27 outubro 2015

Resenha Crítica: "Beasts of No Nation"

 Com um enredo que tem como pano de fundo um território africano não mencionado, "Beasts of No Nation" surge como uma obra cinematográfica que nos transporta para o lado negro da humanidade, para aquilo que queremos ou procuramos muitas das vezes ignorar. O facto do enredo de "Beasts of No Nation" ter como pano de fundo um país anónimo, situado em África, permite exacerbar a universalidade e o poder daquilo que Cary Fukunaga tem para transmitir, com o cineasta a mesclar elementos de filmes de guerra com temáticas de pendor social, enquanto aborda a perda de inocência de um jovem diante dos palcos de um conflito bélico. No início, conseguimos rir com Agu (Abraham Attah), o protagonista, com a sua inocência e criatividade, embora seja notório que o território onde este habita, com os pais e os irmãos, está a viver uma situação delicada. Veja-se quando encontramos Agu a explicar que se encontra a habitar numa zona neutra, onde a escola está temporariamente encerrada, os refugiados acumulam-se, os elementos nigerianos tentam prestar apoio militar e humanitário, enquanto os jovens procuram divertir-se e desenrascar-se no seu dia a dia. Nesse sentido, "Beasts of No Nation" começa num misto de crueza e humor, até nos transportar gradualmente para o inferno de uma guerra civil através do olhar de um jovem que aos poucos percebe que nunca mais poderá apagar da sua memória aquilo que viu e praticou. A narração em off de Agu, em diversos momentos de "Beasts of No Nation", é fulcral para criarmos uma percepção de como esta jovem criança observa o mundo que o rodeia, ao mesmo tempo que Cary Joji Fukunaga aproveita para expor alguma informação fulcral. Após a aventura televisiva, marcada por toques de brilhantismo, na primeira temporada de "True Detective", Cary Joji Fukunaga tem em "Beasts of No Nation" um regresso em grande ao meio cinematográfico, num filme capaz de abordar temáticas polémicas como as crianças-soldado, a pedofilia, o consumo de drogas, os interesses obscuros relacionados com a guerra ao mesmo tempo que expõe o quão brutal e pueril podem ser os conflitos militares. Não são temáticas novas, mas são abordadas de forma dura, intensa, assertiva e pertinente, com Cary Fukunaga a ser capaz de dotar "Beasts of No Nation" de uma crueza que incrementa o nosso desconforto em relação aos episódios que nos são expostos. O cineasta volta ainda a exibir-se como um exímio condutor de actores, algo notório nas interpretações do estreante Abraham Attah e do magnético Idris Elba, com ambos a conseguirem deixar marca. Abraham Attah tem uma interpretação surpreendente como Agu, com o actor a conseguir transmitir no seu rosto muito do sofrimento, surpresa e dor que atravessa a alma deste jovem, deixando transparecer no final do filme que as peripécias a que o protagonista foi sujeito mudaram por completo a sua forma de encarar tudo e todos os que o rodeiam.

 Os pensamentos de Agu, quando se encontra perante uma assistente social, no último terço do filme, permitem adensar a percepção do quão dolorosos foram os episódios que este presenciou e protagonizou. Também percebemos que será algo que este não poderá compartilhar com facilidade, a não ser com o espectador que, aos poucos, se torna cúmplice deste jovem, apesar de nunca ter vivenciado as suas dores. É um momento particularmente tocante que surge praticamente como o somatório dos episódios que encontramos este jovem a protagonizar e observar ao longo da narrativa de "Beasts of No Nation", uma obra cinematográfica inspirada no livro homónimo da autoria de Uzodinma Iweala, com Cary Fukunaga a fazer com que facilmente nos esqueçamos que estamos no campo da ficção. Os sentimentos transmitidos são demasiado reais, com Cary Fukunaga a conseguir que compartilhemos esta jornada de crescimento com Agu. Os momentos iniciais em que encontramos Agu a procurar vender parte de um televisor, acompanhado por um grupo de amigos, enquanto os vários jovens fingem que se encontram a encenar filmes de kung fu ou até simular o efeito 3D são pontuados por uma enorme ingenuidade e algum humor. Uma ingenuidade que é perdida quando o CRN, uma junta militar que aboliu todos os partidos políticos, quebra o acordo que tinha formulado e penetra pela zona neutra. Os homens mais velhos ficam a defender o território, enquanto os mais jovens e as mulheres procuram fugir. O território vira o caos, com o pai, o avô e o irmão de Agu a serem mortos, enquanto o protagonista consegue escapar, acabando por ser capturado pelos homens liderados por um indivíduo denominado de Comandante (Idris Elba). O nome desta figura pouco importa. Diga-se que o facto de não sabermos o nome deste comandante das Forças Nativas de Defesa, uma unidade miliciana, concede um mistério ainda maior ao personagem interpretado por Idris Elba, com o actor a ter um desempenho intenso. Idris Elba surge magnético como esta figura carismática, que procura conquistar os corpos e as almas dos soldados que comanda, enquanto os convence a cometer actos sangrentos e brutais. É um indivíduo de personalidade dura, que aparece de boina, colete aberto, óculos escuros e calções, evidenciando uma imponência física e um poder para a oratória que impressionam, contando com uma série de soldados que parecem ser leais em relação às suas ordens. Agu é obrigado a integrar o grupo de soldados do Comandante, tendo de seguir as ordens deste indivíduo, incluindo eliminar brutalmente um suposto inimigo, com o protagonista a descobrir um lado negro da humanidade que até então desconhecia. Os momentos de alguma candura dos jovens a simularem situações de filmes na televisão são contrastados com a violência da guerra e a argumentação pueril para a sustentação de um conflito que aos poucos parece permitir que os actos mais atrozes sejam cometidos. Num determinado momento de "Les Carabiniers", um filme realizado por Jean-Luc Godard, encontramos Michelangelo (Albert Juross), um dos protagonistas, a questionar de forma bastante interessada se este e Ulysses (Marino Mase), o seu irmão, podem cometer actos como roubar nos pesos das balanças, partir os óculos dos velhinhos, partir os braços das criancinhas, golpear pelas costas, roubar casas, incendiar aldeias, queimar as mulheres, massacrar inocentes, entre outros actos, algo a que o seu interlocutor responde que sim pois encontram-se em guerra. É um momento mordaz do filme de Jean-Luc Godard que serve na perfeição para expor a puerilidade dos argumentos para se cometerem actos atrozes durante um conflito militar, algo que se repete quando encontramos diversos elementos desta milícia a matarem seres humanos e invadirem territórios, com o Comandante a exibir o seu lado mais negro ao demonstrar um interesse nos seus jovens soldados que vai muito para além das tarefas inerentes à guerra.

 Cary Fukunaga não nos coloca de forma explícita diante dos actos do Comandante junto dos jovens, embora as suas consequências pareçam ter impacto em Strika (Emmanuel Nii Adom Quaye) e Agu. Strika é outro dos jovens que integram a FND, com este a praticamente não falar, exibindo uma frieza maior do que Agu no cumprimento dos deveres. Os momentos de violência são mais do que muitos, com a cinematografia de Cary Joji Fukunaga a conseguir atribuir um imediatismo notório às mesmas, com a câmara a surgir muitas das vezes em movimento, pronta a acompanhar as emoções, enquanto a cor é utilizada para explorar o estado de espírito de alguns personagens. Veja-se quando encontramos Agu e os restantes elementos liderados pelo Comandante a avançarem por um espaço verde que gradualmente assume tonalidades vermelhas na mente do protagonista, algo que transparece para o espectador, com a cor vermelha a surgir associada ao sangue e violência. Temos ainda um magnífico plano-sequência que coincide com a entrada de Agu e diversas crianças-soldado no interior de um espaço habitacional, com este a alucinar com a presença da mãe e aderir à violência. Questiona a possibilidade de Deus encontrar-se a assistir aos seus actos e daqueles que o rodeiam, enquanto se depara com um conflito interior que coloca em contraste o modo pacífico como foi criado e a violência que passou a assumir. Agu é o elemento que mais se destaca, uma figura complexa que, aos poucos, começa a perder a inocência apresentada ao mesmo tempo que tenta manter os valores ensinados pela sua mãe. Quando o encontramos a apelar à sua mãe, ao invés de efectuar este acto a Deus, percebemos o quão desesperado se encontra este jovem, com a religião a surgir como outra das temáticas abordadas ao longo do filme, ou esta não fosse utilizada quer para justificar o bem, quer para os actos mais grosseiros (veja-se alguns rituais associados ao xamanismo). "Beasts of No Nation" exibe-se competente e assertivo na abordagem de temáticas melindrosas, algo que vai desde a puerilidade da argumentação para a manutenção dos conflitos bélicos e a destruição que estes provocam nos territórios, passando pelos jovens que são obrigados a cometer actos atrozes nestes conflitos e a violência a que estão sujeitos, até às mortes provocadas e à forma como a religião é aproveitada para justificar o injustificável. São temas difíceis, com Cary Fukunaga a não ter problemas em desferir alguns murros no estômago do espectador enquanto efectua uma obra denunciadora, simultaneamente visceral, surreal e poética, com o cineasta a abordar questões complexas ao mesmo tempo que extrai de Idris Elba e Abraham Attah interpretações que facilmente ficam na memória. Os personagens interpretados por Attah e Elba formam uma estranha relação, embora Agu pareça acima de tudo temer o Comandante, enquanto este último procura a espaços assumir uma postura paternal, algo que nunca consegue.

"Beasts of No Nation" coloca-nos ainda diante de uma série de elementos que constituem o grupo do Comandante, tais como Two-I-C (Kurt Egyiawan), Randy (Randy Aflakpui), entre outros, com o segundo a ser alvo da frieza do personagem interpretado por Idris Elba. Temos ainda Emmanuel Affadzi como Dike, um elemento que no início do filme encontrámos a interpretar diversos papéis para a "programação televisiva" de Agu, numa fase da existência do protagonista onde este ainda não tinha sido introduzido ao lado negro da vida. Os close-ups no rosto deste jovem permitem transmitir uma imensidão de sentimentos, com Cary Fukunaga a fazer com que praticamente partilhemos esta jornada de Agu, um personagem ficcional que vive situações demasiado semelhantes com a realidade para conseguirmos ignorar. A perícia com que Fukunaga controla a narrativa é visível desde logo pela aparente simplicidade como este nos coloca diante do quotidiano de Agu no local que habita, conseguindo que facilmente geremos empatia pelo protagonista, até destruir por completo com as rotinas do jovem ao colocar em cena os militares. As filmagens decorreram em grande parte no Gana, com o elenco a ser formado maioritariamente por elementos não profissionais ou pouco conhecidos, com excepção de Idris Elba, uma situação que conduziu a situações caricatas que tiveram direito a algum destaque num interessante artigo da Variety sobre "Beasts of No Nation", onde também é abordado o método de distribuição deste filme. Diga-se que Cary Fukunaga assumiu praticamente o papel de mestre de cerimónias de "Beasts of No Nation", ou não contasse com os cargos de realizador, argumentista e director de fotografia, embora tenha em elementos como Dan Romer, o responsável pela banda sonora, alguns colaboradores de relevo. A banda sonora deixa de contar com tons inicialmente mais quentes para assumir uma faceta que a espaços se revela mais tensa, ou o quotidiano do jovem Agu não tivesse mudado por completo. Das brincadeiras com os amigos e o irmão mais velho passa para os treinos e os rituais, até passar para a matança, tendo como líder um Comandante que tem tanto de carismático como do louco e imprevisível. Mais do que procurar explorar o contexto político, onde diferentes facções disputam o poder e o território, "Beasts of No Nation" concentra-se nas repercussões que as ordens emitidas por aqueles que têm poder apresentam nos indivíduos que se encontram no terreno a praticar a guerra, com Agu a ser um exemplo dessa situação. O próprio Comandante é um joguete num tabuleiro mais lato onde se joga com as vidas humanas, algo notório quando encontramos o personagem interpretado por Idris Elba a dialogar com o seu líder. Também Agu é um mero peão de um jogo mais lato, com este a presenciar invasões a diversos territórios, lutando por uma causa onde a vitória soará sempre pírrica enquanto a derrota parece ter sido conquistada a partir do momento em que perdeu a sua inocência. As nuvens negras, expostas muitas das vezes de forma a explorar os estados de espírito, encontram-se muito presentes, com estas a ameaçarem tomar a alma de Agu, enquanto o protagonista se depara com toda uma realidade que aos poucos consome a sua mente, embora procure nunca esquecer o seu passado e os familiares, com este jovem a surgir com uma figura complexa e marcante. Pertinente, relevante, pontuado por uma cinematografia digna de atenção e interpretações de relevo por parte de Idris Elba e Abraham Attah, "Beasts of No Nation" aborda temáticas melindrosas embora não nos deixe perder totalmente a esperança na humanidade, com Cary Joji Fukunaga a realizar uma obra cinematográfica que se torna facilmente recomendável quer pela sua "nota artística", quer pelas temáticas merecedoras de reflexão.

Título original: "Beasts of No Nation".
Realizador: Cary Joji Fukunaga.
Argumento: Cary Joji Fukunaga.
Elenco: Idris Elba, Kurt Egyiawan, Abraham Attah, Kurt Egyiawan, Emmanuel Affadzi, Emmanuel Nii Adom Quaye.

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