04 outubro 2015

Resenha Crítica: "Black Mass" (2015)

 Inspirado na história verídica de James "Whitey" Bulger e nos episódios que conduziram à sua ascensão e queda no mundo do crime organizado na cidade de Boston, "Black Mass" surge como mais um exemplar de boa cepa dos filmes de gangsters oriundos dos EUA. Veja-se nos anos 30 e início dos anos 40 (poderíamos recuar ainda mais), um período no qual este subgénero quase que se tornou moda, com actores como James Cagney, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, entre outros a interpretarem criminosos que deixaram marca. Podemos passar para tempos mais próximos dos dias de hoje, com Martin Scorsese a marcar-nos de forma indelével com a realização de películas como "Mean Streets", "Goodfellas", "Casino", "The Departed" e até "Gangs of New York", com "Black Mass" a parecer tirar uma clara inspiração deste cineasta. Não tem o ritmo imparável das obras de Martin Scorsese, nem a montagem de Thelma Schoonmaker (não esteve presente em "Mean Streets") que contribui para essa dinâmica, tal como não tem a mesma visceralidade, nem a narração em off consegue alcançar a mesma pertinência embora também traga alguma informação relevante. É notória a procura de "Black Mass" em colocar-nos diante de um conjunto alargado de personagens que se movem por valores muito próprios (embora o foco seja quase sempre o personagem interpretado por Depp), de situações violentas e diálogos recheados de vernáculo impróprio para crianças, humor em momentos inusitados (quando encontramos Whitey a jogar amenamente às cartas com a sua mãe, numa situação pontuada pelo humor e leveza, a espaços remete-nos para o momento em que os personagens interpretados por Joe Pesci, Robert De Niro e Ray Liotta dirigiram-se a casa da progenitora do primeiro em "Goodfellas" para irem buscar uma pá para fins pouco recomendáveis e acabam por ficar a jantar) ou mais negros (veja-se quando temos inicialmente Whitey a ter um diálogo sério até logo de seguida dizer que está a brincar, remetendo para uma situação semelhante entre os personagens interpretados por Joe Pesci e Ray Liotta em "Goodfellas"). Não é apenas para "Goodfellas" que "Black Mass" remete. Poderíamos sair de Scorsese e entrar em obras de tempos mais recuados como "The Public Enemy" e "The Roaring Twenties" onde assistimos James Cagney a interpretar em ambos os filmes um gangster que ascende até conhecermos a sua queda, ou até voltar ao primeiro e a "The Departed". A relação de John Connolly (Joel Edgerton), um agente do FBI, com o protagonista remete para alguns dos dilemas morais de "The Departed" (e para "The Infernal Affairs", a obra na qual "The Departed" se inspirou) onde a ténue linha entre criminosos e agentes das autoridades se esbatia em alguns momentos (com "The Departed" a também ter como pano de fundo a cidade de Boston e o personagem interpretado por Jack Nicholson a ter sido inspirado livremente em Bulger). Diga-se que "Black Mass" remete-nos ainda para um certo fascínio que estas histórias sobre a ascensão e queda dos gangsters geram junto dos espectadores, com o filme realizado por Scott Cooper a abordar não só essa temática, mas também as alianças formadas entre estes elementos, as traições, os crimes violentos, os valores muito próprios pelos quais se regem, entre outras situações, com a cidade de Boston a surgir como pano de fundo desta obra cinematográfica onde Johnny Depp volta aos grandes momentos na interpretação, provando mais uma vez que quando quer é um dos grandes actores da sua geração.

 É um regresso de Johnny Depp aos papéis de criminoso ou a filmes que envolvem o crime organizado depois de obras como "Donnie Brasco", "Blow", "Public Enemies", com o actor a tanto surgir com um olhar cortante e ameaçador, a ponto de introduzir uma enorme imprevisibilidade a James Bulger, como logo se apresta a incutir alguma sensibilidade quando este fica diante do filho (embora os conselhos que dá ao mesmo não sejam sempre os melhores) ou entra em pranto quando o jovem se encontra à beira da morte, ou conta com uma certa afabilidade quando está a conviver com a mãe. Com uma maquilhagem demasiado saliente para aproximá-lo do visual de Whitey Bulger (para além das lentes de contacto), uma voz que a espaços é capaz de nos causar calafrios, Johnny Depp incute um carisma e aura ao personagem que interpreta que o elevam para além da caricatura, com este a surgir como um homem ligado à família, com fortes valores de lealdade, incapaz de aceitar traições, que regularmente nos deixa na dúvida quando está a falar a sério ou a brincar, apresentando uma ambição latente. Esta também é uma história da luta pelo poder e influência, algo que explica o facto de James Bulger aceitar ser informante, ou como este prefere denominar, formar uma parceria de negócios com o FBI através da figura de John Connolly, um ambicioso agente que pretende derrubar os irmãos Angiulo, ou estes não fossem figuras influentes de um grupo de origens italianas ligado à máfia que se encontra a operar sobretudo no Norte de Boston. Esta parceria é vista como positiva para ambas as partes, com Bulger a colocar o FBI a lutar contra os seus adversários, ao mesmo tempo que se protege de um inimigo que o pretende eliminar e coloca em perigo a sua família, enquanto Connolly está convencido que o personagem interpretado por Johnny Depp lhe vai dar informação relevante para atingir os seus desideratos, a ponto de convencer, ainda que com algum esforço, os seus colegas e superiores a aceitarem o gangster como informante, com a condição deste não eliminar ninguém. Joel Edgerton é outro dos elementos do elenco em destaque, com este a interpretar um indivíduo que foi amigo de infância de James e do irmão deste, William Bulger (Benedict Cumberbatch), mantendo uma enorme gratidão devido ao facto do gangster outrora o ter defendido. A confiança que John tem em James é quase cega, com o argumento a explorar as relações de lealdade entre estes indivíduos de Boston, pontuadas por valores muito próprios, com o personagem interpretado por Joel Edgerton a acabar muitas das vezes por deixar de lado o cumprimento da lei e das regras, surgindo regularmente mais como um gangster do que aquilo que esperamos encontrar num agente do FBI. John forma uma relação de amizade com os irmãos Bulger, a ponto de chegar a conviver com os mesmos, deixando de lado uma faceta mais profissional, uma situação que gradualmente afecta não só a vida laboral mas também o matrimónio com Marianne (Julianne Nicholson), com esta última situação a raramente ser devidamente aproveitada, com excepção de um momento onde esta se recusa a ir para a mesa num jantar de convívio, com Johnny Depp a sobressair ao colocar-nos na dúvida sobre o que pretende fazer a esta mulher. O argumento raramente explora as relações entre as figuras femininas e masculinas, com as actrizes que povoam o elenco do filme a terem pouco espaço para sobressair, que o digam Dakota Johnson, Julianne Nicholson e Juno Temple. Dakota Johnson interpreta Lindsey Cyr, a mãe do filho de James Bulger, uma mulher de personalidade algo apagada, que desaparece praticamente da narrativa a partir da morte do rebento de ambos. No entanto, é em parte para proteger esta e o filho que James aceita o acordo com John, protagonizando um ou outro momento com o rebento onde Depp consegue explorar as diferentes facetas deste indivíduo. Já Juno Temple pouco espaço tem para sobressair, interpretando uma prostituta que é alvo da violência do protagonista, surgindo sobretudo como um exemplo de como este teme que alguém revele informação sobre a sua pessoa ou o traia. Os jogos de poder e ambição não se resumem ao interior da máfia e do FBI, ou William Bulger não aparecesse como um poderoso senador de Boston que procura muitas das vezes encobrir o irmão e evitar que os feitos deste contaminem a sua credibilidade e carreira como político. Benedict Cumberbatch é outro dos elementos do elenco que se destacam pela positiva, com este a interpretar eficazmente um indivíduo aparentemente mais controlado do que o irmão, enquanto o actor, tal como a maioria dos elementos do elenco, procura fazer o melhor sotaque de Boston que pode.

 A aliança com o FBI é encarada por Bulger como algo essencial, embora o mesmo esconda a situação da maioria dos seus homens, com o argumento a explorar como esta beneficiou a ascensão deste gangster no mundo do crime, passando de pequeno criminoso a um indivíduo conhecido por crimes como tráfico de droga, extorsão, assassinato, com muito a ficar encoberto por John e o FBI, pelo menos até Fred Wyshak (Corey Stoll) entrar como promotor do Ministério Público. Diga-se que John vai ter alguns problemas no FBI, sobretudo com Charles McGuire (Kevin Bacon) e Robert Fitzpatrick (Adam Scott), com parte do enredo do filme a ter como pano de fundo os escritórios desta instituição. O gabinete de John é pontuado por um conjunto de persianas que quase transmitem a sensação de uma prisão, que tanto podem remeter para o seu futuro, se continuar a seguir esta conduta a lidar de forma aberta e confiante com Bulger, como o aprisionamento deste homem aos laços que criou no passado. Tal como Bulger, também John é um indivíduo que preza os valores de lealdade (à luz do sentido muito próprio com que estes personagens encaram este termo), contando com uma enorme ambição e ligação ao passado, apresentando uma conduta e modos de agir que não o distinguem assim tanto dos criminosos. Como é salientado durante o filme, John e James cresceram a brincar aos polícias e aos ladrões, algo que agora encarnam na idade adulta, com o primeiro a surgir como um criminoso que lidera o Winter Hill Gang, enquanto o segundo aparece como um agente do FBI que procura supostamente defender a lei e a ordem. Se John quer ascender na hierarquia do seu trabalho, já James procura ganhar maior controlo no interior do território, com Johnny Depp a atribuir uma faceta implacável e a espaços calculista a este gangster violento que não tem problemas em eliminar inimigos e aliados se assim considerar necessário. A violência é uma componente relevante de "Black Mass", com esta a tanto ser exposta de forma bem gráfica, com um tipo a poder ser brutalmente espancado, ou um tiro a ser disparado inesperadamente, como pode ser deixada subentendida, com um estrangulamento a desenrolar-se no fora de campo enquanto ficamos diante da frieza de alguns actos do protagonista. É certo que falta a intensidade encontrada nas obras de Martin Scorsese, mas prometo deixar-me de comparações, não sem antes salientar que os comportamentos de John a espaços fazem recordar o personagem interpretado por Matt Damon em "The Departed", um criminoso infiltrado no interior do FBI, ou o indivíduo a quem Joel Edgerton dá vida não parecesse que ainda se encontra nos tempos de juventude. Veja-se a já mencionada refeição em sua casa onde conta com a presença de Whitey, John, Morris (David Harbour – como um colega do personagem interpretado por Joel Edgerton no FBI) e Stephen Flemmi (um dos poucos homens ao serviço de Bulger que sabe do envolvimento do protagonista com o FBI), num momento que exibe paradigmaticamente a promiscuidade entre autoridades e criminosos. Se Johnny Depp, Joel Edgerton e Benedict Cumberbatch conseguem sobressair, bem como Corey Stoll no pouco tempo que tem na narrativa, ao atribuir uma enorme credibilidade a um promotor do ministério público que promete procurar comprovar a todo o custo os crimes de Whitey, já diversas figuras secundárias ficam por explorar. Veja-se o exemplo citado das personagens femininas, mas também o caso do grupo criminoso italiano com ligações à máfia, que raramente é devidamente explorado, ou John Morris, um dos poucos elementos do FBI que estava ao corrente de alguns casos da conduta incorrecta de Connolly.

 O pouco desenvolvimento dos personagens secundários acontece ainda em alguns dos elementos ligados ao gang de James, tais como Kevin Weeks (Jesse Plemons), um indivíduo que inicialmente encontramos a prestar depoimento junto das autoridades, até a narrativa recuar para 1975 e exibir como este se juntou ao grupo de Bulger, ou Stephen "The Rifleman" Flemmi (Rory Cochrane), Johnny Martorano (W. Earl Brown - como outro dos gangsters que confirmou junto das autoridades os crimes de Bulger, bem como aqueles que cometeu, com a narrativa a utilizar por vezes este artifício, deambulando entre o presente e o passado), entre outros, faltando ao argumento de Jez Butterworth e Mark Mallouk alguma capacidade para que estes pareçam mais do que meros adereços. Veja-se ainda o caso de Peter Sarsgaard como o fleumático criminoso Brian Halloran, um indivíduo que dificilmente é controlável, acabando por ser eliminado por James Bulger, naquele que é mais um dos crimes cometidos por este indivíduo ao longo de um enredo que nos deixa diante da história de um gangster poderoso e letal que tem em Johnny Depp um intérprete capaz de elevar a narrativa. Existe alguma preguiça por parte do argumento ao associar duas mortes relevantes para Bulger tendo em vista a justificar quer inicialmente a sua escalada no mundo do crime, quer posteriormente o seu envolvimento com o IRA, algo que visa uma procura forçada de fundamentar algumas das suas acções. Johnny Depp interpreta um criminoso que procura ganhar poder em relação à máfia italiana, que despreza os delatores embora acabe a espaços por fazer esse papel e entrar em contradição, num filme que nos deixa perante a típica história de um gangster que ascende e cai em desgraça. A grande ironia resulta por esta ascensão de James Bulger ocorrer "nas barbas" do FBI e de figuras políticas locais relevantes, com o argumento a explorar como este indivíduo conseguiu, durante algum tempo, escapar às malhas da lei e ditar as suas próprias regras. Diga-se que Scott Cooper procura, em alguns momentos, explorar estes espaços citadinos de Boston, seja um território debaixo da ponte, junto ao rio, onde Bulger deixa os corpos das suas vítimas, seja os bares onde estes elementos muitas das vezes se reúnem, existindo ainda uma procura de recuperar o tom das décadas em que decorreram a narrativa (sobretudo anos 70 e 80). Seja no guarda-roupa e nos carros, seja nas latas da cerveja Budweiser (product placement inteligente), seja nos comportamentos dos personagens, são vários os exemplos que remetem para a procura de exibir um ideal deste período representado, para além de se notar um esforço dos actores e actrizes em invocarem um sotaque de Boston (uns convencem mais do que outros). Existem diversas liberdades à mistura ao longo desta obra cinematográfica inspirada em figuras e eventos reais, com Scott Cooper a ter um auxílio de peso em Johnny Depp mas também na cinematografia de Masanobu Takayanagi (com quem o cineasta colaborou em "Out of the Furnace"). Quando a câmara se foca no rosto de Depp como Bulger, o actor contamina o ecrã de incerteza, conseguindo a espaços criar uma figura que tanto tem de arrepiante como de humana, dominando por completo as atenções, com Scott Cooper a ter, pelo menos, o enorme mérito de finalmente nos voltar a deixar diante de uma interpretação notável por parte do actor. Regressando às liberdades históricas, vale a pena recordar a entrevista acalorada de Kevin Weeks, bem como o texto de Rikki Klieman, ou os sempre interessantes artigos do site History Vs Hollywood que expõem que Scott Cooper preferiu optar por caminhos bem menos complexos na abordagem da história de Whitey Bulger. É certo que é uma obra de ficção, ninguém lhe pede, nem certamente pedirá, o máximo rigor histórico, embora também seja notório que o argumento poderia ter entrado por caminhos muito mais desafiadores. Competente na abordagem da história de James Bulger e das ramificações que a sua ascensão teve junto das autoridades e do poder político, "Black Mass" marca o regresso de Johnny Depp às grandes interpretações naquele que é um filme de gangsters competente e envolvente, com o trabalho de Scott Cooper a não fascinar mas também a não comprometer.

Título original: "Black Mass". 
Título em Portugal: "Black Mass - Jogo Sujo". 
Realizador: Scott Cooper.
Argumento: Jez Butterworth e Mark Mallouk.
Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons, Corey Stoll, Peter Sarsgaard, Dakota Johnson.

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