01 setembro 2015

Resenha Crítica: "Quai des Orfèvres" (O Crime da Avenida Foch)

 Inspirado livremente no livro "Légitime Défense" de Stanislas-André Steeman, "Quais des Orfèvres" marcou o regresso de Henri-Georges Clouzot à realização cinematográfica após ter sido banido devido a ter trabalhado na Continental Films, uma companhia francesa financiada pela Alemanha Nazi, onde desenvolveu "L'assassin habite au 21" e o polémico "Le corbeau". "Quais des Orfèvres" surge como um policial que exibe uma atmosfera próxima daquilo que encontramos nos filmes noir dos EUA, ou não fosse uma obra cinematográfica muito marcada por figuras moralmente questionáveis, personagens fumadores, espaços de divertimento nocturno, insegurança no território citadino, fumo a permear os cenários, uma mulher sedutora que promete colocar o protagonista em perigo, a utilização exímia do contraste entre luz e sombras, entre outros elementos. A mulher que facilmente desperta a atenção dos homens é Jenny Lamour (Suzy Delair), uma ambiciosa cantora e bailarina de clubes nocturnos, conhecida pelos números musicais que protagoniza que se destacam não só pela voz desta figura feminina mas também pela sua sensualidade e passos de dança que encantam a maioria dos elementos presentes no público. Jenny é casada com Maurice Martineau (Bernard Blier), um pianista e compositor de ideais conservadores, ciumento, oriundo de uma família de algumas posses, parecendo contrastar claramente com esta mulher a nível de valores e comportamentos embora ame a mesma. Ela veste-se de forma provocadora, é espampanante e pouco discreta, despertando a atenção dos homens, incluindo de Brignon (Charles Dullin), um empresário de idade algo avançada e andar curvado, que gosta de se aproveitar das jovens que pretendem ascender facilmente na vida. O empresário é desprezado por Dora Monnier (Simone Renant), uma fotógrafa e amiga de Maurice e Jenny que, devido à sua profissão, lida de forma amiúde com Brignon, com este a trazer regularmente modelos para posarem em ensaios fotográficos onde a presença da roupa pouco é relevante. Maurice é um indivíduo conservador, incluindo no seu modo de vestir e nos seus gestos, apresentando regularmente assomos de ciúme, algo que se adensa quando sabe que Jenny encontra-se a marcar encontros com Brignon, tendo em vista a utilizar a influência deste homem para entrar no meio cinematográfico. A descoberta de mais um encontro a dois entre Jenny e Brignon conduz a que Maurice ameace este último de morte se voltar a tentar aproximar-se da esposa. Suzy Delair concede à personagem que interpreta um misto de sensualidade e ingenuidade, explorando a ambição de Jenny e a sua personalidade nem sempre confiável, embora não pareça estar nos planos desta mulher envolver-se com Brignon, apesar de encontrar-se com este homem. Veja-se quando finge ter ido visitar a sua avó doente, em Enghien, algo em que Maurice parece inicialmente acreditar, pelo menos até encontrar um papel com a morada do personagem interpretado por Charles Dullin. Este interpreta um indivíduo marcado por poucos escrúpulos, conhecido por se aproveitar de jovens mulheres ambiciosas, com o seu carácter a estar longe de ser recomendável, algo que é incrementado pela malícia que Charles Dullin atribui a Brignon, uma figura que transmite sempre pouca confiança. Maurice liga para Enghien, para tentar confirmar a veracidade da história da esposa, mas ninguém atende o telefone, algo que o preocupa, enquanto a banda sonora adensa a atmosfera inquietante, onde assistimos ao protagonista a tirar uma pistola do armário, enquanto procura ganhar coragem para dirigir-se a casa do empresário aproveitador e tomar medidas drásticas.

O protagonista arma um plano algo destrambelhado de forma a ter um álibi, passando pelo Eden, um clube nocturno, falando com conhecidos de forma a ser visto no local, até sair à socapa para se dirigir à casa de Brignon, um cenário onde terá uma enorme surpresa. Sombras, música tensa, a habitual habilidade de Henri-Georges Clouzot em criar o mistério e tensão, bem como em aproveitar os cenários interiores, permeiam a entrada de Maurice na casa de Brignon, onde encontra este homem assassinado. Maurice foge do local, procura um táxi após ver o seu veículo furtado, enquanto anda pelas ruas, por vezes em passo de corrida, com a noite (num filme noir surge muitas das vezes como uma "companheira” dos personagens) e o solo molhado a serem a sua companhia, enquanto notamos que os nervos permeiam a sua alma e o seu corpo, até regressar ao Eden, fingindo ter estado no local. Por sua vez, encontramos Jenny a revelar a Dora que matou Brignon, após este ter procurado abusar de si, com a fotógrafa a ir ao local para eliminar provas que incriminem a primeira, pensando estar, desta forma, a ajudar o casal. Ledo engano, ou não tivessem sido encontrados cabelos loiros no local do crime. Jenny e Dora combinam não revelar a presença de ambas na casa de Brignon, com a segunda a encobrir a personagem interpretada por Suzy Delair. Nesse sentido, Jenny viaja até casa da sua avó, enquanto Maurice revela a Dora que, quando chegou à habitação de Brignon, já este se encontrava morto, embora não se tenha dirigido à polícia por temer que ninguém se acreditasse na sua história, com a fotógrafa a não revelar o segredo da primeira, tal como irá procurar não divulgar a presença do protagonista no local. É então que Antoine (Louis Jouvet), um inspector da polícia de Quai des Orfèvres, outrora um soldado da Légion Étrangère, entra em cena, com este a procurar investigar o assassinato, dirigindo-se inicialmente a casa de Maurice e Jenny em busca de Dora, devido à proximidade entre o estúdio e a habitação. O interesse de Antoine em Dora deve-se a esta última ter o catálogo com as modelos fotografadas, com qualquer uma destas mulheres trazidas por Brignon a poder ser considerada uma suspeita. A chegada deste personagem ao enredo vem trazer alguma incerteza junto de Maurice, Jenny e Dora, com o pianista a facilmente ser considerado o principal culpado ou não tivesse ameaçado Brignon de morte caso voltasse a ver Jenny. Louis Jouvet concede um misto de pragmatismo e simpatia ao personagem que interpreta, tanto dialogando calmamente como apresentando uma postura mais dura, com o actor a sobressair como este carismático inspector, um indivíduo fumador, pronto a fazer questões independentemente destas incomodarem ou não os seus interlocutores, entre os quais Maurice. Antoine apresenta uma postura típica de quem já anda neste oficio aos anos, pouco disposto a ser enganado, embora acabe inicialmente por desconfiar de um inocente, em particular de Maurice, com a morte de Brignon a preparar-se para colocar a vida deste homem num alvoroço. Este é interpretado por Bernard Blier, com o actor a conceder ao seu personagem uma personalidade ciumenta, tendo num conjunto de actos irreflectidos o caminho para ser acusado para um homicídio que não cometeu. Blier sobressai como este indivíduo com mais talento para a música do que para a dissimulação, procurando mentir a Antoine já que a verdade parece apenas incriminá-lo ainda mais do que a falsidade, com o actor a ser capaz de transmitir que, apesar dos arrufos, Maurice ama a esposa, embora tenha a noção de que teria uma vida muito mais calma se estivesse envolvido com alguém como Dora. A investigação é intrincada, marcada pela inquirição a diversos elementos, com Maurice a ser o principal suspeito, a ponto de ser sujeito a um interrogatório mais intenso, onde as emoções fervilham e todos parecem estar prestes a perder a paciência. Lá fora a neve permeia os cenários mas, no interior da esquadra, o ambiente é quente, com o interrogatório a Maurice a ser exemplo disso, com o último terço de "Quai des Orfèvres" a conter ingredientes de sobra para que não tenhamos a tentação de desviar o olhar do ecrã. Entre clubes nocturnos e a esquadra da polícia, diversas questões colocadas a elementos considerados suspeitos ou passíveis de poderem apresentar provas, Antoine procura fazer com que a verdade venha ao de cima, ao mesmo tempo que tenta cuidar do seu filho, um jovem que permite atribuir maior humanidade a este inspector que procura aferir a verdade, enquanto Henri-Georges Clouzot inquieta o espectador em relação ao destino de Maurice, Jenny e Dora, contando ainda com algumas surpresas pelo meio, incluindo no que diz respeito ao autor do assassinato.

O cineasta realiza um filme noir, mesclado com elementos de investigação policial e drama, naquele que foi o seu regresso em grande à realização cinematográfica após a suspensão do seu ofício. Domina eficazmente os ritmos do enredo, numa obra que está longe de apresentar a atmosfera claustrofóbica de "Le corbeau" ou o tom negro de "Les diaboliques", mas nem por isso deixa de impressionar pela positiva, com o cineasta a manter bem vivo o interesse no desfecho desta investigação na qual sabemos que o protagonista é inocente. Henri-Georges Clouzot volta a pegar em temas e elementos recorrentes em algumas das suas obras tais como as falsas suspeitas em relação a um inocente (veja-se em "Le corbeau") ou mal-entendidos em relação a um assassinato ("Les diaboliques"), traições ("Le corbeau", "Les diaboliques", "La vérité"), os personagens de carácter dúbio, uma atmosfera negra a rodear o enredo, a investigação de um polícia ou de um detective privado ("L'Assassin habite au 21" e "Les diaboliques"), entre outros. O cineasta volta ainda a conseguir extrair interpretações convincentes do elenco principal, ao mesmo tempo que nos faz preocupar com o destino dos protagonistas e o resultado da investigação, algo que contribui para elevar "Quai des Orfèvres". Para além dos já realçados Louis Jouvet, Suzy Delair,  Bernard Blier e Charles Dullin, vale ainda a pena destacar os casos de Simone Renant e Robert Dalban. Renant como uma fotógrafa que parece interessada em Maurice, um amigo de infância, embora o verdadeiro alvo do seu interesse seja Jenny, apesar de reprimir os seus sentimentos ao ponto de apenas Antoine descobrir esta situação, com a actriz a sobressair como esta mulher de cabelos loiros e forte personalidade. Já Robert Dalban interpreta Paulo, um assaltante que furta o veículo do protagonista e vai ter um papel fulcral no último terço da narrativa e para a investigação. Vale ainda a pena realçar Pierre Larquey (o doutor Vorzet de "Le Corbeau") como um taxista que também contém uma informação que se revela essencial para a investigação, sendo "apertado" por Antoine para revelar a identidade da mulher loira que transportou na noite do assassinato para as proximidades da casa de Brignon. As cenas dos interrogatórios são marcadas por alguma tensão, com Henri-Georges Clouzot a exibir mais uma vez a sua apetência para explorar os cenários interiores ao serviço da narrativa, remetendo para a inquietação em volta do julgamento da protagonista de "La vérité" onde o espaço do tribunal ganhava regularmente características claustrofóbicas. O cenário da esquadra é marcado por polícias com características distintas, uns mais violentos, outros mais compreensivos, bem como uma série de jornalista ávidos por notícias. com "Quai des Orfèvres" a conseguir transmitir-nos o ambiente da mesma. O aproveitamento dos cenários é ainda visível em casos como os espaços nocturnos onde trabalham Jenny e Maurice, com "Quais des Orfèvres" a deixar-nos diante de alguns números, bem como de alguns episódios, dos bastidores destes espaços. A música é parte essencial do filme, quer seja nos números musicais, quer seja na banda sonora, quer seja na utilização diegética da mesma. Veja-se quando encontramos Antoine a visitar Maurice e Jenny pela segunda vez, pronto a revelar que descobriu que estes conheciam o falecido, com o primeiro a surgir entre os principais suspeitos, enquanto a música que é tocada pela banda, num ensaio para um número, faz-se sentir e atribui um maior desassossego a estes momentos onde o casal parece ver a sua vida a "andar para trás". Entre uma investigação intrincada, mentiras, crimes, traições, reviravoltas, números musicais e alguma inquietação, "Quais des Orfèvres" surge como um filme noir francês mesclado com elementos de policial, com Henri-Georges Clouzot a criar uma obra cinematográfica com uma atmosfera negra, enquanto consegue despertar o nosso interesse em volta daquilo que acontecerá ao protagonista quando sabemos de antemão que este não é o assassino.  

Titulo original: "Quai des Orfèvres".
Título em Portugal: "O Crime da Avenida Foch".
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot e Jean Ferry.
Elenco: Louis Jouvet, Suzy Delair, Bernard Blier, Simone Renant.

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