19 setembro 2015

Resenha Crítica: "A Royal Night Out" (Uma Noite Fora do Palácio)

 Num tom leve e despretensioso, pontuado por um ritmo frenético onde os episódios sucedem-se ao ritmo das emoções ou não tivessem que ser vividos durante uma única noite, "A Royal Night Out" procura apresentar, com imensas liberdades à mistura, a saída nocturna das princesas Elizabeth (Sarah Gadon) e Margaret (Bel Powley) no "Dia da Vitória", onde é declarado o final do conflito bélico com a Alemanha. A atmosfera é de festa, o povo rejubila de forma catártica, esquecendo por breves momentos as agruras que a Guerra provocou na população e no território, bem como as dificuldades que vão ocorrer nos dias posteriores a estes episódios que nos são representados. "A Royal Night Out" expõe estes acontecimentos com enorme vivacidade, ao mesmo tempo que procura transmitir a atmosfera de uma época, quer no guarda-roupa, quer nos cenários, quer nas atitudes dos personagens, enquanto coloca a dupla de protagonistas numa miríade de episódios frenéticos, rocambolescos, por vezes perigosos, onde procuram acima de tudo descontrair-se de forma incógnita, com o argumento a tomar diversas liberdades a representar estas duas figuras inspiradas nas princesas Elizabeth (com dezanove anos de idade - futura Rainha Elizabeth II) e Margaret (com catorze anos). O Rei George VI (Rupert Everett) e a Rainha Elizabeth (Emily Watson) surgem inicialmente contra esta ideia das filhas mas acabam por aceder perante as sugestões da personagem interpretada por Sarah Gadon, aquela que será a sucessora no trono, com esta a salientar que a saída poderá ser uma boa maneira de verificar como os populares vão receber o discurso público do pai, à meia noite, hora que marca oficialmente o final do conflito na Europa, sobre este episódio de enorme relevância para o país e para o Mundo. A ordem passa para que estas regressem até à uma hora da manhã, tendo ainda de ser acompanhadas pelo capitão Pryce (Jack Laskey) e o tenente-coronel Burridge (Jack Gordon), dois indivíduos que começam bem intencionados mas facilmente perdem o rasto das princesas ou os próprios também não se preparassem para desfrutar de alguns prazeres de uma noite onde todos parecem querer soltar a sua felicidade, dançarem, beberem e divertirem-se. A primeira a escapulir-se é Margaret, com Bel Powley a incutir sempre um estilo meio naïve, meio esgrouviado à personagem que interpreta, com esta a procurar dançar, divertir-se, conhecer as festas e os espaços nocturnos que não poderia frequentar de outro modo, acabando por ser alvo de interesse de um indivíduo cujos objectivos não são os melhores. Quem a acaba por ter que seguir é Elizabeth, com Sarah Gadon a incutir sempre uma postura mais séria e pragmática a esta princesa, ou não fosse ela muitas das vezes a voz da razão. Elizabeth acaba por se deparar com a ajuda inesperada de Jack (Jack Reynor), um piloto da RAF que combateu os alemães durante a II Guerra Mundial, tendo desertado durante a noite, algo que esconde temporariamente da princesa, tal como esta omite a sua verdadeira identidade. Entre os dois forma-se uma relação de proximidade que sabem não poder avançar mais do que isso, sobretudo quando Jack descobre a verdadeira identidade da princesa, com esta a ter procurado viver até então breves momentos como uma "comum mortal" ao longo de uma obra cinematográfica marcada por enorme leveza, humor físico e de situação, liberdades históricas em doses generosas, muita música e dança, com o título do filme a remeter praticamente para o seu enredo.

O argumento é simples e enxuto, beneficiando do desempenho de elementos como Sarah Gadon e Bel Powley, com ambas a conseguirem a transmitir aquilo que as diferencia e as une, ou não fossem duas irmãs que partem à aventura pela primeira vez como se fossem duas mulheres do povo, sem as amarras da enorme segurança e protocolos. Diga-se que também Jack Reynor tem espaço para sobressair como um indivíduo que não consegue encarar os festejos com um tom tão naïve como as duas irmãs, com o actor a apresentar uma boa dinâmica com Sarah Gadon, ou as personagens a quem dão vida não se envolvessem numa série de situações rocambolescas em busca de Margaret. Esta busca, após um acaso onde se conhecem num autocarro recheado de gente, conduz a que Elizabeth e Jack formem facilmente laços, com ambos a protagonizarem um ou outro episódio de maior candura, mas também momentos pontuados por algum humor e até algumas doses de dramatismo, com esta noite a revelar-se única para as figuras principais que povoam "A Royal Night Out", algo que Julian Jarrold consegue explanar ao realizar um filme de época simples e divertido que não engana nos seus propósitos, tendo como um dos seus maiores trunfos o facto de conhecer as suas limitações e virtudes, beneficiando pelo caminho das interpretações de Sarah Gadon, Bel Powley e Jack Reynor. Temos ainda Jack Laskey e Jack Gordon como dois soldados que representam paradigmaticamente o tom do filme, ou não fossem dois indivíduos que sucumbem muitas das vezes perante os prazeres que são colocados diante das suas pessoas, acabando pelo caminho por colocar em risco as suas carreiras profissionais. Também o filme parece por vezes perder-se em demasia pela atmosfera festiva e fantasiosa que envolve a narrativa, embora o elenco segure muitas das vezes este enredo marcado por enorme simplicidade. Vale ainda a pena realçar Rupert Everett e Emily Watson como o Rei e a Rainha, com o primeiro a atribuir sempre um tom mais descontraído ao personagem que interpreta enquanto a segunda procura não abandonar uma certa rigidez e austeridade tendo em vista a educar as filhas de acordo com as regras inerentes ao seu estatuto social. Pelo caminho, ficamos com Elizabeth e Margaret por locais como Trafalgar Square, clubes nocturnos, ou como não poderia deixar de ser o Palácio de Buckingham, com "A Royal Night Out" a não poupar nos cenários e na sucessão de episódios em que coloca a dupla de protagonistas e aqueles que delas se aproximam. Diga-se que este é um dos casos onde a ficção é muito melhor do que a realidade, ou as duas princesas não tivessem regressado a casa a tempo e horas, saindo num grupo de dezasseis pessoas, com os dois guardas que as vigiam e Jack a serem figuras ficcionais (já para não salientar que Bel Powley está a interpretar uma personagem que na época tinha... catorze anos), algo revelador das liberdades tomadas por Julian Jarrold para açucarar uma história que teria tudo para ser mais sensaborona se fosse exposta a rigor, embora provavelmente também nos tivesse poupado a uma versão fantasiosa das princesas e da realeza britânica. É um filme que não inova, não deixa uma marca indelével, nem parece ter esse objectivo, procurando acima de tudo colocar-nos perante uma versão muito ficcional de um episódio real, numa história cheia de ritmo e humor, onde as emoções são vividas e sentidas com a noção de que tudo irá apenas durar uma noite, com Julian Jarrold a acertar nos ritmos do enredo, jogar com as limitações da narrativa que tem para nos contar e explorar a dinâmica do elenco principal, com Sarah Gadon, Jack Reynor e Bel Powley a sobressaírem em relação aos restantes elementos.  

Título original: "A Royal Night Out".
Título em Portugal: "Uma Noite Fora do Palácio".
Realizador: Julian Jarrold.
Argumento: Trevor de Silva e Kevin Hood.
Elenco: Sarah Gadon, Bel Powley, Jack Reynor, Rupert Everett, Emily Watson, Roger Allam.

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