16 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Darjeeling Limited" (2007)

 Num misto de melancolia, humor e depressão, "The Darjeeling Limited" transporta-nos para o interior de uma viagem espiritual desenvolvida por três irmãos que já não se viam há um ano, a data em que se realizara o funeral do progenitor do trio. Estes irmãos são Peter Whitman (Adrien Brody), Francis (Owen Wilson) e Jack (Jason Schwartzman), três elementos que não parecem ter ultrapassado totalmente os traumas provocados pela morte do progenitor, procurando restabelecer os laços familiares que se quebraram com o passar do tempo. No início do filme, encontramos Peter a correr em direcção ao comboio do título, conseguindo apanhar o mesmo a tempo, ao contrário de um homem de negócios (Bill Murray) que não foi lesto o suficiente para entrar no meio de transporte. É no interior de uma divisórias do comboio que Peter se reúne com Francis e Jack, com os três irmãos a deixarem bem salientes as suas especificidades, peculiaridades e alguns problemas entre ambos, entre os quais a falta de confiança. Ambos partilham uma enorme melancolia e pessimismo que parecem ser fruto da educação que tiveram, algo bem evidente na figura de Peter, com este a ter a mulher grávida de sete meses embora não esperasse que o casamento durasse até este ponto. De óculos escuros que pertenciam ao pai, mesmo que a graduação não coincida com a sua, Peter procura encarar com um espírito aberto esta viagem embora não tenha muita paciência para a personalidade controladora e picuinhas de Francis. Owen Wilson interpreta quase o estereótipo dos personagens a quem dá vida nas obras de Wes Anderson, com Francis a surgir como um tipo meio peculiar, meio depressivo, por vezes desagradável, a espaços cordial e sensível, que sofreu recentemente um acidente de viação que praticamente levou ao findar sua existência, algo que o conduziu a repensar a sua vida e organizar esta viagem. Os cortes provocados pelo acidente ainda estão por sarar, algo visível nas faixas presentes no rosto de Francis, enquanto a viagem surge como um meio para estes três irmãos procurarem cicatrizar algumas feridas que continuam em aberto nas suas almas. Se Francis e Peter parecem pessimistas e algo deprimidos, vale a pena realçar que Jack não se fica atrás dos seus irmãos. Com um bigode que procura aparar sempre com enorme cuidado, este é um escritor que passa parte do tempo livre a ouvir a caixa de mensagens da sua ex-namorada, encontrando-se a planear sair mais cedo desta jornada tendo em vista a reunir-se com a antiga cara metade em Itália, algo que apenas revelou ao personagem interpretado por Adrien Brody. Diga-se que Jack não é o único com segredos. Peter esconde de Francis que a esposa está grávida, até Jack revelar esta situação, enquanto o segundo omite inicialmente que a viagem se destina a reencontrarem Patricia (Anjelica Huston), a mãe de ambos, prevendo que os personagens interpretados por Adrien Brody e Jason Schwartzman provavelmente não aceitariam embarcar nesta jornada se soubessem a verdade. No comboio, estes deparam-se com figuras como Rita (Amara Karan), uma das camareiras do Darjeeling Limited, responsável por levar o chá aos passageiros, bem como o chefe (Waris Ahluwalia) desta, um indivíduo algo carrancudo, de barba bastante comprida, que não tem problemas em obrigar os irmãos a pararem de fumar na cabine onde se encontram instalados. Já Rita é bem mais amigável, simpática e disponível, que o diga Jack que vai ter um caso esporádico com esta, com ambos a envolverem-se num rápido momento sexual. No entanto, o centro da narrativa está na jornada e no relacionamento destes três irmãos, com Owen Wilson, Jason Schwartzman e Adrien Brody a terem oportunidades de sobressair como este trio de personagens típicos dos filmes de Wes Anderson, com o cineasta a transportar o seu estilo muito próprio para a Índia.

 A própria banda sonora de "The Darjeeling Limited" mescla os tons exóticos associados ao local com elementos tão típicos do realizador, com parte das canções ligadas ao território a terem sido inspiradas nos filmes de Satyajit Ray, algo salientado por Wes Anderson em entrevista ao Huffington Post: "The music comes from Satyajit Ray's movies. Indeed, Ray's movies are what made me want to go to India in the first place--as did Jean Renoir's movie "The River". Ray wrote the music for his own films. We also used music from Merchant Ivory". A música tem um papel fulcral para a atmosfera algo melancólica e nostálgica desta obra cinematográfica, com "The Darjeeling Limited" a colocar-nos diante de três irmãos que procuram conhecer um território distinto e reconstruirem laços que pareciam desfeitos, ao mesmo tempo que tentam ultrapassar uma morte que marcou as suas vidas de forma indelével. Boa parte do filme tem como pano de fundo o comboio, marcado por tonalidades azuis e castanhas, pelo menos até os personagens serem expulsos, com Wes Anderson a colocar Jack, Francis e Peter por cenários distintos que servem sobretudo para o cineasta explorar a interacção dos irmãos com o local e como aos poucos este parece afectar os mesmos. Diga-se que o território é imenso, recheado de cor e vida, mas Wes Anderson procura concentrar quase tudo neste micro-cosmos criado em volta do trio de protagonistas. Estes são essenciais para o enredo, expondo características muito próprias associadas ao estilo de Wes Anderson, com o cineasta, em colaboração com Roman Coppola e Jason Schwartzman a criar um argumento recheado de falas sublimes que permitem incrementar as dinâmicas peculiares entre os protagonistas, com o trio a partilhar muitas das depressões e da melancolia que envolvem os personagens que integram as obras do realizador. Uma das paragens efectuadas pelo comboio permite uma saída dos irmãos em conjunto, com estes a visitarem o templo e o mercado local, enquanto Wes Anderson aproveita para expor como estes reagem em contacto com o território, fora do espaço fechado do meio de transporte, não faltando episódios como Peter a adquirir uma cobra venenosa que vai causar um enorme burburinho quando escapa no interior do Darjeeling Limited, ou Francis a ver um engraxador a roubar o seu sapato. Estes acabam por ser expulsos do comboio, após o episódio da fuga da cobra e de uma forte discussão entre ambos, indo ainda visitar uma aldeia no seguimento de não terem conseguido salvar uma criança que morreu afogada, tendo de lidar com um funeral que lhes traz à memória episódios do passado, até reencontrarem a mãe num templo. O funeral permite a Wes Anderson explorar alguns rituais locais, enquanto o flashback expõe de forma muito própria o episódio de como o trio lidou com os momentos que antecederam o funeral do pai. O reencontro com a mãe não promete trazer grandes respostas aos irmãos, ou melhor, acaba por exprimir o quão desconjuntada é a família da qual fazem parte, com Wes Anderson a procurar aproveitar para desenvolver as dinâmicas do grupo, numa história que tanto tem do cineasta, quer no estilo, quer na substância. Não faltam temáticas como as relações familiares complicadas, o sentimento de perda, as desilusões e expectativas goradas em relação à vida, numa obra onde existe um cuidado notório a nível da composição dos planos, no design dos cenários, no aproveitamento da paleta cromática (as tonalidades azuis sobressaem imenso), na atenção a pequenos detalhes que dizem muito sobre os personagens.

O tom do filme é típico das obras cinematográficas de Wes Anderson, com este a mesclar os momentos de algum humor com a melancolia e depressão. O humor acaba por surgir muitas das vezes das situações onde as nossas expectativas são desafiadas, algo notório em momentos onde o absurdo toma conta do ecrã. Veja-se desde logo a utilização dos óculos de sol do pai, mesmo que a graduação seja distinta da sua, por parte de Peter, ou a procura de Francis para que não sejam indelicados para com o seu assistente devido ao facto deste padecer de alopécia, mas o personagem interpretado por Owen Wilson acaba exactamente por ser o primeiro a mencionar a situação, ou o pouco entusiasmo na face da mãe dos protagonistas quando os reencontra em pleno território indiano. Esta é uma Índia que ganha características muito próprias através do olhar de Wes Anderson, com este a reciclar com sucesso elementos que já víramos em várias das suas obras, recorrendo mais uma vez a alguns colaboradores habituais, tais como Owen Wilson, Anjelica Huston e Bill Murray (ainda que numa espécie de participação especial). A dinâmica entre o trio de protagonistas é essencial, com "The Darjeeling Limited" a jogar muitas das suas fichas nestes elementos peculiares, beneficiando de Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman encarnarem com sucesso as personalidades destes indivíduos e terem uma química assinalável. Essa situação é visível desde o primeiro terço da narrativa, quando os encontramos numa mesa do restaurante, durante uma refeição, com Peter a demonstrar o incómodo por Francis tirar um dente sem avisar e seleccionar os pedidos por todos, para além de não gostar da forma como é descrito num episódio de um conto escrito por Jack, enquanto este último procura apresentar o seu novo trabalho, intitulado "Hotel Chevalier" (título da curta que acompanha "The Darjeeling Limited"). Por sua vez, o personagem interpretado por Owen Wilson demonstra o seu desagrado por Peter andar a recolher objectos do pai que deveriam pertencer a todos, ainda que apenas demonstre essa animosidade quando o mesmo sai, algo que exibe bem as divergências entre estes três personagens que vão ter de aprender ou a reaprender a conviver uns com os outros. Temos ainda a habitual atenção de Wes Anderson ao pormenor, seja a nível da elaboração dos planos, seja na decoração dos cenários (veja-se o símbolo "Western style" na porta do WC), seja na banda sonora, seja no aproveitamento da dinâmica entre os seus actores. Embora também perca um pouco o foco, tal como em "The Life Aquatic with Steve Zissou", não deixa de ser notório que Wes Anderson soube controlar alguns dos excessos em relação à sua quarta longa-metragem como realizador, com a decisão de manter "The Darjeeling Limited" com uma duração mais curta a permitir manter o enredo mais enxuto e dinâmico (não quer dizer que um filme de três ou quatro horas não consiga ser dinâmico, Wes Anderson é que caiu em alguns excessos na sua obra anterior), pontuado por alguns momentos de brilhantismo típicos das obras do cineasta. Como salienta de forma certeira Roger Ebert: "It will therefore inspire reviews complaining that it doesn't fly straight as an arrow at its target. But it doesn't have a target, either- Why do we have to be the cops and enforce a narrow range of movie requirements?". Marcado por uma enorme atenção ao pormenor, um misto de melancolia, humor e depressão, "The Darjeeling Limited" surge como uma obra cinematográfica visualmente belíssima onde Wes Anderson transporta muito do seu estilo e das temáticas dos seus filmes para o território da Índia, aproveitando o mesmo com enorme eficácia ao serviço da narrativa.

Título original: "The Darjeeling Limited".
Realizador: Wes Anderson.
Argumento: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman.
Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Irrfan Khan, Barbet Schroeder, Camilla Rutherford, Bill Murray, Anjelica Huston.

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