03 setembro 2015

Resenha Crítica: "Self/less" (Outro/Eu)

 O enredo de "Self/less" parece um balão com um pequeno furo que gradualmente vai perdendo o seu ar até se esvaziar por completo e cair, com Tarsem Singh a brindar-nos inicialmente com uma premissa que, apesar de não ser inovadora, prometia algo de bem mais complexo e estimulante, embora derrape perante um argumento marcado pela vacuidade que se ancora numa série de reviravoltas que desafiam os limites da lógica e da paciência. Não é que seja propriamente novo encontrar Tarsem Singh a desenvolver obras cinematográficas que ficam claramente aquém daquilo que podem dar, algo notório em "Immortals", mas "Self/less" traz sempre o travo amargo de nunca atingir totalmente o seu potencial, com o cineasta e o argumento de David Pastor e Àlex Pastor a criarem algo que tanto tem de incoerente como de frustrante. Sobretudo frustrante, com "Self/less" a descair gradualmente para o filme de acção mesclado com melodrama e ficção-científica, quando até então tinha uma premissa ancorada no último género apresentando um tom incoerente e inconsistente, dois adjectivos que se aplicam ao argumento. O enredo de "Self/less" acompanha Damian Hale (Ben Kingsley), um empresário milionário conhecido pela personalidade implacável e pela relação complicada com Claire (Michelle Dockery), a sua filha. Damian encontra-se em estado terminal, recebendo inesperadamente um cartão de uma instituição chamada Phoenix, liderada pelo Professor Albright (Matthew Goode), que se propõe a transferir as mentes de corpos que se encontram em estado terminal para outros mais jovens criados supostamente para o efeito. Apenas quem conta com finanças abastadas pode recorrer a este serviço, tendo de obrigatoriamente fingir a sua morte, encontrando-se proibido de contactar com amigos e conhecidos após este procedimento. Damian forja o seu óbito quando se encontra com Martin (Victor Garber), um amigo de longa data e parceiro de negócios, com a sua consciência a ser transferida para um corpo mais jovem (Ryan Reynolds) e supostamente saudável. Inicialmente tem de se adaptar ao corpo, sendo posteriormente transferido para uma habitação em New Orleans onde se apresenta como Edward Hale, forma amizade com Anton (Derek Luke), um indivíduo que conhece quando se encontrava a jogar basquetebol nas ruas, diverte-se com um conjunto de mulheres, sai à noite, desfrutando de uma série de prazeres, pelo menos até começar a conhecer supostas alucinações que o começam a afectar. É medicado por Albright e transferido, sobretudo quando começa a fazer muitas perguntas e a perceber que se encontra a ter memórias de episódios vividos por Mark, o anterior elemento a quem pertencia o seu corpo, algo que o leva a procurar pela esposa (Natalie Martinez) e filha do mesmo. Gradualmente apercebe-se que todo este processo que protagonizou é marcado por contornos mais negros, onde existe um outro lado composto por seres humanos desesperados que cedem os seus corpos em troca de compensações para familiares. Escusado será dizer que Albright e os elementos que lidera não vão achar piada aos comportamentos de Damian, começando a perseguir o mesmo, enquanto o protagonista tem cada vez mais pequenos flashes de memórias do indivíduo a quem pertencera o seu corpo, um militar, embora o argumento raramente explore a imensidão de possibilidades que esta situação poderia proporcionar. Poderíamos ter um complexo questionar sobre a alma, o corpo e a consciência, o duelo interno que se poderia gerar entre o protagonista e o indivíduo a quem pertencera o seu corpo, entre outras questões, mas Tarsem Singh prefere deixar quase tudo pela rama, aventurando-se por perseguições e fugas, melodrama, tiroteios e até cenas de acção com direito a lança-chamas atirando às urtigas o potencial da sua premissa.

 As reviravoltas são mais do que muitas, a ponto de quase nos deixarmos de preocupar com aquilo que acontece, enquanto Ryan Reynolds procura incutir alguma credibilidade ao personagem que interpreta. É certo que ao início poderia existir uma tentativa em tentar emular algum do estilo frio que Ben Kingsley incute no protagonista, sobretudo quando Damian encontra-se a adaptar-se ao novo corpo, mas não é um factor que distraia (ou pelo menos que não distrai tanto como os momentos em que este parece tornar-se num "Jason Bourne" com enormes habilidades para a pancadaria devido aos lampejos que tem das memórias do antigo utilizador do seu corpo, ou quando torna-se repentinamente num indivíduo com enorme consciência quando inicialmente é apresentado como um sacana do pior). Kingsley interpreta o estereótipo do empresário frio e poderoso, onde até a sua casa é marcada por elementos dourados, algo que permite evidenciar a opulência do magnata, com o actor a cair por vezes em elementos caricaturais, um pouco como Matthew Goode como Albright. Este é um cientista que trabalha sob enorme secretismo, também ele com uma série de segredos por contar, procurando a todo o custo manter sob sigilo a tecnologia de transferir a consciência de um corpo para outro, a ponto de conduzir os seus homens a encetarem uma perseguição feroz ao protagonista. Ryan Reynolds protagoniza lutas corpo a corpo, tiroteios, anda com lança-chamas, corre, conduz carros a alta velocidade, com a vida de Damian a entrar num ritmo frenético a partir do momento em que desobedece aos protocolos. Estas habilidades de Damian devem-se às características do elemento a quem pertencia o seu actual corpo, com o protagonista a repentinamente começar a exibir talento para a pancadaria, com o argumento a não ter problemas em incutir mudanças bruscas no personagem, com este a passar facilmente de tipo odioso a indivíduo sensível, até se tornar quase num herói de acção. Não vão ainda faltar momentos mais dramáticos relacionados com a convivência de Damian com a esposa e filha de Mark, com o protagonista a repentinamente tomar consciência que a decisão que tomou afectou outra vida. Diga-se que Damian vai ainda conhecer outras alterações, enquanto se depara com uma série de reviravoltas e situações inesperadas incluindo quando resolve contactar com antigos amigos. A procura de Tarsem Singh em manter o enredo a um ritmo frenético, marcado por diversos trechos de acção, reviravoltas e descobertas, conduz a que descure elementos que poderiam funcionar, tais como a adaptação de Damian ao novo corpo, as mudanças de comportamentos do protagonista (feitas à bruta), a dinâmica entre os personagens interpretados por Ryan Reynolds e Natalie Martinez que a espaços funciona, deixando mais uma vez a ideia que o argumento poderia aproveitar para explorar as questões mais complexas e até abordar mais assertivamente aquelas que parecem mais simples. No entanto, David Pastor e Àlex Pastor preferem deixar muitas das temáticas pela rama, apostando antes num conjunto de reviravoltas que em excesso perdem algum do efeito pretendido (até um bom vinho deixa de ser valorizado como merece perante a embriaguez provocada pelo seu consumo em excesso), numa obra que é marcada por algumas ideias interessantes ainda que expostas de forma pueril. A mudança da consciência de um corpo para outro e a presença de antigas memórias poderia proporcionar algo de mais complexo, bem como o próprio relacionamento entre Damian e Madeline (Natalie Martinez) e a filha desta, enquanto figuras como Victor Garber, Michelle Dockery, entre outras ficam demasiadamente em plano secundário para conseguirem sobressair. Mesmo visualmente a obra está longe de se destacar, com a decoração dos cenários a remeter para lugares-comuns como o laboratório marcado pela frieza e desumanização ou a habitação pontuada pela opulência onde os tons dourados exibem a riqueza do protagonista nos momentos iniciais. Entre a ficção-científica, o melodrama e a acção, "Self/less" apresenta notórias dificuldades em manter o foco e apresentar um rumo, tendo alguns lampejos de inspiração a ponto de não desistirmos totalmente do filme, embora fique sempre a desagradável sensação de que Tarsem Singh e a dupla de argumentistas não conseguiram aproveitar o potencial do material que tinha entre mãos.

Título original: "Self/less".
Título em Portugal: "Outro/Eu".
Realizador: Tarsem Singh.
Argumento: David Pastor e Àlex Pastor.
Elenco: Ryan Reynolds, Natalie Martinez, Matthew Goode, Victor Garber, Derek Luke, Ben Kingsley.

Sem comentários: