03 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Departed" (2006)

 "The Departed" marca o regresso de Martin Scorsese ao mundo do crime organizado com a violência visceral, sentido de ritmo e profundidade na construção dos personagens a que já nos habituou. O filme marca mais um remake de sucesso de Scorsese, depois de ter efectuado a sua versão de "Cape Fear". No caso, Martin Scorsese decidiu, com enorme sucesso, efectuar um remake do já por si bastante recomendável "Infernal Affairs", um filme de Hong Kong realizado por Andrew Lau e Alan Mak, adaptando as temáticas ao território de Boston e à cultura americana ao mesmo tempo que atribui o seu toque pessoal numa obra cinematográfica que conta com diversos elementos do filme original. Não faltam os mind games entre os elementos infiltrados, a forma como o tempo que passam em cada um dos lados opostos da barricada afecta os seus comportamentos, a relação próxima que formam com os seus líderes, apesar de Martin Scorsese conseguir criar algo de distinto que permite a ambos os filmes destacarem-se pelos seus próprios méritos. Martin Scorsese volta ainda a povoar o enredo de um conjunto de personagens secundários de relevo que conseguem dar uma maior consistência ao enredo que envolve a dupla de protagonistas, algo que efectuou com enorme sucesso em filmes como "Mean Streets", "Goodfellas", "Casino", entre outros, permitindo a vários elementos do elenco sobressaírem, algo que se deve também ao argumento coeso de William Monahan. A dupla de protagonistas é formada por Colin Sullivan (Matt Damon) e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), dois elementos que apresentam funções distintas no interior do departamento da polícia Estadual de Massachusetts. Logo nas cenas iniciais é exposto que Colin, desde a infância, é um protegido de Frank Costello (Jack Nicholson), um chefe do crime de ascendência irlandesa que conta com uma vasta rede de influência. Costello (inspirado livremente no criminoso Whitey Bulger) contrata os serviços de Sullivan para que este se infiltre no interior da polícia e assim sirva de informador da máfia, com a ascensão súbita do personagem interpretado por Matt Damon a servir os seus propósitos na perfeição. Os dois estabelecem uma relação quase de pai e filho, embora Sullivan comece a perceber gradualmente que não é assim tão fácil quanto isso conciliar as suas actividades criminosas com a de membro em ascensão no mundo da polícia, integrando uma Unidade Especial de Investigação liderada pelo capitão George Ellerby (Alec Baldwin). Este local onde Sullivan se encontra integrado actua em articulação com o FBI e uma unidade secreta da polícia liderada pelo capitão Oliver Charles Queenan (Martin Sheen) e o seu braço direito, o sargento Sean Dignam (Mark Wahlberg), com estes dois a dirigirem os elementos que se encontram infiltrados secretamente no seio da máfia. Estes dois representantes das autoridades contratam Billy Costigan, um elemento com um conjunto de familiares ligados a actos nem sempre recomendáveis, algo que parece torná-lo a escolha ideal para se infiltrar na máfia, uma situação que os conduz a incitarem o protagonista a deixar a academia de polícias de forma a poder servir a unidade de outra forma. Queenan apresenta quase sempre uma postura ponderada, até algo paternalista para com Billy, enquanto Dignam é o protótipo do "polícia mau", um elemento sem problemas em distribuir palavrões e insultar tudo e todos. Esta personalidade de Dignam leva-o a várias fricções com Billy, bem como com outros agentes, embora o personagem interpretado por Leonardo DiCaprio aceite ser preso e fingir que foi expulso da academia da polícia de forma a procurar infiltrar-se no interior do gang de Frank Costello. Inicialmente parecia algo impensável, mas aos poucos Billy ganha a confiança do mafioso, um indivíduo que confia em poucas pessoas, com excepção de Arnold "Frenchy" French (Ray Winstone) e Sullivan. Costello é um personagem que ganha outra dimensão com a interpretação de Jack Nicholson, com o actor a ser capaz de expor o quão intimidatório pode ser este gangster, mas também o seu estranho humor negro, violência e imprevisibilidade. Não é um tipo que se deixe amedrontar por ameaças, nem parece ter acalmado muito com a idade, criando em sua volta uma rede de influências que vai desde o mundo do crime até às autoridades e agências de segurança como o FBI, apresentando um gostinho especial por gozar com a Igreja e os padres.

 Frank Costello varia entre o psicopata violento, pronto a satisfazer-se sexualmente com as mulheres que se submetem ao seu poder financeiro, embora não tenha um único herdeiro, e uma faceta quase paternalista em relação aos seus protegidos, algo que provavelmente encontra-se inerente ao facto de não ter rebentos. Tem em Sullivan alguém que aparentemente encara quase como um filho, um elemento que se encontra infiltrado na polícia a seu mando, apesar de aos poucos estabelecer uma estranha relação com Billy. Por vezes faz-nos recordar o relacionamento complexo entre Bill Cutting (Daniel Day-Lewis) e Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio), com o segundo a procurar eliminar o primeiro, o assassino do seu pai, embora estabeleça uma relação de confiança com o mesmo, em "Gangs of New York". No caso, de "The Departed" parece quase sempre claro que Billy não convive bem com o mundo do crime, ou não fosse um dos vários personagens dos filmes de Martin Scorsese que procura a redenção, neste caso, do nome da família, com Leonardo DiCaprio a ser capaz de exteriorizar o desespero gradual em que se encontra o personagem que interpreta. A missão que lhe é pedida é penosa, com este a ser obrigado a infiltrar-se num perigoso grupo mafioso, tendo em vista a construir um caso com bases sólidas que permitam prender Costello e o seu gang. Primeiro tem de mostrar ser merecedor da confiança do gangster, algo que vai ser inicialmente doloroso, ficando particularmente na memória a cena em que Costello se encontra a dar sapatadas na mão partida de Billy para perceber se este deixou ou não a polícia e se vai largar de vez os negócios de tráfico de droga com o primo. Este é um personagem que é sempre questionado. Na polícia questionam o porquê de alguém financeiramente abonado querer integrar as forças policiais. Na máfia questionam se ainda está ligado às autoridades apesar das notícias da sua expulsão. Desconfia-se, acertadamente, que Costello possui vinte microprocessadores roubados da Mass Processor, pretendendo vender os mesmos aos chineses. A polícia procura interromper a operação, enquanto os mafiosos procuram concluir a mesma com sucesso. Aos poucos, quer a polícia, quer Costello, percebem que contam com membros infiltrados no seu interior. Sullivan procura saber quem está infiltrado no gang. Billy procura descobrir quem se encontra infiltrado na polícia. Ambos sabem da existência um do outro mas desconhecem por completo as identidades das figuras que procuram. O perigo passa a ser ainda maior para ambos os elementos, embora gradualmente pareça ser Sullivan quem mais tem a perder. Este atinge estatuto no interior da polícia, inicia uma relação com Madolyn Madden (Vera Farmiga), a psicóloga do local onde trabalha, compra uma casa espaçosa e luxuosa, começando aos poucos a colocar em causa os benefícios da sua relação com Frank Costello. Este é um dos elementos que sobressaem em "The Departed": a incerteza dos dois protagonistas em relação aos próximos actos a cometer. Um pode deitar a perder tudo o que conquistou. O outro pode perder a sua vida. Curiosamente, ambos acabam por se envolver com Madden, com esta a ser a psicóloga de Billy. Ambos iniciam uma relação marcada por enorme erosão, com Billy inicialmente a pretender apenas que esta lhe receite calmantes, contrastando com os comportamentos simpáticos de Sullivan. A diferença é que Billy é maioritariamente genuíno para com esta, enquanto Sullivan procura esconder a sua vida dupla. Parece certo que mais cedo ou mais tarde estes personagens vão encontrar-se. Ainda chegam a estar bem perto disso quando Billy espia Costello e Sullivan (sem conseguir ver o rosto deste) reunidos numa sessão de um cinema que exibe filmes pornográficos que é propriedade do personagem interpretado por Jack Nicholson (a sala de cinema a ter mais uma vez um papel relevante nos filmes de Scorsese, tal como tivera em "Mean Streets" e "Taxi Driver", com o cineasta a utilizar este "local de culto" para reunir os seus personagens em momentos de maior aflição, solidão ou possível intimidade). Não consegue capturar Sullivan, mas assistimos a uma maior escalada de violência que resulta na morte de um elemento relevante para Billy, nomeadamente Queenan. Se Costello surge como uma figura violenta e imprevisível, já Queenan é um elemento ponderado que procura a todo o custo conseguir ajudar o protagonista na sua missão, embora também não o retire da mesma apesar de saber das dificuldades do foro psicológico pelas quais este passa.

 Queenan e Dignam são os dois únicos elementos a saberem a verdadeira identidade e missão de Billy, procurando esconder estas questões de tudo e todos, incluindo de Sullivan quando este assume uma postura mais questionadora em relação ao elemento infiltrado na máfia. Se estes morrerem, Billy ficará em maus lençóis, com tudo e todos a pensarem que este é um gangster, mas a maior preocupação deste será a certa altura manter a sua vida, descobrir a verdade sobre o elemento infiltrado na polícia e procurar fazer justiça. A escalada de violência aumenta e mais uma vez Martin Scorsese não nos poupa a algumas cenas marcadas por enorme intensidade e visceralidade, incutindo um sentido de ritmo que caracteriza várias das suas obras. As ruas de Boston facilmente se transformam num cenário onde as autoridades e criminosos procuram estar à frente uns dos outros, com a noite a ser muitas das vezes o palco ideal para certas negociatas. É impossível ficar indiferente à violência que permeia o quotidiano destes personagens, com Sullivan e Billy a surgirem muitas das vezes como peões e trunfos de ambos os lados da barricada, tendo muito a dizer em quem sairá vencedor de um jogo onde o mais perspicaz conseguirá sair por cima e o mínimo erro trará consigo a morte. Matt Damon tem em Sullivan um personagem que a espaços nos faz recordar o protagonista de "The Talented Mr. Ripley", engenhoso na arte da mentira e do engano, um elemento nem sempre decifrável do ponto de vista das ideias. No entanto, aos poucos Sullivan começa a revelar dúvidas e a cometer erros, com "The Departed" a exibir como o meio no qual se inserem pode influenciar o comportamento dos seres humanos. Scorsese já tinha abordado esta temática em obras como "Goodfellas", "Raging Bull" e até "The Age of Innocence", algo que repete em "The Departed", tal como a influência dos elementos secundários. Veja-se o destaque que tem Martin Sheen como este sargento da polícia aparente calmo, bem como Mark Wahlberg como um elemento que facilmente fervilha e gosta de provocar os outros, já para não falar de Vera Farmiga, como uma psicóloga que tem um enorme relevo para a dupla de protagonistas. É com esta que Sullivan procura viver, mas também é com Madolyn que Billy exibe algumas das suas fragilidades. Cria-se em volta destes personagens uma espécie de triângulo amoroso, no qual as mentiras surgem presentes até neste plano. O estilo de vida de Billy e Sullivan não parece destinado a grandes momentos de felicidade, com Martin Scorsese a manter diversos elementos do filme original no confronto entre estes dois personagens. Veja-se a célebre cena ao telemóvel onde ficam a escutar a respiração um do outro a ver quem fala primeiro e revela a identidade, pontuada por enorme tensão, mas também a própria morte do mentor do personagem interpretado por Leonardo DiCaprio. A morte surge associada muitas das vezes a símbolos imagéticos que remetem para uma cruz, naquela que foi uma clara homenagem de Martin Scorsese a "Scarface" de Howard Hawks, com o cineasta a revelar mais uma vez a sua cinefilia nestes "pequenos" pormenores (veja-se as janelas na queda de Queenan do prédio). Temos ainda elementos ligados a outras obras de Scorsese, tais como o sentimento de culpa dos personagens (quer de Sullivan, quer de Billy, quer de Queenan), os dilemas morais do protagonista, a fluidez nos movimentos de câmara, a utilização da banda sonora de forma sublime ("I'm Shipping up to Boston" fica durante muito tempo na memória), entre outros elementos. "The Departed" viria ainda a finalmente dar o lugar de destaque que Martin Scorsese merece nos Oscars. Provavelmente nem é o seu melhor filme mas também é difícil dizer qual terá sido a sua melhor fita numa carreira marcada por algumas obras cinematográficas magníficas. Eu próprio já dei por mim a tentar fazer este exercício. Já coloquei "Raging Bull" no topo, já coloquei "Taxi Driver", hoje não teria dúvidas em salientar "The Age of Innocence". Nesse sentido, um dos vários méritos de "The Departed" é confirmar que na sua vigésima longa-metragem de ficção Martin Scorsese continua a manter a sua vitalidade como cineasta, apresentando o enredo num ritmo fulgurante e intenso, ao mesmo tempo que dá espaço aos seus actores para se destacarem pela positiva e criarem personagens que claramente elevam o argumento de William Monahan.

Título original: "The Departed".
Título em Portugal: "The Departed - Entre Inimigos".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: William Monahan.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winston, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin.

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