28 outubro 2015

Resenha Crítica: "I Walked with a Zombie" (1943)

 Ao invés de procurar agarrar a narrativa com o recurso a sustos avulsos e gratuitos que podem perder o efeito numa segunda visualização, "I Walked with a Zombie" aposta numa exploração gradual do medo, com Jacques Tourneur a elaborar uma obra cinematográfica pontuada pelo mistério, onde os personagens são colocados diante de elementos ligados ao misticismo e ao oculto. Já tinha sido assim em "Cat People", a primeira obra cinematográfica produzida por Val Lewton para a RKO Pictures, algo que se volta a repetir no segundo filme do competente produtor, capaz de aproveitar como poucos os parcos recursos que tem à disposição. "I Walked with a Zombie" marca ainda a segunda colaboração de Lewton com o realizador Jacques Tourneur, após o enorme êxito que obtiveram em "Cat People", uma obra muito marcada pela superstição, pela atmosfera pontuada pelo medo, pelas duvidas em relação a uma das personagens principais, algo que também acontece neste filme protagonizado por Frances Dee. Esta interpreta Betsy Connell, uma enfermeira oriunda do Canadá que inicialmente nos começa por relatar "eu caminhei com um zombie", descrevendo as suas peripécias em Saint Sebastian, nas Índias Ocidentais, um local aparentemente paradisíaco para onde esta viajou tendo em vista a tratar da esposa de Paul Holland (Tom Conway). O personagem interpretado por Tom Conway é um indivíduo de largas posses, aparentemente austero na exposição dos sentimentos, que ganha a vida com os negócios relacionados com as plantações de cana do açúcar, contando com um vasto conjunto de funcionários e uma família problemática. Wesley Rand (James Ellison), o meio-irmão de Paul, foi educado nos EUA (Paul foi educado em Inglaterra), bebe em excesso e outrora teve um caso com a esposa do segundo, mantendo uma relação relativamente afável com a enfermeira, enquanto que a mãe de ambos esconde alguns segredos arrasadores. Por sua vez, Jessica Holland (Christine Gordon), a esposa de Paul, encontra-se num estado devastador, algo que supostamente remete para os efeitos provocados por uma febre tropical, com esta mulher a ser incapaz de agir por si própria, embora consiga locomover-se e responder a algumas ordens. O contacto inicial entre Betsy e Jessica é marcado por alguns momentos de puro pavor, com a primeira a assustar-se quando encontra a esposa de Paul, durante a noite, com a personagem interpretada por Christine Gordon a apresentar uma atitude semelhante a uma morta-viva, algo que deixa a protagonista visivelmente perturbada. Grita, assume os seus receios e transtornos, embora não pretenda desistir da actividade de enfermeira de Jessica. Betsy descobre ainda a existência de praticantes de voodoo, que contam com um templo, denominado de Houmfourt, onde praticam vários rituais, algo que gera um cepticismo inicial junto de alguns personagens e dos espectadores, embora gradualmente percebamos que o papel deste culto não é tão irrelevante e irreal como poderia parecer. Este templo foi apresentado por Alma (Theresa Harris), uma das criadas negras dos Holland que interage com Betsy, que logo revela o facto destas práticas terem conseguido curar Mama Rose, uma mulher que se encontrava supostamente demente. Betsy conhece ainda a mãe dos dois irmãos, acabando por formar uma relação de proximidade com Paul, enquanto procura cuidar de Jessica, uma mulher que pouco conseguimos conhecer. Apresenta um enorme vazio no seu olhar e nas suas expressões, embora saibamos que outrora tivera um caso com Wesley, enquanto a protagonista procura conduzi-la ao culto naquela que parece ser uma tentativa desesperada de curar esta mulher.

Aos poucos são dados sinais de que Jessica não se encontra viva, com "I Walked with a Zombie" a deixar-nos durante algum tempo na dúvida se esta padece de uma doença ou é uma zombie que deambula pelo mundo terreno. As dúvidas despertadas junto dos espectadores e dos personagens remetem novamente para "Cat People", a primeira colaboração entre Jacques Tourneur e Val Lewton, uma obra cinematográfica onde a dupla procurou explorar o mistério inerente à possibilidade da protagonista do filme poder transformar-se numa espécie de pantera ou gato gigante, algo que é repetido em "I Walked with a Zombie", com as incógnitas a encontrarem-se relacionadas quer em relação à possibilidade de Jessica ser ou não uma zombie, quer no que diz respeito à eficácia das práticas de voodoo. Paul surge como o representante de uma linha pragmática, desconfiando destas questões associadas ao misticismo, enquanto Wesley, sempre mais frágil do ponto de vista mental, parece acreditar nessa possibilidade. Temos ainda o caso de Mrs. Rand (Edith Barrett), a mãe de Wesley e Paul, uma médica que parece acreditar nestes fenómenos ligados ao oculto e ao sobrenatural, com Edith Barrett a interpretar uma figura misteriosa que a espaços nos surpreende. O filme exibe ainda a capacidade de Jacques Tourneur em criar gradualmente o medo a partir de pequenos episódios. Seja quando encontramos Jessica a aparecer sem aviso, qual alma penada na torre onde se encontra instalada, seja a jovem empregada dos Holland a chorar quando a irmã está a dar à luz, seja um ritual voodoo, seja a personagem interpretada por Christine Gordon a parecer responder ao chamamento dos praticantes do culto, seja a presença de Carrefour (Darby Jones), um guarda do Houmfort que apresenta uma postura assustadora, não faltam exemplos que evidenciam a procura de Jacques Tourneur em jogar com os nossos receios e emoções. Temos ainda um hábil jogo de luz e sombras, cheio de simbolismo e pronto a explorar o medo e o espaço da casa dos Holland, um local que surge praticamente como uma prisão (veja-se a luz que entra pelas frestas das portas e estores a simbolizar as grades), com "I Walked with a Zombie" a comprovar a capacidade destas produções de baixo orçamento de Val Lewton em captarem a atenção do espectador. Existe muita contenção de recursos mas também enorme engenho a explorar esta história marcada por enorme misticismo, onde o medo é criado de forma gradual e o cenário aparentemente exótico de Saint Sebastian facilmente se transforma num pesadelo. Diga-se que Paul salienta desde o início que o local está longe de ser tão aprazível como parece, comentando com Betsy: "Tudo parece bonito, porque você não entende. Os peixes voadores não pulam de alegria. Eles pulam de terror. Os peixes maiores querem devorá-los. A água luminosa obtém o seu brilho devido a milhões de cadáveres minúsculos. O brilho da putrescência. Aqui não há beleza, só morte e decadência (...). Aqui tudo de bom morre, até mesmo as estrelas".

Paul é um personagem misterioso e aparentemente rígido que gradualmente começa a exibir algum interesse na protagonista, guardando mágoa devido à traição da esposa com o irmão. O passado deste homem nem sempre é claro no início da narrativa, surgindo a dúvida se Paul terá contado com algumas culpas em relação ao estado delicado de Jessica, com Tom Conway, um colaborador habitual de Lewton, a conseguir explorar essa incerteza em volta do personagem que interpreta. Paul apresenta ainda uma relação complicada com o irmão e a mãe, com o filme a colocar-nos diversas questões sobre esta família, com estas a serem maioritariamente respondidas ao longo do enredo. Quem também se destaca é Frances Dee como esta enfermeira que se prepara para viver um conjunto de episódios marcados pela superstição e o oculto, com o seu pragmatismo a ser constantemente desafiado, ao mesmo tempo que desenvolve um interesse amoroso por Paul, algo que é recíproco. A relação entre Paul e Betsy a espaços faz-nos recordar o envolvimento da dupla de protagonistas de "Rebecca", com o primeiro a apresentar um misto de frieza e sensibilidade, enquanto a personagem interpretada por Frances Dee conta quase sempre com mais facilidade em expor um lado mais doce. Diga-se que esta surge quase como o nosso duplo ao longo do filme, com Betsy a surpreender-se com aquilo que encontra neste espaço que tanto tem de paradisíaco como de macabro. O culto é perpetrado por descendentes dos escravos negros que foram transportados pelos antepassados dos Holland, com a cena em que Betsy transporta Jessica para o Humford a ser uma das mais aprumadas de "I Walked with a Zombie". Tal como em "Cat People", assistimos a um bom aproveitamento do som, em particular dos tambores que ritmam alguns actos associados às superstições presentes no território, algo que incrementa diversos episódios apresentados ao longo de "I Walked with a Zombie", naquela que é uma imagem de marca dos filmes de Val Lewton (veja-se por exemplo o som sublime do relógio em “The Seventh Victim” enquanto dois personagens caminham num cenário obscuro). O argumento é relativamente eficaz, tendo como base um artigo de Inez Wallace, bem como "Jane Eyre" de Charlotte Brontë, numa obra cinematográfica que se destaca pela sua atmosfera inebriante, com o medo a envolver facilmente as mentes e os corpos dos personagens e dos espectadores. Podemos não acreditar em toda a parafernália de gestos e rituais inerentes ao culto mas Lewton e Tourneur tornam os mesmos credíveis no contexto da narrativa, ao mesmo tempo que nos colocam diante de um conjunto de figuras que facilmente despertam a nossa atenção.

Título original: "I Walked With a Zombie".
Título em Portugal: "Zombie". 
Realizador: Jacques Tourneur.
Argumento: Curt Siodmak e Ardel Wray.
Elenco: James Ellison, Frances Dee, Tom Conway, Edith Barrett, James Bell.

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