19 outubro 2015

Resenha Crítica: "Kiss Me Deadly" (O Beijo Fatal)

 Mike Hammer (Ralph Meeker), o protagonista de "Kiss Me Deadly", não esconde no seu apelido aquilo de que é feito. Este é um detective privado com punhos de aço e braços que recebem com frequência a companhia de mulheres, ganhando a vida a investigar casos extra-conjugais, ou até a fabricá-los, com o seu código de conduta a nem sempre parecer o mais elevado. Ralph Meeker interpreta com habilidade o típico protagonista dos filmes noir, um indivíduo lacónico e mordaz, duro apesar de também apanhar muita pancada, dado a envolver-se em problemas e em investigações marcadas por uma imensidão de reviravoltas e figuras de carácter duvidoso, mantendo uma relação algo complicada com as mulheres (a roçar a misoginia), apesar de ter em Velda (Maxine Cooper), a sua secretária, um companheira fiel. Velda assume as funções de secretária, de sedutora de indivíduos que contam com informação relevante para Mike, mantendo ainda um caso com este último. A vida de ambos fica em perigo quando Mike decide envolver-se, contra tudo e contra todos, numa investigação relacionada com a morte de Christina (Cloris Leachman), num homicídio que quase conduziu ao findar da vida do detective. Esta é a mulher que se prepara para envolver Mike em problemas, ou não estivéssemos num filme noir, com a própria a também estar presa a uma enorme confusão. Nem chegam a contactar muito tempo, com a personagem interpretada por Cloris Leachman a surgir como um furacão pela narrativa, ofegante, desesperada, temerosa, embora tenha razões para expressar tantos receios. Os primeiros momentos em que Mike e Christina se encontram são desde logo atribulados. É de noite, só poderia ser assim neste subgénero cinematográfico (é provável que repita ao longo do texto a expressão "estamos num filme noir"), com a escuridão a fazer muitas das vezes parte do quotidiano dos personagens, seja esta oriunda das sombras, do período do dia ou do estado da alma. Christina encontra-se a correr no meio da estrada, em fuga, vestida apenas com uma gabardina, atirando-se desesperadamente para a frente do veículo de Mike de forma a que este pare. Quem cometeria um acto assim? É óbvio que o desespero desta é grande. Nós sentimos. O protagonista só se apercebe porque tem de desviar o carro com enorme ferocidade para não eliminar involuntariamente esta mulher, com a possibilidade de estragar o veículo a deixá-lo notoriamente chateado. O detective não tem outra opção a não ser parar, mal sabendo ele que se iria envolver numa investigação rocambolesca que pontua uma narrativa convulsa, marcada por traições, personagens moralmente ambíguos, mortes, violência, mentiras, confusões, identidades trocadas, onde a noite é muitas das vezes o palco primordial e o argumento joga de forma sublime com todos estes elementos. É um filme tipicamente noir, associado ainda à paranoia nuclear do período da Guerra Fria, onde até o personagem mais cómico tem direito a um destino cruel e brutal. Diga-se que também Christina terá esse destino, ou seja, a morte. O seu fôlego abafado remete ambiguamente para o som do final de um intenso acto sexual, com esta a ter fugido de um hospital psiquiátrico. Mais tarde sabemos os motivos da fuga e do seu internamento, com o protagonista a ter acertado ao acreditar que esta não é louca. No entanto, acabam por se envolver em problemas. Ela pede para este não se esquecer de si no caso de não a conseguir transportar à estação de autocarro. De seguida, o carro é travado. Christina é morta. Mike fica inconsciente, apesar de ainda acordar momentaneamente quando Christina se encontra a ser assassinada, até voltar a desmaiar.

O carro de Mike é atirado ribanceira abaixo, com o corpo do protagonista e de Christina no seu interior. Pensaram que se livraram dele mas essa não é uma tarefa que será assim tão fácil, com Mike a preparar-se para surgir como uma autêntica "carraça" em busca da verdade sobre estes indivíduos embora, durante boa parte da narrativa, não saiba lá muito bem aquilo que procura. Quando recupera das lesões sofridas no acidente, Mike encontra Velda à sua espera no hospital mas também Pat Murphy (Wesley Addy), um agente da autoridade que procura saber mais informações sobre aquilo que aconteceu ao seu conhecido. O caso tem ramificações mais relevantes do que inicialmente parecia indicar, a ponto de Mike ser chamado a responder a algumas questões colocadas por agentes do FBI, embora mantenha o seu estilo lacónico, procurando resolver o caso com a ajuda de Velda. A relação de Mike com as autoridades não é a mais pacífica, tal como não era a de Sam Spade em "The Maltese Falcon", só para dar um exemplo de um filme do subgénero. Mike pensa ter entre mãos um caso grande, que lhe permitirá lucrar mais do que a maioria dos seus trabalhos, embora perceba com alguma facilidade que também contará com muitos mais perigos. Nick (Nick Dennis), um mecânico e amigo salienta que o carro de Mike foi completamente para a sucata, com o arranjo a ser impossível, revelando ainda o facto de uns tipos com aspecto de duros terem vindo efectuar umas perguntas sobre a sua pessoa. Nick é um tipo extrovertido, um personagem meio caricatural, de origem grega, que conta quase sempre com um sorriso, enorme disponibilidade e um vício tremendo (e irritante) para dizer "va-va-voom". Ao chegar a casa, Mike recebe uma chamada de Velda, que logo se dirige à habitação e tem uns momentos mais tórridos com o protagonista, pelo menos até aparecer Pat a tirar a licença de detective e o porte de arma ao personagem interpretado por Ralph Meeker. Todos os indicadores remetem para um caso mais complicado do que parece, caso contrário a polícia e o FBI não estariam a investigar avidamente o mesmo, embora não apresentem grandes resultados práticos. Velda avisa Mike que um indivíduo chamado Ray Diker, um jornalista que trabalhava como editor na secção dedicada à ciência do "The News" ligara enquanto o protagonista se encontrava em recuperação. Diker encontra-se supostamente desaparecido, acabando por fornecer a informação da sua morada. Mike não se dirige imediatamente ao local. Prefere antes tirar uma soneca e esperar pela noite, a melhor companheira dos detectives durões dos filmes noir. A câmara coloca-se acima do protagonista, enquanto este anda pela sua casa, num plano picado que exibe bem a inquietação do momento, com a cinematografia e a banda sonora a adensarem o mistério e tensão em volta da narrativa, algo que vai ser comum ao longo do filme. Na rua, compra pipocas mas certamente não se irá divertir a ver um filme, tendo de enfrentar um tipo misterioso que o seguia neste cenário exterior nocturno, urbano, pontuado pelas sombras e as raras luzes que iluminam a cidade. A câmara move-se juntamente com o protagonista, a música não diegética pontua o ambiente de desassossego, a sonoplastia faz com que o som de cada sapato que pisa o chão seja sentido (no caso de Mike), até o detective fazer justiça ao nome e desatar à pancada. Robert Aldrich conduz estes momentos com enorme precisão, não só criando toda uma aura de mistério em volta do episódio, mas também ao deixar bem claro que a investigação prepara-se para ser marcada por estes elementos onde o protagonista e o espectador precisam de ter nervos de aço. Ao conversar, ainda que muito brevemente, com Diker, o protagonista logo percebe o medo deste, com o jornalista a revelar que Christina tinha o apelido Bailey e morava no número 325 em Bunker Hill. Diker denota um enorme receio em relação à possibilidade de ser descoberto, com a sua face a apresentar diversas feridas ainda por cicatrizar, embora também não ceda grandes detalhes em relação àquilo que os criminosos procuram. Ao chegar à morada de Christina, Mike encontra a casa desabitada, com os bens a serem retirados do local, entrando em contacto com o senhorio da falecida. Este é um espaço marcado por diversos livros (entre os quais de sonetos de Christina Rossetti, um nome que serviu de inspiração para ser atribuído à falecida, com a obra literária a conter uma pista relevante), máscaras na parede, quadros, bem como um pássaro morto, num dos vários cenários onde é reflectido que existe uma notório cuidado para que a decoração se adeque à personalidade dos personagens. A habitar com Christina encontrava-se Lily Carver (Gaby Rodgers), uma mulher que supostamente saiu do local devido à morte da amiga e à ameaça dos indivíduos que eliminaram a mesma. Gaby Rodgers incute uma faceta de aparente fragilidade à personagem que interpreta (a "Pandora of the Atomic Age"), uma mulher que parece temer pela sua vida, algo latente quando recebe o protagonista de arma na mão embora, aos poucos, Mike aperceba-se que se está a envolver numa perigosa teia de mentiras.

Basta Mike sair de casa de Lily e regressar ao apartamento onde vive para se deparar com um telefonema misterioso e anónimo onde lhe é pedido para esquecer o caso, com o indivíduo que efectuou a ligação a oferecer um carro ao protagonista como uma demonstração de boa vontade, embora o veículo esteja armadilhado. Descobre que a oferta foi efectuada por Carl Evello (Paul Stewart), um conhecido gangster que se encontra envolvido no caso. Não é só o veículo que parece estar armadilhado, mas também diversas pessoas com quem Mike contacta parecem esconder uma malícia ou informações que aos poucos surgem ao de cima. Inicialmente procura descobrir a causa do assassinato de Christina e aquilo que esta escondia, com a descoberta de uma caixa preta a trazer um enigma e ainda mais problemas, com a vida de Mike e daqueles que o rodeiam a parecer estar em perigo. A caixa preta surge como uma espécie de MacGuffin, com a maioria dos personagens a parecer perseguir a mesma, enquanto o espectador fica siderado perante a quantidade de figuras que envolvem a investigação de Mike. Desde falsas ingénuas a gangsters, passando por jornalistas reclusos a Carmen Trivago (Fortunio Bonanova), um cantor de ópera desempregado que manteve amizade com outros elementos próximos a Christina que também morreram de forma estranha, até representantes das autoridades, vários são os elementos que vão rodear a investigação de Mike, enquanto este se envolve por uma miríade de locais sem saber bem naquilo em que se está a meter ou a procurar. A investigação que este protagoniza é marcada por toda uma atmosfera de incerteza, com Mike a envolver-se por ruas e prédios escuros, a contactar com gente pouco confiável e a parecer muitas das vezes agir sem medir as consequências, enquanto a cinematografia adensa o tom negro do filme e a inquietação em volta dos episódios deste enredo convulso, onde os personagens são atirados para o interior da narrativa sem grandes problemas, enquanto o caso que o protagonista procura resolver parece tardar em ter um fim à vista. Robert Aldrich incute uma atmosfera negra a esta adaptação cinematográfica da obra literária homónima de Mickey Spillane, controlando as reviravoltas na narrativa e a entrada de personagens em cena, mantendo o enredo bem vivo ao mesmo tempo que joga com a paranoia nuclear. O conteúdo misterioso da caixa negra remete para isso mesmo, mas também elementos como o soro da verdade, agentes secretos a envolverem-se em casos aparentemente banais, entre outras situações, com o protagonista a ter de se desenvencilhar dos perigos ao mesmo tempo que procura evitar que algo de mau aconteça a Velda. Mike parece apenas pensar em si próprio, embora tenha em Velda uma das poucas figuras que o preocupa, sobretudo quando se apercebe que a colocou em perigos maiores do que aqueles que esperava. Velda é interpretada por Maxine Cooper, uma actriz que é capaz de espelhar o misto de desenvoltura e vulnerabilidade da personagem a quem dá vida, uma secretária que tem no ballet uma prática dos tempos livres e na sedução um meio para obter informações ou ganhar casos. O elenco secundário é composto ainda por elementos que facilmente sobressaem ao longo da narrativa, mesmo que o seu tempo no enredo não seja o mais elevado, uma situação que se deve não só ao talento dos actores e actrizes mas também à qualidade do argumento de A. I. Bezzerides e da realização segura e dinâmica de Robert Aldrich. Veja-se o caso de Paul Stewart como Carl Evello, um gangster com uma propriedade com piscina, um conjunto de capangas prontos a distribuírem pancada, embora também obedeça a ordens superiores, com o actor a atribuir a este indivíduo um estilo aparentemente polido que esconde uma enorme malícia, chegando por vezes a fazer-nos recordar alguns dos antagonistas que viriam a surgir na saga "James Bond". Também Albert Dekker tem espaço para sobressair, ainda que muito brevemente, como o Dr. G.E. Soberin, um indivíduo com um papel relevante, ainda que pela negativa, no último terço, remetendo mais uma vez para a ameaça dos avanços a nível da ciência. Vale ainda a pena realçar Nick Dennis como Nick, um mecânico simpático e prestável que acaba por ser vítima da amizade com Mike. Temos ainda personagens como Charlie Max (Jack Elam) e Sugar Smallhouse (Jack Lambert), dois capangas ao serviço de Evello, para além do peculiar Carmen Trivago, um cantor de ópera e coleccionador de discos raros, entre tantas outras figuras.

A casa do detective é marcada por uma simplicidade que nunca rodeia a narrativa, com este a envolver-se por uma miríade de cenários. Desde apartamentos a propriedades luxuosas, passando por ginásios especializados em treino de boxe a um espaço nocturno, até a um clube restrito, uma morgue e uma galeria de arte, Mike Hammer não para de circular entre cenários interiores e exteriores, enquanto se depara com novas pistas e novas gentes, com parte da investigação a ser marcada pelo desconhecimento em relação àquilo que é tão ansiado pelos criminosos. A sua entrada no prédio de Christina é pontuada pela incerteza se estará a ser observado ou não. Já quando andava a circular pela rua a caminho de casa de Dike tivera de se livrar de um indivíduo que o procurara agredir. Os planos contribuem muitas das vezes para essa inquietação, numa obra marcada por escolhas de ângulos inusitados, remetendo para a instabilidade que existe na vida de Mike. Veja-se desde logo quando sobe as escadas para entrar na casa de Dike, com a câmara a posicionar-se acima do protagonista, deixando sempre na dúvida se alguém o está a seguir ou aquilo que poderá acontecer, ou na habitação de Christina, onde se depara com um simpático senhor idoso a tratar das mudanças, mas também com mais duvidas em relação ao caso, ou quando chega ao espaço onde vive Lily. Os episódios na casa da praia de Soberin são intensos, com algumas verdades a virem ao de cima, enquanto as chamas flamejantes invadem o estado de alma dos protagonistas, com Mike e Velda a terem de lidar com uma situação deveras complicada. Robert Aldrich nunca deixa a investigação perder fôlego, numa obra pontuada por bons valores de produção (sobretudo se tivermos em conta o seu baixo orçamento), onde a incerteza em relação ao destino do protagonista e àqueles que o rodeiam é mais do que muita. Como salienta Velda, o protagonista encontra-se em busca do "the great whatsit", numa investigação onde Mike revela uma resiliência enorme e uma agressividade que não o deixa assim tão distante daqueles que persegue. Mike é brutal quando tem que o ser e muitas das vezes quando essa violência nem seria necessária, apresentando uma personalidade implacável, nem sempre recomendável, com Ralph Meeker a parecer tirar um enorme prazer a interpretar esta figura intensa que se depara com um caso que ganha contornos que parecem ser "areia a mais para a sua camioneta". Com uma atmosfera negra, um protagonista duro e aparentemente inflexível, uma cinematografia marcada por uma exímia exploração do jogo de luz e sombras, planos prontos a exporem a instabilidade que rodeia Mike, uma paranoia associada à Guerra Fria e à ameaça nuclear, "Kiss Me Deadly" prende-nos a uma investigação intrincada, pontuada por estranhas figuras, muitas delas pouco confiáveis, enquanto Robert Aldrich conduz-nos para o interior de uma história dinâmica, tipicamente noir, onde a moralidade nem sempre faz parte do quotidiano dos personagens.

Título original: "Kiss Me Deadly".
Título em Portugal: "O Beijo Fatal".
Realizador: Robert Aldrich.
Argumento: A. I. Bezzerides.
Elenco: Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart, Juano Hernandez, Maxine Cooper, Nick Dennis, Gaby Rodgers.

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