22 outubro 2015

Resenha Crítica: "Cat People" (1942)

 Primeiro filme de Val Lewton como produtor, "Cat People" coloca-nos entre as lendas populares e o terror, com uma mulher a ver a sua vida atormentada por uma possível maldição que a consome e promete intrometer-se na sua felicidade. Esta mulher é Irena Dubrovna (Simone Simon), uma designer de moda oriunda da Sérvia que conhece Oliver Reed (Kent Smith) no jardim zoológico, um local que esta visita de forma amiúde para observar uma pantera, um animal que desperta o fascínio e o medo da protagonista. Oliver acaba por meter conversa com Irena, com esta a aproveitar a deixa para convidá-lo para tomar chá em sua casa, um local marcado pela presença de uma estatueta do Rei João da Sérvia, um indivíduo que expulsou os Mamelucos do seu território. A estatueta apresenta uma figura felina a ser trespassada, com o objecto a supostamente representar os caminhos diabólicos que o povo de Irena seguira, com esta a acreditar que é uma das descendentes amaldiçoadas que se pode transformar numa criatura semelhante a uma pantera ou a um gato gigante (ligada ao demónio). O momento em que Oliver oferece um gato a Irena e o felino fica alvoraçado perante a presença desta mulher evidencia desde logo que algo de estranho se passa, uma situação que se adensa quando vão trocar o animal de estimação por um pássaro e todos os elementos da loja se alvoraçam. Irena e Oliver ignoram alguns dos sinais pouco positivos e acabam por se casar, embora a relação seja minada quer pelos medos constantes da primeira, quer por uma aproximação do segundo a Alice (Jane Randolph), uma colega de trabalho e amiga do personagem interpretado por Kent Smith, um indivíduo que labora numa empresa de construção naval. O próprio momento no restaurante em que Irena e Oliver comemoram o noivado junto dos amigos já exibe que o pior está para acontecer, bem como a capacidade de Jacques Tourneur, o realizador, em explorar o medo a partir de pequenos episódios, com uma mulher soturna a dirigir-se junto da primeira, proferindo a expressão "moya sestra" (irmã), algo que remete para uma possível faceta da protagonista que se encontra ligada ao mal. Irena ainda consulta um psiquiatra chamado Louis Judd (Tom Conway), embora este não consiga travar os medos da personagem interpretada por Simone Simon, uma mulher que teme transformar-se num felino semelhante a uma pantera se for beijada pelo esposo. Existe aqui alguma repressão sexual por parte de Irena (um tema comum a diversos filmes de terror), uma mulher incapaz de se entregar totalmente ao esposo, embora não deixe de apresentar ciúmes em relação à aproximação entre Alice e Oliver. Se Irena suscita imensas duvidas em relação à sua pessoa, já Alice parece contar com uma química quase perfeita com o protagonista, ao longo desta obra marcada pelo mistério e terror onde a felicidade nem sempre dura muito tempo. Os receios de Irena e a possibilidade desta se poder transformar numa pantera prometam trazer ingredientes de sobra para arrasar com a normalidade que rodeava o quotidiano de figuras como Alice e Oliver. Seria praticamente impossível que a normalidade fizesse parte do quotidiano destes personagens, sobretudo quando uma possível maldição afecta Irena, com esta mulher a exibir alguma instabilidade emocional e um receio latente das lendas que envolvem o seu povo.

Jacques Tourneur exibe uma enorme competência a explorar o mistério em volta das lendas que rodeiam os antepassados de Irena, gerindo as dúvidas despertadas por esta mulher, ao mesmo tempo que é criada uma tensão gradual em volta desta personagem. A cena em que Irena observa Alice na piscina é paradigmática da capacidade de Tourneur em criar alguma tensão e terror junto do espectador e dos personagens. Os sons semelhantes a uma pantera são ouvidos, Alice começa a temer o pior, até aparecer Irena e, aparentemente, nenhum ser maligno se encontrar no local, apesar do roupão da personagem interpretada por Jane Randolph ter sido desfeito. O som é importante para este efeito, mas também a iluminação, com Jacques Tourneur e Val Lewton a criarem um "ambiente" marcado pela superstição e o medo, pronto a inquietar e intrigar gradualmente o espectador. Jacques Tourneur conseguiu fazer muito com os poucos recursos colocados à sua disposição, algo que é paradigmaticamente visível nos inquietantes momentos finais, com o cineasta a contar com um orçamento reduzido que aproveita de forma exímia (indo ao ponto de utilizar cenários de outras obras cinematográficas, incluindo de "The Magnificent Ambersons") e um argumento que não compromete. As dúvidas em relação à possibilidade de Irena ser ou não uma mulher amaldiçoada apenas são dissipadas nos momentos finais, algo que se revela acertado, com "Cat People" a procurar jogar com os medos dos personagens, transformando-os nos nossos receios, com a realização engenhosa de Jacques Tourneur a compelir-nos a seguir o enredo sem questionarmos em demasia as improbabilidades que pontuam o mesmo. Apesar do elenco ser relativamente competente a contribuir para a credibilidade do enredo, quem mais sobressai ao longo do filme é Simone Simon, com esta a explorar o mistério inerente à figura de Irena. Aparenta fragilidade e tormenta, bem como alguma malícia, despertando a atenção de Oliver mas também o seu afastamento, enquanto nos deixa na dúvida se terá ensandecido ou será mesmo um demónio. Esta é uma mulher que reprime a sua sexualidade, uma situação que se encontra relacionada com o medo que tem da maldição, para além de contar com uns quantos traumas que remetem para a sua juventude, algo que gradualmente destrói a relação com Oliver e coloca a protagonista diante de um enorme berbicacho. O ciúme surge como outro dos factores que podem contribuir para a transformação, existindo o receio que Irena assuma a forma de uma pantera demoníaca, pronta a eliminar as suas presas. Já Kent Smith limita-se a cumprir os serviços mínimos como Oliver, um indivíduo que decide avançar para um casamento que tem tudo para correr mal, onde o calor humano é coartado por uma possível maldição que, a confirmar-se, poderá colocar a sua vida em perigo. Outro dos elementos masculinos que se deixa seduzir pela figura da protagonista é Louis Judd, procurando compelir Irena a beijá-lo para descobrir se esta se transforma ou não numa figura semelhante a um pantera.

Será que a maldição existe? São vários os sinais deixados ao longo do filme que indicam essa possibilidade, com Jacques Tourneur a saber agarrar a narrativa, gerindo eficazmente os receios dos espectadores e dos personagens, ao mesmo tempo que consegue maximizar de forma assinalável os recursos à sua disposição. "Cat People" marca ainda a primeira de várias colaborações entre o produtor Val Lewton e Tourneur, com o sucesso desta obra cinematográfica a permitir que o produtor contasse com maior liberdade no interior do estúdio. Com um orçamento de 134 mil dólares, "Cat People" arrecadou quase 4 milhões de dólares em receitas de bilheteira, valores bastante elevados que exibem paradigmaticamente o enorme apelo gerado pelo filme, algo que permitiu em parte salvar a RKO de um desastre financeiro. Esta obra marcaria ainda a primeira colaboração entre Jacques Tourneur e o director de fotografia Nicholas Musuraca, com quem trabalharia no magnífico "Out of the Past", com a cinematografia a ter um papel de relevo em "Cat People", algo que fica latente no aproveitamento sublime das sombras, para além de uma inspirada utilização do nevoeiro para adensar algumas cenas de maior tensão, em particular nos momentos finais do filme. É também em "Cat People" que encontramos pela primeira vez a célebre técnica "Lewton Bus", nomeadamente, quando Alice caminha sozinha pela noite, enquanto observa, com receio, os espaços que a circundam, gerando-se a expectativa que uma pantera pode aparecer a qualquer momento, embora quem surja seja um autocarro cujo som que emite é semelhante ao rugido do animal, com "Cat People" a jogar com as nossas expectativas e receios. Não existem sustos intensos, com Jacques Tourneur a aplicar algo associado ao estilo do seu produtor, preferindo muitas das vezes jogar com o receio do espectador em relação àquilo que não consegue visualizar, criando uma atmosfera opressora, marcada pelas dúvidas, que funciona de forma exímia ao longo deste recomendável filme de terror. O medo é criado de forma gradual, incrementado pelo trabalho de câmara e som, mas também pelas situações inerentes aos relacionamentos entre os personagens, com Jacques Tourneur e Val Lewton a saberem jogar com o baixo orçamento de "Cat People" para despertaram o receio a partir daquilo que o espectador não pode ver, nem a dupla tinha dinheiro para exibir de forma credível. A espaços inquietante e intrigante, "Cat People" consegue mesclar com sucesso algum terror e mistério, contando com uma história capaz de prender a nossa atenção, ao mesmo tempo que exibe a perícia de Val Lewton para este tipo de produções de baixo orçamento, com o produtor a contar com a preciosa colaboração de Jacques Tourneur.

Título original: "Cat People".
Título em Portugal: "A Pantera".
Realizador: Jacques Tourneur.
Argumento: DeWitt Bodeen.
Elenco: Simone Simon, Kent Smith, Tom Conway, Jane Randolph.

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