05 setembro 2015

Resenha Crítica: "She's Funny That Way" (Ela é mesmo... o máximo!)

 Com um tom farsesco, um conjunto de situações delirantes, diversos mal-entendidos, identidades trocadas e imensa confusão, "She's Funny That Way" procura recuperar diversos elementos das comédias screwball, naquele que é o regresso de Peter Bogdanovich à realização cinematográfica, após mais de uma década de ausência, com o cineasta e argumentista a reunir um elenco relativamente talentoso que é capaz de encarnar com alguma energia o ritmo frenético com que decorre a narrativa. Em certa medida, "She's Funny That Way" remete-nos para "What's Up Doc?", uma comédia screwball realizada por Peter Bogdanovich, pontuada por uma enorme química entre Barbra Streisand e Ryan O'Neal, mas também situações completamente delirantes, mal-entendidos, falas inteligentes, um conjunto alargado de personagens que no último terço acabam quase todos por se reunir, gags bem elaborados e diversas menções que remetem para a cinefilia do cineasta (no caso de "She's Funny That Way", a própria banda sonora, os protagonistas masculinos sexualmente activos mas frustrados, os relacionamentos complicados entre homens e mulheres, entre outros exemplos, remetem para alguns dos trabalhos de Woody Allen, incluindo "Mighty Aphrodite", onde o protagonista procurou conhecer a mãe de sangue do seu filho adoptivo, descobrindo que esta é uma prostituta, acabando por ajudá-la a mudar de vida). Tal como em "What's Up Doc?", o espaço de um hotel vai ter um papel preponderante, enquanto Bogdanovich transporta-nos para uma série de situações rocambolescas e mal-entendidos, com o desenvolvimento da peça da Broadway "A Grecian Evening" a tornar-se caótico. No início do filme somos apresentados a Isabella (Imogen Poots), uma antiga acompanhante, enquanto se encontra a ser entrevistada por Judy (Illeana Douglas), com a primeira a contar-nos, em flashbacks, a sua chegada ao mundo do espectáculo, numa história onde nem sempre nos acreditamos que tudo aquilo que nos é apresentado é verdade no contexto da narrativa, ou os episódios não nos fossem expostos através do ponto de vista da protagonista (a própria salienta "memory isn't a video camera"). Imogen Poots tem uma interpretação marcada por um certo charme. Não nos faz a rir a bandeiras despregadas (o próprio humor do filme resulta mais dos sorrisos pelas situações farsescas do que pelas one-liners, embora estas também estejam presentes), o seu falso sotaque do Brooklyn inicialmente é incomodativo embora aos poucos o efeito negativo se esbata, com Poots a criar uma dinâmica interessante com os diversos colegas de elenco, em particular com Owen Wilson, ao mesmo tempo que Peter Bogdanovich se parece divertir em interligar as histórias das várias figuras que pontuam a narrativa de "She's Funny That Way". A procura do argumento em explorar a ideia de uma actriz em tentar exibir o seu passado é algo que nos remete para a tentativa de diversos elementos ligados ao mundo do espectáculo de elaborarem uma persona relacionada com os próprios, com Peter Bogdanovich a jogar com esta situação, enquanto brinca com uma série de referências cinéfilas que vão desde actores e actrizes como Audrey Hepburn, Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Lana Turner, passando por filmes como "Breakfast at Tiffany's" e "Cluny Brown", com este último a ter uma especial relevância na narrativa, incluindo nos hilariantes momentos finais (com o realizador a mostrar mais uma vez a sua reverência para com Ernst Lubitsch). A própria Isabella procura acreditar nos mitos sobre Hollywood ao invés de se cingir às histórias reais, algo exposto logo nos momentos iniciais, enquanto esta procura também criar uma narrativa sobre a sua pessoa. Uma das figuras que mais se destaca no elenco, a par de Poots, é Owen Wilson, com o actor a interpretar Arnold (Owen Wilson), um realizador da Broadway casado com Delta Simmons (Kathryn Hahn), uma actriz, de quem tem dois filhos. O casamento entre ambos parece relativamente sólido, com ambos a trabalharem juntos, embora Seth Gilbert (Rhys Ifans), um actor que costuma protagonizar as peças de Arnold, esteja constantemente a fazer-se a Delta, demonstrando um interesse de longa data na mesma.

 Arnold e Seth têm em comum não só o interesse por Delta mas também pelas acompanhantes fornecidas por Vickie (Debi Mazar), algo revelador das frustrações sexuais destes indivíduos, com o primeiro a indiciar ter uma relação sexual pouco activa com a esposa e o segundo a parecer ser incapaz de ter um caso sólido. É num desses encontros que Isabella, conhecida no mundo das acompanhantes por Glow, se reúne com Arnold, que dá o nome falso de Derek para este tipo de situações, num hotel onde também se encontra instalado Seth, com este último a casualmente descobrir o encontro entre os personagens interpretados por Owen Wilson e Imogen Poots. Owen Wilson atribui muito do estilo que estamos habituados a ver no actor ao personagem que interpreta, algo que se pode ainda associar a Rhys Ifans, com Peter Bogdanovich a parecer tentar inserir a personalidade dos intérpretes nos indivíduos a quem dão vida. Diga-se que numa entrevista bastante interessante concedida ao The Film Stage, Peter Bogdanovich salientou que é essa capacidade de transmitir parte da sua personalidade que o conduziu, em parte, a seleccionar Owen Wilson para o papel: "(...) They don’t want to be a personality actor, mostly because they can’t because they don’t have any personality to give. So the first thing that appealed to me about Owen is that he was the type of actor that you’re talking about, an old-style movie star". Owen Wilson interpreta um realizador com uma personalidade peculiar, capaz de se envolver em enormes enrascadas, ou não tivesse por hábito pagar um valor considerável às acompanhantes para estas poderem mudar de vida, algo que vai acontecer com Isabella. A dinâmica entre Owen Wilson e Imogen Poots é estabelecida com enorme facilidade, algo notório na procura deste em efectuar todo um périplo distinto com "Glow", jantando com esta num restaurante indiano, passeando de coche por Nova Iorque, até finalmente irem para a cama. Completo o serviço, este procura saber dos objectivos da jovem, oferecendo-lhe trinta mil dólares para seguir com os seus sonhos e procurar iniciar uma carreira no mundo da representação, algo que esta efectua, sem que exista um iniciar de uma relação amorosa entre ambos ou algo que se pareça. O que esta se encontrava longe de imaginar é que Derek é Arnold, indo participar numa audição onde se encontram presentes não só o protagonista, mas também Seth (que a vira no hotel), Delta e Josh Fleet (Will Forte), o argumentista da peça. Todos parecem considerar que Isabella é a actriz perfeita para a peça, onde tem de interpretar uma prostituta, algo que não deixa de ser irónico, embora Arnold exiba algumas reticências, com os personagens interpretados por Owen Wilson e Imogen Poots a ficarem surpreendidos com a presença um do outro. Josh demonstra deste logo interesse em Isabella, convidando-a para jantar num restaurante italiano, apesar de ainda manter uma relação com Jane Claremont (Jennifer Aniston), uma psiquiatra neurótica que, por sua vez, tem Isabella como cliente mas também o juiz Pendergast (Austin Pendleton), um indivíduo que se encontra obcecado com a acompanhante e não se conforma com o facto desta ter desistido da profissão. Pendergast contrata os serviços de Harold Fleet (George Morfogen), um detective privado que, como podem depreender pelo apelido, é pai de Josh. A juntar a este grupo alargado de personagens temos ainda Nettie (Cybill Shepherd) e Al Finkelstein (Richard Lewis), os pais de Isabella, mas também uma série de figuras femininas que interpretam antigas acompanhantes que viram as suas vidas mudadas por Arnold, ou melhor, Derek. Aos poucos estes personagens acabam quase todos por ver o seu destino entrelaçado ao longo da narrativa, com Peter Bogdanovich a colocá-los no meio do caos no interior deste enredo frenético onde as confusões são mais do que muitas, com o cineasta a procurar explorar as dinâmicas entre os diversos elementos do elenco, enquanto os actores e actrizes procuram estar à altura do desafio.

 Alguns apresentam interpretações notoriamente exageradas, algo visível na figura de Jennifer Aniston, com esta a dar vida a uma psiquiatra ainda com mais problemas em controlar-se do que os seus clientes, tendo uma enorme facilidade em contar situações particulares dos seus pacientes. A actriz atinge por vezes um tom histriónico, propositado no âmbito da personagem a quem dá vida, uma figura feminina que também se envolve no meio deste contexto meio louco de personagens, embora, nem todas as situações resultem. Imogen Poots é quem mais sobressai com esta a interpretar uma mulher que se encontra a relatar o seu passado e chegada ao mundo artístico, uma "prostituta de bom coração", aparentemente pouco confiante em relação ao seu talento como actriz. A sua chegada à vida de Arnold surge como um ponto de viragem para este homem algo atrapalhado, com o momento em que se reencontram, na audição para a peça, a ser marcado por um nervosismo mútuo. Esta parece despertar a atenção de tudo e todos, tendo nos seus pais duas figuras peculiares, com Bogdanovich a voltar a colaborar com Cybill Shepherd, numa obra cinematográfica onde não vão faltar uma série de reviravoltas, referências cinematográficas, para além de participações especiais, com Quentin Tarantino a entrar brevemente e com estrondo permitindo exibir na perfeição o tom farsesco de "She's Funny That Way". A narrativa ziguezagueia entre o presente e o passado, com diversos segredos a serem revelados, enquanto os ensaios de uma peça e a vida privada dos envolvidos na mesma e daqueles que os rodeiam conhecem um conjunto de situações rocambolescas. Veja-se quando encontramos Delta a ir ter ao quarto de hotel de Seth, após ter descoberto que o esposo requisita o serviço de acompanhantes, deparando-se com uma prostituta na casa de banho do quarto do personagem interpretado por Rhys Ifans. Sai furiosa e procura falar com o esposo, no quarto do hotel do mesmo, acabando por se deparar com Isabella no local, após esta última se dirigir ao quarto de Arnold para falar sobre os mal-entendidos que ocorreram entre ambos, algo que vai resultar em mais um... mal-entendido. Os próprios ensaios da peça vão contar com alguns episódios caricatos, bem como alguns encontros entre os personagens, com Peter Bogdanovich a utilizar os acasos do destino para os reunir. Veja-se quando Arnold e Delta vão jantar no restaurante italiano, o mesmo local onde se encontram Joshua e Isabella, mas também Jane e Pendergast, com este estabelecimento a parecer um barril de pólvora onde a qualquer momento podemos assistir a uma enorme confusão. Parte do humor do filme resulta destas situações inusitadas criadas por Peter Bogdanovich, mas também das dinâmicas entre os personagens. É certo que o humor nem sempre funciona, em algumas situações é notório algum desleixo (uma mão a segurar por trás um esquilo de peluche e a mover o copo onde este se encontra apoiado é algo que remete para uma falta de cuidado que não esperaríamos de um cineasta com esta experiência), que o elenco cumpre mas falta alguém como Barbra Streisand em "What's Up Doc?" que era capaz de acertar em cheio no timing dos momentos de humor, a expor as falas a uma velocidade impressionante e a incutir uma enorme naturalidade nas situações mais caricatas que protagonizava, com Peter Bogdanovich a realizar um trabalho que longe de genial ou irreverente, também se encontra distante de merecer a aspereza e alguma indiferença que tem vindo a conhecer. Por vezes parece que poderia existir um esforço maior em desenvolver os casos amorosos mantidos pelos personagens, a ponto de nos preocuparmos mais intensamente com os seus destinos, mas o realizador parece preferir seguir um caminho distinto, com estes a parecerem joguetes de um jogo maior que o cineasta tem planeado de antemão, algo notório no caso entre Joshua e Isabella, onde se torna praticamente indiferente se estes vão ou não ficar juntos, ao contrário do que acontecia por exemplo em "What's Up Doc?", para dar um exemplo de um trabalho do género onde Peter Bogdanovich se revelou a um nível muito superior. Entre mal-entendidos, situações rocambolescas, relações que se iniciam e terminam, "She's Funny That Way" marca um regresso satisfatório de Peter Bogdanovich à realização cinematográfica, com este a realizar uma comédia farsesca que consegue prender quase sempre a nossa atenção e despertar alguns sorrisos mas também deixar a sensação que já vimos o cineasta a fazer melhor.

Título original: "She's Funny That Way". 
Título em Portugal: "Ela é mesmo... o máximo!". 
Realizador: Peter Bogdanovich.
Argumento: Louise Stratten e Peter Bogdanovich.
Elenco: Owen Wilson, Imogen Poots, Kathryn Hahn, Will Forte, Rhys Ifans, Jennifer Aniston, Cybill Shepherd.

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