21 setembro 2015

Resenha Crítica: "Shaun the Sheep Movie" (A Ovelha Choné - O Filme)

 Desde referências cinéfilas tão distintas como a "The Silence of the Lambs", "The Night of the Hunter" e "Monty Python and the Holy Grail", passando por gags pontuados por alguma criatividade que procuram chegar ao público de diferentes idades, "Shaun the Sheep Movie" surge como mais um exemplo da chancela de qualidade da Aardman Animations, com o estúdio a voltar a não desiludir, numa obra cinematográfica em claymation corajosa que prescinde dos diálogos (o significado dos grunhidos dos personagens nunca é perceptível) e revela uma inteligência notória no seu argumento. Não vão faltar referências sobre a cultura de massas/popular, com muita mordacidade à mistura, comentários sobre os abrigos para animais e o próprio ser humano, para além de momentos recheados de energia e criatividade ou outros tão simples como piadas como arrotos ou um indivíduo que fica com a cabeça presa no traseiro de um cavalo de trapo, algo revelador desta procura de Richard Starzak (um dos responsáveis pela série "Shaun the Sheep") e Mark Burton, a dupla de realizadores e argumentistas, em tornarem "Shaun the Sheep" uma obra dinâmica, simultaneamente acessível e inteligente. A história é desenvolvida de forma eficaz, com os diferentes episódios que envolvem o grupo de protagonistas a serem reunidos de forma relativamente orgânica e coerente. Logo nos créditos iniciais somos apresentados de forma rápida a alguns dos personagens que povoam a quinta onde se encontra a ovelha Shaun (Choné cá no burgo), mas também a Bitzer, o cão que tem de colocar a propriedade em ordem e executar as ordens do fazendeiro. As rotinas destes elementos são apresentadas de forma rápida e recheada de humor, até Shaun ver um autocarro com um letreiro relacionado com a necessidade de tirar folga, algo que a leva a elaborar um plano para distrair Bitzer e adormecer o fazendeiro, tendo em vista a organizar uma festarola na casa e tirar alguns momentos de descanso com as outras ovelhas. O problema é quando a caravana onde se encontra o fazendeiro é movida de forma acidental, avançando descontroladamente pelas estradas até chegar à cidade onde um acidente caricato conduz a que este indivíduo tenha perda temporária de memória, a ponto de não reconhecer Shaun, as restantes ovelhas e Bitzer. O canino seguira a caravana do dono até à cidade, enquanto Shaun e as ovelhas deslocam-se posteriormente, com todos a terem de lidar com um território distinto da quinta, contando pelo caminho com a ameaça de Trumper, um indivíduo de personalidade pouco recomendável que trabalha a capturar os animais que se encontram abandonados nas ruas, transportando-os para um abrigo semelhante a uma prisão.

  Shaun, Bitzer e as restantes ovelhas procuram reencontrar o dono, acabando pelo caminho por perceber que a missão ainda vai passar por terem de fazer com que o mesmo recorde a memória após se ter tornado no famoso "Mr. X", um cabeleireiro que cortou o cabelo a uma celebridade e criou uma nova tendência de moda. A figura de Mr. X representa uma celebridade instantânea, criada a partir do nada, prometendo desaparecer com a mesma velocidade com que apareceu, com o filme a abordar de forma leve situações bem reais, incluindo a facilidade com que as modas são seguidas, a necessidade dos trabalhadores terem direito a folgas (através de Shaun), ou a própria dificuldade da sociedade em conseguir tratar da melhor forma os animais abandonados (exposto com alguns exageros à mistura através da figura de Trumper e do abrigo muito à "The Silence of the Lambs"), ao longo de uma obra cinematográfica construída de forma inteligente, onde visualmente somos conduzidos a perceber e acreditar em todos estes episódios sem a existência de diálogos, embora tenhamos uma banda sonora que a espaços se faz sentir e de que maneira. Não vão ainda faltar disfarces hilariantes, um episódio delirante das ovelhas num restaurante (numa fase da narrativa onde Bitzer ainda não se tinha reunido com as mesmas nestes espaço citadino), fugas pela cidade e de uma prisão, enquanto os protagonistas procuram escapar a Trumper, recuperar o fazendeiro e regressarem à rotina de outrora, numa obra cinematográfica onde existe todo um cuidado notável na elaboração destes personagens e na inserção dos mesmos nos cenários (algo notório ainda na utilização dos adereços e afins). A animação é efectuada em claymation, existindo toda uma minúcia notável, sobretudo se tivermos em conta que muito daquilo que funciona ao longo do filme também se encontra inerente aos gestos e expressões dos personagens, enquanto a dupla de realizadores diverte-se a colocá-los diante de uma quantidade generosa de situações que tanto podem ter de hilariante como de tensas, com Shaun e companhia a viverem uma aventura intrincada. Pelo caminho encontram figuras tão perigosas como Trumper, ou simpáticas como Slip, um cachorrinho que se encontrava no abrigo para animais, ou porcos prontos para a festa, enquanto Shaun e Bitzer são obrigados a temporariamente unir esforços ao longo desta obra cinematográfica. A primeira aparição da carismática ovelha Shaun foi na curta-metragem "A Close Shave", protagonizada pelos não menos célebres Wallace e Gromit, tendo sido criada por Nick Park, com a popularidade a ser tal que assistimos à criação da série "Shaun the Sheep", com a adaptação da mesma ao grande ecrã a ter sido um desafio ganho da Aardman. "Shaun the Sheep Movie" não poupa no humor e na inteligência ao longo de uma história bem construída e desenvolvida, salpicada com diversas referências cinéfilas e muito ritmo, sendo notório que existiu todo um cuidado em relação aos detalhes, quer a nível do visual, quer a nível do enredo, com Richard Starzak e Mark Burton a exibirem uma enorme criatividade.

Título original: "Shaun the Sheep".
Título em Portugal: "A Ovelha Choné - O Filme".
Título no Brasil: "Shaun: O Carneiro".
Realizadores: Richard Starzak e Mark Burton.
Argumentistas: Richard Starzak e Mark Burton.
Elenco vocal original: Justin Fletcher, John Sparkes, Omid Djalili.

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