12 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Big Knife" (1955)

 Crítica feroz ao lado negro do studio system, aos donos dos grandes estúdios e ao controlo exercido sobre diversos profissionais envolvidos na Sétima Arte, "The Big Knife" não surge com meias medidas a expor as suas temáticas e comentários, com Robert Aldrich a colocar-nos diante de um conjunto de personagens cujos actos deixam muitas das vezes a desejar, ou a imoralidade não rodeasse regularmente as figuras que povoam o enredo dos trabalhos deste realizador. Foi assim em "Kiss Me Deadly", um filme noir que nos colocou diante de um detective privado com uma personalidade que se encontrava longe de ser um poço de virtudes e antagonistas que não queríamos ter por perto. Temos ainda casos como "What Ever Happened to Baby Jane?", onde a personagem do título surge como o símbolo das estrelas em decadência, com Robert Aldrich a aproveitar para abordar questões relacionadas com Hollywood, algo que efectuara com sucesso em "The Big Knife", com as duas obras a poderem formar um díptico interessante. "The Big Knife" remete para as obras cinematográficas que procuram efectuar um comentário sobre a Sétima Arte, algo que vai desde magnífico musical "Singin' in the Rain" onde Stanley Donen e Gene Kelly abordavam a transição do mudo para o sonoro, ou "Sunset Boulevard" onde uma diva entra em decadência com os talkies, ou "The Bad and the Beautiful" onde Kirk Douglas interpreta um produtor que aos poucos se procura imiscuir no trabalho de tudo e todos, entre diversos outros exemplos. Em "The Big Knife", Jack Palance interpreta Charlie Castle, um actor que se encontra a ser pressionado por Stanley Shriner Hoff (Rod Steiger), o dono do estúdio para o qual trabalha, para renovar o contrato com o mesmo por mais sete anos, enquanto Marion Castle (Ida Lupino), a esposa do protagonista, pretende que este rejeite as intenções do magnata e se dedique mais à família e a colocar em prática os seus ideais. Charlie é uma figura que está longe de se encontrar livre de defeitos, ou não fosse um elemento que tanto trai a esposa como procura tentar manter o casamento, que apresenta alguns ideais mas denota dificuldades notórias em sair do studio system e da corrupção moral em que foi envolvido. Diga-se que Charlie encontra-se a ser alvo de chantagem por parte de Stanley e do braço direito deste último, Smiley Coy (Wendell Corey), ou o protagonista não tivesse atropelado um jovem e fugido, com as culpas do homicídio involuntário a terem recaído em Buddy Bliss (Paul Langton), o seu melhor amigo e relações publicas do estúdio, tendo em vista a abafar o caso. Stanley, Smiley, Buddy, Charlie e Marion sabem desta situação, com a possibilidade da mesma ser exposta na imprensa a colocar o protagonista diante de um imbróglio difícil de sair, algo que o personagem interpretado por Jack Palance procura evitar a todo o custo, embora os dois primeiros ameacem trazer o caso para a ordem do dia se este não assinar o contrato. Ou seja, estamos diante de uma figura complexa, que tanto apresenta fortes ideais como deixa os mesmos serem corrompidos, que ama a esposa mas trai a mesma, que procura fugir ao studio system mas tarda em tomar uma atitude para abandoná-lo de vez, com a sua alma a encontrar-se claramente atormentada por saber que vendeu os seus sonhos ao melhor preço.

 O cerco começa a apertar-se para o protagonista. Patty Benedict (Ilka Chase), a colunista da secção de "fofocas" de um jornal pretende saber a verdade sobre o possível divórcio de Charlie, apresentando uma atitude voraz na busca por novidades. A esposa ameaça abandoná-lo, encontrando-se a viver na casa da praia com o filho de ambos, tendo cada vez mais dificuldade em aceitar as mudanças que Charlie conheceu ao ascender na carreira e os casos extra-conjugais protagonizados pelo actor. Esta tem em Hank Teagle (Wesley Addy), um amigo do casal, um escritor culto e ponderado, um pretendente, a ponto de tê-la pedido em casamento, uma situação que não agrada nada a Charlie que procura reconquistar a esposa. O protagonista e a esposa ainda protagonizam alguns momentos calorosos, embora a personalidade errática de Charlie nem sempre ajude à situação. Por sua vez, Stanley e Smiley procuram coagi-lo a todo o custo para assinar o novo contrato, enquanto Nat Danziger (Everett Sloane), o seu empresário, apresenta uma postura inicialmente temerosa para com os dois primeiros. O início do filme é marcado por um alvoroço na casa de Charlie, uma mansão localizada em Bel Air, descrito como um bairro luxuoso onde apenas existe espaço para aqueles que atingem o sucesso, com a habitação a surgir marcada por diversas obras de arte compradas pela esposa do protagonista. A decoração é reveladora da opulência financeira desta estrela de cinema, com a mansão a encontrar-se rodeada por uma piscina e um jardim de largas proporções onde Charlie costuma praticar boxe com Mickey Feeney (Nick Dennis), o seu massagista, funcionário e amigo pessoal, com Nick Dennis a interpretar mais uma vez um personagem que maioritariamente aparece bem disposto numa obra de Robert Aldrich, algo que também acontecera em "Kiss Me Deadly". A casa apresenta largas dimensões mas é praticamente na sala, um espaço que ganha características claustrofóbicas consoante os momentos que se vivem por lá, onde a tensão sobe a níveis elevados e ocorrem muitas das sequências de relevo, com Robert Aldrich a aproveitar de forma exímia este cenário. Começa com Charlie a tentar controlar Patty, com Robert Aldrich a abordar temáticas relacionadas com as fofocas que esmiúçam a vida pessoal das vedetas, remetendo para o papel da imprensa para a formação e queda das estrelas mas também para alimentar a sua preponderância na sociedade ou destruí-las junto da opinião pública. Passa para os diálogos entre o protagonista e a esposa, com a relação a parecer já ter conhecido melhores dias, embora os dois ainda apresentem lampejos de que é possível regressarem a alguns momentos mais pacíficos. Posteriormente a habitação não só recebe a presença do empresário de Charlie, mas também as figuras de Stanley e Smiley, com os problemas do protagonista a estarem apenas a começar, uma situação particularmente notória nos diálogos proferidos pelos personagens interpretados por Rod Steiger e Wendell Corey, reveladores da capacidade de coerção destes dois elementos. Rod Steiger incute um estilo feroz, impiedoso, quase caricatural e imponente a este dono de um estúdio com um ego enorme, cabelo oxigenado, acompanhado muitas das vezes de óculos escuros, que não aceita uma resposta negativa ou que alguém o contrarie, inspirado certamente num conjunto de figuras semelhantes que Robert Aldrich poderá ter conhecido ao longo da sua carreira, com alguns exageros (ou talvez não) à mistura.

 Steiger incute um carisma, presença, aspereza e exageros nos gestos que tornam Stanley uma figura que facilmente desperta receio em relação aos seus próximos passos apesar de a certa altura até se revelar um cobarde, algo que não o impede de procurar jogar com o destino do protagonista. Rod Steiger é uma das várias figuras do elenco que se destacam ao longo desta história negra onde a imoralidade não permeia apenas Stanley. Veja-se o caso do protagonista, um actor que trai a mulher, matou acidentalmente uma criança e fugiu, teve um caso extra-conjugal com Connie Bliss (Jean Hagen), a esposa de Buddy, o seu amigo, um indivíduo que esteve preso durante dez meses para livrar Charlie do escândalo e da cadeia. Jack Palance consegue exibir as dicotomias desta figura que até pode ser bem intencionada mas acaba muitas das vezes por tomar opções erradas para a sua vida, com o actor a atribuir dimensão a um personagem complexo e intrigante que surge como um meio para "The Big Knife" reflectir sobre algumas questões relacionadas com Hollywood no período em que o filme foi lançado, tais como os contratos de longa duração a que estes elementos estavam sujeitos junto dos estúdios. É certo que existem profissões bem piores mas estes contratos, negociados em condições pouco vantajosas, poderiam colocar os actores e actrizes em situações pouco aprazíveis na carreira, com Robert Aldrich a levar a situação ao extremo ao colocar-nos diante de uma figura que está longe de ser um poço de virtudes que não parece ter outra possibilidade a não ser renovar o contrato. Diga-se que esta é uma das qualidades do argumento de James Poe (inspirado na peça homónima de Clifford Ordets), em particular a sua capacidade para explorar a "zona cinzenta" por onde deambula o protagonista, uma figura que está longe de ser perfeita, recheada de defeitos e virtudes, algo que lhe atribui uma certa densidade e interesse. A possibilidade de Dixie Evans (Shelley Winters), uma actriz insatisfeita com o pouco destaque dado pelo estúdio de Stanley, revelar a verdade sobre o homicídio involuntário cometido por Charlie, traz uma incerteza ainda maior ao enredo. Dixie encontrava-se no local do crime a acompanhar Charlie, com quem teve um caso fugaz, representando mais uma relação extra-conjugal que pode deixar este homem em maus lençóis, com os representantes do estúdio a pretenderem resolver a situação de forma pouco meiga. Quem também se encontra no meio deste turbilhão é a personagem interpretada por Ida Lupino, uma mulher que procura trazer ao de cima aquilo que o esposo tem de melhor, denotando algumas duvidas no que diz respeito ao futuro da relação de ambos, não só devido às traições deste, mas também pela incapacidade de Charlie em se impor junto do estúdio.

 O olhar de Lupino, expressivo e intenso, é capaz de exibir muito desta mulher que é alvo das atenções de Hank Teagle, com esta a parecer a espaços balançar entre um casamento a passar por uma fase instável e um pretendente que lhe dá outro tipo de alternativas para a vida, embora ainda ame o esposo. "The Big Knife" embrenha-se por caminhos mais negros na representação do studio system e do controlo exercido pelos donos dos grandes estúdios, com Charlie a surgir como um joguete nas mãos de Stanley apesar de se colocar a jeito ou não tivesse cometido um homicídio involuntário que procura esconder, com a opulência financeira que alcançou a parecer muitas das vezes ter vindo acompanhada pela sua degradação moral. O próprio chega a salientar à esposa " (...) I'm in the movie business. I can't afford your acute attacks of integrity", com Robert Aldrich a exibir uma visão desencantada de Hollywood, dos grandes estúdios e das estrelas de cinema. A própria imprensa surge representada de forma pouco positiva, bem como a maneira como os representantes do estúdio procuravam "moldar" a informação oficial, com Aldrich a entrar por caminhos polémicos, por vezes de forma algo simplista na forma como diaboliza este mundo embora também consiga ser simultaneamente complexo, em particular na construção de personagens como Charlie. Este é o representante da estrela de cinema que ascendeu a um nível elevado, surgindo como uma das "galinhas de ovos de ouro" de um estúdio que não pretende libertá-lo, enquanto o actor balanceia por entre os dilemas que lhe são colocados, seja na sua vida profissional, seja na sua vida pessoal, com ambas a afectarem-se mutuamente. Por sua vez, Robert Aldrich aproveita para criticar Hollywood e ao mesmo tempo jogar com os limites do Código Hays, não faltando traições, insinuações de cariz sexual, alguma violência e um grito final que nos assola e atormenta a alma. Com uma interpretação de grande nível de Jack Palance, bem acompanhado por Ida Lupino e Rod Steiger, "The Big Knife" procura expor um lado negro de Hollywood deste período, enquanto assistimos aos dilemas morais do protagonista, com este a ser gradualmente consumido pelas incertezas, algo que conduz a que a desgraça pareça o caminho mais certo desta figura complexa.

Título original: "The Big Knife".
Título em Portugal: "No Reino da Calúnia".
Realizador: Robert Aldrich.
Argumento: James Poe.
Elenco: Jack Palance, Ida Lupino, Wendell Corey, Jean Hagen, Rod Steiger, Shelley Winters.

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