30 setembro 2015

Resenha Crítica: "Tirez sur le pianiste" (1960)

 Charlie Kohler (Charles Aznavour), o protagonista de "Tirez sur le pianiste", uma obra cinematográfica realizada por François Truffaut, procura ocultar o seu passado e viver de forma discreta, sem chamar à atenção, nem criar grandes ondas, apresentando uma timidez latente e um enorme talento para tocar piano, apesar de trabalhar num bar com ares de espelunca que pertence a Plyne (Serge Davri) e à sua esposa. É um espaço marcado pelo consumo de álcool e pelo engate, onde tanto podem ocorrer episódios tão naturais como casais a dançarem como surgir um gangster em fuga ou iniciar-se uma discussão que termina numa morte, ou contarmos com música bem audível ou silêncios cortantes. Num flashback descobrimos que Charlie outrora foi um pianista de sucesso, tendo sido casado com Thérèse (Nicole Berger), uma mulher que o traiu para que Lars Schmeel (Claude Heymann), um empresário, desse uma oportunidade ao protagonista. Este episódio irá atormentar Thérèse a ponto de cometer suicídio, com Charlie, até então a utilizar o nome de nascença Edouard Saroyan, a procurar recomeçar a sua vida praticamente do zero como Charlie Kohler. No entanto, se toca piano com uma precisão notável, com Truffaut a colocar-nos por vezes diante do funcionamento das peças do instrumento, já a sua vida promete descontrolar-se por completo quando Chico Saroyan (Albert Rémy), o seu irmão mais velho, entra no bar para fugir de dois gangsters que o perseguem. Já não contactavam há cerca de seis anos, mas o reencontro promete trazer repercussões dolorosas para o protagonista. Albert Rémy interpreta uma figura distinta do protagonista, menos polida a nível dos gestos, pouco dado a viver dentro da legalidade, aparecendo em destaque logo nos momentos iniciais quando se espalha no meio do chão durante a fuga até entrar no bar onde trabalha Charlie. Chico e Richard (Jean-Jacques Aslanian), este último mais um dos irmãos de Charlie, participaram num golpe com Ernest (Daniel Boulanger) e Momo (Claude Mansard), acabando por fugir com todo o dinheiro, algo que conduz estes dois últimos a perseguirem os familiares do protagonista. Charlie, ou melhor, Edouard, que sempre procurou fugir a este estilo de vida dos irmãos, mas acaba por se ver envolvido neste caso após ajudar o familiar a escapar, com Ernest e Momo a perseguirem o protagonista tendo em vista a obterem informações sobre o paradeiro de Chico.

O personagem interpretado por Charles Aznavour vive com Fido (Richard Kanayan), o seu irmão mais novo, num apartamento modesto, onde recebe regularmente a visita de Clarisse (Michèle Mercier), uma prostituta que habita no mesmo prédio, uma mulher que mantém uma relação de relativa proximidade com o pianista. Este é um indivíduo algo introvertido, que procura passar despercebido mas nem por isso deixa de despertar a atenção de Léna (Marie Dubois), a empregada de mesa do bar onde trabalha, uma mulher de enorme beleza e simpatia, acabando também ela por se tornar alvo dos criminosos. O momento em que Léna e Charlie saem juntos do trabalho, pontuado pela pouca iluminação típica dos cenários nocturnos, não só é revelador dos perigos que os rodeiam mas também da timidez do protagonista, com François Truffaut a dar mais uma vez uma enorme atenção aos gestos, algo que vai ser recorrente ao longo de diversas obras cinematográficas, tais como "Jules et Jim" e "La peau douce", com a cinematografia de Raoul Coutard, um colaborador habitual, a sobressair nesse quesito. Veja-se quando temos planos aproximados das mãos do protagonista, enquanto a narração em off permite-nos ficar diante das dúvidas que perpassam a mente de Charlie enquanto está ao lado de Léna, existindo toda uma atenção em explorar os sentidos e os sentimentos do pianista. O protagonista pensa no que dizer a Léna, pensa no que fazer, mas acaba por ver a sua caótica linha de pensamento ser cortada quando Ernest e Momo os perseguem neste espaço citadino nocturno, com Charlie e a colega a terem de se esconder até mais tarde exporem os seus sentimentos. A narração em off, a utilização exímia dos close-ups e dos cenários externos, os jump cuts, a traição, a incerteza relacionada com uma relação do foro sentimental, as referências literárias, são elementos e temáticas que envolvem alguns dos trabalhos de Truffaut, um dos nomes proeminentes da chamada Nouvelle Vague (diversas das técnicas utilizadas são recorrentes nos filmes de cineastas deste movimento) que tem também aqui uma espécie de homenagem aos filmes noir dos EUA. Não falta a presença dos personagens marcados por alguma imoralidade, a atmosfera de malaise, o contraste exímio entre luz e sombras, o clube nocturno, entre outros elementos, com Charles Aznavour a contribuir e muito para nos acreditarmos nas dicotomias do personagem que interpreta. Charles Aznavour interpreta com acerto um indivíduo introvertido, com o seu rosto a ser muitas das vezes contido nas emoções, contando com uma postura dicotómica entre a confiança demonstrada diante do piano e a atitude quase letárgica e fatalista com que muitas das vezes parece encarar a vida. Nem por isso deixa de despertar a atenção das mulheres ou de se envolver com as mesmas, algo notório em relação a Clarisse e Léna, com esta última a considerá-lo diferente dos outros homens.

Marie Dubois explora a faceta simultaneamente frágil e forte da personagem que interpreta, uma mulher que facilmente desperta a atenção dos homens, incluindo de Plyne, com as constantes rejeições a fazerem com que este último revele a sua faceta menos recomendável ao revelar a morada desta e de Charlie aos dois gangsters. Estes surgem quase sempre como representantes de uma ameaça, apesar de François Truffaut não parecer estar interessado em fazer um filme exclusivamente de gangsters, algo que pode explicar momentos peculiares como Momo e Ernest a conversarem sobre mulheres quando se encontram no carro com Charlie e Léna, ou a atitude mais incompetente desta dupla (ou Momo a dizer que a mãe dele caía morta se estivesse a mentir e Truffaut coloca-nos diante da imagem da senhora a ter um colapso), embora os seus efeitos nefastos se venham a fazer sentir de forma dolorosa, sobretudo no último terço da narrativa. Mais do que estar preocupado em criar um filme sobre gangsters, François Truffaut parece acima de tudo procurar explorar o drama humano que envolve o protagonista, a sua personalidade atormentada, a tentativa constante do mesmo em proteger Fido, ou o jovem também não estivesse na mira dos criminosos, bem como a maneira como Léna parece momentaneamente modificar um pouco a sua vida. Um flashback deixa-nos a saber bastante sobre este pianista que quase sempre teve de aprender a lidar com a timidez, procurando fugir à carreira dos seus irmãos no mundo do crime, embora também se envolva inadvertidamente em imbróglios, com Charles Aznavour, um músico que integrou o elenco de diversas obras cinematográficas, a exibir com competência as dúvidas desta figura. A cidade de Paris surge como um local marcado pela insegurança, pelo menos para o protagonista. Veja-se a já citada cena nocturna, quando Charlie se encontra ao lado de Léna, após saírem do trabalho, que é paradigmática dessa situação, numa obra onde mesmo os cenários mais remotos pontuados pela presença da neve estão longe de enregelarem os sentimentos, ou não fosse num local do género onde se encontra a habitação dos irmãos do protagonista, com o realismo a pontuar em alguns momentos a exposição destes cenários. A música tem um papel fulcral ao longo desta narrativa onde as relações nem sempre têm o destino desejado e a felicidade parece soçobrar diante de uma realidade que está longe de ser a mais efusiva, com François Truffaut a atribuir uma atmosfera noir a "Tirez sur le pianiste", uma obra cinematográfica que muito tem dos elementos associados à Nouvelle Vague e ao cineasta, naquela que é mais uma demonstração de talento do mesmo numa fase ainda inicial da sua carreira como realizador.

Título original: "Tirez sur le pianiste".
Título em Portugal: "Disparem Sobre o Pianista".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: François Truffaut e Marcel Moussy.
Elenco: Charles Aznavour, Marie Dubois, Nicole Berger, Michèle Mercier, Albert Rémy.

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