28 setembro 2015

Resenha Crítica: "A Surpresa" (De Surprise)

 "De Surprise" marca o regresso de Mike van Diem à realização de longas-metragens após ter dirigido "Karakter", um filme agraciado pelo Oscar de Melhor Filme em língua não inglesa em 1997, com o cineasta a ter recorrido ao Crowdfunding para ter retirado o seu novo projecto do papel num modelo onde os investidores também recebem uma parte das receitas de bilheteira da obra cinematográfica. O resultado final é uma obra cinematográfica agradável, marcada por uma mescla de leveza e melancolia, uma premissa interessante e uma narrativa onde são abordadas temáticas como o suicídio assistido (ou se preferirem "por encomenda") e a solidão, tendo como protagonistas uma dupla peculiar que a espaços nos surpreende e agarra ao enredo. Não falta algum romance, humor, mas também algum drama e reviravoltas capazes de dinamizarem a narrativa e a espaços surpreenderem-nos ou pelo menos não aborrecerem quando as esperamos, mas também uma simplicidade notória que joga a favor de "De Surprise". É uma obra que procura ficar com um pé na fantasia e outro na realidade, onde um indivíduo surge incapaz de sentir ou expor sentimentos, algo solitário e alienado da sociedade que o rodeia, procurando cometer suicídio, uma tarefa que parece ser incapaz de colocar em prática, pelo menos até conhecer a "Elysium", uma empresa secreta que presta esse tipo de serviços aos seus clientes. Este indivíduo é Jacob van Zuylen de With (Jeroen van Koningsbrugge), um excêntrico multimilionário que é praticamente incapaz de sentir emoções e sensações, com o seu quotidiano a ser marcado por um enorme sentimento de vazio, a ponto do falecimento da mãe servir de alavanca de ignição para aproveitar para colocar o seu plano em prática. A miríade de funcionários que envolve a sua propriedade, incluindo Cornald Muller (Jan Decleir), o administrador deste espaço, acaba por sabotar, ainda que involuntariamente, os planos do protagonista, algo que envolve uma série de gags (incrementados pela banda sonora), pelo menos até este ficar diante um elemento misterioso que atira um indivíduo de uma ravina. O indivíduo misterioso deixa cair uma placa onde consta o nome da Elysium e a morada da mesma. Esta é uma empresa secreta e ilegal dirigida por Mr. Jones (Henry Goodman), um indivíduo aparentemente simpático que propõe os mais diversos catálogos de mortes aos clientes (ou como este designa "viagens") incluindo um que é considerado "surpresa" que, como o título indica, será o escolhido por Jacob. É neste local que Jacob conhece Anne de Koning (Georgina Verbaan), também ela uma cliente, uma mulher que promete mudar o quotidiano deste indivíduo algo que promete ser recíproco. Supostamente não se deveriam contactar mas estabelecem logo diálogo quando se encontravam a escolher os respectivos caixões. Anne e Jacob voltam a quebrar as regras ao contactarem posteriormente e estabelecerem uma relação de proximidade e afinidade que resvala para o foro amoroso, uma situação que conduz o protagonista a duvidar deste serviço que encomendou a ponto de tentar adiar a sua colocação em prática.

As regras são claras: a decisão é irreversível, até para proteger os interesses da "empresa de viagens" que pretende ficar no anonimato. Esta situação conduz a que o protagonista seja alvo de Asif (Ankur Bahl), Moshin (Naveed Choudhry), Halim (Oliver Gatz) e Khuram (Ronny Jhutti), os quatro filhos de Mr. Jones, mas também procure a todo o custo reverter a decisão de vender a casa, após ter dado essa ordem, lidando com um advogado corrupto, enquanto descobre alguns segredos sobre Anne que prometem surpreendê-lo e trazer mais ingredientes a uma narrativa que gradualmente vai ficando mais condimentada e movimentada. A relação entre Jacob e Anne é um dos elementos centrais e fulcrais do enredo, com "De Surprise" a desenvolver com alguma eficácia a típica história de um homem e uma mulher cujas vidas mudaram a partir do momento em que se conheceram e começaram a conviver um com o outro. Ambos não podem ser mais diferentes, sobretudo a partir do momento em que conhecemos alguns segredos de Anne. Jeroen van Koningsbrugge consegue exibir alguma da dificuldade do seu personagem em sentir emoções, ou expor as mesmas, algo exibido desde logo nos momentos iniciais, quando este demonstra uma atitude algo fria diante da morte da progenitora e da venda da larga mansão da família. A partir do momento em que se começa a relacionar mais com Anne, não só encontramos Jacob a mudar um pouco os seus comportamentos, como Jeroen van Koningsbrugge exibe competência nestas transformações, quer nas cenas de maior seriedade e romantismo (veja-se quando a dupla se encontra a trocar uns passos de dança na praia), quer nas fugas rocambolescas e nos trechos de maior acção. Os poucos passatempos de Jacob passam por dançar, bem como coleccionar carros, com a atracção por estes a ser algo que marca a personalidade de Anne. Esta é uma mulher que pretende ser budista, que parece acreditar na vida após a morte e no karma, que aos poucos forma uma relação agradável com o protagonista, com Georgina Verbaan a explorar tanto um lado mais frágil e misterioso desta personagem como uma faceta pronta para a pancada. Não vai faltar humor físico em "De Surprise", mas também cenas de acção e alguns episódios peculiares, com a Elysium a surgir como um exemplo paradigmático da bizarria que envolve o universo destes personagens. Veja-se que estamos diante de uma empresa que procura prestar o serviço de eliminar os seus clientes de forma a cumprir os desejos dos mesmos, apresentando um leque alargado de opções, com Mr. Jones a parecer levar a sério este negócio. Quem também leva a sério o seu ofício é Cornald, um indivíduo de idade algo avançada que surge como um dos personagens secundários em maior destaque na narrativa, com Jan Decleir a incutir algum carisma a este indivíduo vetusto que procura zelar pelos interesses do protagonista e da propriedade do mesmo. 

A melancolia provocada pelo falecimento da esposa consome Cornald, tal como descobrimos que uma perda relevante conduziu o protagonista a apresentar dificuldades latentes em sentir. O sentimento de perda é algo de comum à dupla de protagonistas, com Anne a ser órfã, tendo sido adoptada pelo casal de vizinhos. Inicialmente parece bem mais frágil do que aquilo que é na realidade mas indica sentir algo de genuíno em relação ao protagonista, com "De Surprise" a conseguir criar uma empatia entre a dupla de protagonistas e o espectador a ponto de muitas das vezes aceitarmos as improbabilidades da narrativa. Jacob tinha aparentemente tudo para ser feliz mas, tal como em muitos casos de depressão, sente um enorme vazio na sua vida, com "De Surprise" a não surpreender na abordagem do indivíduo que conhece uma mulher que altera o seu quotidiano, embora também não seja uma comédia romântica totalmente inócua ou não abordasse algumas temáticas relevantes. É certo que falta profundidade na abordagem dos temas, incluindo na questão do suicídio assistido ou talvez o termo mais correcto seja "suicídio contratado", bem como na temática da depressão e até podemos questionar as divagações dos personagens sobre uma possível vida depois da morte, mas também existe uma procura sincera em nos deixar diante de figuras solitárias que chegam a uma situação onde preferem colocar um fim à sua existência ao invés de viverem num marasmo, com Jacob a começar aos poucos a repensar aquilo que pretende para o seu futuro. Não é propriamente uma temática agradável e o filme procura evitar encaminhar-se para situações mais profundas, embora a espaços não deixe de contar com um tom negro, com Jacob e Cornald a protagonizarem um episódio emotivo e comovente no último terço. Cornald cuidara da propriedade de Jacob com enorme zelo, com esta mansão a surgir como um espaço de largas dimensões que, quando o protagonista fica a sós, após dispensar os seus funcionários, ainda adensa mais a sua solidão. Temos ainda momentos estranhamente ternos, tais como o protagonista a dar a mão a Anne quando espera que um camião se dirija em direcção aos mesmos, acabando por sentir um calor humano que não esperava, num trecho de estranho romantismo ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica que flutua sobretudo pelas águas do romance. O argumento é relativamente eficaz, tendo sido inspirado num conto da autoria de Belcampo, com Mike van Diem a criar uma obra agradável de acompanhar, que se encontra longe de surpreender mas é convincente o suficiente para nos prender, sobretudo devido à sua dupla de protagonistas e às situações peculiares em que Anne e Jacob são envolvidos.

Título original: "De Surprise".
Título em Portugal: "A Surpresa". 
Realizador: Mike van Diem.
Argumento: Mike van Diem.
Elenco: Jeroen van Koningsbrugge, Georgina Verbaan, Jan Decleir, Henry Goodman.

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