08 setembro 2015

Resenha Crítica: "Rear Window" (Janela Indiscreta)

 L.B. Jefferies (James Stewart), o protagonista de "Rear Window", uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, é um bisbilhoteiro que se vai envolver numa intrincada investigação a um caso de assassinato que coloca a sua vida e a da namorada em perigo. É um fotógrafo conhecido por ser destemido na sua função, que não tem problemas em enfrentar os perigos de frente e dirigir-se para os locais mais inóspitos, encontrando-se temporariamente imobilizado numa cadeira de rodas, tendo a sua perna engessada devido a um acidente a fotografar uma corrida de carros bem de perto. Falta uma semana para tirar o gesso mas este continua impaciente, tendo no acto de espiar os seus vizinhos uma forma de "matar" o tempo livre, enquanto Alfred Hitchcok transforma-nos em voyeurs semelhantes ao personagem, colocando-nos a observar com a mesma atenção quer o quotidiano dos vizinhos do mesmo, quer o que se passa no interior da casa de Jefferies. Como salienta Roger Ebert: "The hero of Alfred Hitchcock's "Rear Window" is trapped in a wheelchair, and we're trapped, too--trapped inside his point of view, inside his lack of freedom and his limited options". Logo nos planos iniciais ficamos diante dos diversos apartamentos que o personagem interpretado por James Stewart observa através das janelas deixadas abertas, tal como nós somos colocados perante o quotidiano destas gentes que na maioria das vezes não sabe que está a ser espiada. Diga-se que ainda nestes momentos iniciais somos colocados perante o interior da casa do protagonista, com Alfred Hitchcock a nem precisar de diálogos para nos estabelecer a conjuntura que envolve este fotógrafo peculiar. Não falta uma senhora solitária que prepara solenemente um jantar a dois embora não tenha companhia, a quem o protagonista dá a alcunha de "Miss Lonelyhearts" (Judith Evelyn); um pianista e compositor (Ross Bagdasarian) que desperta a atenção dos vizinhos pelo seu talento; uma bela mulher que não tem falta de companhia masculina em sua volta, que costuma dançar em roupas diminutas quando está sozinha, apelidada de "Miss Torso" (Georgine Darcy) por Jefferies; um casal que parece recém-casado; Lars Thorwald (Raymond Burr), um vendedor casado que será alvo das suspeitas de Jefferies, entre outros que povoam este espaço de Greenwich Village. Estamos no pico do Verão, o calor parece ser imenso, enquanto os sentimentos parecem andar à flor da pele, com Jefferies a receber regularmente as visitas de duas figuras femininas: Stella (Thelma Ritter), a sua enfermeira, uma mulher já na casa dos cinquenta anos de idade, faladora que condena a constante coscuvilhice do protagonista e procura convencê-lo a dar o passo seguinte com a namorada, que é como quem diz casar com esta, tratando do personagem interpretado por James Stewart até este recuperar; Lisa Fremont (Grace Kelly), a namorada de Jefferies, uma mulher conhecida por gostar de utilizar roupas caras, de enorme beleza e sensualidade que parece viver num mundo distinto do protagonista apesar de amar o mesmo. Lisa ganha a vida com a moda e roupas dispendiosas, apresentando uma visão aparentemente superficial da vida, dada a desfrutar de alguns luxos, algo que contrasta com a procura de Jefferies em envolver-se nos locais mais inóspitos.

O protagonista pretende recuperar o mais depressa possível para voltar a tirar as fotografias nos locais onde se sinta necessário, encarando alguns diálogos da namorada com um certo desdém, ao mesmo tempo que parece tornar claro que a relação não parece ter grande futuro apesar de amar a mesma. Lisa pretende que este assente e passe a ser fotógrafo de moda de forma a poder manter uma relação estável com Jefferies, uma situação que não agrada ao protagonista. São duas figuras distintas, que nestes momentos do primeiro terço apresentam claras divergências, com Jefferies a exibir até algum machismo nos seus comentários, algo notório quando mandar calar Lisa, com James Stewart a criar um personagem que é melhor a observar os vizinhos e a fotografar do que a entender os sentimentos da amada, uma das muitas protagonistas loiras das obras de Alfred Hitchcock, com o cineasta a criar uma figura que apresenta um comportamento doce em relação ao amado, contando com uma dose de coragem que será revelada na segunda metade do filme. O quotidiano destes personagens muda quando Jefferies começa a desconfiar que Lars assassinou a esposa, após ouvir um barulho estranho oriundo da casa deste homem e vê-lo a sair três vezes durante a noite acompanhado por uma mala. Esta situação desperta fortes suspeitas por parte do protagonista, para além dos actos de um cão que mais tarde aparece morto após farejar incessantemente o canteiro que fora remexido por Lars. Inquieto em relação a este caso, Jefferies comenta esta teoria que efectuou a Stella e Lisa, tal como irá contactar Thomas J. Doyle (Wendell Corey), um polícia com quem serviu no exército durante a II Guerra Mundial. Doyle investiga o caso, embora pouco pareça levar Jefferies, mais conhecido como Jeff, a sério, sobretudo por Lars ter um conjunto de álibis que o parecem facilmente dar como inocente. De acordo com as informações recolhidas pelo polícia, a esposa de Lars terá viajado, algo que gera ainda mais suspeitas em Jeff devido a esta supostamente encontrar-se doente. Jeff não desiste do caso, com Stella e Lisa a também ficarem intrigadas, sobretudo esta última. Lisa consegue aumentar ainda mais as dúvidas em relação a Lars após Jeff ter revelado que a esposa do suspeito deixou a mala pessoal e joias em casa, algo que a personagem interpretada por Grace Kelly considera não ser comum, sobretudo numa mulher, uma situação que ganha ainda mais repercussão quando se trata também da aliança. Estes começam a observar cada vez mais atentamente as rotinas de Lars, enquanto Alfred Hitchcock adensa o nosso voyeurismo e faz-nos partilhar estas dúvidas, com as observações à casa deste vendedor a começarem a despertar cada vez mais a nossa atenção, bem como o quotidiano dos outros vizinhos de Jeff. Veja-se quando observamos a Miss Torso a dançar, ou a Miss Lonelyhearts num momento inquietante em que parece estar prestes a cometer suicídio. O trabalho de câmara, a par do trabalho de montagem, do argumento e da interpretação de James Stewart, são essenciais para esta intimidade criada com o protagonista e o seu modo de vida, com o último terço a ser completamente inquietante, com Stella e Lisa a juntarem-se à investigação. Lisa decide passar uma noite da sua folga na casa de Jeff, partilhando com este alguns momentos mais amenos do que aqueles que víramos no primeiro terço, com a personagem interpretada por Grace Kelly a expor uma faceta mais sedutora e corajosa, sobretudo quando decide invadir a casa do suspeito. A actriz, futura Princesa do Mónaco, convence-nos como esta mulher graciosa, elegante, quase sempre vestida de forma adequada (excelente trabalho a nível de guarda-roupa), destemida e igualmente curiosa em relação a Lars, formando um casal sui generis com Jeff. O estilo cuidado, recheado de glamour e delicado de Lisa contrasta regularmente com a informalidade e alguma rudeza de Jeff, com o próprio tom do discurso de ambos os personagens a ser bastante distinto, embora o "caso" do possível assassinato contribua para aproximá-los um pouco mais. James Stewart e Grace Kelly desenvolvem uma dinâmica interessante como este casal algo improvável, com o primeiro a preparar-se para colocar a segunda em perigo, apesar do próprio também ir conhecer alguns problemas, sobretudo quando é descoberto pelo suposto assassino, num momento marcado por enorme brilhantismo.

 Alfred Hitchcock gera a dúvida em relação a Lars durante boa parte da narrativa. É certo que Lars apresenta comportamentos suspeitos, mas também tem álibis de peso, com os actos de espionagem de Jeff a nem sempre parecerem os mais correctos. No entanto, aos poucos, também se torna notório que podemos estar diante de um assassino, com Jeff a não desistir desta sua teoria, mesmo quando Thomas Doyle parece pouco preocupado em avançar com o caso. Se Wendell Corey aparece de forma esporádica na narrativa como este polícia nem sempre interessado na teoria do amigo, já Thelma Ritter tem bastante espaço para sobressair como a faladora Stella, a enfermeira ao serviço de Jeff, enviada pela seguradora, com a actriz a voltar a ter um papel secundário de peso. Esta envolve-se também no quotidiano do protagonista, surgindo quase como uma estranha figura maternal do personagem interpretado por James Stewart, quer a dar-lhe conselhos sobre Lisa, quer a procurar que este não fique tanto tempo a observar as vidas alheias, quer a cuidar deste fotógrafo com propensão para envolver-se em problemas. Stewart empresta a sua credibilidade e carisma a este personagem bastante curioso em relação à vida alheia, que parece encarar a vida dos seus vizinhos como um reality show ao vivo, acabando por se deparar com um possível assassinato. O actor consegue explorar a falta de movimentos do personagem que interpreta, o tédio que marca o seu quotidiano neste espaço restrito no qual se encontra, mas também o entusiasmo que a descoberta do possível assassinato lhe desperta, com Jeff a surgir como uma espécie de detective amador que tem neste caso um tempero para quebrar uma rotina que se estava a tornar demasiado insonsa. Como todo o detective que se envolve num caso melindroso, também Jeff prepara-se para colocar a sua vida em risco, com Alfred Hitchcock a revirar o tabuleiro do jogo ao transformar temporariamente a casa do protagonista num local inseguro, quando até então parecia relativamente simples espreitar a vida alheia através da janela. Não é que já não existisse alguma tensão, algo notório quando Jeff tem de recuar para a escuridão para o vizinho não conseguir vê-lo, enquanto observa atentamente as atitudes do vendedor, embora nos momentos finais o enredo ganhe contornos sufocantes. O último terço é um hino ao suspense e ao cinema, com Alfred Hitchcock a aproveitar-se das dúvidas criadas em relação a Lars, associadas à imobilidade de Jeff, para criar momentos de enorme tensão e inquietação, onde parece que o próprio espectador encontra-se diante do perigo, após termos sido também nós bisbilhoteiros ao longo do filme. Um dos vários méritos de "Rear Window" centra-se exactamente nessa procura em despertar o lado voyeur do espectador, quer a espiar, em conjunto com o protagonista (o "olhar da câmara" parte quase sempre da casa de Jeff), o quotidiano dos vizinhos deste, quer a observar o dia a dia de Jeff. Este surge praticamente como os espectadores dos reality shows nos dias de hoje, embora observe efectivamente a vida em directo, sem necessitar de um televisor, com o quotidiano dos seus vizinhos a alimentar o seu tempo livre no período em que se encontra forçosamente em cativeiro devido a ter a perna partida, um acto pouco recomendável mas que aceitamos sem grandes problemas ao longo de "Rear Window". O apartamento do personagem interpretado por James Stewart é um espaço relativamente diminuto, marcado por alguma desarrumação, diversas fotografias, uma única cama, com a sala a ser o espaço mais utilizado, com a cinematografia a conseguir criar a falsa sensação de que estamos praticamente no interior deste local, existindo quase sempre uma procura para que nos identifiquemos com o fotógrafo.

O trabalho de câmara e montagem são exímios ao longo do filme, uma situação notória na observação aos apartamentos dos prédios circundantes à casa de Jeff, por vezes como se estivéssemos no ponto de vista do personagem interpretado por James Stewart, algo que aos poucos permite que fiquemos a conhecer a população local, incluindo um simpático cachorrinho que gosta de remexer no canteiro, cuja morte vai servir de gatilho para o reacender de mais dúvidas em relação a Lars. O personagem interpretado por Raymond Burr surge quase sempre como uma figura misteriosa que observamos relativamente à distância, a partir do prédio de Jeff, nomeadamente através dos binóculos ou da objectiva da máquina fotográfica do mesmo. Alfred Hitchcock consegue criar uma aura de mistério em volta do personagem interpretado por Raymond Burr, com as hipóteses criadas por Jeff a ressoarem no espectador, bem como o comportamento suspeito de Lars. O que não deixa de ser curioso quando Raymond Burr praticamente não tem falas para expor ao longo do filme, com a atmosfera de receio em volta do personagem interpretado pelo mesmo a surgir em grande parte graças ao trabalho de Alfred Hitchcock, algo inerente ao facto deste não nos exibir, nem ao protagonista, o possível assassinato, uma situação que deixa uma dúvida constante. O trabalho de montagem contribui não só para nos sentirmos cúmplices do voyeurismo de Jeff mas também para as dúvidas em relação a Lars, algo salientado de forma sucinta e paradigmática no artigo "Why Rear Window is Essential": "By showing us what Stewart sees (or thinks he sees) and cutting back to him, Hitchcock makes us complicit in his voyeurism and in his emotional responses. On the other hand, by giving us a quick glimpse of what Stewart misses, Hitchcock demonstrates his manipulation of suspense: let the audience in on a plot point the characters don't know and you get a much bigger payoff than relying on the simple and fleeting element of surprise". Apesar de toda a tensão e mistério criados em volta deste caso relacionado com o possível assassinato da mulher de Lars e as consequências que pode trazer para Jeff e Lisa, "Rear Window" nem por isso deixa de contar com alguns momentos de humor, em grande parte resultantes do relacionamento destes dois últimos mas também da presença de Stella. Não faltam falas sardónicas, algo visível nas condenações que Stella faz ao seu doente por passar os dias e até parte das noites a espiar as vidas alheias, mas também originadas pela dinâmica entre Jeff e Lisa. Estes formam um casal peculiar que no último terço ganha a companhia de Stella, também ela algo interessada no caso, com Alfred Hitchcock a desfazer-nos as dúvidas em relação ao mistério que criara, elaborando alguns momentos de pura tensão. Não faltam diversos elementos associados aos trabalhos de Alfred Hitchcock entre os quais o protagonista que se torna o herói improvável, o mistério e tensão, o romance peculiar, a personagem feminina loira, entre vários outros exemplos. Alfred Hitchcock tem um enorme mérito na forma como explora o mistério em volta do possível assassinato, contando com um argumento sólido (baseado no conto "It Had to Be Murder" de Cornell Woolrich) e um magnífico trabalho de montagem, mas também interpretações de bom nível do elenco principal, naquela que é uma das suas obras-primas, onde a tensão e inquietação estão muito presentes, mas também uma exploração do voyeurismo que continua bastante actual.

Título original: "Rear Window". 
Título em Portugal: "Janela Indiscreta".
Realizador: Alfred Hitchcock. 
Argumento: John Michael Hayes.
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr.

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