02 setembro 2015

Resenha Crítica: "Southpaw" (2015)

 Desde alguns filmes da saga "Rocky", passando pelo incontornável "Raging Bull" e os não menos recomendáveis "Million Dollar Baby", "Champion", "The Harder They Fall", "The Fighter", entre tantos outros, o boxe é uma modalidade que tem despertado um enorme apelo junto do grande público e na Sétima Arte. "Southpaw" fica a meio caminho, perdendo-se entre algum excessivo melodrama e uma estrutura narrativa previsível, embora seja elevado por interpretações dignas de toda a atenção por parte de Jake Gyllenhaal e Forest Withaker, bem como por uma história de redenção que facilmente nos envolve. Gyllenhaal interpreta Billy Hope, um pugilista até então invicto, casado com Maureen (Rachel McAdams), uma paixão que mantém desde a juventude, de quem tem uma filha, a jovem Leila (Oona Laurence). No início do filme encontramos Billy a vencer um combate onde apresenta algumas dificuldades perante o adversário, parecendo começar a demonstrar algum desgaste, após uma carreira oficialmente imaculada, contando com quarenta e três vitórias. Fora dos ringues, é provocado e desafiado por Miguel "Magic" Escobar (Miguel Gomez), um pugilista que procura disputar o título de campeão com o protagonista, embora o desejo de Maureen seja que o esposo abandone a profissão enquanto está em alta, tem uma vida estável e não conta com lesões graves. Este decide acatar a decisão, ou não parecesse amar incondicionalmente a esposa, com os momentos iniciais a serem marcados pela intimidade apresentada por ambos. No entanto, o feitio intempestivo de Billy conduz a que responda a uma provocação de Miguel Escobar, num evento de beneficência, onde se encontrava presente a entourage de ambos. Um tiro é disparado por um dos elementos ligados à segurança dos pugilistas, acertando em Maureen, que acaba por falecer nos braços de Billy. O desespero deste é óbvio. A esposa era o seu maior baluarte, algo que o leva a entrar numa espiral descendente, enquanto o filme se embrenha pelo melodrama. Billy perde o primeiro combate, perde a guarda da filha, perde os seus bens, enquanto Jordan Mains (50 Cent), o seu empresário, deixa-o na penúria, passando a representar Miguel. As agruras que Billy vai conhecer são mais do que muitas. Este é um pugilista que cresceu num orfanato, tal como a falecida esposa, que conseguira dar a volta por cima e de um momento para o outro encontra-se a zeros, com o filme a procurar estabelecer de forma rápida a queda do protagonista em desgraça. A filha deixa de o querer ver nas visitas que faz ao centro de acolhimento, numa situação inexplicável do enredo, ou não tivéssemos poucos momentos antes a rapariga a gritar pelo pai em tribunal, após este ter perdido a guarda da mesma devido a comportamento incorrecto e o estado caótico em que se encontra. Jake Gyllenhaal atribui dimensão a este personagem, seja em que momento for da narrativa, mesmo quando o argumento resolve embrenhar-se pelo melodrama pronto a fazer chorar "as pedras da calçada" e a entrar por rumos onde não exibe sensibilidade suficiente para conseguir que os mesmos soem credíveis, com a própria realização de Antoine Fuqua a deixar pouco espaço para o espectador pensar no que sentir em relação aos acontecimentos do filme, com tudo a ser muito denunciado. Gyllenhaal evita tropeços maiores de "Southpaw" ao transformar-se fisicamente e mentalmente no personagem, ao expor com eficácia os sentimentos do pugilista, apresentando uma dinâmica assinalável com "Tick" Wills (Forest Whitaker), o treinador de um pequeno ginásio.


 Forest Whitaker é a par de Jake Gyllenhaal outro dos nomes em destaque no elenco, como este técnico, um ex-pugilista que treinou um dos poucos adversários que deu luta ao protagonista, a ponto de apenas ter perdido devido à maior influência de Jordan Mains junto dos jurados, com o actor a incutir um enorme carisma e precisão a esta figura carismática. "Tick" procura treinar os jovens carenciados, dar-lhes disciplina e educação, acabando por ser um baluarte importante para o protagonista, tal como será a filha, sobretudo a partir do momento em que regressa aos treinos e mais tarde ou mais cedo sabemos que será convidado para disputar o título com o novo campeão, Miguel Escobar. Não vão faltar as cenas de treino emotivas, bem como um combate final bem coreografado que promete envolver o espectador nesta luta onde está em jogo muito mais do que o título. Também não vão faltar diversos momentos onde "Southpaw" apela em excesso ao sentimento do espectador de forma gratuita, abordando de forma deslavada temáticas relevantes como a dureza da vida de alguns jovens que frequentam o ginásio de "Tick" e aquele bairro povoado por gentes humildes e/ou depauperadas, a dor sentida pela filha de Billy e pelo próprio, com o argumento de Kurt Sutter a ser pouco dado a subtilezas apesar de criar um protagonista que facilmente prende o espectador à narrativa. Mérito do argumento ou de Jake Gyllenhaal? Inclino-me imenso para o lado do segundo, com Gyllenhaal a entregar-se de corpo e alma ao personagem, num desempenho que comprova mais uma vez uma boa fase da carreira deste talentoso actor. Este convence-nos da dor do personagem, da procura genuína deste em redimir-se para estar junto da filha, da sua fúria nos ringues e a amizade que forma com "Tick". Diga-se que inicialmente era Eminem quem estava cotado para o papel, parcialmente inspirado em momentos da vida do rapper, embora este tenha posteriormente decidido concentrar-se no mundo da música, contribuindo com canções como "Kings Never Die" e "Phenomenal" (para os trechos do treino) para a banda-sonora de "Southpaw", a última da carreira de James Horner (entretanto falecido). O filme conta ainda com diversos elementos secundários que muitas das vezes não saem dos lugares-comuns. "50 Cent" como o empresário ganancioso; Miguel Gomez como o antagonista odioso que nunca consegue despertar a simpatia do espectador; Rachel McAdams como a esposa agradável à vista que apoia o marido e a filha em tudo; Naomie Harris como uma assistente social que contacta de perto com Billy e a filha, entre outros. Diga-se que, com um argumento mais subtil na exposição das temáticas e mais competente no desenvolvimento dos personagens secundários, "Southpaw" poderia ser mais uma grande adição aos filmes sobre este desporto que é muitas das vezes mais apelativo no grande ecrã do que na realidade. No entanto, se não fossem as interpretações de Jake Gyllenhaal e Forest Whitaker provavelmente "Southpaw" nem rondaria a mediania, com a realização de Antoine Fuqua a estar longe de atingir o nível do desempenho de Billy Hope nos ringues, com o seu apelido a ser utilizado para o trocadilho óbvio. O título remete para a expressão utilizada para os pugilistas esquerdinos, com Billy a surgir como um atleta que procura quase sempre dar o seu melhor nos ringues, de onde raramente sai derrotado e parece ser capaz de aguentar uma enorme quantidade de pancada, encontrando-se a sofrer devido à morte da esposa e pela ausência da filha, parecendo preocupar-se claramente com esta última. Diga-se que este personagem é um resistente. Ao longo de boa parte do filme andou a levar pancada de um argumento pouco subtil, previsível e recheado de lugares-comuns, mas nem por isso consegue que nos desinteressemos totalmente da sua história, com "Southpaw" a estar longe de conseguir conciliar com competência o drama humano com a emotividade nos ringues embora também não nos atire por completo para fora do "ringue cinematográfico". Fica a ideia que Antoine Fuqua poderia ter feito melhor se contasse com um argumento mais aprumado à sua disposição, com "Southpaw" a sobressair sobretudo devido às interpretações de Jake Gyllenhaal e Forest Withaker, mas também por um último terço onde as emoções parecem tomar conta dos personagens e do espectador.

Título original: "Southpaw".
Título no Brasil: "Nocaute":
Realizador: Antoine Fuqua.
Argumento: Kurt Sutter.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Naomie Harris, Miguel Gomez, "50 Cent".

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