20 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Haunting" (1963)

 Misterioso, inebriante e inquietante, "The Haunting" enfeitiça-nos, mexe com os nossos sentimentos e arrasta-nos para o interior de uma casa assombrada. O passado desta habitação não é nada simpático, com este espaço a parecer trazer consigo a morte e a loucura, algo que é exposto no início de "The Haunting" e comprovado ao longo do enredo. Nunca chegamos a entrar na casa mas é quase como se assim acontecesse, com Robert Wise, auxiliado por uma cinematografia e um trabalho de montagem sublimes, a realizar uma obra cinematográfica inquietante e envolvente, pontuada por uma atmosfera opressora e uma mansão assombrada cuja decoração e largas dimensões contribuem para adensar a tensão que envolve alguns dos episódios que a espaços aterrorizam os protagonistas. No início do filme encontramos o Dr. John Markway (Richard Johnson), um antropólogo e especialista em situações ligadas ao oculto, a servir de narrador, com Robert Wise a contribuir de forma paradigmática para que fiquemos desde logo com um esboço do historial da Hill House, uma habitação localizada em New England. A casa foi erigida a mando de Hugh Crain, um indivíduo que pretendia morar no local com a filha e a esposa. No entanto, a carruagem que transportava a Srª Crain é esmagada contra uma árvore após os cavalos se terem soltado de forma inesperada, provocando a morte desta mulher. Crain ainda se casa mais uma vez, mas a sua segunda esposa também tem um destino trágico ao cair das escadas desta espécie de castelo, um acidente que conduz à morte desta figura feminina. O viúvo deixa Abigail Crain, a sua filha, à guarda de uma ama, acabando por morrer afogado em Inglaterra, enquanto a segunda fica a habitar na casa. Quando já contava com uma idade algo avançada, Abigail decidiu contratar uma mulher que habitava nas redondezas para tratar dela, até a idosa falecer, com a funcionária a apresentar algum desleixo no cumprimento das suas funções. A dama de companhia de Abigail recebe a mansão como herança, pelo menos até enlouquecer e cometer suicídio, com a habitação a ficar na posse de familiares distantes. A casa já conta com noventa anos, parecendo preparada para durar muito mais tempo, embora não conceda grandes veleidades aos seus moradores, algo que não parece amedrontar o Dr. John Markway. Este procura efectuar um estudo sobre a possibilidade de existirem fenómenos paranormais no interior da casa, algo que o leva a convencer Mrs. Sanderson (Fay Compton), a herdeira da mansão, uma mulher de idade algo avançada que habita em Boston, a deixá-lo investigar o local durante um certo período de tempo. Esta coloca apenas como condição que Luke Sanderson (Russ Tamblyn), o seu sobrinho e herdeiro, também participe no estudo, tendo em vista a que este fique a conhecer o local. É assim que John Markway, Eleanor Lance (Julie Harris), Theodora (Claire Bloom) e Luke Sanderson se reúnem no interior desta misteriosa mansão.

Eleanor é uma mulher algo paranoica, insegura, que vive no sofá da casa da irmã, furtando o veículo desta última para viajar até Hill House. A insegurança de Eleanor é muitas das vezes visível na quantidade de pensamentos desta que nos são expostos em off, com Julie Harris a surgir como um dos elementos do elenco em destaque ao longo de "The Haunting", ou a actriz não desse vida a uma mulher que aos poucos se deixa simultaneamente atormentar e fascinar pela casa. Esta quer fugir da casa da irmã a todo o custo, encontrando nesta mansão uma espécie de abrigo amaldiçoado que, apesar de todos os seus problemas, a parece libertar da família. Harris consegue expressar no seu rosto os receios e inseguranças de Eleanor, com esta a ter dedicado boa parte da sua vida a cuidar da mãe, até a progenitora falecer e a protagonista conhecer um vazio que procura preencher. Por vezes fica no ar um certo sentimento de culpa por parte de Eleanor em relação ao falecimento da mãe, com a personagem interpretada por Julie Harris a tanto parecer sentir algum pesar, como a denotar alívio pela perda da familiar. Eleanor é a primeira a chegar a esta mansão, um espaço decorado ao estilo Rococó, exposto em alguns momentos com o recurso a alguns ângulos inusitados, quase a remeter para o expressionismo alemão. A própria utilização do contraste entre luz e sombras, com estas últimas a surgirem imensamente carregadas nesta obra filmada a preto e branco, contribui para a atmosfera lúgubre que rodeia esta mansão. A casa surge como uma das grandes protagonistas do filme, um espaço que é paradigmático do trabalho sublime que foi efectuado a nível do design dos cenários interiores. Os espelhos surgem colocados em locais precisos, prontos a atormentarem os personagens, as estátuas ganham características assustadoras, o mobiliário contribui para o tom assombrado deste espaço, com o próprio exterior, pontuado por nuvens carregadas, a exibir todo um cuidado para criar uma atmosfera que contribui para que facilmente sejamos compelidos a acreditar na influência que a mansão tem no grupo que a habita, independentemente deste espaço contar ou não com fenómenos sobrenaturais. A própria sonoplastia contribui para incrementar as situações mais assustadoras e adensar a atmosfera tensa que envolve regularmente a narrativa, algo latente quando encontramos Eleanor e Theodora no mesmo quarto, desesperadas com os sons misteriosos oriundos do espaço exterior a esta divisória, com Robert Wise a criar uma situação praticamente sufocante, onde o trabalho de câmara e montagem é sublime. A câmara movimenta-se em volta da porta, aproxima-se rapidamente do puxador, coloca-nos diante de close-ups sobre os rostos das personagens interpretadas por Julie Harris e Claire Bloom, enquanto ficamos na duvida sobre a origem destes barulhos. Diga-se que "The Haunting" procura muitas das vezes jogar com o poder de sugestão para gerar o receio junto do espectador, com Robert Wise a parecer ter bebido alguma da sua inspiração em Val Lewton, um produtor com quem trabalhou em "The Curse of the Cat People", "Mademoiselle Fifi" e "The Body Snatcher". É isso que acontece não só quando nos deparamos com Eleanor e Theodora a ouvirem estranhos barulhos, mas também ao longo de diversas situações de "The Haunting" onde muito é sugerido e pouco é efectivamente mostrado, com Robert Wise a não recorrer à exposição directa de figuras espectrais para criar o medo. Julie Harris e Claire Boom interpretam duas mulheres de características distintas, com Eleanor a surgir aparentemente mais frágil, enquanto Theodora aparece como uma figura feminina sardónica, observadora e inteligente, ficando subentendido que esta é homossexual, embora o argumento raramente procure deixar esta situação totalmente clara.

"The Haunting" é uma obra que procura sobressair acima de tudo pelas suas subtilezas, com Robert Wise a conseguir criar desde o início todo um ambiente inquietante em volta da casa que contribui para que se gere algum receio em volta do destino do grupo reunido por Markway. O grupo era para ser inicialmente composto por seis pessoas, algo que não se concretiza devido às desistências de vários elementos, com estes a apresentarem medo em relação às lendas que existem volta desta habitação, um cenário que se prepara para desorientar os espectadores e os personagens. Markway acredita na possibilidade desta casa ser assombrada, bem como na existência de fenómenos sobrenaturais, ao contrário de Luke, com "The Haunting" colocar-nos perante o outro lado da moeda, com o personagem interpretado por Russ Tamblyn a apresentar uma atitude quase sempre cínica em relação a estes casos que envolvem a mansão. Russ Tamblyn incute uma faceta algo descontraída a Luke, um indivíduo brincalhão, que gosta de beber e jogar às cartas, que não tem problemas em levantar duvidas sobre a veracidade das forças sobrenaturais que envolvem a casa, pelo menos até perceber que algo estranho se passa no interior da mesma. Por sua vez, Richard Johnson incute uma faceta credível a John Markway, uma figura que procura manter o grupo unido, que aos poucos procura explorar as diversas divisórias deste cenário pouco convidativo, com a chegada inesperada da esposa (Lois Maxwell) ao local a trazer-lhe um problema inesperado, ou não existisse a possibilidade desta correr risco de vida. A chegada da esposa do personagem interpretado por Richard Johnson é vista ainda como um problema para Eleanor, com esta mulher a reprimir os sentimentos que nutre em relação ao antropólogo. Diga-se que esta reprime muito daquilo que sente, embora os seus pensamentos sejam partilhados com o espectador de forma amiúde, enquanto Eleanor parece formar uma estranha ligação com a casa, ao mesmo tempo que repele as piadas sarcásticas de Theodora. A casa surge como cenário que desperta a curiosidade e o medo nos protagonistas e no espectador, com Robert Wise, um cineasta com uma currículo marcado por uma diversidade notável a nível de géneros cinematográficos, a ser exímio a manipular o público e a gerir os ritmos da narrativa. A certa altura encontramos John, Luke, Eleanor e Theodora num ponto frio que indica a presença de algo sobrenatural, num espaço que o primeiro classifica como o "coração" de Hill House. O quarteto sente o frio, com essa sensação a ser transmitida com enorme eficácia para o espectador, ao longo de uma obra onde Robert Wise sabe jogar com as possibilidades proporcionadas pelas diferentes divisórias da casa. Uma subida na escadaria de metal pode ser motivo de enorme inquietação, uma estátua facilmente desperta algum receio, as portas abrem-se e fecham-se sozinhas, os espelhos podem gerar ansiedade, os estranhos sons facilmente colocam o grupo em sentido, enquanto o argumento, inspirado no livro "The Haunting of Hill House" explora as dinâmicas do grupo no interior desta casa e os receios inerentes à possibilidade desta estar assombrada.

O trabalho de câmara é sublime a incrementar o receio em relação a esta casa, com Robert Wise a não poupar na utilização de ângulos inusitados, imagens em movimento distorcidas, panorâmicas, tracking shots, entre outras técnicas. Diga-se que o artigo sobre o filme na Wikipedia expõe de forma concisa a enorme atenção concedida ao trabalho a nível da câmara e da montagem: "The camera work and editing work together to further heighten the frightening qualities of the film. Eleanor is often viewed from above, and in one scene the camera closes in so tightly on her that she is forced backward over a railing. Eleanor's viewpoint is often juxtaposed with eerie views of the house, as if both viewpoints were the same. Many of the editing choices in the film are also used to heighten the audience's discomfort. There are a number of rapid cuts in the film that throw off the viewer's sense of spatial orientation, and Dutch angles are used to imply that reality is off-kilter (...)".  Estas técnicas também são utilizadas para explorar os estados de espírito dos personagens, algo visível em situações como a cena em que Eleanor procura subir as escadas de metal, ou quando se encontra deitada a ouvir uma espécie de choro, pensando que Theodora se encontra a agarrar a sua mão, embora a personagem interpretada por Claire Bloom esteja noutro espaço do quarto. Eleanor e Theodora foram escolhidas devido a outrora terem contactado com fenómenos ligados ao oculto, com a primeira a supostamente ter sido alvo de um ataque protagonizado por um poltergeist. Eleanor é a personagem em maior destaque, uma figura feminina cujos desequilíbrios emocionais são latentes e desenvolvidos ao longo da narrativa, com Julie Harris a explorar a faceta instável desta mulher. A instabilidade de Eleanor e a sua baixa auto-estima conduzem a que se deixe afectar pela casa, embora, em alguns momentos, nos questionemos se é a habitação que influi sobre esta mulher ou se é a personagem interpretada por Julie Harris que se deixa influenciar pelos episódios em redor da mansão. Parece notório que existe algo a conspurcar esta habitação espaçosa que gradualmente ganha características claustrofóbicas e mexe com o quotidiano dos protagonistas, embora Eleanor seja aquela que mais parece acusar "o toque", algo que promete ter consequências trágicas para esta personagem. Com uma atenção notória aos cenários interiores e uma exploração exímia dos mesmos, "The Haunting" transporta-nos para o interior de uma casa assombrada onde um grupo se depara com situações que vão colocar os nervos em franja a diversos dos seus integrantes, enquanto somos envolvidos para o interior desta história que não nos consegue deixar indiferentes, muito marcada por algum mistério, terror e um trabalho sublime de Robert Wise na realização.

Título original: "The Haunting".
Título em Portugal: "A Casa Maldita".
Realizador: Robert Wise.
Argumento: Nelson Gidding.
Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn.

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