02 outubro 2015

Resenha Crítica: "71" (2014)

 A câmara de filmar fervilha em "71", surgindo pulsante, pronta a não deixar nada por transmitir e a exibir toda a inquietação que envolve muitas das vezes o quotidiano do protagonista no espaço de tempo da sua vida que nos é exibido. Por vezes é notório que existem alguns excessos, que o constante remexer da câmara de filmar nem sempre parece controlado, um pouco como acontece com as emoções, com o trabalho de Yann Demange na realização e de Tat Radcliffe na cinematografia a permitirem muitas das vezes atribuir um tom de urgência e uma atmosfera palpável e inquietante aos episódios que ocorrem ao longo de "71", uma obra que deambula entre o thriller, o filme de guerra, acção e sobrevivência, procurando fugir às catalogações fáceis que nos possamos sentir tentados a colocar. A própria exibição do território de Belfast surge fervilhante, intensa e recheada de perigos, ou não fosse um espaço onde ao longo da narrativa fortes chuvas podem cair e adensar a tensão, os becos surgem mais inseguros do que nunca, os motins estão na ordem do dia e uma criança a praguejar e beber cerveja parece algo de normal. A narrativa desenrola-se em 1971, tendo como pano de fundo o Conflito na Irlanda do Norte, também conhecido como "The Troubles" que, muito resumidamente, opunha a população Protestante, favorável à preservação dos laços com a Grã-Bretanha, à população Católica, que apresentava uma postura pela independência ou integração do território na República da Irlanda. Gary Hook, um jovem militar do exército britânico, inglês, vai deparar-se com este contexto explosivo ao longo do enredo de "71", algo que promete colocar a sua vida em perigo, sobretudo quando é deixado para trás pelo seu pelotão e tem de lidar com duas facções do IRA, com forças da lei corruptas e outras figuras pouco recomendáveis, embora a espaços seja inesperadamente ajudado. Jack O'Connell tem uma interpretação de relevo ao conseguir transmitir muito dos sentimentos deste soldado apenas com os seus gestos e olhares, uma situação que ganha ainda maior importância se tivermos em conta que muitos dos momentos de "71" surgem permeados pelo silêncio e inquietação. O actor consegue dar dimensão e credibilidade ao personagem que interpreta, quer nos momentos de maior intensidade física, seja a fugir pelos becos de Belfast ou num treino, ou num combate, quer nas situações de maior fragilidade emocional, sejam estas quando se encontra gravemente ferido ou exibe o seu lado mais terno junto de Darren (Harry Verity), o seu irmão mais novo, um jovem que se encontra a estudar em regime de internato num orfanato (é deixado subentendido que os pais de ambos já não são vivos). No início de "71" encontramos Gary Hook (Jack O'Connell) em pleno treino no exército britânico, mas também a conviver com Darren, com Yann Demange a exibir de forma breve, rápida e concisa alguns traços deste jovem. Sabemos que é um novato no exército, que é destemido mas conta com algumas inseguranças e uma certa inocência, tendo no irmão uma peça basilar da sua existência.

Gary é enviado, em conjunto com diversos colegas e superiores, para Belfast, na Irlanda do Norte, em 1971, tendo em vista a prestar apoio à Royal Ulster Constabulary e contribuir para uma suposta pacificação do território. As condições são hostis quer no interior do espaço onde se encontram instalados, quer nas ruas de Belfast, com "71" a colocar-nos diante de um território que é representado como um barril de pólvora que parece poder explodir a qualquer momento. Como é explicado a estes soldados (e numa forma rápida e demasiado concisa ao espectador): “(...) podemos dividir a cidade entre os protestantes no extremo leste, representados a laranja, amigáveis, e os católicos nacionalistas a oeste, a verde, hostis. Ambas as comunidades têm facções paramilitares a lutarem entre si. Também devem saber que dentro do movimento Republicano existe uma divisão entre os oficiais mais velhos do IRA e os elementos mais jovens, mais radicais e combatentes de rua, os Provisórios. Esta é a linha de frente, rapazes. Os católicos e os protestantes vivem lado a lado em conflito, divididos pela Rua Falls”. É este o contexto que Gary e os seus colegas vão encontrar em Belfast. O regimento de Gary é liderado pelo Tenente Armitage (Sam Reid), também ele inexperiente, algo que vai explicar que acabe por deixar o primeiro para trás quando uma operação corre mal, com o protagonista a deparar-se com uma revolta de um grupo de católicos quando se encontravam a efectuar uma vistoria a uma casa. As autoridades não têm problemas em utilizar a força, algo que parece incomodar Gary, enquanto a turba de revoltosos que se forma torna-se poderosa o suficiente para intimidar este grupo mal organizado de militares. Thompson (Jack Lowden), um colega que estava com Gary, é brutalmente morto a tiro, enquanto o protagonista apenas tem como opção fugir, sendo perseguido pelo grupo de James Quinn (Killian Scott), um indivíduo impetuoso que lidera uma facção do IRA mais violenta e de atitudes mais musculadas (os já mencionados elementos do IRA Provisório), que apresenta uma certa animosidade em relação a Boyle (David Wilmot). Este é um líder mais pragmático que conta com os seus segredos escondidos, incluindo acordos com os ingleses, com o enredo de "71" a ser pródigo em traições e personagens de carácter dúbio, que o diga Gary quando é conduzido para um bar por um jovem e se depara com o Sargento Leslie Lewis (Paul Anderson) no interior de uma divisória onde se encontra a ser fabricada uma bomba para auxiliar os Protestantes no combate ao IRA. Lewis é um elemento da Military Reaction Force, com este grupo secreto do exército britânico a nem sempre ser representado da melhor forma, ou este bar frequentado e liderado maioritariamente por protestantes não se preparasse para conhecer um episódio negro. Aos poucos, Gary não só é perseguido por James Quinn, mas também por Lewis e pelo Capitão Sandy Browning (Sean Harris - como outro elemento da MRF), que procuram silenciá-lo de forma a não revelar o episódio da bomba e aquilo que viu ou pode vir a descobrir sobre estes dois indivíduos com agendas muito próprias que passam não só por ajudar os Protestantes mas também por desenvolver acordos e criar divisões com e entre elementos do IRA. Lewis e Sandy representam, tal como Boyle, elementos que não parecem ter pejo em trair os seus ideais e entrar em jogos para manterem o seu estatuto e escapar às punições por alguns dos actos incorrectos que cometem, com “71” a exibir algum do cinismo inerente a todo este contexto.

Os momentos em que Gary Hook se encontra praticamente sozinho no território, sem poder confiar em quase ninguém, são de enorme inquietação para o protagonista, com Yann Demange a exibir um controlo impressionante nestas situações, sobretudo se tivermos em conta que é um estreante na realização de longas-metragens. Veja-se a cena em que Sean (Barry Keoghan), um adolescente temeroso que faz parte do grupo de Quinn, hesita em eliminar Gary, com a pistola a encontrar-se durante largos segundos empunhada na direcção do protagonista enquanto não sabemos o que esperar. Não vai faltar violência, mortes, alguns tiros e jogos de poder a envolverem a narrativa, embora o cerne seja a jornada de sobrevivência de Gary, uma luta muitas das vezes solitária, ou melhor que é partilhada com o espectador. Em certa medida, Gary faz-nos recordar o protagonista de "Odd Man Out", embora este último fosse um foragido que procurava, enquanto se encontrava ferido, lutar pela sua sobrevivência no território da Irlanda do Norte. A obra cinematográfica de Carol Reed apresentava mais classe e elegância, bem como um argumento mais complexo, embora "71" não deixe de se exibir como um filme capaz de explorar um território em ebulição e conseguir que nos importemos com esta jornada de Gary. O personagem interpretado por Jack O'Connell é um indivíduo que parece bem intencionado, que deambula por uma cidade pontuada por diversos perigos mas também algumas gentes que o ajudam, com este espaço a surgir como um território relativamente hostil para o protagonista. Os cenários externos são explorados assertivamente, ficando particularmente na memória quando o enredo se desenrola durante a noite, à chuva, e a incerteza contagia tudo e todos, com a banda sonora a contribuir para esta atmosfera de insegurança que envolve o militar. Mesmo os cenários interiores, tais como as casas e os bares, estão longe de simbolizarem segurança, enquanto os diferentes grupos lutam pela sua causa e por vezes até entre si, causando um rebuliço que é visível em situações como as disputas de poder entre Queen e Boyle. Até aqui fui injusto ao destacar apenas o nome de Jack O'Connell. Veja-se o caso de Sean Harris como um capitão longe de ser um exemplo moral, ou David Wilmot como uma figura pragmática que não tem problemas em efectuar acordos com o inimigo desde que isso implique a manutenção do seu estatuto e alguma paz para o território onde tem alguma influência. Temos ainda elementos como o jovem (Corey McKinley) que ajuda Gary, um garoto protestante, pronto a praguejar, que também quer ir para o exército, apresentando uma revolta notória pelo seu pai ter sido eliminado por elementos do IRA. Vale ainda a pena realçar Richard Dormer como Eamon, um católico que procura cuidar das feridas do protagonista numa fase onde este se encontra entre a vida e a morte, com Brigid (Charlie Murphy), a filha deste indivíduo, a temer as consequências se souberem que se encontram a ajudar um militar inglês.

O argumento não tem problemas em aventurar-se pelas questões políticas pelo meio desta jornada de sobrevivência, com a corrupção moral a fazer parte da ordem do dia de alguns personagens, mas também um quotidiano violento. A violência permeia boa parte da narrativa de "71", a ponto de poder surgir quando menos esperamos, seja uma bomba que explode e nos desfaz com as suas consequências, um tiro que é disparado, ou uma ajuda que afinal se revela uma tentativa de homicídio, com Gary a vivenciar alguns episódios marcantes. O desenvolvimento deste personagem, ancorado por uma interpretação digna dos mais variados elogios por parte de Jack O'Connell, permite que muitos dos episódios exibidos provoquem um maior impacto, com "71", no meio de toda a violência que nos expõe, a raramente deixar de lado as questões humanas e a exposição do complexo meio que envolve estas figuras. Veja-se o caso da perda de uma certa inocência por parte do protagonista diante da realidade que encontra, mas também a presença constante de crianças que acabam por se ver envolvidas no conflito, com "71" a ter a audácia de criar um personagem com quem facilmente geramos empatia para logo de seguida eliminá-lo e deixar-nos diante da crueza da guerra. Poderíamos ter um maior desenvolvimento das questões relacionadas com estes grupos e as unidades militares que se encontram no território, bem como uma maior contextualização que certamente iria incrementar esta luta de Gary para regressar à sua base com vida, embora o argumento de Gregory Burke nem sempre esteja para aí virado. Com uma banda sonora notoriamente capaz de incrementar a narrativa, uma interpretação intensa e carismática de Jack O'Connell, uma cinematografia sempre pronta a captar as emoções e um trabalho de montagem assertivo nos momentos de maior tensão, "71" transporta-nos para um território em conflito, ao longo de uma jornada de sobrevivência recheada de episódios marcantes, onde Yann Demange consegue surpreender pelo enorme à vontade que apresenta na realização de longas-metragens.

Título original: "'71".
Título em Portugal: "71".
Realizador: Yann Demange.
Argumento: Gregory Burke.
Elenco: Jack O'Connell, Richard Dormer, Sean Harris, Sam Reid, Charlie Murphy, Paul Anderson, Paul Popplewell.

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