26 outubro 2015

Resenha Crítica: "The Bad and the Beautiful" (1952)

 Acompanhado por um elenco e um argumento de luxo, Vincente Minnelli conduz-nos aos bastidores de Hollywood ao mesmo tempo que nos deixa diante da ascensão e queda de Jonathan Shields (Kirk Douglas), um indivíduo ambicioso, recheado de virtudes e defeitos que tanto era capaz de reunir pessoas à sua volta como afastá-las e fazer com que o odiassem. No início do filme encontramos Harry Pebbel (Walter Pidgeon), um produtor e responsável financeiro pela empresa de produção de Shields, a reunir James Lee Bartlow (Dick Powell), um argumentista, Georgia Lorrison (Lana Turner), uma actriz, e Fred Amiel (Barry Sullivan), um realizador, após todos estes rejeitarem atender uma chamada de Jonathan Shields. O personagem interpretado por Kirk Douglas encontra-se em Paris, pretendendo voltar a produzir um filme, após ter estado dois anos parado, desejando contar com o trio para o seu novo trabalho. Ao longo de diversos flashbacks, Vincente Minnelli conduz-nos às relações que estes elementos formaram com Jonathan Shields durante o período de tempo em que conviveram, ao mesmo tempo que nos coloca diante da relevância deste homem para a ascensão dos mesmos. Vincente Minnelli tem em "The Bad and the Beautiful" uma obra cinematográfica que procura "olhar para dentro" de Hollywood e dos meandros da Sétima Arte, com um tom que varia entre o desencanto e o entusiasmo, ao mesmo tempo que explora temáticas associadas a este meio. Diga-se que "The Bad and the Beautiful" remete para uma longa de tradição de filmes que abordam temas relacionados com a representação, a Sétima Arte, a facilidade com que se ascende e cai no esquecimento em Hollywood, algo visível em obras cinematográficas magníficas como "Sunset Boulevard", "The Barefoot Contessa", "All About Eve", “The Big Knife”, “What Ever Happened to Baby Jane?”, entre outras. No caso de "The Bad and the Beautiful", o argumento de Charles Schnee, inspirado livremente no livro "Tribute to Badman", parece contar com alguma inspiração em situações reais, exibindo o quotidiano no interior de Hollywood com um misto de ficção e veracidade, onde facilmente se chega ao auge e ainda mais depressa se cai no abismo do esquecimento. Kirk Douglas é sublime, intenso e magnético como Jonathan Shields, com o personagem a surgir inicialmente como alguém que procura vingar em Hollywood, após o pai ter falecido. O pai de Jonathan era odiado por tudo e todos no meio, tendo deixado o filho na penúria. Jonathan fica emocionalmente devastado, utilizando o pouco dinheiro que tem para pagar a um conjunto de elementos para aparecerem no funeral do progenitor. O único elemento a quem não paga é a Fred Amiel, um assistente de realização, aspirante a realizador e argumentista, que ganha a vida como figurante. Barry Sullivan interpreta eficazmente um tipo inicialmente demasiado frontal e directo, por vezes a roçar o inconveniente, a ponto de dizer mal do pai de Shields na cerimónia fúnebre. Os dois acabam por formar amizade, com Shields a conseguir infiltrar-se no círculo de Harry Pebbel, na época um executivo responsável pela divisão de filmes de série b de um estúdio de Hollywood. Shields acaba por perder uma aposta com Pebbel, prometendo pagar com trabalho, assumindo-se como produtor de obras cinematográficas baratas, de série b, incluindo "Doom of the Cat Men", com o título deste filme a remeter para "Cat People", tal como esta fase do protagonista parece ter sido inspirada no marcante Val Lewton.

"Doom of the Cat Men" marcou o primeiro grande sucesso de Shields, uma obra cinematográfica que contou com Fred Amiel como realizador. Perante os efeitos especiais manhosos que tinham à disposição e o fraco orçamento, a dupla decidiu não exibir os "homens gato", tendo em vista a instigar o medo dos espectadores através daquilo que estes não conseguiriam ver, algo que remete mais uma uma vez para "Cat People". O sucesso a nível de público e crítica de "Doom of the Cat Men" conduz a uma subida de confiança por parte de Shields, a ponto de procurar impor projectos, incluindo a adaptação de uma obra literária que era o projecto de sonho de Amiel, o seu grande parceiro nesta caminhada. No entanto, na hora da verdade, para ter um orçamento mais elevado e contar no elenco com "Gaucho" (Gilbert Rowland), um actor famoso, Shields aceita que Von Ellstein (Ivan Triesault), um dos melhores realizadores da época, fique com a posição reservada para Amiel. Este acto acaba por atomizar a relação de amizade entre Shields e Amiel. O sucesso de Jonathan Shields conduz a que este abra a sua empresa de produção, contratando Pebbel, um indivíduo que se mantém fiel ao mesmo. Jonathan é um produtor activo, que procura a todo o custo que os filmes que produz tenham a sua visão, envolvendo-se de forma bem viva na elaboração dos mesmos, indo ao ponto de entrar em depressão ao terminar cada trabalho, até voltar a desenvolver uma nova obra cinematográfica e encontrar um novo vigor. Noutro longo flashback, encontramos como Georgia e Jonathan iniciaram a sua relação profissional e amorosa, com esta a ser na época uma figurante de pouca monta, conhecida pelo seu pai ter sido um actor famoso e pelo consumo excessivo de álcool. Todos parecem insistir que Georgia não tem talento para ser uma actriz de sucesso, mas Jonathan investe tudo o que pode a instruir esta mulher, iniciando um caso com a personagem interpretada por Lana Turner que termina pouco tempo depois da ascensão desta ao estrelato, uma situação que se deve sobretudo aos comportamentos mais uma vez desastrosos do protagonista. Outro dos flashbacks remete para a forma como Jonathan convenceu James, um professor e escritor, a adaptar a sua própria obra literária, convidando-o a escrever o argumento. James viaja para Hollywood com Rosemary (Gloria Grahame), a sua esposa, uma mulher que fica impressionada com este espaço. No entanto, tudo corre mal, incluindo a relação laboral entre Jonathan e o realizador do filme, com o produtor a ingerir-se em demasia no trabalho do segundo. Escusado será dizer que Jonathan também irá conduzir ao afastamento de Henry da sua vida, com todos os elementos que recusaram atender o telefonema a terem contado com o melhor e o pior do protagonista. O argumento é sublime a construir este personagem ambicioso, que convence quase tudo e todos com a sua visão sobre o cinema e os seus trabalhos, contribuindo para o sucesso de diversas pessoas, incluindo James, Georgia e Fred, embora o seu lado negro levasse muitas das vezes a melhor. Provavelmente, também terá sido esse lado mais intransigente e oportunista que conduziu Jonathan ao curto sucesso, com este a iniciar a carreira como uma espécie de Val Lewton, até começar a apresentar uma ingerência a roçar o "nível David O. Selznick", algo que hoje, muito provavelmente, deixaria Harvey Weinstein orgulhoso. Diga-se que Jonathan não foi o único elemento inspirado em figuras reais, algo salientado por Margarita Landazuri no seu artigo para o site do canal TCM: "The father-obsessed Georgia is partly John Barrymore's star-crossed daughter Diana (...) The budget-conscious studio manager played by Walter Pidgeon was based on Harry Rapf, the head of the MGM B-movie unit. The German director suggests Fritz Lang, and the British one, Hitchcock". O argumento foi baseado em "Tribute to Badman" de George Bradshaw, com o argumentista Charles Schnee e, muito provavelmente, Vincente Minnelli com as suas experiências em Hollywood, a acrescentarem elementos inspirados em figuras reais, algo que resulta numa panóplia de personagens rica em alguma densidade emocional, sobretudo Jonathan. Com um enorme carisma, Kirk Douglas tanto é marcante nos momentos de maior fragilidade emocional do personagem que interpreta, como se destaca a expor o seu lado mais duro, negro e egocêntrico, conseguindo pelo caminho atrair e afastar uma imensidão de pessoas.

O romance breve entre Jonathan e Georgia ainda indica que este poderia ser feliz a nível sentimental, com a química entre Kirk Douglas e Lana Turner a ajudar a que torçamos por um desfecho mais apolíneo, embora não esteja no "ADN" do protagonista resolver tudo da melhor maneira. Este não parece estar bem com a felicidade, pensando acima de tudo em si próprio. Ou melhor, quer sempre mais. Quer mais de si próprio e de todos aqueles que o rodeiam, procurando desafiar os seus limites e os dos outros, começando gradualmente a respeitar cada vez menos as opiniões daqueles que o rodeiam. "The Bad and the Beautiful" acaba por nos transportar para os bastidores de Hollywood, para as filmagens das obras cinematográficas, ao mesmo tempo que nos deixa diante do intrincado processo que envolve o desenvolvimento de um filme e o papel do produtor. No caso de Jonathan, este procura ser um produtor activo, a ponto de tentar ter o seu toque quer na realização, quer no argumento, quer na escolha do elenco, algo visível quando manda repetir as cenas "n" vezes, mesmo que isso signifique estoirar por completo com o orçamento e endividar-se cada vez mais. Este é o exemplo do produtor que quer ter influência na produção, apresentando uma ascensão notória em Hollywood, um local também propício às quedas em desgraça. Vincente Minnelli é exímio a explorar este drama humano que tem como pano de fundo um meio que bem conhece, com o cineasta a não contar com números musicais magníficos mas sim com uma narrativa que se desenrola a um ritmo perfeito, permitindo explorar uma miríade de temáticas associadas à produção, ao desenvolvimento dos filmes, a Hollywood, ao trabalho dos actores e actrizes, bem como às amizades e inimizades que se criam neste meio. Barry Sullivan interpreta um indivíduo que inicialmente partilha o entusiasmo do protagonista, embora aos poucos se desiluda com o mesmo, algo que vai ser repartido pelos elementos interpretados por Lana Turner e Dick Powell. O filme dá ainda espaço para os elementos secundários sobressaírem. Veja-se o caso de Lana Turner como esta actriz que nos momentos iniciais se encontra emocionalmente desfeita, sem conseguir acreditar no seu talento, que é resgatada por Jonathan, com a teimosia deste a contribuir para que Georgia se torne uma vedeta. Existem alguns momentos particularmente marcantes que exibem também o trabalho do realizador ou, neste caso, produtor. Veja-se quando encontramos Jonathan a ensinar Georgia a dar uma volta de forma distinta pelo cenário tendo em vista a esconder a sua falta de porte para utilizar um vestido luxuoso, ou o protagonista a explicar à actriz como deve ser mais contida nos seus gestos, ou a mostrar para onde esta deve olhar quando está a ser filmada. Temos ainda outros momentos intensos entre os personagens interpretados por Lana Turner e Kirk Douglas, com este último a surgir em quase todos os elementos de relevo do filme, ou seja, nos flashbacks, enquanto Vincente Minnelli nos deixa diante de uma figura complexa que tanto é capaz do melhor e do pior. O enredo é ainda povoado por outros personagens que se destacam, tais como Groucho, um actor bon-vivant que é conhecido pelo seu carisma, talento e gosto por estar bem acompanhado, ou Von Ellstein, um realizador experiente e perfeccionista que choca de frente com Jonathan.

Outro dos elementos que sobressaem, ainda que num período limitado de tempo é Gloria Grahame como Rosemary, com esta a interpretar uma mulher fascinada por Hollywood, dada a alguns luxos e a formar amizades com grande facilidade, incluindo com Gaucho algo que não agrada ao esposo. Tal como "Sunset Boulevard", também "The Bad and the Beautiful" deixa-nos diante dos bastidores de obras cinematográficas, com Vincente Minnelli a colocar-nos perante os cenários onde "se faz magia". Os locais e recursos de filmagens surgem também como indicadores do estatuto ascendente de Jonathan, existindo um cuidado notório a nível do design dos cenários interiores e até do guarda-roupa dos personagens (de Vincente Minnelli esperamos sempre o melhor nestes quesitos), para expor a situação em que se encontra o produtor. Veja-se o contraste do estúdio precário onde foi filmado "Doom of the Cat Men", marcado ainda por fatos de gato completamente idiotas e embaraçosos que conduziram à decisão de filmar os mesmos no escuro para o público não ver indivíduos vestidos como felinos, com o luxuoso set do filme protagonizado por Georgia. A própria cinematografia revela-se muitas das vezes exímia a adensar o impacto emocional dos episódios apresentados ao longo do enredo. Veja-se a forma eficaz como é utilizada a iluminação, ou a falta dela, quando Jonathan explica a Fred como vão filmar "Doom of the Cat Men", ou quando o produtor se reúne durante a noite com Georgia, procurando que a actriz encontre um rumo. Fica também na memória a cena em que a amante de Jonathan fala jocosamente com Georgia, enquanto se encontra no topo das escadas, ao contrário da personagem interpretada por Lana Turner, que se encontra emocionalmente e literalmente em baixo neste momento onde descobre que as hipóteses de romance com o produtor falharam por completo. É um trabalho notável da equipa de Vincente Minnelli, enquanto o cineasta explora com enorme acerto as relações que o protagonista desenvolve, ao longo de cada um dos flashbacks, tendo em vista a expor as razões para o trio não pretender atender a chamada do mesmo. Percebemos também que não ficaram totalmente indiferentes à chamada telefónica, com os flashbacks, utilizados de forma precisa, a darem a entender as fortes e complexas ligações que estas figuras estabeleceram durante o período de tempo em que se deram bem. É um retrato algo desencantado de Hollywood, onde a ascensão e as amizades florescem, tal como o fracasso e a solidão, com Jonathan a ser exemplo disso. Jonathan é um personagem algo oportunista, muitas das vezes marcado por poucos escrúpulos, embora Vincente Minnelli consiga que criemos alguma empatia para com o mesmo. O próprio sucesso conquistado por todos os elementos que Jonathan deixou ficar mal exibe uma procura do argumento em tentar amenizar os actos deste indivíduo, enquanto a interpretação carismática de Kirk Douglas conduz a que facilmente queiramos seguir o produtor e descobrir os seus próximos passos. Este aliena quase todos aqueles que dele se aproximam, numa obra sublime, onde a própria banda-sonora nos brinda com o tema do título, com Vincente Minnelli a criar um drama sobre as gentes que povoam Hollywood, com algum realismo, ficção e fantasia à mistura, ao mesmo tempo que extrai uma interpretação imaculada por parte de Kirk Douglas e exibe um enorme talento para a realização. O termo clássico aplica-se que nem uma luva a "The Bad and the Beautiful".

Título original: "The Bad and the Beautiful".
Título em Portugal: "Cativos do Mal".
Realizador: Vincente Minnelli.
Argumento: Charles Schnee.
Elenco: Lana Turner, Kirk Douglas, Walter Pidgeon, Dick Powell, Barry Sullivan, Gloria Grahame.

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