11 outubro 2015

Resenha Crítica: "La Femme d'à côté" (A Mulher do Lado)

 François Truffaut volta a exibir-nos o lado negro das relações amorosas, num tom que mescla melancolia e desencanto, em "La Femme d'à côté", uma obra cinematográfica onde uma relação conturbada do passado promete reacender-se no presente e trazer consigo um turbilhão de sentimentos que envolverá a dupla de protagonistas e aqueles que lhes são próximos. Inicialmente, a dupla até parece feliz com os respectivos cônjuges, tal como parecia o protagonista de "La peau douce", outra das obras de François Truffaut onde eram abordadas temáticas como um affair, o desejo carnal e as consequências nefastas que estes envolvimentos podem trazer. No entanto, essa felicidade, ainda que aparente, com os cônjuges, não impede que Bernard Coudray (Gérard Depardieu) e Mathilde Bauchard (Fanny Ardant) entrem numa relação onde as obsessões por vezes toldam a razão. A vida de ambos parecia relativamente calma, com Coudray a viver numa vivenda espaçosa, acompanhado por Arlette Coudray (Michèle Baumgartner) e o filho de ambos, Thomas (Olivier Bedquaert). A chegada de Philippe (Henri Garcin) e Mathilde Bauchard para viverem temporariamente numa casa junto aos Coudray, na pequena comuna de Bernin, em Grenoble, promete arrasar por completo com o quotidiano deste quarteto. Arlette estava longe de imaginar tal situação quando apresentara os novos vizinhos ao esposo. Bernard e Mathilde apresentam desde logo uma surpresa notória, algo visível numa troca de olhares entre ambos que não passa despercebida ao espectador. Mais tarda esta telefona-lhe, trocam algumas palavras, até um encontro fortuito, num supermercado, conduzir a que se beijem no parque de estacionamento. A relação entre ambos terminara de forma abrupta no passado e deixara marcas, com ambos a manterem um desejo que roça a obsessão e um receio que muitas das vezes não chega para toldar os sentimentos. Chegam a encontrar-se às escondidas no quarto de um motel, até Mathilde decidir travar a relação, com Bernard a expor da pior maneira a sua obsessão por esta mulher, exibindo o segredo de ambos diante de tudo e todos. Bernard bem tentou evitar o contacto com Mathilde, chegando a fingir que estava ocupado no trabalho ao invés de ir a um jantar entre casais organizado por Arlette. Este passa a dita hora de jantar junto de Odile Jouve (Véronique Silver), a dona de um clube de ténis de Grenoble, onde a maioria da população local aproveita para relaxar. Odile é uma personagem que também conheceu os seus dissabores amorosos, com Véronique Silver a conceder uma faceta simpática e experiente a esta mulher que se locomove sempre com a ajuda de uma muleta devido a contar com uma prótese numa perna, uma situação inerente ao facto de outrora ter procurado cometer suicídio devido a ter sido abandonada pelo noivo. Os envolvimentos amorosos acabam muitas das vezes por trazerem consequências desastrosas para os personagens de "La Femme d'à côté", que o digam Odile, Bernard e Mathilde, com François Truffaut a voltar a abordar temáticas como as traições, o desejo, as relações intrincadas entre homens e mulheres, ao mesmo tempo que utiliza recursos habituais como as filmagens fora de estúdio, boa utilização dos cenários externos e interiores (veja-se que quanto mais decorada fica a casa de Mathilde mais desorganizada parece ficar a sua vida), a narração em off, um trabalho de câmara capaz de captar as emoções, entre outras. Diga-se que logo de início encontramos este nome de relevo da Nouvelle Vague a colocar-nos diante de Odile, com esta a dirigir-se ao espectador, indo ao ponto de salientar o posicionamento da câmara de filmar, com o cineasta a exibir alguma da sua irreverência e a deixar bem claro que estamos diante de um filme que nos transmite emoções bem reais.

 Se Véronique Silver interpreta uma mulher de idade algo avançada, que procura fugir ao passado e parece conhecer boa parte da população que habita os arredores do seu clube de ténis, com a actriz a criar uma empatia considerável com os espectadores, já a Gérard Depardieu e a Fanny Ardant cabe dar vida aos personagens mais complexos cujas acções desafiam muitas das vezes os limites do bom senso. Depardieu consegue expressar as dúvidas que inicialmente inquietam o personagem que interpreta, mas também o desejo incontrolável que passa a sentir pela antiga amada e a dificuldade que tem em libertar-se da mesma, pelo menos até uma determinada fase da narrativa. Fanny Ardant como esta figura feminina misteriosa, que procura contactar o protagonista mas também evitá-lo até ceder ao desejo, afastar-se, entrar num estado psicológico lastimável e cometer actos capazes de nos surpreenderem. Ainda chega a recuperar um sorriso que parecia perdido pelas areias do tempo, com o esposo a reparar nesta situação (a expressividade de Ardant funciona de forma exímia), mas este esboço momentâneo de felicidade logo se transforma numa espiral descendente. Diga-se que estas relações extra-matrimoniais nem sempre costumam terminar bem para os personagens que povoam as obras de François Truffaut, que o digam os protagonistas de "La peau douce", "Jules et Jim" e até "Tirez sur le pianiste", com os assassinatos e suicídios a estarem também na ordem do dia em "La Femme d'à côté". Mais uma vez temos a figura feminina que chega e afecta o quotidiano do protagonista, com ambos a acabarem por influenciar um ao outro, ou não acabassem por traír os respectivos cônjuges. Gérard Depardieu explora o lado amigável que o personagem que interpreta tem junto do filho, mas também da esposa, apesar de ter dificuldade em não ceder ao desejo e até cogitar abandonar tudo para viver com a amante, apesar desta não parecer estar para aí virada. Esta é uma escritora e ilustradora de obras literárias destinadas ao público infantil, que até se parece preparar para publicar o primeiro livro com o apoio de Roland Duguet (Roger Van Hool), um amigo de Philippe. O esposo desta é um controlador de tráfego aéreo, que pretende fugir da vida citadina caótica de Paris, acabando por encontrar tudo menos calma nesta sua nova habitação. Dépardieu interpreta um instrutor de condução de navios de transporte de petróleo, enquanto Michèle Baumgartner dá vida a uma mulher que trabalha num laboratório, com ambos a terem empregos estáveis. Diga-se que estes dois casais aparentavam ter uma vida estável, sem grandes incómodos, com François Truffaut a procurar exibir que ambos não contavam com dificuldades financeiras nem problemas conjugais, com estas traições a remeterem para um lado mais irracional e incontrolável do ser humano diante das emoções e sentimentos. A dinâmica entre Gérard Depardieu e Fanny Ardant convence, com ambos a interpretarem duas figuras com um passado conturbado em comum, mas também marcado por episódios emocionalmente calorosos ao ponto de não conseguirem manter a serenidade quando se reencontram, com o argumento de Jean Aurel, Suzanne Schiffman e François Truffaut a explorar o quotidiano caótico que pontua este reencontro. O quarto que Bernard e Mathilde alugam é dicotómico das suas habitações espaçosas, surgindo como um local onde estes inicialmente procuram criar algo de muito próprio, embora as dúvidas comecem a ser mais do que muitas. Fantasmas do passado ressurgem, problemas do presente e questões relacionadas com as famílias que se formaram também aparecem inseridos na equação, com este caso extra-conjugal a prometer ser explosivo.

No primeiro encontro no quarto do hotel, assistimos ao desejo entre ambos a ser colocado em prática, com François Truffaut a voltar a exibir uma enorme atenção aos gestos dos personagens, um pouco como já víramos em "La peau douce", "La sirène du Mississipi", "Tirez sur le pianiste", entre outros, com este a incutir algum erotismo a simples gestos como Mathilde a tocar na face do amado, ou estes a beijarem-se de forma repetida. Temos ainda momentos de alguma sedução. Veja-se quando os dois casais se encontram num jantar em casa de Mathilde e Philippe, com a primeira a receber um vestido vermelho marcado por diversas transparências e um decote saliente, que esta logo utiliza e adensa o desejo que desperta. A cor vermelha do vestido não parece ter sido seleccionada ao acaso (vale ainda a pena reforçar o bom trabalho na escolha do guarda-roupa), ou não fosse uma tonalidade bem quente, que exibe o fogo que envolve a alma destes personagens. Ainda se viriam a reencontrar no hotel, talvez sem a mesma felicidade, bem como no jardim das redondezas do clube de ténis, embora pareça certo que estes não foram feitos para ficarem juntos. O clube de ténis surge como o local onde todos os habitantes das redondezas parecem aproveitar para descansar e descontrair um pouco, uma situação que conduz Odile a ser conhecida pela maioria dos elementos que passam pelo território e desperte a simpatia dos mesmos. Inicialmente encontramos Bernard a evitar Mathilde neste espaço, incluindo a recusar-se a jogar com esta, parecendo resistir à tentação embora seja o primeiro a explodir em laivos de loucura, algo que posteriormente também acontecerá a esta mulher. Diga-se que esta relação entre Mathilde e Bernard já fora problemática no passado, com o presente a reacender não só o desejo mas também a componente menos positiva deste envolvimento. Henri Garcin e Michèle Baumgartner interpretam duas figuras surpreendentemente compreensivas, com os respectivos cônjuges a terem procurado esconder o affair durante boa parte do enredo. Baumgartner interpreta uma mulher de cabelos claros e curtos, que contrastam com os cabelos longos e negros de Mathilde, com ambas a surgirem como figuras femininas com personalidades distintas, que contam com uma relevância notória na vida de Bernard. Já a Garcin cabe dar vida a uma figura ponderada, que a espaços se irrita com uma ou outra decisão da esposa mas que a procura apoiar, embora esta pareça ser a maior inimiga de si própria. Mathilde, tal como Bernard, procurou esconder a relação do passado da sua cara-metade, envolvendo-se pelo caminho num affair que ganha contornos negros, onde os sentimentos ziguezagueiam, nem sempre são lineares e a única certeza que parece existir é que o destino de ambos pode não ser o mais simpático. Com uma dinâmica envolvente e intrincada entre a dupla de protagonistas, a habitual atenção de François Truffaut aos gestos e sentimentos dos seus personagens, "La Femme d'à côté" deixa-nos diante de um retrato bem vivo de uma relação extra-conjugal, algo transversal a diversos trabalhos do cineasta, com este a realizar uma obra cinematográfica capaz de deixar marca, ao mesmo tempo que extrai interpretações de bom nível de Gérard Depardieu e Fanny Ardant.

Título original: "La Femme d'à côté".
Título em Portugal: "A Mulher do Lado".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: Jean Aurel, Suzanne Schiffman, François Truffaut.
Elenco: Fanny Ardant, Gérard Depardieu, Henri Garcin, Michèle Baumgartne, Véronique Silver.

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