05 setembro 2015

Resenha Crítica: "Z for Zachariah" (Os Últimos na Terra)

 Craig Zobel puxa pelos limites do seu elenco em "Z for Zachariah", uma obra cinematográfica emocionalmente intensa, onde as dúvidas em relação aos personagens masculinos e aos seus actos permeiam a narrativa, no interior de um espaço rural que tinha tudo para ser paradisíaco mas as circunstâncias transformam-no facilmente num território conspurcado pelo perigo e desolação. O elenco resume-se a dois actores e uma actriz, com Chiwetel Ejiofor, Chris Pine e Margot Robbie a apresentarem uma dinâmica notável como três figuras marcadas por notórias idiossincrasias, uma situação que aos poucos contribui para alguns conflitos internos, sobretudo a partir do momento em que o personagem interpretado pelo segundo entra em cena. Craig Zobel, o realizador, explora as dinâmicas do trio de forma exímia, criando uma atmosfera a espaços fervilhante em volta do mesmo, com o convívio entre os personagens a surgir pontuado por uma certa claustrofobia inerente às tensões entre os três e ao contexto que os rodeia. A qualquer altura podem explodir e deixar as emoções levarem a melhor, com Chiwetel Ejiofor e Chris Pine a sobressaírem pelo mistério que incutem às figuras que interpretam, enquanto Margot Robbie dá vida a uma mulher até então isolada de tudo e de todos que se depara com dois indivíduos que vão abalar o seu quotidiano. O contexto que os rodeia é sombrio e pouco animador. Uma catástrofe nuclear dizimou boa parte da população mundial, os recursos escasseiam, enquanto as dúvidas em relação à presença de mais seres humanos com vida é algo que pontua a existência dos protagonistas. Num conjunto de planos rápidos, precisos e concisos, ficamos diante da destruição provocada por esta catástrofe no território, existindo uma imensidão de espaços abandonados, onde a desolação parece ter tomado conta de tudo, até sermos apresentados a Ann Burden (Margot Robbie), uma mulher recatada e algo tímida, de educação religiosa, cabelos castanhos e um olhar que por vezes parece dispensar grandes palavras tais os sentimentos que é capaz de evidenciar. Ann vive sozinha, ou melhor, com a companhia do seu cão, na propriedade rural que pertencera outrora aos seus pais, um espaço que surpreendentemente não foi afectado pelo desastre nuclear que provocou a morte de boa parte da humanidade e contaminou os espaços de radioactividade. Margot Robbie procura inicialmente manter um tom discreto como esta personagem isolada de tudo e todos, que trata do trabalho da terra e das colheitas, tendo em vista a prevenir-se em relação à possibilidade de um Inverno rigoroso, ou a espaços visita a cidade abandonada com um fato para se precaver da radiação nuclear, em momentos onde a actriz praticamente não tem diálogos e nos convence do carácter forte mas também das fragilidades de Ann. A propriedade onde esta habita é marcada por três superfícies: a casa de Ann, o celeiro e a igreja onde o seu pai pregava, para além de um vasto espaço para esta cultivar. Diga-se que vai existir sempre uma dicotomia interessante ao longo da narrativa entre a imensidão do espaço que rodeia os protagonistas e a atmosfera opressiva que envolve os relacionamentos do trio, com as dúvidas em relação aos sentimentos de Ann para com cada um dos elementos masculinos e as intenções dos mesmos a estarem muitas das vezes em foco ao longo do enredo.

A propriedade de Ann é rodeada por longos espaços verdejantes, visualmente apelativos, com Craig Zobel a procurar afastar-se da representação de um território "pós-Apocalíptico" desprovido de cor e vida que por vezes associamos a filmes ou séries que incutem a temática. Os planos gerais, onde encontramos Ann nos momentos iniciais pelo território, permitem exactamente explorar esse já salientado contraste de um cenário externo imenso que teria tudo para ser um espaço idílico mas as contingências a que está sujeito ditam que se torne num local onde a vida está longe de ser agradável. A própria personagem interpretada por Margot Robbie exibe inicialmente um certo desleixo nas vestimentas, indicador de alguém que passa demasiado tempo isolado, sem sair da habitação ou conviver com alguém. Os seus pais partiram em busca de sobreviventes, tal como posteriormente partiria o seu irmão, com esta a parecer ter sido bastante próxima dos familiares e a sentir notoriamente a falta dos mesmos. Anne não é ingénua e sabe que a demora destes em regressarem pode estar associada à morte dos mesmos. Os efeitos da radiação fazem-se sentir no exterior a este espaço onde habita Anne, sendo uma incógnita se existem muitos mais territórios como este ou sobreviventes, algo que atribui características simultaneamente especiais e claustrofóbicas a este cenário que surge praticamente como um enclave entre a destruição e uma réstia de esperança para uma reconstrução. As dúvidas em relação aos sobreviventes são desde logo retiradas quando Ann encontra um veículo com um indivíduo vestido com um fato anti-radiação a circular num estranho veículo. Este indivíduo é John Loomis (Chiwetel Ejiofor), um engenheiro civil que traz a primeira grande alteração na narrativa e uma série de dúvidas em relação ao seu carácter e objectivos. Tira o fato. Grita de alegria ou pelo menos de alívio por finalmente encontrar um espaço livre de radiação, até se atirar para um local alimentado por uma cascata aparentemente marcada por água límpida. Ann corre em direcção a Loomis para o avisar que a água provém do território exterior, ou seja, que está contaminada. Ela aponta-lhe uma caçadeira, enquanto ele dirige-se com uma pistola, existindo um receio mútuo que é travado quando este corre em direcção a um aparelho para medir a radioactividade e percebe estar contaminado. A desconfiança inicial entre ambos evidencia desde logo o medo que permeia os sobreviventes, em tempos onde a disputa pelos recursos naturais podem conduzir ao despertar de um lado mais negro do ser humano. Ann ajuda Loomis, transportando-o para sua casa, acreditando que este é uma pessoa de boa índole. Ela acredita que existe algo a proteger o local, ele procura uma explicação científica para o fenómeno, com a educação religiosa e crença desta a contrastar com o ateísmo de John, ou este não fosse um indivíduo pragmático, ligado à ciência. Loomis demonstra um claro interesse no local a ponto de pretender instalar uma roda de água para aproveitar a energia hidráulica de forma a alimentar o gerador da propriedade. Ann reluta. Não é que seja contra a ideia de voltar a ter electricidade, bem pelo contrário. No entanto, o plano implica a destruição da igreja para a obtenção de madeira para o fabrico da roda e instalação da mesma, um acto que esta reluta em tomar não só devido aos seus valores religiosos mas também pelo facto deste espaço dedicado ao culto ter sido construído pelo seu pai. Loomis é ateu, ou pelo menos parece menos preocupado em destruir uma igreja, algo que contrasta com os valores da protagonista, uma situação que não parece demasiado preocupante, pelo menos até à entrada do misterioso Caleb (Chris Pine) em cena, um indivíduo que vai destabilizar por completo esta espécie de Éden que poderia ser criado pelos personagens interpretados por Chiwetel Ejiofor e Margot Robbie.

Aos poucos tinham vindo a estabelecer uma certa de proximidade, a ponto de Ann demonstrar interesse em manter relações sexuais com John, enquanto este parece pensar em algo entre ambos a longo prazo. O momento em que vão ao supermercado abandonado que se encontra nas imediações do terreno de Ann permite evidenciar uma faceta mais violenta de John, após embriagar-se em cenas onde parece certa a imprevisibilidade deste indivíduo algo manipulador, inteligente e inseguro. Inicialmente nem sempre sabemos os seus objectivos, nem o que esperar deste homem, que tanto parece respeitar a protagonista como apresenta uma personalidade mais ríspida e dominadora, sobretudo quando Caleb surge nas imediações e arrasa por completo com o balanço existente entre esta espécie de Adão e Eva, com esta aos poucos a deixar-se ir pelos caminhos da outra tentação. Caleb surge com um aspecto sujo, sendo um suposto trabalhador mineiro que sobreviveu devido a ter estado instalado num espaço subterrâneo. Tal como John, Caleb conta com um passado nem sempre recomendável e alguns segredos, com Craig Zobel a explorar o mistério que envolve estas figuras masculinas que tomam de assalto a vida de Ann e aos poucos mexem com os seus sentimentos. É sobre este trio que se concentra a narrativa, com Craig Zobel a explorar de forma exímia a dinâmica entre Margot Robbie, Chiwetel Ejiofor e Chris Pine, ao mesmo tempo que aborda questões ligadas com a religiosidade, a dicotomia entre a ciência e a crença em algo inexplicável, a relevância que a raça passa a ter para John a partir do momento em que se sente em minoria, o instinto de sobrevivência do ser humano, entre outras. Ainda são esboçados alguns momentos mais calmos entre o trio, algo notório quando a dupla masculina dialoga à mesa sobre o passado, junto de Ann, mas é certo que mais cedo ou mais tarde o ressentimento de John em relação a Caleb poderá levar a melhor, sobretudo quando o primeiro percebe que o personagem interpretado por Chris Pine começa a despertar o interesse da protagonista. A casa torna-se um espaço fervilhante, enquanto a construção da roda e colocação da mesma parece ainda ganhar mais perigos, com este objecto a surgir quase como um símbolo de uma procura destes personagens em modificarem este "Jardim do Éden" mas também em transformarem as suas vidas. A habitação de Ann, no seu interior, parecia manter-se praticamente igual a como os seus pais e irmão deixaram, com os cenários interiores a remeterem exactamente para essa ligação desta mulher à família. Esta situação é particularmente notória no quarto do irmão, onde fica instalado Caleb, com os diversos elementos pertencentes ao familiar a pontuarem o local. Temos ainda uma espécie de biblioteca no interior da casa, marcada por diversas estantes recheadas de livros, reveladoras dos hábitos de leitura da protagonista, algo exposto logo nos momentos iniciais quando vai buscar obras literárias à biblioteca local. A casa de Ann é inicialmente marcada pela falta de electricidade, com a luz que permeia a habitação a surgir do exterior ou das velas, algo que a espaços contribui para um clima mais intimista entre os personagens. Vale a pena reforçar. A dinâmica do elenco é essencial, com os relacionamentos entre o trio de protagonistas a tornarem-se claustrofóbicos e tensos. Margot Robbie incute quase sempre um sotaque associado aos territórios do Sul dos EUA a esta mulher religiosa, que tem no piano da igreja um aparelho musical que utiliza em alguns momentos de maior introspecção. A actriz começa a incutir gradualmente uma postura mais desenvolta à personagem que interpreta, com Ann a arranjar-se um pouco mais e a revelar inicialmente desejo por John e posteriormente por Caleb, com Margot Robbie a aparecer em bom plano. Os valores religiosos de Ann parecem marcar em parte a sua conduta (algo notório nas orações antes de comer, ou nas preces efectuadas, entre outros actos), enquanto acaba por se envolver numa espécie de triângulo amoroso com duas figuras que acaba praticamente de conhecer. As dúvidas em relação aos personagens masculinos são imensas, com Chris Pine e Chiwetel Ejiofor a conseguirem transmitir isso mesmo, embora o indivíduo que o primeiro interpreta pareça muitas das vezes mais bem intencionado que o do segundo. É certo que ambos mentem em relação ao seu passado e, em parte, sobre os planos para os tempos vindouros, embora seja John quem veja o seu quotidiano ser mais alterado, ou não estivesse já a dar por garantido que iria ter um futuro ao lado de Ann. Essa situação é visível quando recusa inicialmente ter relações sexuais com Ann, parecendo dar por garantido que esta situação poderá acontecer de forma mais ponderada, embora se arrependa deste acto a partir do momento em que Caleb entra em cena.

Caleb parece despertar alguma curiosidade e desejo na protagonista, visível numa troca de olhares quando estão a nadar ou noutros episódios onde "Z for Zachariah" revela-se parco em grandes diálogos mas imenso na quantidade de sentimentos que transmite. A banda sonora de Heather McIntosh tanto contribui para transmitir uma enorme melancolia como para incrementar essa atmosfera algo opressiva que rodeia as relações destes personagens, com o argumento de Nissar Modi, baseado no livro "Z for Zachariah" de Robert C. O. Brien, a explorar estas dinâmicas com enorme assertividade ao mesmo tempo que aproveita para desenvolver temáticas mais latas relacionadas com a conduta do ser humano diante de condições extremas. O perigo parece envolver estes personagens, mas também a incerteza, parecendo certo que não têm para onde ir, com a morte a poder ser a única forma de se livrarem de algum elemento indesejado. Veja-se o caso de Loomis, com este a parecer consumido pelo medo, a ponto de encontrar na raça algo que estranhamente o parece conduzir a menorizar-se. Dá a entender que tem algum interesse em Ann mas também nos bens que esta possui, com a entrada em cena de Caleb a modificar tudo, com Chiwetel Ejiofor a conseguir transmitir as dúvidas e o receio que o personagem que interpreta tem em relação a este elemento. A própria Ann exibe junto de Caleb algum desconforto pela pouca religiosidade de John, após inicialmente não se parecer preocupar imenso com isso, algo revelador da mudança de paradigma que este indivíduo trouxe à narrativa. O medo e as incertezas rodeiam estes personagens. Inicialmente o medo de parte a parte entre Ann e John, posteriormente em relação a Caleb, até sermos nós que ficamos na dúvida sobre o que poderá acontecer aos protagonistas, enquanto Craig Zobel faz o seu elenco sobressair, ou o filme não estivesse muitas das vezes dependente do trabalho dos actores com estes a contribuírem para elevar "Z for Zachariah". Existem algumas situações que ficam por explicar, tais como o facto de Ann necessitar de um fato anti-radiação para ir à biblioteca na cidade abandonada mas não necessitar do mesmo para ir ao supermercado num dos vários momentos onde o nosso sentido de descrença é testado. O realizador parece interessar-se verdadeiramente pelos personagens que povoam o enredo, embora não tenha problemas em colocá-los perante situações e decisões complicadas, deixando-nos diante de um desfecho que mais do que nos acalmar promete atormentar, enquanto se concentra neste espaço que parece à parte do resto do Mundo. O espaço do terreno de Ann é alargado mas o escopo da narrativa resume-se e muito a um conjunto bastante restrito de personagens cujas dinâmicas são exploradas de forma eficaz ao longo do enredo, pelo menos se "comprarmos" as ideias que Craig Zobel tem para nos dar. O cineasta evita grandes explicações em relação ao desastre natural, procurando antes concentrar-se no presente, numa narrativa com uma história aparentemente simples mas bem aproveitada, onde os possíveis romances estão longe de serem arrebatadores, embora nunca pareça que Craig Zobel tenha a intenção de colocar o espectador diante de uma obra pontuada por grandes momentos de romantismo, sobretudo quando os personagens masculinos parecem mover-se em demasia pelos campos do pragmatismo. Chris Pine, Margot Robbie e Chiwetel Ejiofor apresentam interpretações de bom nível, enquanto Craig Zobel aproveita com eficácia estes cenários que poderiam ser idílicos para contrastar o escopo grandioso dos mesmos com as dinâmicas entre um conjunto restrito de personagens, com o realizador a dinamizar a narrativa com uma enorme facilidade, despertando-nos dúvidas e aguçando-nos a curiosidade em relação a estas figuras.

Título original: "Z for Zachariah".
Título em Portugal: "Os Últimos na Terra".
Realizador: Craig Zobel.
Argumento: Nissar Modi.
Elenco: Margot Robbie, Chris Pine, Chiwetel Ejiofor.

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