10 setembro 2015

Resenha Crítica: "To Catch a Thief" (Ladrão de Casaca)

 Acompanhado por belas paisagens, uma dupla de protagonistas com um carisma e charme praticamente igualáveis, assaltos, reviravoltas, romance e algumas mentiras, "To Catch a Thief" é uma das obras mais leves de Alfred Hitchcock com este a utilizar com engenho diversos elementos associados ao seu estilo pessoal numa obra onde toda a equipa se parece ter divertido a ir tirar umas férias remuneradas à Riviera francesa para desenvolver um agradável pedaço de entretenimento. Tem alguma tensão, emoção e mistério, muito associados às obras de Alfred Hitchcock, mas também romance e sedução, num tom bastante leve, onde mais uma vez encontramos um indivíduo a ser falsamente acusado de um crime que não cometeu. Foi assim em "I Confess", "Strangers on a Train", entre outras obras realizadas por Alfred Hitchcock, cabendo a Cary Grant interpretar o elemento que se encontra a ter de lidar com as autoridades e com os antigos elementos da Resistência francesa com quem trabalhou durante a II Guerra Mundial, após um assaltante começar a cometer furtos a joias com o mesmo modus operandi de John Robie (Cary Grant), mais conhecido como o "O Gato". Nos momentos iniciais do filme ficamos diante de uns cartões postais a realçarem a França como um bom local turístico, com Hitchcock a não poupar no humor negro ao contrastar os mesmos com uma série de assaltos que vão colocar a segurança de John Robie em perigo, com este a ser o principal suspeito das autoridades que não vão ter problemas em dirigir-se à villa deste para o deter. Robie logo consegue escapar, numa fuga aparatosa, marcada por algum humor, acabando pelo caminho por dirigir-se ao restaurante de Bertani (Charles Vanel), um antigo elemento da Resistência que, tal como o protagonista, fora um criminoso antes de levar a cabo alguns actos mais altruístas, desconfiando de John, apesar de permitir que Danielle (Brigitte Auber), a filha de Foussard (Jean Martinelli), outro elemento do grupo, ajude o protagonista a escapar até ao Beach Club em Cannes. Danielle tem um fraquinho por Robie, algo que não tem problemas em exibir, bem como o seu inglês manhoso, enquanto este parece fazer-se desentendido em relação aos avanços da jovem. Neste local, Robie vai reunir-se com H. H. Hughson (John Williams), o representante da Lloyd's, uma empresa seguradora de Londres, com este último a ter conhecimento dos principais proprietários de joias da região. A questão é simples. Hughson pretende minimizar estragos em relação a potenciais roubos, enquanto John Robie pretende limpar o seu nome de forma a poder voltar a viver em liberdade, uma situação que o vai conduzir a procurar encontrar o falso "Gato" em flagrante e entregá-lo às autoridades. Inicialmente, tal como seria de esperar, Hughson não parece muito convencido em aceder aos pedidos do protagonista, mas um bom almoço, regado a um vinho caro, desfrutado numa paisagem belíssima, a juntar ao discurso eloquente do personagem interpretado por Cary Grant, conduzem a que o segurador entregue uma lista com os nomes e a lista de bens dos seis principais proprietários da região. Robie é um indivíduo bem falante, dado aos prazeres momentâneos da vida, que gosta de desfrutar de algum requinte, quer na comida, quer na roupa que utiliza, quer na sua luxuosa propriedade, surgindo com uma extrema elegância e gestos polidos que facilmente nos fazem esquecer que estamos diante de um mestre na arte do crime, ainda que aposentado dessas funções.

Cary Grant empresta muito do seu carisma ao personagem que interpreta, parecendo muitas das vezes nem estar a interpretar, acertando quer no timing dos momentos mais sérios, quer nos trechos mais cómicos, indo formar um par romântico marcante com Grace Kelly, com a dupla a parecer disputar qual dos dois apresenta mais classe e elegância. Com a lista dos principais proprietários de joias nas suas mãos, Robie logo entra em contacto com Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e a filha desta, Frances (Grace Kelly). Jessie é uma viúva faladora, na posse de joias com um valor considerável que logo aprecia a presença de Robie, enquanto a filha parece relativamente indiferente ao mesmo até beijá-lo de forma surpreendente quando se despedem à noite. Robie faz uma cara de surpreendido, nós esboçamos um sorriso, enquanto se gera uma relação ambígua entre estes personagens, com Frances a parecer saber mais sobre o protagonista do que indica, com Alfred Hitchcock a deixar pistas que esta pode ser o "gato" embora estas não se comprovem. Pelo caminho, assistimos a Robie e Frances a irem à praia, a visitarem villas, a almoçarem juntos com uma paisagem paradisíaca como pano de fundo, com Cary Grant e Grace Kelly a espalharem carisma e estilo, utilizando roupas pensadas a rigor, com estes a serem a classe em pessoa, formando uma dupla elegante, capaz de nos convencer da atracção e receio mútuo de um em relação ao outro, conseguindo ir da fala mais mordaz à mais romântica em pouco espaço de tempo. Grace Kelly é uma das muitas protagonistas loiras que povoam as obras de Alfred Hitchcock, tendo colaborado com o mesmo em "Rear Window" (este seria o último trabalho do realizador antes desta se tornar a "Princesa do Mónaco"), embora em "To Catch a Thief" tenha mais possibilidade de sobressair, quer pela dinâmica que Frances tem na narrativa, quer pela classe necessária que esta atribui à personagem que interpreta. Frances é uma jovem mimada, que parece gostar de correr alguns riscos, com o seu guarda-roupa a parecer ter sido pensado ao pormenor, existindo todo um cuidado para que Grace Kelly apresente roupas que parecem saídas de um catálogo de modelos, com esta a apresentar uma aura que a aproxima das divindades. A química entre Grace Kelly e Cary Grant é fulcral para o enredo muitas das vezes funcionar, com um assalto às joias de Jessie a colocar a confiança de Frances em baixa em relação ao protagonista. Anteriormente beijaram-se e tiveram um momento de maior intimidade no quarto de Frances, com Alfred Hitchcock a não poupar mais uma vez nos innuendos sexuais ao entrecortar estas cenas com imagens de fogo de artifício, um pouco a fazer recordar a célebre cena do comboio a penetrar um túnel a indicar que algo mais se estaria a passar entre Roger Thornhill (Cary Grant) e Eve Kendall (Eva Marie Saint) em "North by Northwest". Diga-se que as obras de Alfred Hitchcock, sobretudo as mais primorosas, contam com um trabalho de montagem sublime que permite efectuar estas associações ou atribuír intensidade ao enredo (veja-se o caso de "Strangers on a Train", onde o jogo de ténis do protagonista é intercalado pela preparação da fuga por parte da namorada e a tentativa do antagonista em recuperar um isqueiro que poderá ser importante para incriminar o primeiro), com "To Catch a Thief" a apresentar essa inspiração para um momento de maior leveza. O próprio tom do filme, apesar de um ou outro momento de maior suspense e tensão, é quase sempre de leveza, embora Robie tenha de lidar com a perseguição da polícia e dos antigos elementos da Resistência que consideram que este está a manchar a sua boa reputação (também outrora foram criminosos pelo que não acham piada à ideia da polícia circundar o espaço do restaurante), enquanto procura pela identidade do "gato" falso.

Os cenários externos são paradisíacos, enquanto os espaços internos são reveladores do luxo que rodeia o quotidiano destes elementos (veja-se o baile de máscaras no último terço), com Alfred Hitchcock a aproveitar o glamour destes locais para apresentar um filme que remete para as obras de assalto ao mesmo tempo que nos deixa diante de um romance entre dois personagens carismáticos. No final ficamos diante de uma obra leve, muito menos intensa do que trabalhos como "Rope", "Vertigo", "Rear Window", "The Birds", "Psycho" que marcaram a carreira do cineasta, embora exista muito para degustar. As interpretações de Cary Grant e Grace Kelly são dois elementos que despertam desde logo a nossa atenção, com a dupla a revelar um enorme à vontade, parecendo certo que Alfred Hitchcock soube escolher dois protagonistas que não seriam esmagados diante da beleza dos cenários paradisíacos que os rodeiam, tal como não seriam abafados um pelo outro. O cineasta povoa a narrativa ainda de alguns personagens secundários dignos de algum relevo, tais como Jessie Stevens, com Jessie Royce Landis a explorar a faceta faladora e meio descarada da mulher que interpreta (a cena na qual apaga um cigarro num ovo estrelado é memorável). Jessie parece pouco preocupada em perder as joias, encontrando-se no local para desfrutar dos prazeres do mesmo, enquanto procura juntar a filha com o protagonista. Temos ainda Brigitte Auber como Danielle, uma jovem sem grandes problemas em hostilizar Frances, guardando alguns segredos que se vão revelar comprometedores ao levar a admiração por Robie a um outro nível. Não falta ainda a habitual participação especial de Alfred Hitchcock, num momento hilariante onde o rosto surpreendido de Robie ainda incrementa mais a situação que facilmente nos faz esboçar um sorriso. O protagonista acaba por ter de lidar com uma série de problemas para descobrir a identidade do falso "gato", tendo de comprovar a sua inocência junto das autoridades e de Frances, uma tarefa complicada que apenas será conseguida no último terço. Até lá procuramos descobrir a identidade do "gato" e perceber se Robie está mesmo inocente, enquanto este se aventura pelo território em busca de pistas. Este encara a descoberta do verdadeiro "gato" como uma questão de honra, acabando pelo caminho por também sucumbir aos encantos de Frances, com Alfred Hitchcock a criar uma obra recheada de charme (a remeter muito para os caper films), um argumento aparentemente simples e uma dupla de protagonistas que segura a narrativa com enorme facilidade. "To Catch a Thief" pode não atingir o estatuto de outras obras cinematográficas realizadas por Alfred Hitchcock mas nem por isso deixa de revelar-se um pedaço de cinema aprazível e sedutor, tendo no romance entre os personagens interpretados por Cary Grant e Grace Kelly um dos pontos altos, com a dupla a oferecer aquilo que poderíamos esperar de um dueto com um carisma, talento e à vontade próprios dos predestinados.

Título original: "To Catch a Thief".
Título em Portugal: "Ladrão de Casaca".
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: John Michael Hayes.
Elenco: Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis, John Williams, Charles Vanel, Brigitte Auber.

Sem comentários: