14 setembro 2015

Resenha Crítica: "Rebecca" (1940)

 Pode a presença de um morto fazer-se sentir de forma inexorável no interior de uma habitação? Em "Rebecca", essa situação parece notória ao longo de parte da narrativa desta obra cinematográfica realizada por Alfred Hitchcock, com a personagem interpretada por Joan Fontaine, a segunda esposa de Maxim de Winter (Laurence Olivier), a ir sentir e de que maneira a forte presença das memórias deixadas pela personagem do título. Rebecca foi a primeira esposa de Maxim, uma mulher que supostamente faleceu tragicamente num acidente de barco, uma situação que parece ter afectado o personagem interpretado por Laurence Olivier, a ponto da ala oeste desta espécie de castelo não ser utilizada, sendo guardada com enorme zelo pela misteriosa, austera e assustadora Srª Danvers (Judith Anderson), a governanta da habitação. A Srª Danvers era uma admiradora e confidente de Rebecca, uma mulher que considerava inteligente e sofisticada, a ponto de se preparar para atormentar a nova Srª de Winter, com esta a inicialmente não estar preparada para a realidade que vai encontrar em Manderlay, o local onde se encontra situada esta espaçosa mansão. Não sabemos nunca o nome próprio da personagem interpretada por Joan Fontaine (uma situação que pode remeter para um certo apagamento em relação à figura de Rebecca), uma mulher aparentemente algo frágil e naive, que nutre um enorme afecto por Maxim, um indivíduo mais velho que conhece inicialmente em Monte Carlo quando estava a trabalhar como dama de companhia de Edythe Van Hopper (Florence Bates), uma senhora já cinquentona, faladora e inconveniente. A primeira vez que a personagem interpretada por Joan Fontaine encontra Maxim resulta num mal entendido, com esta a pensar que ele iria atirar-se de um precipício, quando este encontrava-se apenas a pensar sobre a vida. Posteriormente, Edythe logo procura meter conversa com este indivíduo devido à enorme reputação que ele tem, algo que a futura Srª de Winter não sabia, com o personagem interpretado por Laurence Olivier a ser conhecido devido às largas posses e ao facto de ter perdido tragicamente a esposa. Quando Edythe fica constipada, a personagem interpretada por Joan Fontaine acaba por ficar a conhecer e iniciar um romance com Maxim, a ponto deste a pedir em casamento. Os momentos neste espaço são aparentemente idílicos, embora Maxim apresente algumas mudanças de comportamento e falas que indiquem que guarda alguns esqueletos no armário, apesar da química entre os dois personagens ser latente. Joan Fontaine transmite a ingenuidade, delicadeza e enorme candura desta figura feminina de poucas posses que tem na pintura um hobby, enquanto Laurence Olivier expõe um maior carisma e confiança, parecendo não só nutrir um enorme desejo por esta mulher mas também uma necessidade de a proteger, com as próprias vestes de ambos a reflectirem as diferenças de estatuto social, embora Maxim pouco se preocupe com isso. Diga-se que a segunda Srª de Winter é exposta como alguém que é totalmente diferente da primeira, uma situação que vai atormentar a personagem interpretada por Joan Fontaine ao longo de algum tempo da narrativa, pelo menos até perceber que o mito de Rebecca não condiz com a realidade. Se os momentos em Monte Carlo foram idílicos, já a chegada a Manderlay parece ser marcada pelo "esmagamento" a que a protagonista parece sujeita diante deste grandioso e luxuoso espaço, com o mar a marcar as redondezas desta casa (uma situação que atribui características de enorme isolamento a este cenário) composta por uma imensidão de divisórias e uma presença notória da "aura" da falecida.

Alfred Hitchcock nunca representa Rebecca a nível físico, mas a sua presença é mais do que sentida, quer nos vestidos que se encontram no guarda-roupa, quer nos lenços e lençóis com a inicial R, quer nas figuras que não poupam elogios à falecida, quer no quarto onde tudo se mantém igual aos tempos em que esta era viva, sendo criado o mito, sobretudo a partir da Srª Danvers, que Maxim continua a reverenciar a mesma. O espaço da casa é simultaneamente belo e assustador, com Alfred Hitchcock a revelar-se mais uma vez um mestre na criação do mistério e suspense, muitas das vezes de forma subtil. Veja-se a forma como as revelações são feitas de maneira gradual e precisa tendo em vista a deixar suspeitas sobre os personagens e a casa, para além da utilização da iluminação e das sombras a preceito (veja-se o momento em que o casal assiste aos vídeos da lua de mel numa sala praticamente às escuras, com a luz a iluminar os rostos e a felicidade entre ambos a parecer temporária), a iconografia gótica, a presença de uma pequena casa perto do mar habitada por um indivíduo aparentemente louco, a banda sonora adequada a cada momento, entre vários outros elementos. O próprio final do filme, que gerou uma disputa entre o produtor David O. Selznick e Alfred Hitchcock, com o segundo a levar a melhor devido a considerar que a ideia do primeiro era pouco subtil, é um exemplo da capacidade do cineasta em explorar os elementos presentes no cenário ao serviço da narrativa. O espaço da casa de Maxim é fulcral para as mudanças que ocorrem desde a chegada da personagem interpretada por Joan Fontaine, uma situação que vai desde uma atmosfera inicial de encanto que logo se transfigura para o desencanto e o medo do que pode vir a acontecer com a protagonista, com a Srª Danvers a ser o paradigma das dúvidas geradas ao longo da narrativa. Esta é uma personagem que desde cedo desperta a nossa desconfiança sendo completamente dicotómica da protagonista. Enquanto Joan Fontaine concede um lado doce à personagem que interpreta, com a própria tonalidade da voz a parecer por vezes melodiosa, já Judith Anderson atribui sempre um enorme mistério a Danvers. É uma mulher austera, de feições rígidas, vestes e penteado cuidado, dissimulada, de voz glaciar, cuja devoção para com Rebecca chega a ser doentia ao ponto de tentar sabotar a relação do novo casal. A casa é composta ainda por elementos como Frank Crawley (Reginald Denny), um indivíduo que gere as contas de Maxim, nutrindo uma amizade sincera em relação a este último, ao contrário de Jack Favell (George Sanders), um suposto primo de Rebecca e amigo de Danvers que mais tarde descobrimos ter sido amante da falecida. A par de Judith Anderson, um dos elementos do elenco secundário que mais sobressai é exactamente George Sanders, com este a interpretar um indivíduo bem falante e aparentemente simpático que esconde uma malícia que aos poucos vai sendo revelada. Quer Rebecca, quer Maxim, quer Danvers, quer Jack (o típico antagonista das obras de Hitchcock que apresenta comportamentos polidos e parece inicialmente afável), contam com segredos escondidos que prometem dar que falar, com a primeira a contar ainda com uma presença forte no quotidiano desta habitação e nos elementos que povoam a mesma apesar de já ter falecido. A estadia da personagem interpretada por Joan Fontaine na casa é marcada exactamente pela herança deixada pela falecida, com a protagonista a parecer estar pouco preparada para este quotidiano marcado por segredos, falsas aparências e incertezas, embora aos poucos seja notório que começa a apresentar uma maior determinação, pese uma ou outra reviravolta menos agradável. Sente-se intimidada por Danvers, tal como teme não cair nas graças da irmã e do cunhado de Maxim, parecendo pertencer a um mundo completamente diferente do personagem interpretado por Laurence Olivier, um indivíduo dado a luxos que esta nunca teve.

Laurence Olivier explora a complexidade do personagem que interpreta com enorme engenho, algo notório nas mudanças bruscas de comportamento por parte de Maxim, com este a tanto parecer um indivíduo capaz do acto mais terno como logo de seguida apresentar uma fúria difícil de esconder. Veja-se quando a esposa utiliza, ainda que sem saber e incentivada por Danvers, um vestido igual ao de Rebecca no baile de máscaras, com Maxim a ficar colérico, num momento em que nos questionamos mais uma vez em relação ao futuro do casamento entre estes dois personagens. O matrimónio entre os personagens interpretados por Joan Fontaine e Laurence Olivier surge quase sempre marcado pelo passado deste com Rebecca, apenas esclarecido verdadeiramente na segunda metade do filme, após um episódio relevante que ocorre e transfigura parte daquilo que julgamos saber sobre alguns dos elementos da narrativa. Maxim deseja a esposa, casando com esta de forma repentina, surpreendendo tudo e todos, embora não pareça querer transformar a mesma numa segunda Rebecca, algo que fica completamente esclarecido no último terço (em compensação, boa parte dos personagens que povoam a narrativa não deixam escapar a oportunidade de engrandecer a falecida em relação à personagem interpretada por Joan Fontaine). Diga-se que a dinâmica entre Laurence Olivier e Joan Fontaine é fulcral para a narrativa, com a dupla a conseguir explorar as transformações ocorridas no casamento dos protagonistas, onde o passado de Maxim parece colocar em perigo a felicidade de ambos, bem como a personalidade do protagonista, não faltando ainda um último terço inquietante onde o processo relacionado com a morte de Rebecca é reaberto. O argumento, baseado no livro "Rebecca" de Daphne du Maurier (Alfred Hitchcock realizara "Jamaica Inn" baseado numa obra desta autora, bem como "The Birds"), é coeso o suficiente para tornar credíveis estas revelações e reviravoltas na narrativa, enquanto Alfred Hitchcock revela-se mais uma vez exímio em explorar o mistério e a criar tensão junto do espectador. "Rebecca" conta ainda com diversos elementos associados aos filmes de Hitchcock, tais como o protagonista, neste caso uma mulher, que é uma figura comum que se vê envolvida numa situação adversa ou intrincada, um dos antagonistas que apresenta uma personalidade aparentemente afável, a presença da escadaria, o mistério, entre outros que incrementam uma das obras cinematográficas mais aprumadas do cineasta. Esta seria também a primeira obra cinematográfica realizada por Alfred Hitchcock nos EUA, bem como a única a vencer o Oscar de Melhor Filme, com as intromissões de David O. Selznick a não prejudicarem a qualidade do trabalho final. Entre a felicidade de um romance que parecia ter tudo para dar certo e o peso de uma mulher falecida cuja presença ainda parece ser sentida no interior da sua antiga habitação, "Rebecca" pode nunca exibir a personagem do título mas nem por isso deixa de explorar a relevância da mesma junto dos protagonistas, com Laurence Olivier, Joan Fontaine e Judith Anderson a sobressaírem ao longo deste drama negro, marcado por algum mistério, tensão e muita inquietação, naquela que é uma das obras mais recomendáveis de Alfred Hitchcock.

Título original: "Rebecca". 
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Philip MacDonald e Michael Hogan.
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson.

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