07 setembro 2015

Resenha Crítica: "Seven - 7 Pecados Mortais"

 Existe uma enorme tensão, violência e mistério a rodear "Seven", um brilhante thriller realizado por David Fincher, onde um psicopata se encontra a cometer um conjunto de crimes hediondos associando cada um destes aos sete pecados mortais. A figura deste psicopata é inicialmente um mistério, com os seus actos a criarem uma aura de imprevisibilidade, loucura e maldade que contribui para o impacto que este indivíduo sádico causa quando surge pela primeira vez diante do espectador. David Fincher começa por nos chocar com estes corpos mortos resultantes de assassinatos sangrentos que vão desde um indivíduo obeso ser obrigado a comer até morrer, um advogado a quem foi retirado o seu sangue até falecer, entre outras mortes, enquanto o assassino coloca mensagens como "gula", "preguiça", "avareza", associadas aos sete pecados mortais. A identidade do assassino é desconhecida durante grande parte da narrativa, com "Seven" a conseguir suster de forma dinâmica a investigação desenvolvida pelas forças policiais, sobretudo pela dupla de protagonistas David Mills (Brad Pitt) e William Somerset (Morgan Freeman), dois detectives do departamento de homicídios de uma cidade sem nome. David Mills é relativamente novato na função, tendo sido transferido recentemente para esta esquadra, enquanto William Somerset encontra-se prestes a reformar-se. Mills é impetuoso, por vezes algo arrogante e sempre pronto a entregar-se de corpo e alma ao trabalho. Somerset já apresenta alguma passividade e ponderação, não apreciando inicialmente a procura de Mills em envolver-se num trabalho que até então tinha sido praticamente liderado por si, encontrando-se supostamente a sete dias de iniciar a reforma. Estamos numa relação profissional quase a fazer recordar Martin Riggs e Roger Murtaugh, a dupla de protagonistas da saga "Arma Mortífera", embora num plano mais sério, com David Fincher a raramente dar descanso ao espectador e a estar longe de elaborar um buddy cop movie, com o cineasta a revelar-se mais uma vez exímio a explorar os jogos psicológicos entre os protagonistas e a(s) figura(s) que surge(m) como antagonista(s). A própria câmara de filmar por vezes acompanha de forma incessante os personagens (com Darius Khondji a adoptar um método algo inspirado na série "COPS", sobretudo nas cenas de acção), enquanto Mills e Somerset procuram descobrir o assassino a todo o custo. Pelo meio, ainda existe tempo para Tracy (Gwyneth Paltrow), a simpática esposa de David, convidar William para jantar na habitação do casal, de forma a aproximar os até então algo afastados detectives. Até neste espaço de maior calor humano e aparentemente acolhedor, onde Mills brinca com os seus cães quase como se fosse uma criança, a cidade parece revelar-se como um espaço de irrisão, com o apartamento a tremer perante cada passagem do metro, com o casal a desconhecer esta particularidade da casa no acto da sua compra.

O momento do jantar permite uma maior aproximação entre Somerset e Mills, com estes a fazerem de tudo para "juntarem as peças" deste puzzle macabro de difícil resolução e assim descobrirem a identidade do assassino e detê-lo. Já anteriormente tínhamos assistido Somerset a procurar referências literárias na biblioteca local, como Inferno de Dante, tendo em vista a encontrar informações que possam ter sido utilizados pelo assassino, ou este não tivesse deixado citações de "O Mercador de Veneza" e "Paraíso Perdido" de John Milton. Somerset fornece algumas informações a Mills, com a dupla a procurar adivinhar os próximos passos do antagonista, existindo quase sempre um certo sentimento de perigo no interior desta cidade marcada pelo crime. Esta é uma cidade exposta de forma algo estilizada, marcada por fortes chuvas, gentes moralmente corruptas, assassinos impiedosos, com a cinematografia de Darius Khondji a contribuir para esta atmosfera opressora e claustrofóbica que rodeia o enredo. Mills ainda não se encontra bem habituado a este local, bem como a sua esposa, embora nem por isso procure impor os seus métodos, apresentando um conjunto de ideais fortes, pronto a combater o crime e a injustiça, algo que por vezes o conduz a tomar algumas atitudes irreflectidas e a embater de frente com o destino. Já tem alguma experiência na função mas não a suficiente para estar precavido para lidar com tudo o que este serial killer prepara para a sua vida, com o último terço a ser arrasador do ponto de vista emocional. O comportamento irascível de Mills é contrastado com a maior ponderação e presença de Somerset, com David Fincher a conseguir criar uma interessante dupla de protagonistas, enquanto Brad Pitt e Morgan Freeman revelam uma dinâmica convincente como estes dois polícias prontos a combater o crime, apesar das suas diferenças a nível de personalidade. Brad Pitt e Morgan Freeman são os elementos em maior destaque, embora caiba a Kevin Spacey interpretar o personagem mais marcante do filme. De cabelo rapado, olhar penetrante e perturbador, voz pronta a transmitir-nos alguma ansiedade e inquietação, Spacey faz com que a descoberta da identidade do assassino não tire fulgor ao filme, bem pelo contrário. Este pretende castigar os pecadores, escolhendo as vitimas consoante cada um dos sete pecados mortais que constam no Antigo Testamento, algo a que o título faz alusão. Pensa estar a fazer justiça divina e a elaborar obras-primas, mas é apenas um psicopata, capaz de deixar alguém preso a uma cama durante um ano, apesar do indivíduo em questão até ser um criminoso. A descoberta de John Doe só é feita numa fase mais avançada do filme, com este a saber jogar com a dupla de protagonistas, arquitectando um plano que nos surpreende, com David Fincher e o argumento de Andrew Kevin Walker a deixarem certo que alguns elementos colocados em diversos momentos da narrativa não foram seleccionados ao acaso. A personagem de Gwyneth Paltrow é a mais apagada, mas nem por isso é esquecida, interpretando a esposa dedicada de Mills, causando impacto num momento relevante de um enredo que nos prende do início ao fim. Muitas das vezes o mistério e o maior impacto até vêm daquilo que David Fincher não nos exibe. Veja-se que nunca encontramos o assassino a cometer os seus crimes, mas sim o resultado final dos seus trabalhos, criando-se uma aura de mistério e perigo em volta desta figura que anda à solta por este espaço urbano. Esta é uma cidade que nos repele mas ao mesmo tempo atrai, onde as chuvas incessantes não travam o calor das emoções e o cinzentismo do céu apenas indica que estamos perante um espaço onde ainda existe muito para mudar.

 Quando não estamos nos cenários exteriores desta cidade estamos perante apartamentos marcados pelos corpos mortos, esgotos, a esquadra da polícia, bibliotecas, locais na maioria com pouca iluminação, por onde os protagonistas deambulam no cumprimento do seu dever. Brad Pitt é capaz de expressar de forma eficaz a impulsividade do seu personagem, mas também a sua capacidade de não desistir dos casos, de procurar sair dos escritórios, enquanto Morgan Freeman transmite-nos uma calma que exibe o quão bem esta dupla se complementa. O personagem interpretado por Freeman parece impressionar-se com pouco, apresentando uma atitude já de fim de carreira e de quem conhece esta cidade bem demais, mas nem por isso deixa de se envolver na investigação. "Seven" consegue ainda abordar com alguma eficiência o trabalho da investigação policial, deixando-nos inquietos em relação ao resultado da mesma, enquanto as mortes se vão avolumando e David Fincher se revela irredutível nos seus objectivos de nos manter tensos perante o desenrolar dos acontecimentos. A história não é propriamente inovadora, mas David Fincher consegue prender-nos à mesma, criando um policial inteligente e intenso que marcou a década de 90, conseguindo expor de forma clara os perigos que rodeiam este espaço citadino corrompido, contando ainda com uma dupla de protagonistas carismática e um antagonista enigmático e representativo de perigo. A própria banda sonora contribui para esta atmosfera intensa e negra do filme, um thriller envolvente, com algumas reviravoltas expostas de forma relativamente credível, muita violência e um conjunto de planos meticulosamente elaborados, onde David Fincher exibe várias das suas qualidades como realizador, naquela que é uma das obras mais populares da sua carreira.

Título original: "Se7en"
Título em Portugal: "Seven - 7 Pecados Mortais".
Realizador: David Fincher.
Argumento: Andrew Kevin Walker.
Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Kevin Spacey, John C. McGinley, Gwyneth Paltrow.

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