12 setembro 2015

Resenha Crítica: "Strangers on a Train" (1951)

 Não falta tensão vertiginosa, um inocente erroneamente acusado de um crime, inquietação e suspense em "Strangers on a Train", um filme onde um indivíduo desequilibrado e extremamente falador prepara-se para colocar um plano macabro em prática acabando pelo caminho por procurar incriminar o protagonista. É um thriller psicológico inquietante, marcado pela habitual capacidade de Alfred Hitchcock em gerar o suspense junto do espectador mas também por um excelente trabalho de montagem, visível quer na cena do carrossel do último terço, quer no jogo de ténis do personagem principal. Estas são intercaladas com outras cenas que adensam a inquietação em volta dos momentos citados, com "Strangers on a Train" a apresentar uma argúcia sublime a explorar a dinâmica entre Guy Haines (Farley Granger) e Bruno Anthony (Robert Walker), com o segundo a propor ao personagem interpretado por Farley Granger a participação num duplo homicídio supostamente perfeito e à prova de falhas. Guy Haines é um tenista com alguma fama, sobretudo devido ao seu envolvimento amoroso com Anne Morton (Ruth Roman), a filha do senador Morton (Leo G. Carroll), com quem o protagonista trabalha ou pelo menos pretende trabalhar, apresentando ambições no campo político. O caso entre Haines e Anne ganha mais repercussão devido a este ainda ser casado com Miriam (Laura Elliott), uma mulher infiel, que se encontra grávida de outro homem e não tem pretensões em ceder o divórcio. Por sua vez, Bruno Anthony é um bon vivant, que vive numa mansão decorada de forma requintada, juntamente com a mãe (Marion Lorne), uma mulher que parece tratá-lo como uma criança (veja-se a gravata que o instiga a utilizar com o nome Bruno gravado mas também os diálogos trocados entre ambos), que tem na pintura um hobby, e o pai (Jonathan Hale), um indivíduo relativamente austero, que financia todas as despesas da casa. Bruno odeia o pai, aproveitando encontrar Guy no comboio para meter conversa com o tenista. Finge não gostar de conversar mas fala pelos cotovelos, procurando jantar com Guy ao mesmo tempo que lhe expõe a sua ideia de assassinato perfeito. Diga-se que os protagonistas ou alguns dos personagens secundários que povoam algumas das obras cinematográficas realizadas por Alfred Hitchcock partilham desse desejo de colocar em prática o assassinato perfeito ou pelo menos que não seja descoberto, algo que vai desde "Strangers on a Train" a "Rope", passando por "Rear Window" e "I Confess", entre outros exemplos que podem ser dados. Bruno é também um dos psicopatas com comportamentos polidos que encontramos nas obras do cineasta, com este a parecer alguém inteligente, embora claramente perturbado, com Robert Walker a encarnar de forma sublime a faceta deliciosamente maliciosa do personagem que interpreta, um indivíduo que se vai aproveitar das fraquezas do protagonista e jogar com as mesmas a seu favor.

Walker expõe as suas falas com enorme vivacidade e à vontade, criando um personagem complexo, manipulador e capaz de distorcer aquilo que lhe dizem a seu favor, não tendo problemas em cometer os actos mais atrozes desde que isso o faça sentir-se bem consigo próprio. Existe ainda uma procura de Alfred Hitchcock em deixar subentendido que o personagem é homossexual, quer nas suas expressões, quer nas suas abordagens a Guy, embora tudo fique bastante subentendido devido à censura da época, uma situação salientada por Roger Ebert: "Although homosexuality still dared not speak its name very loudly in 1951, Hitchcock was quite aware of Bruno's orientation, and indeed edited separate American and British version of the film -- cutting down the intensity of the "seductiveness" in the American print". Nesse sentido, Bruno propõe a Guy que este último elimine o seu pai, enquanto o primeiro assassinaria Miriam, uma situação que permitiria que ninguém desconfiasse de ambos, ou pelo menos não tivessem provas contra os mesmos, já que supostamente são meros estranhos e não têm motivos para cometerem o crime. Guy encara o discurso de Bruno pouco a sério, quase como se estivesse a lidar com um tipo desequilibrado mas inconsequente, esquecendo-se do seu isqueiro na posse do personagem interpretado por Robert Walker. O protagonista desce então em Metcalf, onde se reúne com Miriam para tentar tratar do divórcio. Esta troça de Guy, aproveita-se do dinheiro que este disponibiliza para o pagamento dos advogados e deixa-o em estado de fúria a ponto deste ligar a Anne a confessar o desejo de estrangular a esposa, uma situação que ganha contornos perigosos se tivermos em conta os acontecimentos posteriores. Perante o insucesso em conseguir finalmente avanços no processo de divórcio, com Miriam a revelar-se uma aproveitadora, Guy parte de novo no comboio até casa. O que este não esperava é que Bruno fosse seguir Miriam e decidisse estrangulá-la, uma situação que este pode ter ponderado num momento de fúria mas não teria coragem, nem frieza de colocar em prática. As cenas são de enorme inquietação, com Alfred Hitchcock a conseguir mais uma vez gerir de forma exímia o timing dos acontecimentos, tendo em vista a jogar com as expectativas do espectador. Assistimos a Bruno a seguir Miriam num parque de diversões em espaços como o carrossel, pelo "Túnel do Amor", até apanhá-la num local escuro, onde os dois amigos da mesma não a podem ver, acabando por assassiná-la sem contemplações. O acto é exibido através do reflexo dos óculos de Miriam (mais uma decisão inspirada de Alfred Hitchcock), caídos no chão, que serão entregues ao protagonista, quase como se Bruno encarasse os mesmos como um troféu de caça. Posteriormente, Bruno pede que Guy cumpra a sua parte do acordo, que é como quem diz, assassinar o pai do primeiro, um acto que o protagonista nunca se comprometeu a colocar em prática. Gera-se um jogo psicológico entre os dois, com Bruno a parecer decidido a que Guy elimine o pai, mesmo que para isso tenha de se começar a envolver na vida social do personagem interpretado por Farley Granger. Com medo de poder ser considerado cúmplice pela polícia, Guy decide omitir o conhecimento que tem sobre a morte de Miriam, apesar de vir a ser considerado um dos principais suspeitos já que o professor Collins, o indivíduo com quem o protagonista falou no comboio quando regressava até casa, encontrava-se num estado demasiado alcoolizado para se recordar dos momentos em que falaram. Guy passa assim a ser o principal suspeito da polícia, tendo ainda de lidar com Bruno, uma situação que lhe vai valer alguns momentos adversos, apesar de contar com o apoio de Anne, bem como da irmã desta última, Barbara (Patricia Hitchcock).

Anne acaba por descobrir toda a verdade, com o caso a tornar-se cada vez mais perigoso para os envolvidos. Veja-se que Bruno chega a entrar num evento social onde Guy está presente, gerando um enorme desconforto, a ponto de começarmos a ficar cada vez mais inquietos com as possíveis consequências deste perigoso jogo psicológico, enquanto Alfred Hitchcock parece deliciar-se a explorar as possibilidades do mesmo. A polícia suspeita que Guy é o homicida, enquanto Bruno não parece desarmar, algo visível num jogo de ténis onde o primeiro terá de vencer de forma rápida, fugir da polícia e dirigir-se até Metcalf, onde o antagonista pretende colocar o isqueiro no local do crime de forma a culpabilizar o personagem interpretado por Farley Granger e assim vingar-se do facto deste não ter assassinado o progenitor. São momentos sublimes, quer a nível de interpretações e de trabalho de câmara mas também de montagem, para além de ser impossível deixar de realçar a banda sonora. O jogo de ténis é entrecortado por cenas das duas irmãs a prepararem o transporte para Guy entrar em fuga, mas também por Bruno a procurar retirar o isqueiro de uma sarjeta onde o deixara cair, apresentando um enorme nervosismo. Diga-se que nestes momentos Alfred Hitchcock deixa quase todos em alta tensão: Guy quer vencer rapidamente o desafio para chegar a Metcalf a tempo de apanhar Bruno ao mesmo tempo que tem de ludibriar as autoridades que pretendem detê-lo; Bruno apresenta um enorme receio em não recuperar o isqueiro, entrando num estado de grande nervosismo e histeria que surpreende os elementos à sua volta; as irmãs Anne e Barbara assistem nervosamente ao jogo, enquanto a última trata de distrair um dos polícias e do transporte de Guy. As cenas são elaboradas de forma sublime, com a cinematografia, a montagem e a qualidade das interpretações a elevarem ainda mais estes momentos, algo adensado por uma boa construção dos personagens, uma situação que contribui para gerar um maior impacto a nível emocional junto do espectador. Diga-se que ainda teremos uma vertiginosa cena num carrossel, onde também nós parecemos ser transportados para este remoinho de emoções iniciado numa conversa aparentemente idiota num comboio. Baseado no livro homónimo de Patricia Highsmith, "Strangers on a Train" coloca-nos diante deste intrincado jogo psicológico entre a dupla de protagonistas, enquanto ficamos perante diversos elementos que se encontram presentes noutras obras de Alfred Hitchcock, entre os quais: o protagonista erroneamente acusado de um crime ou de um acto que não cometeu (veja-se por exemplo o caso de "I Confess"); o criminoso de gestos polidos; a relação complicada entre um personagem e um dos progenitores (geralmente costuma ser a mãe, mas no caso de "Strangers on a Train" o antagonista apresenta claros problemas com o pai, apesar da sua progenitora também ser uma figura bastante peculiar); o mistério e tensão; a participação especial do cineasta; alguns elementos de romance; a utilização exímia da banda sonora e dos cenários, entre outros exemplos que podem ser dados. Ficamos diante de uma obra negra, marcada por um jogo psicológico entre um psicopata e um tenista amador que pode trazer estragos, com Farley Granger e Robert Walker a protagonizarem momentos marcantes, ambíguos e intensos quando estão em conjunto. A conversa entre Guy e Bruno no comboio já indicava algum perigo, com as persianas do transporte a permitirem uma bela utilização das sombras, com estas a surgirem quase como se fossem as barras de uma prisão.

A cinematografia é sublime no jogo de luz e sombras, para além de sobressair na capacidade de contribuir para a atmosfera inquietante do filme, com a própria utilização de alguns ângulos meio inusitados (veja-se a distorção apresentada no assassinato de Miriam) a identificarem algum nervosismo e incerteza. Diga-se que os personagens principais contam com um futuro pouco previsível, com o destino de ambos a estar sempre dependente da argúcia que tiverem a livrarem-se das situações nas quais estão envolvidos. Farley Granger surge como um elemento à altura de Robert Walker, apresentando uma postura distinta do seu colega, ou seja, menos falador, atribuindo uma maior fraqueza a Guy, um elemento que não parece levar a sério o plano do seu interlocutor mas acaba por ter de lidar com algumas consequências do mesmo sem conseguir desfazer-se da companhia desta estranha figura. Guy apresenta mais valores, ou pelo menos mais barreiras morais do que Bruno, procurando respeitar a lei, tendo como grande desejo viver de forma sossegada com Anne, algo que não implica que num determinado momento da narrativa tenha desejado que a esposa falecesse. Ruth Roman, apesar da sua personagem apenas esporadicamente ter alguma influência na narrativa, surge quase sempre como uma peça secundária de luxo deste tabuleiro de xadrez onde Patricia Hitchcock também tem espaço para sobressair, sobretudo devido ao facto de Barbara apresentar claras parecenças com a falecida, algo que vai perturbar Bruno, ainda que temporariamente. Alfred Hitchcock parece divertir-se a colocar os sentimentos destes personagens à flor da pele, com o jogo psicológico iniciado por Bruno a colocar Guy em perigo. Estes confrontam-se, embora Guy pareça temer mais o seu interlocutor do que o contrário, com Bruno a apresentar um comportamento hedonista onde apenas a satisfação dos seus prazeres lhe parece interessar, evidenciando uma confiança notória nas suas ideias. É uma relação marcada por alguma irrisão, com Guy a não ser também um personagem propriamente ingénuo embora também não pretendesse que fossem cometidas mortes, ou pelo menos não tem a coragem para tal acto apesar de desejar o mesmo, gerando-se um constante confronto entre a dupla. Diga-se que a procura de Guy em esconder o acto de Bruno encontra-se também relacionada com a possibilidade deste caso poder manchar a sua reputação, com o segundo a parecer claramente apreciar toda esta situação que causou, não tendo problemas ao "assombrar" o protagonista com a sua presença. A banda sonora contribui para cadenciar muitos destes momentos, com "Strangers on a Train" a ser ainda marcado pela habitual perícia de Alfred Hitchcock em gerir o suspense. Veja-se quando Guy entra na casa de Bruno para avisar o pai deste último, sobe a escadaria (típico dos filmes do cineasta), depara-se com o cão da família até encontrar o personagem interpretado por Robert Walker ao invés do progenitor do mesmo. É um filme inquietante e intenso, no qual os sentimentos andam quase sempre à flor da pele, onde um plano macabro é colocado em prática por um psicopata, enquanto Alfred Hitchcock revela-se exímio a gerir as expectativas do espectador e a criar mais uma obra cinematográfica marcante.

Título original: "Strangers on a Train". 
Título em Portugal: "O Desconhecido do Norte-Expresso".
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Raymond Chandler, Whitfield Cook, Czenzi Ormonde.
Elenco: Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock.

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