18 setembro 2015

Resenha Crítica: "Rope" (1948)

 Sem tempo a perder, "Rope" coloca-nos perante o assassinato de David Kentley (Dick Hogan) às mãos de Brandon Shaw (John Dall) e Phillip Morgan (Farley Granger), dois colegas de universidade e amigos pessoais. Brandon e Phillip estrangulam David com uma corda, sem grande piedade, um acto hediondo efectuado sobretudo como um exercício intelectual, com estes a procurarem cometer o "crime perfeito" (uma temática comum a algumas obras de Alfred Hitchcock, tais como "Strangers on a Train"), em particular o personagem interpretado por John Dall. Este acredita em seres humanos superiores aos outros, apresentando sempre uma postura mais sádica e fria do que Phillip, com este último a parecer uma bomba-relógio que a qualquer momento pode explodir e revelar todas as informações sobre o assassinato. Estes escondem o corpo no baú nas horas que antecedem uma festa onde vão estar presentes Mr. Kentley (Cedric Hardwicke) e Mrs. Atwater (Constance Collier), respectivamente o pai e a tia de David, Janet Walker (Joan Chandler) a noiva do personagem interpretado brevemente por Dick Hogan, para além de Kenneth Lawrence (Douglas Dick), o antigo namorado da personagem interpretada por Joan Chandler e Mrs. Wilson (Edith Evanson), a funcionária dos protagonistas. A juntar-se a todos encontra-se ainda Rupert Cadell (James Stewart), o antigo professor e ídolo de Brandon, agora um editor e escritor, algo que conduz a um certo jogo psicológico onde o personagem interpretado por John Dall se prepara para procurar desafiar a inteligência do mestre ao mesmo tempo que lhe deixa algumas pequenas pistas, parecendo exibir uma certa vontade em expor o seu "feito" diante de outras pessoas. A dar um retoque ainda maior de malvadez, o baú onde se encontra o corpo é utilizado como mesa onde se encontra a comida dos convidados, enquanto Alfred Hitchock gere a tensão ao máximo em relação à possível descoberta do assassinato, incutindo ainda alguns retoques de humor negro ao enredo. A festa serviria não só para Brandon emprestar alguns livros ao pai de David, um coleccionador, mas também para a despedida dos dois protagonistas, com Phillip a preparar-se para partir para preparar um concerto de piano, para além de permitir que estes coloquem em prática a fase final do plano do primeiro. A dinâmica entre este conjunto diminuto de personagens é essencial para Alfred Hitchcock manter a narrativa num crescendo de tensão, onde nem todas as personalidades parecem conjugar-se e Brandon revela com cada vez mais afinco os seus ideais extremistas sobre os seres humanos superiores, dos quais considera fazer parte, utilizando muitas das vezes o humor negro para expor na prática os seus ideais, embora nem tudo corra como o planeado. David tarda em chegar, alguns convidados impacientam-se, enquanto os personagens dialogam imenso, por vezes de forma mais acalorada, sobretudo quando Brandon começa com os seus jogos. Veja-se quando procura juntar Kenneth com Janet, gerando o desconforto entre o antigo casal, mas também pela forma como expressa as suas ideias mais extremistas, tais como "Good and evil, right and wrong were invented for the ordinary average man, the inferior man, because he needs them". Rupert parece partilhar estes ideais na teoria embora esteja longe de apresentar a malícia do seu antigo pupilo. Para juntar ainda mais peças sobre o caso, David recorda um episódio em que Phillip estrangulou uma galinha, algo que este último desmente veemente, embora Rupert saiba que é verdade e cada vez mais suspeite da atitude destes jovens e do atraso de David. Rupert ainda procura conviver com Mrs. Wilson, a sua antiga empregada e aparente interesse amoroso, mas aos poucos a atmosfera fica cada vez mais carregada no interior do grupo, com as suspeitas sobre o atraso de David e os comportamentos de Brandon a contribuírem para esta situação. 

Alfred Hitchcok exibe desde cedo os assassinos e a identidade dos mesmos, colocando este acto como o motor para os episódios que se seguirão enquanto se mostra mais uma vez exímio na criação da tensão, deixando os protagonistas em constante perigo de serem descobertos enquanto estes jogam com os convidados e os espectadores, sobretudo Brandon que parece sentir algum prazer em relação a toda esta situação. Brandon é sádico, frio, implacável e defensor do conceito de Übermensch, um conjunto de adjectivos que John Dall consegue expressar paradigmaticamente ao brindar-nos com uma interpretação praticamente imaculada, representativa dos psicopatas algo polidos que por vezes permeiam as narrativas dos filmes de Alfred Hitchcock. Já Farley Granger expõe de forma eficaz a personalidade mais insegura do personagem que interpreta, mais dada a cometer erros, parecendo ter sido levado pelo companheiro a cometer este acto. Parece existir uma subtil tensão sexual entre ambos os personagens, embora o filme não aborde directamente ou pelo menos explicitamente a situação, com os dois a partilharem uma cumplicidade que parece ir mais além da amizade, enquanto Alfred Hitchcock se diverte a colocá-los num ambiente inquietante. O cineasta brilha no trabalho de câmara, sobressaindo os longos planos-sequência que unem o filme (cada um com cerca de dez minutos de duração), apresentando a história quase como se esta se estivesse a desenrolar em tempo real, na realidade e quase sem cortes. O resultado final é sublime, destacando-se a perfeição com que Alfred Hitchcock utilizou esta técnica e como a aproveitou para adensar a inquietação em volta da história, apresentando um enredo aparentemente simples, mas que ganha outra dimensão com o trabalho do cineasta, o magnífico trabalho do elenco (que não poderia falhar nas falas ao longo destes planos-sequência) e um notável trabalho a nível de montagem. A aprumada montagem permite criar a ideia que o filme não tem cortes ou que foi filmado de seguida, algo que contribui para o realismo incutido neste inquietante jogo psicológico que Alfred Hitchcock cria entre os personagens, com o cineasta a adensar constantemente a dúvida se os protagonistas vão ser descobertos ou vão livrar-se das culpas do acto macabro que cometeram. O requinte desse sadismo é visível quando Brandon dá ao pai de David um conjunto de livros amarrados com a corda com que estrangulou o filho deste, embora o progenitor desconheça tal acto, cabendo a James Stewart interpretar o indivíduo perspicaz que se prepara para ler a mente dos criminosos. Stewart é o nome que mais se destaca, quer durante a festa onde o seu personagem revela sempre um comportamento inteligente, pragmático, bem falante, mas também posteriormente quando aumenta a tensão. É no último terço que Rupert, Brandon e Phillip se encontram a sós para o primeiro tirar as suas teimas em relação aos dois últimos, algo que parece deleitar o personagem interpretado por John Dall. A juntar a tudo isto temos ainda a certeza de boa parte da narrativa se desenrolar com um cadáver escondido no interior de uma sala de estar, cenário primordial do filme, com Alfred Hitchock a respeitar as origens teatrais da peça na qual o filme se inspirou, colocando o enredo a desenrolar-se num conjunto limitado de cenários. O apartamento tem vista para Manhattan mas os personagens principais nunca saem do interior das divisórias desta habitação onde o sadismo e o humor negro de Brandon se tornam latentes e o medo de Phillip é cada vez mais evidente. A peça na qual o filme se inspirou teve como base o assassinato de Bobby Franks, cometido pelos estudantes da Universidade de Chicago Nathan Leopold e Richard Loeb, um acto macabro que Hitchock adaptou com grande argúcia para o grande ecrã. Alfred Hitchock é a estrela máxima de "Rope", é este que coordena os actores e os cenários de forma precisa para os longos planos-sequência não falharem, extrai interpretações credíveis do elenco, cria uma atmosfera tensa e no final não promete grandes moralismos.

Título original: "Rope".
Título em Portugal: "A Corda". 
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento:  Arthur Laurents.
Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Joan Chandler, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson.

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