e Julie, onde Truffaut volta a apresentar uma enorme atenção aos gestos, já entre esta e Morane, um aspirante a político, o plano apresenta alguns requintes de malvadez ou esta não utilizasse o filho deste, um jovem rapaz, como meio para entrar na casa. Já Coral é facilmente seduzido, com o argumento de François Truffaut e Jean-Louis Richard a apresentar uma estrutura relativamente episódica onde ficamos perante a procura de uma mulher em eliminar os cinco elementos que provocaram a morte do seu esposo. Jeanne Moreau acaba por ser a integrante do elenco em maior destaque, ou não fosse esta a intérprete de uma mulher que se encontra emocionalmente em cacos, cuja única força para viver e objectivo de vida parece ser vingar o assassinato do seu esposo num episódio que a marcou de forma indelével. É o veículo pronto a ser conduzido com mestria por Jeanne Moreau, que já tinha trabalhado com François Truffaut no magnífico "Jules et Jim", com a colaboração profissional entre ambos a revelar-se frutuosa, ou a actriz não tivesse a oportunidade de brilhar em ambos os filmes. Diga-se que diversas figuras femininas das obras de Truffaut acabam muitas das vezes por influenciar a vida dos homens ou mudar as mesmas. No caso de "La Mariée était en noir" esta também é vítima das acções dos homens, embora se prepare para alterar a vida dos mesmos, ou não trouxesse consigo a morte, planeada e pensada ao pormenor. As suas vítimas apresentam diferentes estatutos financeiros e profissionais, com François Truffaut a explorar ainda os diversos cenários ou a protagonista não tivesse que se deslocar a locais distintos para colocar o seu plano em prática. Veja-se o contraste entre a galeria no interior da habitação de Fergus com o apartamento modesto e pouco luxuoso de Coral ou a habitação de Morane com uma divisória que promete ganhar características claustrofóbicas, ou a varanda de um espaço requintado que serve como local perfeito para um crime implacável.

Existem bons valores de produção, mas também alguma simplicidade na narrativa e até algum humor (veja-se os seios de plástico no estúdio de Fergus, ou o porteiro que conhece todas as amantes de Bliss), com Truffaut a dominar relativamente bem os ritmos de uma obra que, tal como "Fahrenheit 451" não o parece ter satisfeito totalmente nem à crítica (que, para não variar, viria mais tarde a rever o filme em alta). O resultado final é um thriller a espaços inquietante, onde a admiração de Truffaut por Alfred Hitchcock parece ter passado claramente à prática, algo que não só é notório pela banda sonora de Bernard Herrmann (com quem Truffaut trabalhara em "Fahrenheit 451"), mas também pelo mistério e tensão provocados pelo cineasta, pela classe com que mexe com as emoções do espectador, ao mesmo tempo que o coloca diante de uma personagem que tanto tem traços de serial killer como de uma mulher frágil, surgindo como uma figura feminina que parece ter renascido para vingar a morte do seu esposo. Diga-se que as semelhanças entre este trabalho de François Truffaut e o estilo associado a Alfred Hitchcock são salientadas de forma notória por Roger Ebert, um dos defensores de "La Mariée était en noir": "One of Hitchcock's trademarks has been his habit of shooting on location and working the location itself into the plot (...) Truffaut is loyal to this tradition; every one of Jeanne Moreau's murders grows with grim logic out of the place where it occurs (...) There are other Hitchcock touches. Truffaut uses such classic Hitchcock situations as the innocent man wrongly accused (or is he?); the chase; the unexpected interruption; the theme of restraint and confinement; the series of evil events that take place in sunshine and happiness (...)". O filme remete ainda para os filmes noir dos EUA, um pouco a fazer recordar aquilo que François Truffaut efectuara em "Tirez sur le pianiste" mesclando elementos deste subgénero com traços associados à Nouvelle Vague. Não falta uma certa atmosfera de malaise, personagens imorais, uma mulher fatal que promete trazer problemas às figuras masculinas apesar destas terem contribuído para isso, numa obra onde, tal como em "Fahrenheit 451", nem todas as explicações são dadas, tais como a forma como Julie descobriu a identidade dos assassinos e as suas localizações, ou se o assassinato foi claramente um acidente ou premeditado, com as respostas para algumas questões a ficarem para a imaginação do espectador. Já a eficácia e calculismo da protagonista ficam claramente expostos ao longo do enredo, com Jeanne Moreau a ter oportunidade para sobressair num filme marcado por uma atmosfera negra, onde a morte e a vingança pairam por todos os seus poros, a sedução vem quase sempre acompanhada por momentos de maior negritude, enquanto François Truffaut realiza uma obra cinematográfica deliciosamente tensa e misteriosa, onde muito do seu valor advém da macabra curiosidade que o cineasta desperta no espectador para sabermos se Julie irá ou não cumprir os seus intentos.

Título original: "La Mariée était en noir".
Título em Portugal: "A Noiva Estava de Luto". 
Realizador: François Truffaut.
Argumento: François Truffaut e Jean-Louis Richard.
Elenco: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy, Charles Denner.

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